¶1Você é um candidato forte, com chances reais de chegar à presidência da República. Vai fazer a convenção nacional do seu partido, a grande festa em que o seu rosto vai aparecer numa tela grande, todo mundo vai brandir bandeiras com seu nome, gritarão por você, disputarão espaço para aparecer numa foto contigo. E tem uma coisa em política que todo mundo sabe. Perante a perspectiva de poder, todo mundo gruda, todo mundo puxa o saco, todo mundo quer um pedaço. Então, por que nada disso aconteceu no sábado quando PL se reuniu para sagrar Flávio Bolsonaro, o seu candidato à presidência?
¶2Pois é, eu sei o que você leu. Leu sobre o presidente argentino Rier Mlei, xingando o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes durante o evento. Leu que o vídeo feito com inteligência artificial do ex-presidente Jair Bolsonaro pode ou não violar as regras da justiça, mas nada disso foi o que de mais importante aconteceu na convenção do PL. Um pedaço do público, um pedaço razoável, se levantou e foi embora exatamente no momento em que Flávio começou a discursar. A ex-primeira dama Michele Bolsonaro não apareceu.
¶3O irmão do candidato Carlos Bolsonaro, que deve sair senado por Santa Catarina, né? também não apareceu a maior estrela do PL nesse momento, que periga ser o deputado mais votado do país pela segunda vez, o maior político das redes sociais brasileiras, Nicolas Ferreira, não apareceu. E olha, até dois dias atrás não tava certo nem que o governador paulista Tarcis de Freitas estivesse presente. Tiveram de correr atrás para negociar na última hora. Flávio tá sem vice, ninguém quer.
¶4O desespero é tão grande que estão pensando no astronauta Marcos Pontes para oposição. Porque veja, ninguém mais quer. União Brasil e Progressistas, os outros partidos grandes da direita brasileira pularam fora, não vão apoiá-lo. Agora a turma do PL tá na batalha por uma aliança com os republicanos. Talvez saia, mas o mais provável é que não.
¶5Convenção de partido é o único momento em que o mundo político vota com corpo. No sábado, a elite da direita brasileira respondeu e respondeu com os pés. As ausências não são desfeitas, são cálculo, tá? O que Nicolas, Carlos Michele, União Progressistas e Republicanos fizeram foi conta por aritmética, olhar as pesquisas, levar em conta tudo que saiu na imprensa, juntaram a isso tudo que sabem, mas nós não sabemos, e chegaram todos à mesma conclusão. Melhor não.
¶6O risco de aparecer o lado de Flávio lá em cima do palco é maior do que sumir. Veja, a maledicência que os adversários de Flávio Bolsonaro na direita espalha é a seguinte. Aquele pessoal que saiu do Pacaembu enquanto o próprio Flávio estava discussando. Bem, era claro que paga. Gente que foi contratada para ficar até uma hora.
¶7Bateu a hora quando ele tava falando o azar. Pronto, bastou isso aí, pulou fora. Não importa se é verdade ou não. Sabe por que não importa? Se for verdade, isso quer dizer que Flávio não anima qualquer militância.
¶8Precisaram pagar. Aquele bolsonarismo de povo enchendo avenida paulista, gritando mito. Sumiu do mapa, não existe mais. Não tava lá gritando mitinho pro 01. Se foi claro que paga, é porque não motivou qualquer militante.
¶9Se eram militantes de verdade, bem, aí quer dizer que foram embora entediadas pelo discurso do candidato. Mas então é o que tá vendo. As pesquisas, incluindo a nossa aqui, a meia ideia, não tão dizendo que Flávio deve disputar o segundo turno com Lula. Então o que acontece? Se você ouve como essa eleição é interpretada no flanco esquerdo da disputa, vai concluir o seguinte: toda a direita é bolsonarista, só que aí tem de olhar pro mundo como olhar de verdade, né?
¶10Pros fatos. Quando o Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior, Romeu Zema tão em cima do trio elétrico ali aplaudindo Jair Bolsonaro, rodeados de toda sorte de deputados, incluindo Nicolas e tantos outros, com tudo quanto é presidente de partido de direito, um monte de pastores evangélicos e ainda aquela família Bolsonaro completa. O que que você concluiu? Olha, toda direita é bolsonarista. Conclusão mais do que razoável, tá?
¶11Aí lá assistindo o discurso, uma multidão gritando mito, mito, mito. É a prova social, gente. Político não é um bicho complicado de entender, não, tá? Em eleição, procura voto. Onde tem voto, lá tá o político.
¶12Mas então, quando rigorosamente todo nome relevante da direita foge do mitinho, aí temos de concluir o quê? De novo? Nem a família Bolsonaro tava no palanque que lançou Flávio a presidência. Não tava Michele, não tava Carlos. Eduardo Claro, nem pode, né?
¶13Mas ninguém. Tarcísio não queria ir, chegou a anunciar que ia tá na convenção do PSD com Cassab Caiado. Aí na última hora pulou fora. As pessoas não gritaram, Mitinho. O que elas fizeram foi embora.
¶14De novo, a gente precisa perguntar o que tá acontecendo. Porque quando os fatos mudam, não temos de mudar de conclusão. Será que toda a direita brasileira é mesmo bolsonarista? Eu sou Pedro Dói, editor do meio. Você acabou de ouvir porque a direita inteira sumiu do palanque do próprio candidato.
¶15Só que isso não começou no sábado, né? Vem de muito antes e tem explicação. Nos últimos cinco dias a gente deixou um filme aberto no YouTube, se chama os partidos. Sabe, com frequência vocês vêm desencontros por aqui. Debate, às vezes debates duros, gente que critica, não é uma caixa de comentários sempre fácil.
¶16Mas após pouco mais de uma hora assistindo aberto no YouTube o episódio, a caixa de comentários era uma paz só. E vocês escreveram muito. Teve gente dizendo que se emocionou. Teve gente dizendo que é o episódio que qualquer um que se importa com esse país precisa ver. E teve uma pergunta que apareceu de novo e de novo e de novo.
¶17Dá para abrir o primeiro episódio também, aquele sobre o povo brasileiro? Não dá, mas ele tá lá. Porque os partidos é um de cinco. O ponto de partida da série mergulha fundo em cada tema que aborda. Como funcionam os algoritmos das redes sociais, por exemplo, ou quem é esse povo que vota, como se armam os partidos que deveriam representá-lo e por essa conta nunca fechou.
¶18Quem viu entendeu o pedaço. O conjunto explica a eleição que você vai assistir daqui até outubro. E olha, estão todos nos streaming do meio. Assim, no meio premium são R$ 15 por mês. E esse aqui, esse é o ponto de partida.
¶19A direita brasileira não é bolsonarista, ela é antipetista. E essas duas coisas não são a mesma coisa. Como antipetista foi tucana por um tempo, aí passou bolsonarista e seja nessa eleição, seja na próxima, deve pegar a onda a seguinte: "Se radical moderado, o tempo vai dizer: "Hoje as pesquisas dizem que os eleitores buscam estabilidade, mas sim, durante uns 6 anos a direita pareceu ser bolsonarista, porque enquanto Jair Bolsonaro tava lá no jogo, o veículo e o destino era a mesma coisa. Quem queria tirar o PT do poder subia no carro dele. Não por amor ao motorista, tá?
¶20Mas porque era o carro que tava andando. Aí o pai saiu de cena e entrou o filho e ficou visível que sempre teve ali. Muita gente naquele carro não tava pelo motorista, tava pelo destino. Olha, isso não é intuição minha. Hoje no almoço em São Paulo, uns chefes de vários institutos de pesquisa se sentaram na mesma sala e disseram um atrás do outro versões da mesma coisa.
¶21Felipe Nunes da Quest colocou nesses termos: "A direita tá desanimada com a candidatura do Flávio, mas continua rejeitando fortemente o PT. Desanimada com ele, firme contra o outro. É uma energia enorme, sem carro para andar. Andrei Roman, que dirige Atlas Intel, foi mais longe e disse o nome: [roncando] "Se apareceu uma reorganização da direita em torno de alguém mais forte que Flávio, alguém sem o desgaste do banco master, que consiga falar de corrupção, de crime, sem que rebata em cima dele mesmo, quem mais se beneficia é Ronaldo Caiado." E Roman fez questão de marcar a diferença. Terceira via como candidatura pragmática de centro, isso não tem a menor chance de aparecer nesse país polarizado.
¶22Não, hoje, mas a terceira via como reorganização da direita, essa tá em aberto. Não é que tem aparecido um centro, não tem centro, é que a direita pode trocar de carro. Foi exatamente o que eu falei no ponto de partida da semana passada, lembra? Eu ali tava lendo a nossa meia ideia de três semanas atrás, mas pega números da Nexus, da BTG Nexus de hoje. No primeiro turno nada mudou.
¶23Flávio tem 33% muito à frente dos outros nomes da direita. Caiado tem seis, Renan Santos tem cinco, Zema 3, Lula 42. Se você só olhar isso, tava tudo como tava. Agora, olha o segundo turno, porque aí mudou. Lula contra Flávio 47 a 43.
¶24Lula contra Zema, 46 a 42. Lula contra Renan Santos, 47 a 39. Lula contra Caiado, 45 a 43. Dois pontos de diferença, tecnicamente igual. Agora junta com o resto do quadro.
¶25O Datafolha mediu que 37% dos eleitores não sabem dizer espontaneamente o nome de um candidato. Em 2022, nessa altura, eram 25%. 1/3, 1/4. E entre as mulheres é quase metade, tá? 45% não tem nome na cabeça.
¶26Quando você pergunta espontaneamente, lembra o que eu te falei na quarta? Que Flávio já tinha perdido cinco pontos e que os cinco tinham sido todos no eleitorado feminino? Pois é, aquilo não virou voto em outra pessoa, virou vaga aberta. tão procurando. Quase metade das mulheres brasileiras hoje não tem um candidato na cabeça, claro, há três meses da eleição.
¶27Isso não é apatia, isso é espaço no tabuleiro. E tem a parte que ainda não aconteceu. Tem dois vídeos rolando nos bastidores. Toda Brasília fala disso. Vídeos dos quais todo mundo fala e ninguém mostra.
¶28Um vídeo é pela descrição de uma orgia com Vorcaro e nela aparece um político importante. Nooutro vídeo não tem sexo. O que tem um político aos agarros, beijos e abraços com uma mulher conhecida que não é a sua mulher. Todo mundo que fala desses vídeos acha que o político nelas é o mesmo. E tá todo mundo achando que pelo menos um desses vídeos vai circular até aquele primeiro domingo de outubro.
¶29O que que o eleitor conservador vai achar? Eu não sei, mas sei o que os líderes de direita estão demonstrando. Segundo o Roman, os escândalos que atingem Flávio ainda estão restritos à parcela mais bem informada do eleitorado. Ou seja, o estrago já existe, mas ainda não chegou na maioria das pessoas. Entendeu o que aconteceu no Pacaembu esse sábado?
¶30A elite política faz cálculo. Nicolas, Carlos, Michele, os presidentes do União e do Progressistas, todos leram o que ainda não circulou. Fizeram a conta do que vem por aí, concluíram que não valia a pena estar naquela foto. A convenção foi um vazamento antecipado, foi um mundo político mostrando com o corpo que a pesquisa ainda não mostrou com números. Enquanto isso não se resolve, quem ganha é Lula, tá?
¶31O modelo da Quest estimava no começo do ano 38% de probabilidade da reeleição dele. Hoje estima quase 60%. 60. Não foi porque o governo ficou bom. A aprovação até subiu, tá?
¶32De 43 para 47%. Mas é uma melhora modesta. Subiu porque do outro lado tem um candidato que a própria turma não quer segurar. Cada semana que a oposição gasta fingindo que tá tudo bem com o Flávio, é uma semana que ela entrega de presente. Então, volta pra pergunta do começo.
¶33Por que ninguém subiu naquele palanque? Porque não é palanque? Porque é onde o político vai buscar voto. Aquilo lá no sábado era uma sala de espera. Um monte de gente relevante da direita brasileira sentada olhando pro relógio, esperando que todo mundo naquele meio já sabe que vem, ou pelo menos desconfia que vem.
¶34Hoje o que temos é o seguinte: a direita abandona o Flávio, mas o eleitor de direita dá a ele vantagem. Não é vantagem que lhe garanta a eleição, mas é vantagem que tira todos os outros do pário. No Palácio do Planalto, o presidente Lula abre um sorriso, ó, de um canto ao outro do rosto e segue jogando parado. Um algoritmo que decide sente avisar quem vai ser seu inimigo hoje. Uma rua em Jerusalém que carrega 3.000 anos de disputa embaixo do asfalto.
¶35Um Brasil que vota olhando pra terra que planta, outro que vota olhando pra fila do banco. No ponto de partida sério, investigo assuntos essenciais para compreender e lidar com os desafios do mundo contemporâneo num formato que o programa semanal no YouTube não permite. Tudo começa em a sociedade que o algoritmo criou, o olhar pro mundo e o indivíduo numa busca da razão pela qual sentimos que as pessoas ao nosso redor estão cada vez mais polarizadas e vivendo em bolhas. [música] Depois desse capítulo, tivemos um lançamento de três episódios sobre Israel e Palestina. Um conflito onde quase todo mundo já chega com lar escolhido, mas que eu fui a campo entender as raízes.
¶36Passei 10 dias em Israel, entrevistei gente dos dois lados, caminhei pelas ruas onde nasceu essa guerra para compreender essa complexa realidade. Então voltei a olhar para casa com nós brasileiros. No primeiro episódio A sociedade eu parti de uma pergunta que parece simples. Por que que o Brasil parece tão dividido? A resposta, [música] no entanto, de simples não tem nada.
¶37Por quê? Porque descobri que o Brasil tá dividido em cinco. Cinco formas de viver o país, cinco formas [música] de votar nele. E se são cinco brasis, por que ainda tentamos caber em só dois partidos? O episódio vai tentar explicar.
¶38No segundo episódio, os partidos eu volto à origem do nosso sistema partidário para entender porque que ele já não representa o país que existe hoje e como podemos voltar a conversar sobre política. Três grandes arcos e não para por aí, tá? Em breve novos episódios. Eu sou Pedro Dória, editor do meio. E esse esse é o ponto de partida a série.
¶39Comece assistindo o streaming do meio exclusivo para cinpr.