¶1e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí e aí Olá, boa tarde, seja muito bem-vindo, seja muito bem-vindo ao Central Meio. Hoje é quarta-feira, 29 de julho de 2026. Eu sou o Pedro Dori e comigo estão Luísa Silvestrini, o cientista político e professor da UERJ, Fabiano Santos. Boa tarde. Tudo bom, Fabio?
¶2Boa tarde, Pedro. Como é que você está? Boa tarde, Pedro. Boa tarde, professor. Boa tarde, querida.
¶3Sabe, Pedro, que eu cometi um erro na criação da live hoje de manhã e estou sendo acusada aqui de fazer isso para te beneficiar, porque eu coloquei a live para começar às duas e quinze, não ao meio dia e quinze. E aí estão dizendo que eu fiz isso por causa dos tempos atrasos. Dos meus atrasos, né? Exatamente. Enfim, gente, fui só eu mesma.
¶4Eu peço desculpas, mas estamos aqui já pontualmente, tá bom? E boa tarde também para Flávia Tavares e para Débora Bizarria, que estão conosco em São Paulo. Oi, meninas. Oi, Lu. Oi, professor.
¶5Oi, Pedro. Já estamos por aqui. Opa, apareceu. Olá, gente. Bom ver vocês de novo.
¶6Estamos a postos. Bora lá, então, porque depois de meses ouvindo o fandom perguntar aqui no chat quando vocês vão falar do Renan, chegou o momento, tá? O nosso assunto hoje é o racha na direita, mas especialmente a nova tendência bolsonarista de centrar fogo em Renan Santos do Missão. Nos últimos dias, nas redes, os ataques do fandom, da família do líder, da família, aliás, ao líder do MBL, têm superado as críticas ao ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, por exemplo. Pois é, gente.
¶7E por que isso está acontecendo? A gente vai debater aqui hoje, mas ontem o candidato do Missão gravou um vídeo respondendo a críticas bolsonaristas sobre sua idade, sua formação acadêmica, experiência profissional e até a relação com o STF. Para isso, usou argumentos muito semelhantes aos dos bolsonaristas, incluindo um vídeo de Olavo de Carvalho, que surpresa. É uma indicação de que o eleitor em disputa, nesse caso, é aquele mais fiel à família de Flávio. Mas essa não é a única, Sandrinha, que a campanha do 01 está tentando estancar, não, tá?
¶8O coordenador Rogério Marinho criou um núcleo para fazer um corpo a corpo com o eleitorado evangélico na tentativa de fazer o crescimento do Lula, de parar, aliás, o crescimento do Lula nesse grupo. A estratégia, segundo a coluna da Bela Megali no Globo de Hoje, é montar uma força-tarefa com lideranças religiosas que não sejam políticas, mas tenham capilaridade no país. Mas o Silas Malafaia também está no jogo, tá? A ver se tudo isso vai funcionar depois da briga com a Michelle e do vídeo de perdão da madrasta. Esses todos são nossos assuntos hoje.
¶9Então puxa aí sua cadeira, se acomoda, deixa o like, se inscreve no canal, manda mensagem pra gente, porque o Central Meio está lá. ♪♪♪ Eu ia começar perguntando do Renan, mas tem uma coisa aqui que a Flávia Tavares fez um trabalho para poupar todos vocês e mergulhou nas redes ao longo dos últimos dias para saber detalhes aí dessa treta entre Flávio Bolsonaro e Renan Santos ou entre a militância de cada um. Então, vou chamar primeiro a Flávia Tavares. Flávia, conta pra gente a fofoca completa. O que você viu nas redes aí nesses últimos dias?
¶10Bom, primeiro vamos fazer o meme, né? Fofoca? Quero! E aí pega o... Imagina, o professor Fabiano Santos horrorizado, né?
¶11Não, é o seguinte, é porque vale a pena a gente contar um pouquinho da treta para depois tentar depender o que está em disputa realmente no campo e quem são esses atores em disputa, né? O Renan Santos, gente, ele é um dos fundadores do Movimento Brasil Livre. Fez uma pré-campanha intensa, bastante forte nas redes sociais. É o ambiente onde ele navega melhor, embora ele também tenha feito viagens e tudo mais. E além de ser um dos fundadores do MBL, ele é também um dos fundadores do partido Missão, que deriva desse movimento, né?
¶12E ele vinha se posicionando, vem se posicionando já desde o início da sua pré-campanha e o MBL já desde um pouco mais lá atrás, como oposição a Jair Bolsonaro. Pela direita, talvez. Enfim, a gente pode tentar definir o espectro da direita em que cada um está, mas obviamente que não está certamente muito à esquerda do bolsonarismo, né? É outra vertente de uma direita bastante radicalizada. Mas era um dos poucos atores, até coisa de três semanas atrás, da direita a bater amplamente, abertamente na família Bolsonaro, no Flávio em particular.
¶13Agora na pré-campanha. E aí, até poucos dias, a campanha do Flávio Bolsonaro não estava gastando munição para rebater Renan. Então aparecia uma coisinha ou outra da rusga antiga do Movimento Brasil Livre com o bolsonarismo e tal, mas não era uma coisa assim, pelo menos aparentemente coordenada, como a gente está detectando há uns dois, três dias. A ala do bolsonarismo que está tomando a frente de reagir, de rebater o Renan, é uma ala mais ligada ali aos eduardistas. Não é tanto o núcleo da campanha do Flávio aqui no Brasil, é muito mais esse núcleo dessa militância mais pesada, mais dura, também do ambiente digital.
¶14O que pode significar que é uma disputa das facções digitais de cada movimento, por um público muito específico, por uma fatia muito específica da direita. É o que me sugere. Eles escolheram rebater o Renan neste ângulo da sua formação acadêmica, que é incompleta, e... A Débora é demais, tadinha, que eu vou querer entender porquê em seguida. Mas, enfim, o Renan Santos é de São Paulo, do estado de São Paulo, e entrou na faculdade no Largo de São Francisco e não concluiu, largou o curso.
¶15E aí, entre esse abandono do curso e a criação do MBL, tem um vácuo em que a coisa ficou meio... ele não ficou uma figura pública. E aí, então, os bolsonaristas começaram a questionar, mas o que você ficou fazendo nesse período e tudo mais? E ele, então, rebateu, respondeu com um vídeo em que ele... Aliás, eu achei um vídeo até muito bem estruturado, que ele fala da vingança que ele quer empreender contra o PT, porque nesse período ele teria trabalhado nas empresas do pai, e as gestões do PT causaram crises que quebraram a empresa, que faliram, que prejudicaram o pai.
¶16Enfim, ele faz uma... Ele transforma a resposta numa narrativa de uma vingança dele contra o PT e não fica muito dando trela para os bolsonaristas. E nesse momento, então, eles estão fazendo essa disputa, principalmente no Twitter, que é um ambiente bem propício para esse tipo de embate. Mas eu acho que ele pode revelar, neste momento, uma ameaça desse campo bolsonarista. Este campo bolsonarista está se sentindo realmente ameaçado por essa tribo do Renan.
¶17Por quê? A meu ver, e aí vou ouvir todos aqui, quero ouvir, mas já para passar da fase fofoca, para tentar entender um pouco melhor o que está por trás disso, a meu ver, é porque o Flávio está num momento de fragilidade da sua campanha em que precisa muito firmemente manter a sua base mobilizada a seu favor. Não pode correr o risco de perder, inclusive, os eleitores mais fiéis. Eu não sei quantos eleitores mais fiéis do bolsonarismo estariam abertos a migrar para o Renan. Tem chance disso ser uma estratégia mais do Eduardo do que do Flávio?
¶18Acho que sim, de um protagonismo justamente nessa militância digital, com esse público mais jovem que é mais propenso a esse tipo de discurso e é o público que está mais aderente ao Renan. O Flávio tem, o Jair Bolsonaro tem um desempenho relativamente bom com jovens. O livro do Jair do Nicolau aponta isso muito claramente, principalmente jovens com ensino médio, mas este é um público que tende a ouvir o Renan com atenção, porque é o público-alvo dele, é o público de um jovem de classe média baixa, ele usa muito a chave do empreendedorismo, em muitos momentos parecido até com o que fazia Pablo Marçal. Então, a meu ver, o Renan se encaixa, ele agrega alguns desses atributos de outros personagens da direita e pode ser visto como, enfim, algum tipo de ameaça para esse campo. Mas eu quero ouvir todos e eu sei que já está todo mundo querendo falar.
¶19Pedro, você começa. Deixa eu só temperar um pouco essa discussão aí. Vamos lá. Diferentemente do Caiada e possivelmente do Zema, o Renan tem uma peculiaridade, você botou ele na esquerda radical, desculpa, na direita radical. O Renan defende como solução de segurança no Brasil implementar o troço do Najib Bukele em El Salvador.
¶20Além do Flávio, o outro candidato claramente iliberal, e por favor, eu quero ressaltar que eu botei um i antes da palavra liberal, ou seja, não liberal, nessa corrida é o Renan. Porque a partir do momento que você defende dois sistemas legais, um para um tipo de gente e outro para o tipo de gente, você rompeu com os preceitos básicos do LOC ali, ou de todos somos iguais perante a lei, perante uma mesma lei. Se você abriu mão disso, você pode defender, você pode ser contra, está tudo certo, a gente pode ter muitas conversas em cima disso. Liberal você já não é mais, você já está num mundo que não pertence mais a esse universo que nós chamamos de democracia liberal. Então nesse sentido faria sentido.
¶21É quem está mais claramente disputando um espaço iliberal, antidemocrático ali na sociedade. Você não defende Bukele, só para fazer esse adendo. Pode ser, pode ser. O Caiado me parece mais claramente dentro do jogo. É um cara de direito, certamente, um camarada conservador.
¶22Mas, enfim, o ponto que eu queria fazer é, eu acho que a gente precisa olhar e olhar e olhar o que as pesquisas realmente falam a respeito do Renan Santos. Eu peguei aqui Data Folha, Nexus e Atlas. Por quê? Porque são as pesquisas que saíram de sexta-feira para cá. Data Folha dá três pontos para o Renan no primeiro turno.
¶23Nexus dá cinco pontos para o Renan no primeiro turno. Atlas dá sete ponto oito. Oito por cento. Ronaldo Caiado, Data Folha, quatro na Nexus, seis na Atlas, três. Romeu Zema, Data Folha três, Nexus três, Atlas dois ponto oito.
¶24Quer dizer, elas concordam, as três, a respeito do Zema. A variação a respeito do Caiado está inteiramente dentro da margem de erro nas três. Acho que se você se virar e falar que o Caiado está aí com quatro, cinco, está bem ok. Já bate com o que a nossa pesquisa meio ideia dizia no início do mês passado. Semana que vem a gente tem a nossa.
¶25Agora, a gente precisa sublinhar o fato de que a Atlas é a única pesquisa, das boas pesquisas, que sempre consistentemente tem botado o Renan perto de dez por cento da sociedade. E aí você mergulha nos dados que a Atlas entrega, e esses números estão cem por cento, ali na faixa entre quinze anos e trinta e cinco anos. Desculpa, entre dezesseis e trinta e cinco. Agora, você vai e o que tem lá? Renan tem vinte e seis por cento de quem tem entre vinte e cinco e trinta e cinco anos.
¶26Um quarto da sociedade brasileira entre vinte e seis e trinta e cinco anos vota no Renan. Isso não existe, isso não está acontecendo. O que saiu também no Twitter, ou no X se vocês preferirem, é nos últimos dias. As capturas de tela de grupos de discórdia, que é um fórum que tem na internet, da turma do MBL, em que eles trocam os trataxemas de como manipular a pesquisa Atlas. E como é que eles fazem?
¶27A Atlas é uma pesquisa que faz coleta via internet, usando as redes sociais e jogando publicidade lá. Você quer responder a uma pesquisa? Então eles ficam no Instagram, clicando em tudo quanto é pesquisa que aparece, não necessariamente da Atlas. Por quê? Porque aí o algoritmo do Instagram compreende que aquelas são pessoas que gostariam de responder a pesquisas.
¶28E aí aumenta em muito a probabilidade de aparecer para você uma pesquisa Atlas. Então essa meninada, alguns milhares, poucos milhares, mil e quinhentas, duas mil pessoas, são o suficiente? Por quê? A Atlas tem aproximadamente cinco mil pessoas para quem eles fazem pergunta. E aí é aquele jogo, né?
¶29Eu preciso de tantas pessoas da classe C, eu preciso de tantas pessoas no Sudeste, eu preciso de tantos católicos, eu preciso de tantos homens, tantas mulheres. E você vai fazendo pergunta para todo mundo, nos vários cortes demográficos, que é essencialmente a distribuição IBGE. É um misto que esses grupos de pesquisa fazem entre os números da Pinagem Contínua do IBGE e os números do TSE. Você faz cada instituto, parte da arte de cada instituto, é fazer um desenho do retrato de quem ele considera que é o perfil do eleitorado brasileiro e distribuir essas populações. Quando você faz uma pesquisa presencial, você vai nos lugares onde essas pessoas com essas características demográficas estão.
¶30Quando você faz por telefone, você tem vários métodos para aprender qual é a demografia, tem a ver com onde a pessoa mora, enfim, existem vários métodos que a sociologia desenvolveu para você fazer esse tipo de pesquisa. E na internet você também tem esses métodos porque a própria propaganda te entrega, os próprios algoritmos de propaganda te entregam dados demográficos. Agora, é importante as pessoas entenderem o seguinte, nessa amostra de 5 mil pessoas, se 50 sujeitos... Está muito frio. Está fazendo o áudio lá da Flávia.
¶31Se 50 sujeitos... Sentimos muito pelo seu frio, tá, Flávia? Não, é a Débora. A Débora, pelo menos a pernambucana, pode reclamar. A paulistana não tem direito de reclamar de frio, não.
¶32Não tem. Não, não reclamei. É... O jogo é, 50 pessoas que consigam pegar essa pesquisa e responder só para responder a Renan, já fazem essa distorção de empurrar, nesse conjunto ali de 25 a 35 anos, 25% vota no Renan. Isso é verdade?
¶33Não. Essa pesquisa está manipulada. Não está manipulada. A gente está falando aqui que é 16 a 25. Não é 25 a 35.
¶34Tudo bem, tudo bem. Obrigado. Eu acho que deve ser isso mesmo. O ponto que eu estou fazendo aqui é o seguinte. Isso não é responsabilidade da Atlas.
¶35Isso é muito difícil de filtrar. Mas... Aquela coisa do MBL, né? Eles fazem política como moleques. E a maneira de fazer deles é trapacear, é criar situações e...
¶36E eles descobriram uma maneira através da qual eles conseguem manipular a Atlas. E eles manipulam. Então, tudo quanto é pesquisa dá o Renan com 3%, 4%. E aí a Atlas fica lá com... O Renan tem 9%.
¶37E aí as pessoas ficam... Ele está crescendo entre os jovens, não é? Ó! De fato, o eleitorado dele é jovem. Ele não está crescendo entre os jovens.
¶38Ele tem o que as outras pesquisas indicam para ele. Então, o segundo ponto que eu queria passar aqui para a gente... jogar também para o Fabiano para fazer a leitura política, eu só dando o contexto da situação. Uma coisa que o MBL e o bolsonarismo têm em comum é o seguinte, eles entendem o jogo da economia, da atenção na internet. Eles precisam de uma briga, gente.
¶39Eles não precisam de uma razão para brigar, eles só precisam de uma briga. Eles só precisam de qualquer coisa que junte jovens furiosos nas redes sociais para ficar batendo boca. É bom para o MBL, é bom para o bolsonarismo. Então, uma semana atrás, estava essa mesma turma, Alain dos Santos, Paulo Figueiredo, Eduardo Bolsonaro, todo mundo batendo na boca do Michele. Agora, deve ter chegado uma ordem lá, olharam para os números, cara, a gente perdeu 5% entre mulheres, para, pelo amor de Deus!
¶40Entendeu? Então, tudo bem, em quem que a gente vai bater agora? Tem esse moleque, Renan, é bom porque eles vão responder. E aí, você domina, durante uma, duas semanas, as redes sociais e fica parecendo que o que está acontecendo é irrelevante. Em política, é isso.
¶41Não é, né? Professor? Não, eu estou aprendendo aqui, te ouvindo. Não, imagina! E também, ouvindo a Flávia e sobre esse episódio, porque é muito...
¶42é muita novidade, né? Para quem acompanha a política já há muito tempo, desde a transição democrática. Então, a questão dos partidos, a questão das classes, a questão dos sindicatos, dos movimentos sociais, a questão dos empresariados. Eu ouvi falar desse mundo. Não é?
¶43Assim que a gente analisava, né? A política e os movimentos e, do ponto de vista da tecnologia, do... da tecnologia, da eleição, era fundamental organizar os palanques nos estados, montar coalizões de tal forma que a distribuição do horário de propaganda gratuita fosse favorável, e não fosse muito assimétrica vis-à-vis do candidato mais competitivo, né? Então, a tecnologia da disputa, ela parava ali na questão da televisão. Claro.
¶44Que, por sua vez, estava muito conectado à consistência, à robustez das candidaturas vis-à-vis da vida orgânica, né? Da sua inserção na vida socioeconômica do país. Então, essas coisas não eram tão desconectadas, né? Pelo contrário, elas eram muito conectadas. Certo?
¶45O que eu quero dizer com isso? A montagem... a montagem de uma coalizão que, por sua vez, o tamanho dela assegura um horário de TV que era a tecnologia conhecida, essa montagem está vinculada à capacidade de uma coalizão expressar as forças orgânicas que movem a economia, a sociedade do país. Então, essa... essa maneira de olhar a política muda um pouco, né?
¶46Quando a gente percebe a importância dessa disputa e a disputa pela atenção nas redes sociais acontecendo no campo da direita e relativamente desvinculado daquilo que a direita está representando do ponto de vista das classes, do ponto de vista das forças sociais em disputa daqui pra frente. Essa é a minha preocupação, essa desconexão. Nesse sentido, um olhar tradicional sobre a política brasileira diria, mas... por que tanta disputa? Por que tanto barulho?
¶47Por que o Renan Santos e o MBL querem tanto subir um pouco? Alguns pontos na pesquisa. Evidentemente que uma candidatura com o perfil do Renan Santos tem uma respiração muito pequena pra fora de São Paulo. Minúscula. O perfil dele é muito parecido com o do eleitorado do Pablo Massal, com a diferença de que o Pablo era candidato a prefeito de São Paulo.
¶48E que não foi bem sucedido a final de semana. Acabou não conseguindo chegar no segundo tom. Então, inclusive, dentro de São Paulo, uma coisa específica. Então, assim, eu não consigo entender exatamente a estratégia, quais são os objetivos, por trás dessas... dessa juventude aí, do MBL, o que que está movendo.
¶49A gente pode discutir um pouco isso. É interessante especular e ter algumas reflexões sobre. O fato é que... Vamos lá, vai subir alguns pontos, vai fazer alguma ameaça pro bolsonarismo ali numa eleição presidencial em que o Flávio está esbarrando em problemas muito sérios. Pra quê?
¶50Pra não ter nenhuma respiração, nenhuma viabilidade. Por conta dessa, eu acho, dessa desconexão com... Vamos chamar assim, o mundo da vida, pra usar fenomenologia e sociologia. Então, indo um pouco mais ao ponto da disputa no campo da direita, se há uma candidatura que teria uma robustez e algum potencial pra avançar, porque está conectada com as forças que querem se fazer representar pra direita, que precisam, que têm interesse, seria a do Caiado. Por quê?
¶51Porque ele representa, tem diálogo, tem conhecimento do que representa pra economia brasileira, tudo aquilo que a economia brasileira vem experimentando desde muito tempo. Vamos pensar aí, desde a entrada da China no OMC, depois questões tarifárias, questões cambiais, você vai... a economia internacional vai moldando a economia brasileira em torno do agronegócio. Então, o Caiado é uma candidatura que se começa a ameaçar, ele tende a ser realmente muito robusto e consistente numa disputa contra o Lula. Eu acho que é isso que é preciso olhar.
¶52Então, eu não consigo sair muito na minha análise do campo da treta mesmo. Tem uma treta ali via rede social e nessa disputa da tecnologia, o Flávio Bolsonaro percebe ali um mote pra conseguir se manter, porque tá com muitas dificuldades reais. E parece que eles estão mirando um tipo de eleitor que não é, a princípio, o eleitor do Caiado, né, professor? Porque a gente sempre fala aqui do antipetismo e aí pode ser que nem todo mundo que tá votando no Flávio queira votar no Flávio, mas vê ali o candidato mais viável contra o Lula. E essas pessoas votariam no Flávio, votariam no Caiado, votariam em qualquer outro candidato que não fosse o Lula.
¶53Mas pelo vídeo que o Renan gravou, e eu destaquei os do Olavo de Carvalho ali, porque parece que eles estão disputando esse eleitor que é a base do bolsonarismo, que é aquele eleitorado que a campanha do Flávio imaginou até agora que jamais pudesse abandonar o Flávio. E aí pode ser que eles estejam nessa economia da atenção, como o Pedro falou, simplesmente querendo criar uma briga, mas também pode ser que haja ali um temor de uma perda de território entre esse eleitorado que é mais fiel, porque como são dois extremos à direita, como a Flávia colocou também, perder os extremistas nesse caso pode fazer com que o candidato que levar mais extremistas também leve os antipetistas. Pode ser que a minha análise esteja anacrônica nesse sentido, porque eu estou reproduzindo um conhecimento das eleições brasileiras que já vem de décadas. Uma candidatura para ser viável não pode ser uma candidatura muito local. E a impressão que eu tenho é que essa disputa, MBL, Bolsonaro ali em São Paulo, fica ali.
¶54Mas eu posso estar equivocado. Você chamou a atenção uma coisa importante que dizer. De repente o antipetismo é tão capilarizado que basta ter sucesso num primeiro momento para que o antipetismo no país inteiro vá de rodão. Eu estou fazendo a nossa posição também. A chance de você estar certa é muito maior do que a minha.
¶55Eu não acho que você esteja fazendo uma análise anacrônica, não. Porque se você presta atenção... Vamos voltar aos olhos para o que nos bastidores a campanha do Flávio está fazendo e a campanha do Lula está fazendo. A principal preocupação da campanha do Lula qual é? É ter...
¶56Por que o ex-prefeito, ex-ministro Fernando Haddad saiu para candidato a governador de São Paulo? Ninguém no PT acha que ele vai vencer o governo de São Paulo. Por que o Lula está insistindo há tanto tempo para que o PT tenha um candidato em Minas Gerais? Ninguém acha que Patrícia Zananias vai sequer chegar ao segundo turno. Depois do Fernando Pimentel a coisa entrou em colapso.
¶57Por que o presidente Lula fez um acordo com Gilberto Kassab desde o início liberando o ex-prefeito Eduardo Paes que é do PSD, portanto do partido do Caiado para que o Paes possa estar no palanque do Lula no Rio de Janeiro? Está todo mundo pensando em palanque. Não é política diferente da política de 20 anos atrás. E tem um foco principal no Sudeste porque a principal disputa de voto indeciso é no Sudeste. É nas grandes cidades do Sudeste.
¶58Agora, ao mesmo tempo quando a gente olha por que Flávio Bolsonaro não tem candidato a vice até agora, até esse momento? É porque eles estão desesperadamente tentando fazer alianças. Já levaram um não do União Brasil com progressistas que estão em federação. Estão tentando agora com os republicanos. Por que?
¶59Tempo de televisão. É por causa de tempo de televisão? É por causa de negociação de base no Congresso? Numa eventual presidência Flávio Bolsonaro? Acho que está cada vez mais distante de acontecer mas evidentemente impossível, não é?
¶60E é também o tipo de aliança que você tem regionalmente para poder fazer palanque para o candidato à presidência da República. Quer dizer, às vezes eu tenho a impressão de que a própria internet ela tem um efeito meio meio soma no admirável mundo novo que deixa a gente meio todo mundo meio atordoado todo mundo meio entorpecido ou então a flor de lótus lá do Odisseia para a gente usar uma metáfora mais contemporânea por assim dizer, né? Homero contemporâneo, mas enfim. Aldo Sacks, eu acho que ficou muito velho mas a ideia de você às vezes me parece que a política de verdade continua acontecendo onde sempre aconteceu, sabe? Algumas pessoas tiveram a ilusão ali em 2018 que podia ter mudado mas a internet é uma espécie de distração a internet é o entretenimento da política e a política de verdade está acontecendo onde sempre aconteceu porque o que tudo quanto é chefe político tanto dentro ao redor do Lula quanto ao redor do Flávio o tempo que eles estão gastando não é discutindo relançantes na internet o tempo que eles estão gastando é quem que vai ser vice do Flávio e o que que isso constrói em termos de composição eleitoral.
¶61Deixa eu passar para a Débora aqui. Eu estava ouvindo vocês eu estava me perguntando se isso não é uma disputa por uma militância pensando no pós-bolsonarismo porque dependendo do jeito que a coisa vai nas investigações sobre o Flávio a gente não vai ter nenhum bolsonaro elegível pensando no pai no outro que está nos Estados Unidos e num que talvez vá para os Estados Unidos ou fique inelegível a depender disso o que vai acontecer é que você vai ter o bolsonarismo sem ter um candidato puro-sangue da forma como eles mesmos colocam e talvez é difícil saber o que se passa na cabeça do MBL mas talvez parte da motivação da treta seja pensando o que a gente vai fazer para a próxima eleição porque inclusive responderia também a estratégia de tentar crescer numa pesquisa eleitoral tem uma literatura acadêmica que fala sobre quanto acumular capital político pode te dar novas chances mesmo que você não ganhe nessa eleição você está terceiro colocado te coloca numa posição interessante tanto para negociar como vocês já falaram aqui várias vezes quanto também para pensar um futuro político porque lembra em 2030 você não vai ter Lula não vai ter talvez não tenha nenhum Bolsonaro puro-sangue e aí se abre um mundo de possibilidades então embora concordo com o que vocês falaram claro sobre o quanto a internet exige um espuma eu me pergunto o quanto essa movimentação não é pensando o jogo longo tanto pelo fato da militância que está envolvida disso do lado do Bolsonaro talvez seja mais ligada ao Eduardo que é uma pessoa que também está pensando o jogo longo não está muito interessado em discutir aqui tanto quanto do lado do MBL que eles querem fazer muito até gente na Câmara e difundir as próprias ideias as próprias propostas não à toa acho que é o primeiro programa de governo que está disponível desde sempre eles disponibilizam em mídia física então eu acho que eles estão pensando o jogo longo e o que eu sempre falo para os meus amigos que estão desesperaçosos com a política da minha geração eu falo o bom de ser jovem é que a gente tem todo o tempo do mundo que tem mais a explicação da estratégia do que pensando nessa eleição desse ano tem uma coisa te ouvindo Débora que eu acho que faz sentido e também pegando tanto o que o professor falou quanto o que o Pedro e a Lu falaram que é o seguinte pensando nisso que você falou e lembrando do que foi o fenômeno Jair Bolsonaro em si eleitoral o fenômeno eleitoral Jair Bolsonaro de 2018 é claro que ele é cheio de camadas e a gente ele não é unifatorial teve muita coisa junto acontecendo teve o Lula fora da disputa teve a facada teve o pós impeachment e o pós Lava Jato enfim mas pensando nessa questão da vida digital do ambiente digital e da vida real que o professor colocou e que você também trouxe um pouco na questão da herança da militância aí ambas o MBL é um movimento que nasce ali na um pouco nas manifestações de junho um pouco nas redes então ele tem esse mix da origem mas ele ganha uma atração maior em dois momentos nas convocações de manifestações de rua pelo impeachment da Dilma em 2015 e num movimento que nasce também nas redes e acaba indo para o mundo aquela patrulha do Queer Museum e depois do Escola Sem Partido então são dois momentos um de guerra cultural pura e um de luta contra a corrupção uma habilidade política mesmo isso então ele é é um tipo de militância que é a meu ver mista que é um híbrido que é e que tem muito a cara desse desse dessa desse mundo pós-redes sociais porque é óbvio que algo que se limite às redes é é sem raiz né professor é não tem não tem o astro agora uma estratégia bem sucedida de redes que consegue transbordar para a vida real ela tem muito valor então é algo que é não é à toa que quando a gente olha por exemplo para a campanha do Ronaldo Caiado com as suas limitações inclusive de ainda ter um caráter um pouco regional demais né você mesmo trouxe professor a necessidade da nacionalização da campanha para a presidente a do Caiado a meu ver um dos fatores que o limitam é esse agora isso é óbvio que só isso não vai eleger nenhum presidente mas me parece que em 2026 é prescindir disso também não é recomendável aí a gente vai pro Jair Bolsonaro em 2018 em 2016 quando ele fez o discurso no impeachment da Dilma aquele discurso pavoroso de homenagear o Ustra eu cobri muito isso muito perto e muito com a ajuda do próprio Olavo de Carvalho isso borbulhou primeiro nas redes antes de se transformar em voto mas o próprio Jair Bolsonaro primeiro ele já tinha votos né ele tinha um capital eleitoral do Rio de Janeiro da sua trajetória de deputado e ele foi para as ruas capitalizar de que maneira ele foi para aquelas viagens dos aeroportos naquela época facebookável né era a chegada no aeroporto sendo recebido por muita gente física pessoas ali presencialmente o recebendo e aquilo deu muita atração e que se articulavam de maneira digital porque o pessoal combinava todas as orientações do bolsonarismo elas são divulgadas pela internet né e aí depois ele foi para as ruas capitalizar de que maneira ele foi para aquelas viagens dos aeroportos sendo recebendo e aquilo deu muita atração e que se articulavam de maneira digital porque o pessoal combinava todas as orientações do bolsonarismo né e aí depois ele foi para as ruas capitalizar de que maneira ele foi para as ruas capitalizar o tempo inteiro em rede social. O Bolsonaro fazia motocicleta mas retroalimentava o tempo inteiro em rede social. O Renan Santos ontem... Gente, eu não tô falando com isso que o Renan é maior do que ele é.
¶62Eu concordo com a avaliação de todos aqui sobre o tamanho do Renan Santos neste momento. Eu só tô tentando entender essas estratégias. Por que que eventualmente o Flávio Bolsonaro, a campanha, um pedaço do bolsonarismo, pode estar querendo fazer essa disputa com ele neste momento? Porque se poderia simplesmente ignorá-lo, desprezá-lo 100%. Como vem fazendo com o Caiado.
¶63A campanha do Flávio Bolsonaro não menciona o Ronaldo Caiado. Nem os Eduardo. Eles falam lá o Carluxo, o Eduardo... Mas falam o Lucas Zezema, eu acho, né? É, e os irmãos mais militantes de internet ficam falando da direita consentida, a direita permitida, que é o jeito de desqualificar qualquer outro ente da direita que não é a própria família, né?
¶64Mas, enfim, o Renan, só para concluir essa minha fala, quando ele vai responder ao ataque, uma das coisas que ele faz para falar do movimento que ele criou e tal, é justamente falar da capacidade que ele se auto-atribui de ter conseguido levar para as ruas o movimento MPL e o pedido do impeachment da Dilma e tal. E outra coisa que é conseguir fazer o partido, né? Coisa que o Bolsonaro não conseguiu fazer. Que é uma coisa que a gente destaca no vídeo, né? Uma das respostas dele é, eu consegui fundar um partido, que já é mais do que o Bolsonaro conseguiu.
¶65Mas, enfim, era esse apanhado que eu pensei em fazer um pouco sobre esse caminhar duplo de 2016 para cá, dos movimentos online que tem que se traduzir em movimento na vida real mesmo. Não adianta ficar só gritaria nas redes. Mas você pega o próprio Pablo Marçal, ainda com a limitação regional de São Paulo, ele tem os cursos virtuais e os cursos presenciais. Mas ele não é líder de um movimento social com base em nada. E ele quase foi para o segundo turno.
¶66Ele só não foi por causa daquele crime contra o Boulos, né? Eu pedi para o Clóder pegar as três pesquisas últimas, Datafolha, Nexus e Atlas, e olhar para os cenários de segundo turno, Lula e Flávio, incluindo apenas votos válidos, tá certo? Ou seja, descontando voto nulo, branco, etc. Datafolha, Lula 45, Flávio 36. Nexus, Lula 45,7, Flávio 35,9.
¶67Atlas, 45,6, Flávio 36,4. É incrível como os três dizem a mesma coisa, 45 contra 35. São 10 pontos percentuais de diferença. A essa altura, em 2022, Lula estava na frente e Bolsonaro era presidente. Era uma distância menor, que se ampliou um pouco, depois diminuiu na hora da contagem.
¶68O presidente Lula ganhou por uma diferença muito pequena. Mas o fato é que, neste momento, há uma distância de 10 pontos percentuais entre os eleitores do Flávio e do Lula. Como é que você, Fabiano, está lendo, no sentido mais amplo, essa eleição? Então, vamos pensar historicamente, até porque a Flávia relatou momentos importantes de 10 anos para cá, um pouco antes, e que são importantes para contextualizar a nossa reflexão sobre a conjuntura agora. Óbvio que a gente tem uma disputa no campo antipetista, certo?
¶69O que existia na política brasileira, nas eleições presidenciais, com os seus desdobramentos nas eleições congressuais, antes do advento, vamos pensar dessa maneira, do bolsonarismo. Uma disputa entre o PT, ali hegemonizando a esquerda, centro e esquerda, e, do outro lado, o PSDB-PFL. Não é isso? Essa coalizão. Essa coalizão, o PSDB-PFL, é uma coalizão de centro-direita, incluindo os liberais, incluindo a direita, e a extrema-direita não tinha opção senão caminhar com ela, porque a outra opção era a pior opção possível, que era o PT.
¶70O PSDB-PFL é forças saídas da transição democrática. Esses políticos, essas lideranças, compuseram a transição negociada, no fim da ditadura militar, para o período democrático. Os autênticos do MDB e a turma da Frente Liberal, que saiu do PDS, para não fechar com o bloco Figueiredo Maluf. Exatamente. Então, essa coalizão é uma coalizão do ponto de vista, vamos pensar naquela imagem que eu fiz, do ponto de vista orgânico, essa coalizão, do ponto de vista orgânico, é uma coalizão que representava as forças sociais e econômicas que queriam se fazer representar pela direita, e não pela esquerda, incluindo empresários e industriais.
¶71O PT ganha a eleição, vai governando o país e ganha a eleição seguidamente, com esse interregno com o Bolsonaro de 2019 para 2022. Então, está havendo uma mudança importante no campo da direita. Com o impeachment, com a Lava Jato, o PT tem uma queda, tem um desgaste muito importante, perde filiados, perde candidatos. A derrota do PT em 2016 nas eleições municipais, alguns estudos mostram que tem muito mais a ver com a saída de candidatos do que propriamente uma perda de votos. Muitos candidatos saíram do partido, simplesmente.
¶72Mas ele vai recompondo. Então, se a gente olha no campo da esquerda, a realidade continua a mesma. Que realidade é essa? Um partido representa, que hegemoniza, e tem alguns outros partidos importantes, mas que não tem a capilaridade, não tem a força do PT. Então, continua a mesma coisa ali, na esquerda.
¶73O que está se movendo e movendo, e a gente não sabe para onde está indo, é a direita. Porque o PSDB e o PFL, essa coalizão acabou, certo? Então, tem um antipetismo. Isso a gente sabe pela literatura e pela nossa vivência no dia-a-dia. Tem petismo ou antipetismo?
¶74Isso é resumo. É isso. Agora, o Bolsonaro, em 2018, foi a primeira vez que esse campo, desde a derrota do PSDB e do PFL, essas seguidas derrotas para o PT, é a primeira vez que uma direita ou outra se organiza e tem, digamos, um approach positivo. Não apenas antipetista. Colocam, definem um brand, definem uma agenda, são bem-sucedidos eleitoralmente, não só na eleição presidencial, mas no Congresso e em governadorias.
¶75E, assim, redefine a política. PT continua ali, mas tem uma nova realidade, uma nova força positiva, não apenas anti alguma coisa, atuando do lado da direita. Então, acho que a gente precisa pensar como isso vai se desdobrar, dado que o Bolsonaro perdeu a eleição, tentou um golpe e foi preso. Então, essa direita perdeu a principal figura que unificava. Então, o que acontece com o Renan Santos e o MBL?
¶76Não tem o Bolsonaro, vou tentar aproveitar. O que acontece com o Caiado tentando ali pegar o agro e juntar forças sociais e econômicas contrárias ao PT? Não tem o Bolsonaro. O Bolsonaro era um fator síntese que unificava e que, digamos, unificava e botava em marcha essa agenda. Bom, isso aí é um ponto mais geral com relação ao que você, Pedro, me colocou.
¶77Eu acho que tem um outro ponto que é muito preocupante. Acho que foi a Flávia que falou do Trump. Há uma estratégia muito agressiva dos Estados Unidos, do governo especificamente Trump, de atuar, isso é explícito, de atuar nas eleições brasileiras, latino-americanas, que estão sendo bem-sucedidas em diversas ocasiões. Vou dar um exemplo bem conhecido, que foi o exemplo da Argentina nas eleições legislativas. Tudo indicava que a liberdade avança e ia perder, feio.
¶78E o que ocorre às vésperas da eleição, o Trump disse que não ia dar a chancela do governo americano para o FMI manter lá 40 bilhões de dólares que a Argentina precisava para fechar as suas contas e que, portanto, dependeria do voto dos argentinos. Ele repetiu essa estratégia em algumas outras ocasiões, eu não lembro qual, mas em uma outra eleição. A questão é que o Brasil não tem essa vulnerabilidade, mas ele é o país mais importante. Então, tem dois países importantes nesse contexto, o México e o Brasil. Deixa eu, em cima desse desenho que você fez, deixa eu pegar aqui as peças.
¶79Eu sei que a gente está se aproximando da sua hora, Fabiano, por favor, grite. Tem duas peças aí em cima do que você falou. Todo mundo na direita, nos partidos irrelevantes de direita, que são, evidentemente, o PL, União Brasil Mais Progressistas, uma federação, republicanos e PSD. Essas são as quatro forças relevantes da direita. Não todos, evidentemente, de uma direita radicalizada, mas todos de direita.
¶80Todos acenaram, se o Tarcísio for o candidato a presidente, a gente vai junto. Todos fizeram essa cena, inclusive o Gilberto Kassab. O Gilberto Kassab, aliás, atuou ativamente para que isso acontecesse. Aí, no momento que não foi o Tarcísio o candidato, a direita se esvazelou. E, no momento, o PL está com dificuldade de conseguir uma aliança com qualquer partido de direita.
¶81Todos estão achando que é mais negócio não estar do lado de alguém com sobrenome Bolsonaro. Então, é claro que isso não diz, necessariamente, algo a respeito da sociedade, mas certamente diz algo a respeito dos políticos profissionais de direita, qual é o cálculo político que eles estão dizendo. Isso aqui é roubada. É mais negócio estar fora do que estar dentro dessa aliança. Não quer dizer que não possam compor ali na frente, mas...
¶82Então, temos essa direita espatifada, o PSD querendo se tornar o novo PSDB, que o Kassab diz claramente que ele quer ser o partido que polariza com o partido de esquerda no jogo político brasileiro, na disputa pela presidência. O Kassab tem uma disputa, claro, o Novo com o Zema, certamente, está tentando ficar fora da cláusula de barreira, eleger pelo menos deputados o suficiente, não sei se tem uma ambição de realmente eleger o Zema presidente. E o MBL está tentando criar um partido, então, através do Renan, eleger parlamentares, tal. Talvez desses três, o único que, de fato, tem a ambição de chegar à presidência seja o Caiado. Não sei se é essa a ambição do Kassab, mas do Caiado certamente é.
¶83O Caiado tem uma coisa meio brisola nele, aquela coisa de eu vou tentar ser presidente até o final da vida. Então, tudo bem, isso aqui é uma coisa que aconteceu. Aí você tem esse fenômeno mundial, do qual o Trump faz parte, o Trump não é um presidente americano típico. O Trump é um presidente americano muito esquisito. Ele não faz política externa como, o que variou a política externa do Bill Clinton para o George Bush, pai?
¶84Claro que houve variação, mas a variação não é imensa. Existe uma maneira do Departamento de Estado de agir, que muda ao longo do tempo, evidentemente pós-Carter, a gente parou de ter um Departamento de Estado Kissingeriano, que queria fazer golpe de Estado e tal, até porque já estava ali meio que no fim da Guerra Fria, mas as transições são suaves. Existe uma política de Estado nos Estados Unidos que independe de... E aí vem o Trump, e o Trump é aquele cara que é anticomércio aberto, que é essa coisa, esse troço de humilhei vir aqui falar mal de ministro do Supremo e de presidente da República no meio de uma convenção partidária de um partido político brasileiro é um troço espesitivo, você consegue imaginar um presidente argentino fazendo isso? Eu não consigo.
¶85Eu não estou dizendo que não tenha penimbas e tal, mas esses caras são bichos diferentes, gente como Trump, como Millet e tal, eles estão num jogo que não é um jogo mais liberal-democrata, é uma outra coisa, uma outra lógica. E o Bolsonaro evidentemente é o representante óbvio desse movimento aqui no Brasil. Ele realmente me parece menor do que ele foi em 22 e 18. Você acha que eu estou sendo... A impressão que eu tenho, eu não acho primeiro, eu não acho que todo mundo de direita seja assim, eu não acho que o Castro no Chile seja assim, me parece um cara, pode até ser mais de direita, não é um cara de sede direita, mas não me parece um cara com uma postura agressivamente liberal.
¶86Mas o Bolsonaro certamente é. O Brasil pode estar fugindo, escapando dessa sombra? Ou você acha que eu estou sendo demasiadamente otimista? Nesse nosso cenário aqui, como é que você vê a presença dessa sombra que ameaça as democracias liberais? Tá, vamos ser um pouco mais explícito então do que a gente está pensando.
¶87Há muita similaridade no Bolsonaro, Trump, Milley e alguns outros atores com aquilo que a gente aprendeu sobre o nazi-fascismo no início do século XX. Não sei se nazismo, porque o nazismo tem aquela coisa antissemita que é uma bizarrice, mas com fascismo sim, com certeza. E que deu na Segunda Guerra e aí ficou, digamos, no ostracismo durante muito tempo. E aí há uma semelhança grande com esse pós-crise de 2008, que aí a questão da globalização entra em xeque, a esquerda começa a ser atacada de uma maneira virulenta. Vem aí uma série de componentes, as redes sociais, uma nova tecnologia de comunicação de massa, coisa que como rádio e depois o cinema foram utilizados.
¶88Então tem algumas variáveis importantes. Antiglobalização, anti-esquerda, nova tecnologia, uma mobilização social agressiva, as pessoas na rua, milícias, não é isso? Então esse bicho a gente já conhece e assusta e tem que assustar mesmo porque tem consequências muito importantes na vida das pessoas e das sociedades. Eu concordo com você que isso já esteve mais proeminente na política brasileira. Eu concordo muito com você e acho que a agressividade norte-americana tem que ver com essa percepção da fragilidade, dessa liderança, dessas possibilidades aqui.
¶89Eu queria retomar um ponto também interessante sobre o caso brasileiro, que se não me engano foi feito pela Débora, que eu acho que está muito certo, acho que a Luísa também falou sobre isso, que é olhar as elites políticas de centro-direita e direita mais moderadas estarem olhando, melhor dizendo, para o futuro, para o pós, ou seja, é como se eles estivessem jogando da seguinte maneira, olha, o Lula vai ser reeleito, vamos pensar em 30 e as cartas, as peças estão sendo movidas para combater o PT numa situação mais desfavorável porque o Lula não vai estar mais ali. E aí, claro, que não interessa, por exemplo... lá o PSD, em republicanos, uma vitória do Flávio Bolsonaro, porque aí ele tem a possibilidade de reeleição em 2030, e ninguém... ou seja, indefinidamente esse campo da direita vai ter esse componente fascista e ninguém entra, familiar fascista e ninguém entra, tá certo? Então é perfeitamente plausível imaginar que nessas enderanças da direita, o jogo seja o seguinte, PT vai governar de novo com Lula, vai se desgastar, e aí a gente entra com uma candidatura consistente, robusta, que tenha respiração, que tenha articulação.
¶90Eu acho que o jogo normal é um pouco esse, tá? O que não tá normal pra mim é a pressão norte-americana, isso pode ter consequências... tá tendo, né? Você tem uma tarifa dessa maneira, e eles vão fazer a resposta agora questionando as urnas, quer dizer, utilizando instrumentos de... aí indo na sua preocupação, instrumentos de deslegitimação da democracia liberal representativa, o tempo inteiro.
¶91Eu não consigo me acostumar com os Estados Unidos nesse papel, sabe? Pois é, mas veja que interessante, Pedro, um trabalho que você deve conhecer, é um trabalho sobre o nazifascismo, né? A anatomia do fascismo, do Robert Patton. Patton. É fantástico.
¶92O Patton considera o Trump fascista. Pois é, e o Patton mostra que as origens do fascismo estão lá nos Estados Unidos, com a Cruz Cruz Clan e outros movimentos, e que por razões norte-americanas conseguiam se contrapor. Na Europa o negócio cresceu, na Itália e depois na Alemanha, né? Ou seja, tem ali componentes fascistas na sociedade norte-americana muito claras e vamos torcer para que nas eleições legislativas aconteça o que sempre acontece, né? Fabiano, a gente vai te liberar, eu tenho uma última pergunta para você e eu juro que não estou esperando uma resposta longa, não.
¶93Quer dizer que é um prazer estar aqui, essa conversa está muito boa. Você tem algum receio de golpe militar? Não, não tenho. Você acha que passou? Acho que sim.
¶94Acho que está muito desorganizado. Estamos desgastados, muito desorganizados. A pancada foi dura. Sabe o que eu tenho mais medo nos meus piores sonhos? Um sequestro do Alexandre Moraes.
¶95Alá Maduro. Não, eu acho muito difícil os Estados Unidos. Uma coisa é um país totalmente, uma ditadura aos frangalhos como a da Venezuela. Sem estrutura. Outra coisa é décima economia do mundo, né?
¶96Os Estados Unidos fazem isso aqui, podem fazer na Itália, podem fazer... Onde que eles não podem fazer? Podem fazer na Europa, num país europeu. Tá bom, você está me tranquilizando. Mas é porque você falou golpe militar e eu te devolvi uma coisa até pior.
¶97Eu sinto medo da gente. Então, eles não conseguem fazer isso no Irã. Não é... Eu acho que é muito diferente. Eu concordo.
¶98São os meus piores sonhos. Loucura. Fabiano, você está lançando um livro. Estou lançando um livro. Na verdade, é a tese de doutorado, ou seja, tem muito tempo.
¶99Nunca lancei nenhum livro. Adicionei um capítulo, fiz uma apresentação nova e uma conclusão nova. Em cima de, inclusive, um artigo que eu fiz para a inteligência. E qual é o nome do livro? Qual é o título do livro?
¶100Tem alguma coisa de barganha parlamentar, dinâmica legislativa e distributivismo no Brasil. É o presidencialismo do Corizão? Não, não, não. Ele fica mais dentro do legislativo. Na verdade, é um estudo sobre o pré-64, que é um período, esse de 46 e 64, que é understood na ciência política brasileira.
¶101É um período muito importante para iluminar muitos aspectos da política brasileira contemporânea. E do legislativo brasileiro contemporâneo, porque tem toda essa discussão sobre a retomada da força, da capacidade. Muito interessante. Havia um centrão? Sim, tinha o centrão, tinha a coalizão...
¶102Era o PSD que fazia o centrão? PSD, PTB e UDN faziam coalizões entre si para uma grande distribuição dos recursos. Era um grande distributivismo que era consensual entre esses três partidos. Então não tinha ninguém que estava se dando melhor do que o outro, não. Era uma coisa que contemplava...
¶103Eu quero muito ler isso. Era um distributivismo contemplado a todos os partidos. Então não era uma especialidade de um partido, não era uma especialidade de uma região. Todo mundo fazia o distributivismo. Então é um trabalho sobre isso.
¶104Depois eu tenho uma reflexão no final, que pode ser bem interessante, saindo dessa coisa mais especializada de legislativo, que é sobre a questão das trocas políticas. O que significa isso? O que significa trocar na política? Fabiano Santos, muito obrigado pela sua presença. Prazer, Pedro, mais uma vez estar aqui com vocês.
¶105Fala sempre, professor. Obrigado. Oi, deixa eu aproveitar. Professor, obrigado, um grande abraço. Obrigada pela presença.
¶106Vou aproveitar enquanto você vai se levantando por aí e vou fazer um convite aqui para o nosso público. Vou fazer para a Débora também. A Débora também está convidada a participar. Amanhã, gente, aqui no nosso canal do YouTube, às 19 horas, eu e o Pedro Doria vamos fazer o primeiro encontro, uma live, o primeiro encontro do nosso Clube Meio Eleições 2026. Então assim, se você está aqui todo dia, ou vem de vez em quando, gosta do jeito que a gente conversa sobre política, quer fazer parte de uma conversa mais tete-a-tete, mais próxima, a gente está lançando esse clube, que é um jeito de a gente ficar permanentemente em conversa com você.
¶107Eu não sei em que câmera que eu estou. Eu estou aqui ou eu estou aqui? Aqui. Então, esse clube, ele vai ter encontros todas as quintas-feiras, às 19 horas, e você pode fazer parte dele. E a gente vai fazer esse encontro inaugural nesta quinta-feira, às 19 horas, para você entender um pouquinho melhor o que vai ser a dinâmica do clube entre a gente, o que vai ser esse papo.
¶108Então, nesta quinta, vai estar eu e o querido Pedro Doria. A gente ontem brincou aqui, você está cansado de briga na política e quer um ambiente para ter um papo? Não garanto que não vá haver briga, porque só eu e o Pedro Doria, juntinhos, respondendo perguntas, pode ser. Não, mentira. A gente conversa super sem brigar, né, Pedro Doria?
¶109A gente tem brigado menos, na verdade. É, mas assim, o meu compromisso é com o jornalismo e com o entretenimento, entendeu? Então, se precisar tretar... Não, brincadeira. Ao contrário, a missão do meio é conversar sempre de um jeito respeitoso.
¶110Pode ter um patritinho ou outro e tal, mas é sempre com muito respeito, ouvindo e tentando encontrar o consenso da democracia, o consenso possível. Não é um consenso, ai, nossa, que mundo de sonhos. Não, é o consenso que a democracia habilita. Se você participar amanhã do nosso encontro, achar legal, quiser a sua carteirinha de membro do Clube Meio Eleições 2026, você vai participar desses encontros ao vivo que acontecerão. Tem também alguns encontros que já foram previamente gravados, mas eles não estão com aquela carinha de aula, de palestra, não, gente.
¶111É uma carinha de bate-papo mesmo, tem bastidor. O Maurício Moura, por exemplo, que foi um dos papos, ele me contou uma história tão maravilhosa da época que ele era pesquisador no campo, que, sério, eu não vou dar spoiler porque é só quem for do nosso clubinho, tá? Esse aqui é o Clube Meio Eleições 2026. Participa amanhã, vai ter encontro com Alexandre Borges, Christian Lynch, Maurício Moura, Magno Cal, tem outros nomes que a gente está confirmando. Nós vamos até o dia do segundo turno fazendo encontros, viu, do clube.
¶112É um clube, quem sabe, depois a gente não prolonga. Não sei se ele der certo, ó eu aqui inventando um produto ao vivo e a cores. Vamos ver, clube, né? Se ficar legal, a gente prolonga. Então era isso que eu queria fazer o convite.
¶113Já põe aí no sininho, anota aí, põe na agenda, faz, dá um salto aí no teu celular. Amanhã, 19 horas, eu, você e Pedro Dória fazendo tretas suaves sobre política aqui no meio, no nosso clube. Débora, minha querida, eu queria aproveitar aqui a tua presença para debater um outro ponto que a Luiza apresentou ali no começo do programa e que nos chamou muita atenção, porque embora as pesquisas, de uma maneira geral, venham apresentando o Flávio Bolsonaro nessa distância relativamente estável com relação ao Lula, de cinco pontos, não me parece que esteja nada tranquilo o ambiente, o medo de desgastar e de derreter está tão grande que até um público que sempre nos pareceu, desde 2018, mais cativo do bolsonarismo, a campanha do Flávio está com medo de perder. Então o Rogério Marinho, a coluna da Bela Megali traz essa informação. O Rogério Marinho, que é um dos coordenadores da campanha do Flávio, ativou um grupo com lideranças religiosas para tentar melhorar essa interblocoção do Flávio com o campo religioso e evangélico em particular.
¶114A Michelle e o Flávio, em tese, fizeram as pazes publicamente, não é que ela esteja super empenhada, ela mandou um vídeo que foi até bastante protocolar para a convenção, mas eles não estão mais em pé de guerra como já estiveram. Que outros fatores você imagina para além dessa briga que a gente sabe que pode ter causado algum estranhamento daquele pedaço do campo evangélico aderente ao bolsonarismo? Que outros fatores podem explicar esse distanciamento, na sua opinião? Na minha leitura, eu acho que aconteceu com o fenômeno que o Pedro estava descrevendo sobre os partidos não estarem tão engajados na campanha do Flávio. Tem que lembrar que a bancada evangélica tem 200 pessoas e a maioria deles estão nos partidos super citados.
¶115Estão espalhados ali por PL, republicanos, que é o Partido Universal, sempre vale lembrar, e progressistas, União Brasil. Enfim, estão espalhados, tem outros partidos também, inclusive alguns de esquerda, mas a maioria está ali nesse campo. Então, na minha visão, tem muito essa estratégia do vamos jogar parado, porque se a gente se abraçar com o Flávio e acontecer como aconteceu no final do governo Bolsonaro, muita liderança religiosa sentiu o baque que foi a queda da popularidade do Bolsonaro com a questão da pandemia. Então, muitas pessoas que são religiosas, perderam parentes, perderam familiares, criaram um pouco de resistência ou uma memória não tão positiva. Então, a minha leitura é que eu acho que nesse sentido tem um pedaço das lideranças, sobretudo quem viabiliza alguns desses contratos, de jogar um pouco parado.
¶116O Silas Malafaia mesmo é um exemplo muito claro disso. Ele está calado sobre a treta da Michelle com o Flávio. Ele está calado sobre tudo. Ele só fala dos sóstenes. Em termos de política, ele segue batendo no PT, é parte do discurso permanente dele.
¶117E ele tem a questão que o sóstenes foi alvo de algumas operações da polícia, na verdade, de fases diferentes da mesma operação da Polícia Federal, por questões de, se eu não me engano, de desvio de dinheiro de combustível do gabinete, mas eu posso estar enganada, porque isso não está tão fresco na minha memória. Ele foi alvo de alguma... Ele vem sendo alvo de investigações, e eu acompanho o Silas Malafaia, as manifestações públicas dele com atenção, e o máximo que ele tem falado de política é nessa chave dupla, bater no PT, seguir batendo no Alexandre de Moraes, com muita intensidade no PT, e defendendo os sóstenes. Ele não manifestou nada sobre a treta, Michelle. Eu, inclusive, eu cobrei, porque ele prometeu ao vivo, ao vivo não, num videozinho gravado dele, vou hoje à noite, vou me manifestar sobre Máster, era sobre Máster que ele prometeu, não era sobre Michelle.
¶118E até hoje também não falou do Flávio... Inclusive, eu fiz a coluna sobre o documentário Brasil Paralelo, que eu vi o Silas Malafaia e várias outras lideranças, e uma coisa interessante, claro, depende muito do corte que foi feito das entrevistas do Brasil Paralelo, mas todo mundo estava muito olhando para o retrovisor. O ápice do documentário é quando eles falam da articulação para conseguir fazer a sabatina e aprovação do André Mendonça. Então, ali meio que aquele auge, falam muito mal do PT, como sempre, falam das pautas, mas falam muito do... Ah, a gente conseguiu articular coisas, a gente conseguiu fazer entregas, né?
¶119Isso pensando na ala política ali, não na ala religiosa e tal. Nessa ala política, eu estava muito olhando para o retrovisor, e eu acho que... Minha impressão é que o pessoal está meio que esperando jogar parado. Claro que não podem abandonar o bolsonarismo completamente, porque senão vão dizer, ah, estão ajudando o PT, e não sei o que, e assim, né? Podem ser vistos como traidores, ou têm esse medo, mas a tendência que eu vejo é que o pessoal está esperando...
¶120Ou alguma coisa acontecer, seja a candidatura do Flávio nafragar de vez, seja vai-tu, vai-tu mesmo, mas está todo mundo jogando meio parado, né? Não estou vendo a mobilização que eu vi em anos anteriores, assim, muito forte em prol do nome do Flávio, justamente acho que por causa disso. E seria também, você acha, eu não sei se o Pedro quiser pular aqui, Pedro, para a conversa, venha, mas eu fiquei também pensando num aspecto que é o do... O Jair Bolsonaro, embora ele não fosse evangélico e não tivesse o hábito de inserir tão constantemente o discurso religioso na sua plataforma política até 2014, 2015, 2016 mesmo, a agressividade dele toda, aquela coisa, não passava tanto pela parte da religião. Aí a partir de 2017, 2018, conforme inclusive o Olavo se aproximou, o Olavo católico, não evangélico, mas a figura da religião começou a estar mais presente, da religião cristã e tudo mais.
¶121O Flávio, ele não tem na sua trajetória política nenhuma ligação com religião, mas obviamente que desde que se apresentou o candidato passou a falar muito de religião, de Deus toda hora. Tanto que não tem, acho que duas semanas, tem um vídeo inclusive dele recebendo uma bênção de alguns pastores e tudo mais. Eu não sei se ele se converteu. Eu confesso que eu não cheguei a receber. Não chegou a hora de se realmente chegar e falar de se converter.
¶122Mas sempre me parece algo bastante fabricado, bastante visivelmente, inclusive para quem tem fé. As pessoas notam isso. Exato, notam. Mas tem muito a ver também com a confluência de forças e o quanto você consegue ver uma candidatura viável e vitoriosa para barrar o PT. Acho que tem toda essa confluência.
¶123Tem o fato de ele não ser uma pessoa super engajada, tem os envolvimentos dele com todo tipo de coisa meio mal explicada. Então, acho que junta tudo. Junta questões fisiológicas mesmo. O pessoal fala, eu vi, acho que foi no programa do William Wacky falando, pessoal, não tem cheiro de vencedor. E isso tudo se mistura no meio.
¶124A ver se isso vai mudar conforme chegarem as eleições e o pessoal falar, bom, é o Flávio, é o Lula, então vamos no Flávio. Eu diria que é até provável de acontecer, de ter uma fatia grande. Mas acho que vai ser interessante ver se vai mudar em relação aos últimos dois anos, que é ter uma porcentagem menor de evangélicos votando no Flávio, seja porque decidiu votar no Lula ou seja porque decidiu não ir votar. Acho que vai ser uma coisa interessante para ver na comparação das pesquisas e depois com o resultado de urna vai ser interessante. E falando, só para pegar um gancho de uma das notícias que eu estava vendo sobre essa disputa pelo lei do doutorado evangélico.
¶125Sabe a notícia que há três dias a Janja estava interessada em se aproximar do público. Já? É, pois é. Eu não sei se escolheram a melhor pessoa, porque se tem uma pessoa, acho que não gostam na Janja. Porque ela meio que representa esse entorno progressista do PT e, aspas aqui, palavras que as pessoas usam.
¶126Lacradou e meia essa coisa. E aí, pegaram um vídeo dela chorando, cantando Deus Cuida de Mim, que é aquela música do Cláudio Lucas gravada pelo Caetano. E falando sobre irmãos e irmãs e uma mudança de linguagem. Mas eu não acho que, por exemplo... Tem tantos vídeos que eu acho que é melhor até não fazer.
¶127Porque realmente parece meio falso. Eu queria aproveitar esse gancho porque eu já queria fazer uma pergunta sobre as mulheres conservadoras e a possibilidade do Flávio se recuperar nesse campo, por causa do vídeo que, como a Flávia disse, foi meio protocolar ali, que foi enviado pela Michelle para a convenção do PL. E o Cândido Moura mandou mensagem aqui pra gente perguntando como ficou a candidata da Michelle ao Senado em Fortaleza. Então, para responder, não ficou. A Priscila...
¶128Perdão, eu esqueci o sobrenome dela. A Priscila Costa não foi... Não será candidata ao Senado pelo PL. O partido confirmou a candidatura, oficializou a candidatura do Alcides Fernandes ao Senado no... e vai apoiar o Ciro Gomes para o governo estadual.
¶129Então, nada do que a Michele queria que acontecesse no Ceará, de fato aconteceu, mas ela mandou o vídeo perdoando o Flávio... Oi. Existe a possibilidade... Deixa eu só te interromper para informar que anteontem saiu informação de que o grupo da Michele está aproveitando a dificuldade do Flávio em fechar uma vice e a resistência dos republicanos em entrar na chapa com a Daniela Marques para tentar emplacar a Priscila Costa como vice. Então, talvez ela caia para cima.
¶130Flávia, Valdemar Costa Neto ontem deu uma entrevista dizendo que essa ideia de Priscila Costa como vice do Flávio é, entre aspas, bobagem. Ok. O que não quer dizer... Que não vai acontecer. Que as coisas não aconteçam.
¶131Ainda tem essa possibilidade para Priscila Costa, mas para o Senado não será item. E tem esse apoio ainda à candidatura do Ciro Gomes, que era uma grande questão para a Michele. Então, o Flávio gravou o vídeo pedindo desculpas, a Michele gravou o vídeo dizendo que perdoa, mas também não foi à convenção. Hoje, se não me engano, na CNN tinha uma informação de que o partido está organizando um evento para que os dois apareçam juntos e tal, para selar essa paz. Mas aí, como você disse, as pessoas notam.
¶132Essa frase é muito interessante para muita coisa. Como é que você acha que as mulheres conservadoras vão notar esse perdão da Michele, esse pedido de desculpas do Flávio? Claro que a gente está falando aqui de uma disputa política regional e da relação que isso tem com a briga, e talvez nem todo mundo alcance esse ponto da discussão, mas como é que isso está sendo recebido? Como é que você acha que isso pode influenciar na campanha, numa eventual recuperação do Flávio entre as mulheres? Eu acho que, sobretudo, vai depender do nível de engajamento que a Michele demonstrar na campanha.
¶133Porque daí vai mostrar que ela perdoou, esqueceu e está engajada no projeto. Uma coisa que acho que é bom para os jornalistas aqui da Casa Plural, talvez, é como as pessoas notando a Michele, as mulheres, sobretudo, a Damares, vão lidar com isso também, porque eu acho que tem um efeito um pouco de cascata e de rede nesse sentido também. Eu acho que vai depender muito do engajamento perceptivo pela Michele e eu também não sei o quanto as pessoas estão ouvindo a fofoca dos vídeos plurais de indecências. Essa coisa da indecência da traição, da indecência sexual, pega bastante nesse público. Eu acho que, sobretudo, sobre as mulheres.
¶134Ah, esse cara não é confiável e tal. E pega mal você dizer que você vai votar num cara desse tipo também, né? Débora, deixa eu te fazer uma pergunta. Sempre que eu faço esse argumento... Pô, vem cá.
¶135Todo mundo está falando que esses vídeos vão sair. Eu não sei se esses vídeos vão sair ou não. São dois, né? O do Flávio aos beijos e abraços. Com a política de Brasília.
¶136E o do Flávio numa orgia do Vorcaro. Que dizem existir. Que a campanha do Flávio diz que já está preparando vacina, o que faz a gente acreditar que os vídeos existem. Agora, isso não quer dizer que esses vídeos vão, de fato, aparecer. Eu não sei se eles estão na mão apenas da Polícia Federal ou se alguém mais tem esses vídeos e está esperando o momento certo para publicar.
¶137Mas sempre que eu argumento... Ó, se um vídeo desses aparece, como é que as mulheres, principalmente as mulheres evangélicas, vão reagir? A primeira coisa que me vem à cabeça é... Ah, bem, não vão. Mas aí sempre tem alguém que faz o seguinte, a contra-argumento, que é o seguinte...
¶138Não, mas se é uma coisa do passado, isso levou a um arrependimento, isso é algo com o qual o povo evangélico lida bem. Ninguém parte do princípio que as pessoas não cometeram pecados na vida. O importante é você reconhecer os pecados, pedir perdão, etc. Para mim, que sou ateu e nada moralista, entendeu? Eu olho para esse negócio e isso é rigorosamente um problema entre...
¶139Para alguém do meu mundo, isso é rigorosamente um problema dele, da mulher dele e de mais ninguém. Mas como é que um conservador votar em um destruideiro? Aí eu jogo para você. Como é que... E aí?
¶140Vai depender muito de como é esse processo de perdão. Porque, por exemplo, o pessoal de esquerda gosta de ficar tentando desenterrar o passado da Michelle como se fosse prejudicá-la de alguma forma. Muito claramente, ela tem uma imagem pública que foi sendo construída ao longo do tempo em que ela não demonstra ter uma vida fora da vida familiar que ela leva e que ela demonstra ter. Isso é uma coisa. Outra coisa é...
¶141Depende de quão gráfica a coisa for também. E quão gráficos são os vídeos ou as coisas aparecerem. Mas aí tem a questão sexual, a questão financeira, o rolo com o Varcaro. Quando você vai juntando... Aí eu vou dizer que ele mudou de vida, mas...
¶142Sabe? Depende muito da construção do personagem ou da resenção de vida que ele conseguiu apresentar. E até agora a gente não tem conseguido ver um Fábio convencente em quase nenhuma das explicações que ele dá no geral. Agora, é claro, o antetismo é muito forte, principalmente entre evangélicos. Então isso não quer dizer que vai todo mundo votar na Lula e tal.
¶143Mas pode ter impacto grande o suficiente para... Vamos dizer assim... Dá um desenganchado na eleição. O pessoal decide viajar, decide ir para um congresso, decide ver um filme. Dá um desenganchado.
¶144E dá um desenganchado também às vezes na eleição, na campanha também. Então eu acho que o maior risco é nesse sentido. Depende de quão gráfico é. E depende da capacidade de dar a resposta de arrependimento dele. Se ele falar, tô arrependido, mas a mulher...
¶145A esposa dele parece ter que estar meio... Ainda em que, sei lá, ele tinha um casamento ainda muito em crise. Ia aparecer mais coisas na relação com o Porcario. E mostrar que, olha, esse cara tem uma vida muito avacalhada. E ele não sendo o pai dele.
¶146Enfim, juntando todas as coisas que a gente sabe do Flávio, eu acho que tem uma chance, sim, de desenganchar bastante um pedaço relativo do eleitorado. Mesmo levando em conta o perdão e o PVT estar do outro lado. Porque isso também é importante. Uma coisa que eu gosto de... Um fato casual.
¶147Até uma anedota, né? Na época da primeira eleição da Dilma, circulavam aqueles e-mails, né? Que eram os PPTs que circulavam com correntes de mensagens, com coisas. E naquela época, circulavam falando, olha, não é pra votar na Dilma. Mas não era tipo, não vota na Dilma porque ela é do PPT, né?
¶148Não vota na Dilma porque o Michel Temer, que é o vice dela, é satanista. É satanista. Opa! Isso daí rolou muito. Isso rolou muito.
¶149Circulou muito, muito, muito. E aí, antes e depois... Mas todo mundo sabe que ele é vampiro, né? A época inteira querendo votar o satanista, o ortólogo satanista, na presidência da República. Então essas coisas, elas...
¶150são meio que relativizadas. Mas eu acho que ia se pegar muito mal pra ele se saísse um vídeo desse tipo, se ele se enrolar mais na questão do vacado. Mas vem cá, eu acho que é público que o Temer é vampiro, né? Ninguém nega isso. Acho que o próprio não nega.
¶151Nega? Olha, eu não vou... não vou... não vou querer esse processinho pro meu lado, não. Falando em processinho, deixa eu só trazer uma informação aqui.
¶152Pra quem não acompanhou o resultado, o resultado não, o desdobramentos do uso do vídeo de inteligência artificial do Jair Bolsonaro na convenção, ontem à noite, o Alexandre de Moraes, aí pensando naquele aspecto de se o Jair Bolsonaro teria ou não infringido as regras da sua prisão domiciliar, as cautelares que seguram ele em domiciliar e não na prisão lá na Papodim. O Alexandre de Moraes, dentro desse processo, dessa execução penal, colocou 48 horas pra defesa de Jair Bolsonaro explicar se havia ou não autorizado o uso da sua voz e sua imagem naquele vídeo. E aí é uma armadilha, né, do Alexandre de Moraes, porque ao fazer isso, ele está colocando duas situações. Ou o Bolsonaro autorizou isso na visão do Alexandre de Moraes, tá, gente? Estou falando os argumentos por parte do Alexandre de Moraes.
¶153Ou o Bolsonaro autorizou o uso da imagem e da voz e com isso teria burlado a regra de que ele não pode fazer vídeos e se comunicar em massa politicamente. Ou ele não autorizou e aí o problema se transfere integralmente pra esfera eleitoral em que a campanha de Flávio Bolsonaro burlou a norma do TSE que permite o uso de vídeo de inteligência artificial desde que com a autorização da pessoa se ela estiver viva. Então, o que acabou de sair em vários portais aqui, eu não sei se eles já estão com a peça de defesa, porque eu li só as chamadas, é que a defesa do Jair Bolsonaro vai dizer ao STF que ele não sabia do vídeo com o Iá exibido pela campanha de Flávio. Gente, às vezes eu acho que o Alexandre quer eleger o Flávio, não é possível. Ele vai, com isso o que eu entendo que vai acontecer politicamente é que o Jair Bolsonaro, então, com essa resposta se preserva na domiciliar porque na decisão do Alexandre, ele fala inclusive que, olha, se ele sabia, ele escreve isso com todas as letras, vai voltar pro regime fechado.
¶154Então ele já faz a ameaça completa. Aí eu acho que o Jair, então, a defesa do Jair Bolsonaro está optando por, ó, não sabia, campanha do Flávio se vira e eleitoral, porque no TSE não está, tem condição de argumentar. Sim, claro, muito melhor resolver no TSE. Porque tem vários argumentos pró e contra. Hoje, inclusive, estava ouvindo um dos maiores advogados eleitorais do Brasil, Alberto Rolo, no Café da Manhã da Folha, e eles fizeram um exercício interessante, pediram pro Rolo fazer tanto a argumentação da acusação quanto da defesa, porque, de fato, diante da norma como ela está escrita, dá pra fazer os dois casos.
¶155A Carolina Brigido, que é uma das melhores jornalistas de judiciário que tem no Brasil, que já veio aqui, inclusive, nossa amiga querida, está dizendo que três dos cinco ministros do TSE que ela ouviu, não, mentira, ela ouviu três, ela ouviu três de cinco ministros. Um deles diz que não vê abuso, e dois, na reprodução do vídeo por I.A., e dois dizem que pode ter essa interpretação de que houve abuso, e que este caso pode ser usado pra frear o uso exagerado da I.A., mas não na extensão do que a ação do PT, da federação do PT está pedindo, que é, inclusive, caçação de candidatura, esse tipo de coisa que isso realmente poderia muito... Sobre essa questão judicial, saiu no Dato, acho que foi no Datofolha, que a maior parte da população achou injusta o Alexandre ter proibido a comunicação entre Flávio e Bolsonaro, aí toda vez que o Alexandre faz um negócio desse eu falo, gente, esse homem não entendeu que ele é muito odiato e que as pessoas tendem a se agotinar em torno do Flávio, meio que, tipo, é, né, alguém tem que frear esse cara, é tipo, não que eu ache que a justiça tem que saltar por esse tipo de coisa, mas o Alexandre não é exatamente um juiz acima de questões políticas, não tem esse perfil, eu acho muito... uma atuação muito doida. Eu acho que nesse caso em particular tem uma pegadinha, porque é exatamente como a Flávia descreveu, o Alexandre, na verdade, não está botando o Bolsonaro em xeque, está botando o TSE do Castro em xeque, porque, essencialmente, ele botou uma situação em que ele sabia exatamente o que a defesa do ex-presidente ia responder.
¶156A defesa do ex-presidente não tem outra coisa pra responder que ele não sabia. Só que a partir do momento que a defesa faz isso, o TSE tem um problema na mão. O TSE tem um problema na mão de duas maneiras distintas, tá? A primeira maneira é a decisão de agora. A decisão de agora pode-se se virar e falar como é uma convenção, como não está ainda no período eleitoral, não tem problema, porque não foi usado em campanha.
¶157Então não cabe aplicar a legislação eleitoral voltada pra campanha. Só que aí fica uma situação em que a imagem do Bolsonaro por Iá não poderá ser usada pelo Flávio em campanha. E não vai ser por um motivo muito simples, porque só pode ser se tiver autorização do pai. Se o pai autorizar, o pai volta pro regime fechado. Isso num cenário em que o Flávio tá a dez pontos no segundo turno do presidente Lula em três pesquisas.
¶158Três pesquisas muito diferentes. Então você fica nessa situação em que mesmo que fique uma coisa o TSE escolha não punir a... Eu acho uma bobagem esse negócio de por mim, eu acho que não tem nenhum problema usar esse vídeo de Iá. Mas isso sou eu. Porque no limite você consegue editar um vídeo do Bolsonaro elogiando o filho.
¶159Que nem... Que nem o Eduardo... Que nem o João Campos fez na primeira eleição dele com o vídeo do Eduardo Campos. Isso foi algo que o Pedro Petrim ontem que a gente recebeu aqui pra explicar um pouco esse embrólio do ponto de vista jurídico. Ele estressou um pouco isso.
¶160Ele falou assim, olha, ele tem uma posição parecida com a do Pedro, mas ele falou um pouco também disso. De usar imagens antigas do Jair ao lado do filho fazendo campanha. Imagens reais, antigas. Isso eu acho que seria mais tranquilo. Sim.
¶161Outros candidatos já usaram. Exatamente. Deixa eu só fazer também mais um ângulo desse debate, que é o seguinte. Também no café da manhã da Folha de hoje, quem participou foi também uma querida amiga nossa aqui, fonte da casa, que é a professora Isabela Calil, que está lançando um livro sobre cujo título inclusive é Política Sintética. Em que ela estuda intensamente o uso de inteligência artificial pelo bolsonarismo, especificamente.
¶162Ela é antropóloga, então ela não vai tanto nas questões jurídicas, mas ela vai no simbolismo desses vídeos. No que eles representam para o movimento. É uma entrevista muito interessante. Estou querendo inclusive trazê-la aqui para nos contar um pouco mais desse livro. Mas num resumo muito breve, eu achei muito interessante uma coisa que ela falou, que é vamos lembrar que o bolsonarismo enquanto movimento, e tem tudo a ver com o papo de MBL, que a gente fez também, sempre tem a vocação de testar os limites de tecnologia, do uso de tecnologias.
¶163Não só testar os limites jurídicos, que eu acho que é parte do que está sendo feito agora, eles vão estressando ali o limite para ver até onde vai. Isso de um jeito positivo e negativo, duplo. Mas também é um grupo político que experimenta, que está aberto a experimentar. Está esperando a diretoria de comunicação falar o que a gente tem que fazer, o que a gente tem que falar. E neste sentido, na opinião da professora Isabela Calil, como o grupo bolsonarista usa, experimenta com o IA já há algum tempo e como isso se intensificou loucamente conforme Jair Bolsonaro foi retirado da semina política, com a prisão e as proibições de se manifestar.
¶164Hoje, uma parte importante do público bolsonarista assimila esses vídeos de IA como a presença da autoridade de Jair Bolsonaro no cenário eleitoral. Então, assim, é óbvio que, eu não estou dizendo com isso, que as pessoas confundem o vídeo com a realidade do Jair Bolsonaro e tal. Mas isso tem um peso diferente do que teria em outras campanhas, porque é um público que já foi se acostumando, porque é um público cujo líder está de fato ausente, então isso supre essa ausência. E tem um terceiro caráter que eu achei interessantíssimo, que é uma maneira de manter a imagem de Jair Bolsonaro jovem na cabeça das pessoas, fresca. O Lula está envelhecendo diante dos olhos de todo mundo.
¶165A gente sabe que a saúde de Jair Bolsonaro tem uma precariedade importante, mas isso não está acontecendo mais diante dos olhos do público, então eles vão fazendo várias imagens de um Jair Bolsonaro ainda vigoroso, jovial, não é jovem, é claro, mas com alguma energia, com alguma jovialidade, e isso vai energizando a base de várias maneiras. Veja, nada disso é justificativa para proibir ou permitir o vídeo, não é disso que se trata. Estou falando desse outro ângulo do uso desses vídeos, mas o primeiro aspecto, esse de ser um grupo político que experimenta muito com tecnologia, e aí pensando enquanto estratégia, inclusive, de testar os limites de até onde vão deixar eles usarem, eu acho que este caso vai entrar e vai marcar, vai dar essa largada para vários testes. A gente vai estar diante de teste dia sim, dia não da campanha bolsonarista, do que vai poder ou não ser feito com a ausência do seu líder e com as tecnologias de que eles dispõem. Eu acho que nós estamos diante, vai ser uma decisão bem importante de acompanhar como vai ser feito o debate e o que vai basear a decisão.
¶166É isso, gente. Eu tenho alguns recados que eu quero ler aqui. Cleiton Ricardo dos Santos diz Pedro anda abusando da noite. Eu estou de fato cansado, eu peço imensa imenso perdão a vocês, eu não costumo fazer coisas como você já ouviu e eu fiz isso duas vezes o programa. Gente, eleição para jornalista é duro, tá?
¶167A gente trabalha muitas, muitas, muitas horas. Quisera eu estar na farra, eu não tenho nem mais fígado para isso. Acredite, não recomendo ninguém que passe dos 50 anos com fígado, porque eu estou inclusive cogitando ver como é que é, se dá para trocar, para eu poder resetar. Já fez com ombro, né? Faz com fígado agora, né?
¶168Já fiz com ombro, exatamente, né? Você vai trocando as peças do corpo. Fígado biônico. É, o fígado biônico, mas não, eu não ando abusando da noite, eu ando trabalhando muito, eu não sou o único nesta equipe do meio que anda fazendo o mesmo. Então, eu peço desculpas.
¶169Em geral, a cafeína... E não bebe café, gente. Tem isso. É, mas eu mato um litro de mate por dia, né? É, tem, tem mate.
¶170Ah, sim. Mas não é feito num cafezinho expresso. Cara, você tem noção da quantidade de cafeína que eu boto para dentro durante o... Tem, tem. Tem, tem.
¶171É muita. O mate, ele é mais fácil de beber, né? O café, você toma uma quantidade menor. O mate, ele realmente mata um litro, não é nem por dia, não, é por programa. Por programa, exatamente.
¶172Mas é por dia, porque eu também... Tem que beber água também, senão vai derrubar o rim também, né? Não, mas eu bebo bastante água. A Luísa me ensinou isso, eu sou obediente. É, o Castilho manda o seguinte...
¶173O Castilho, que é super de direita, mais desenvolvimentista, e o Rodrigo Varig, que é super de esquerda, mais desenvolvimentista, eles se entendem, né? O Castilho manda para o Rodrigo o seguinte... Ia ser engraçado o Pedro elogiando o Celso Furtado, rasgando elogios para o PND do Ciro. Olha, para o PND do Ciro vai ser difícil, mas eu aprendi imensamente sobre a economia colonial lendo o livro do Celso Furtado sobre isso. É um belo livro sobre a economia colonial brasileira.
¶174Então, cara, está o elogio ao Celso Furtado aqui feito. Está vendo, Débora? Eu sou capaz de elogiar o Celso Furtado. Para a economia colonial, o problema é depois daí, depois da colônia... Mas você é muito exigente.
¶175Inclusive, para o pessoal de esquerda que gosta, e para o pessoal de direita que é bem desenvolvimentista, eu sei que a gente não tem tempo para entrar nisso, mas vale olhar o programa do Missão, porque fora a parte fiscal, que aí está bem ortodoxa, não é nem liberal, é bem ortodoxa em conta pública. O resto é estatismo, criação estatal, é tudo assim. Vargas ficaria orgulhoso. Vale a pena dar uma olhada. Você andou mostrando isso para nossos amigos liberais mais entusiasmados, Débora Bezerra?
¶176Não, eu vi hoje para o programa, que falaram em Wadenbelle, aí eu fui ler com detalhe, aí eu fiquei, nossa, eu tenho que avisar umas pessoas. Aí eu mandei para o pessoal um resumo. Muito obrigado. Eu quero fazer essa conversa em outro programa. Acho que a gente vai ter a oportunidade.
¶177Para falar dos programas todos, acho que vai ser legal quando eles saírem. Eu gosto das coisas, o pessoal às vezes não prefere. Não, a gente que é nerd de política, a gente lê todos os programas, viu, gente? Não, mas eu acho que era bom a gente dar uma olhada com você, Débora, nos programas de Lula, Flávio, Caiado, Renan e Zema. Eu acho que são esses cinco os relevantes.
¶178Gente, por favor, relevante não é pela pessoa, porque está pontuando acima de três, sabe? Como critério básico. Vamos... Mais algum recadinho? Não.
¶179Então, forre, forre, saia o convite para amanhã, 19 horas. Gente, amanhã, 19 horas, eu e Flávia Tavares vamos estar. A gente não vai tretar, a gente não vai tretar. Não, a gente se ama. A gente se adora.
¶180E se adora há décadas. Então, é décadas mesmo, tá? A Flávia, inclusive, era uma criança. Mas era uma criança já na redação de um estado de São Paulo, assim, parceiro. É, é isso aí.
¶181A gente tem saudades daquele estadão ainda vistoso, aquela redação grandona. Cara, eu vou te falar uma coisa... Ah, é, aquele jornalismo não volta mais, não. Veja, melhorou, eu acho, em vários aspectos. Ai, olha eu começando...
¶182Desculpa, me perdi. Não, não... Mas enfim, tem saudades. Eu vou te dizer do que eu sinto saudades. Eu sinto...
¶183É engraçado, porque eu sou repórter de tecnologia, sempre fui, desde o início da carreira, mais de 30 anos fazendo jornalismo. Sempre escrevi sobre tecnologia. Escrevi matéria explicando para as pessoas o que era aquela arroba que ficava no e-mail, no endereço de e-mail. Pois é, eu sou velho assim, Débora. Você não era nascido, eu já escrevi a matéria sobre...
¶184Arroba. Sobre tecnologia. Eu adoro isso. Adoro a internet, adoro apetrechos digitais. Eu sinto uma saudade de editar jornal de papel.
¶185É, jornal é muito legal. Eu adoro jornal de papel. A gente imprimia as páginas do Aliás grandona. Isso, caneta vermelha ali, tipo corrigindo. Era uma delícia.
¶186Era uma delícia. Eu gosto também. E outra coisa que eu sinto saudade é a redação cheia, e cheia de barulho, e cheia de gente telefonando, e cheia de gente chegando da rua com informação. Agora nós temos um extrovertido, né? Porque ela tá escrevendo e eu tô tipo, meu Deus, socorro.
¶187Nada, era uma delícia. A noite da eleição de 2010, o Estadão pediu para os plantonistas, que foi quase a redação inteira, acho que pediu umas 50 pizzas, porque não saía tão imediatamente, demorava um pouco mais. E a gente, então, esticou um pouco mais ali a jornada. E aí, veja, era uma redação que tinha dinheiro para comprar 50 pizzas. E para pagar aquilo tudo de repórter.
¶188Podemos debater se era bem ou mal. Tinha uma equipe para consumir 50 pizzas, né? Porque as equipes das redações agora estão diminutas. E uma coisa que eu sinto falta é dos mais velhos que estavam na redação, que desde que eu entrei até quando eu saí, tinha assim, o pessoal das antigas, que tinha os salários mais altos, foi todo mundo indo embora, infelizmente. A gente pode fazer o programa sobre economia do jornalismo, hein?
¶189Olha aí. Olha a sugestão. O fato é que... Deixa eu aproveitar, então, e falar. Você que está aqui nos assistindo e gosta de jornalismo digital, feito por quem já viu o de papel.
¶190Então, assim, veja. Tem uma parte boa, que traz, recupera aquele tradicional. Tem uma parte que é mais moderna, que é 100% digital. Tem uma parte... Tem para todos os gostos.
¶191Assine o e-mail, são R$15,00 por mês. Faz favor. Ajuda nós aqui a continuar fazendo jornalismo, porque não está fácil, viu, gente? A vida para jornalista e para jornalismo sério, para jornalismo que não joga para a torcida, para jornalista que não faz rinha de ideias... E não aceita bete.
¶192E que não aceita bete... O grande financiador de várias coisas hoje em dia é bete. Acho que vai dizer. A gente... Nossos recebidos se limitam a livros de papel, que é o certo.
¶193Estou faltando mensagem de patrocínio aqui. A Insider patrocina todo mundo. Não, mas já fez ação com a gente. E tem que chamar agora o Mate Leão. Assine o jornalismo.
¶194Eu quero fazer uma última resposta aqui. O Ivo Reis... Eu tinha me prometido que não ia entrar nesse assunto, mas eu vou entrar nesse assunto, Ivo. Paulo Figueiredo definiu o jornalismo atual ontem. Eu vi o que o Paulo Figueiredo falou.
¶195Eu vi também. Eu não vou repetir o que ele falou. Ele falou isso a respeito de amigas minhas. Ivo, eu parto do princípio, Ivo, que você é um homem conservador. E está super bacana.
¶196Eu sou um liberal. E a primeira crença política de um liberal é no pluralismo. A gente parte do princípio que, a partir do momento que as pessoas têm liberdade de pensar com a própria cabeça, pessoas diferentes vão chegar a conclusões diferentes a respeito de como o mundo funciona. Então, está tudo bem você ser socialista, está tudo bem você ser conservador e, evidentemente, está tudo bem você ser liberal, desde que a gente consiga fazer um acordo de convivência. E, a partir dessa convivência, vamos conversando sobre as nossas diferenças e, de tempos em tempos, vamos escolher quem nos governa.
¶197Agora, se você acha que tem qualquer tipo de valor as opiniões a respeito do que o Paulo Figueiredo fala a respeito de mulheres que trabalham, o tipo de coisa que ele falou... Eu não sei, você é cavalzado e talvez tenha uma mãe, talvez tenha irmãs, talvez tenha amigas, colegas de trabalho. Você acha normal alguém que está no debate público, alguém que faz leituras a respeito de como o mundo se organiza, que pesa suas opiniões sobre qual seria o melhor caminho para o país, se referir a mulheres daquele jeito? Mesmo? Veja, eu não estou xingando, eu não estou questionando a posição política, é só...
¶198É normal? Você acha decente? Você acha que há um rastro de dignidade em um sujeito como o Paulo Figueiredo? Tem uma hora que a gente tem que mudar a maneira como a gente fala, sabe? Não, não.
¶199Tem níveis aos quais a gente não devia descer por uma questão mínima de integridade, de dignidade, de honradez. São todos valores conservadores. Entendeu? Uma pessoa conservadora de verdade sabe como se referir a uma mulher. E a primeira coisa que você faz para se referir a uma mulher, se você é uma pessoa conservadora, é com respeito.
¶200Não. Tá bom? Gente, perdoem só essa última. Vamos? É isso?
¶201Ele merecia. Foge, Bébora. Muito obrigado. Até quarta-feira que vem. Até.
¶202Até. Até. Central Média de hoje encerrado. Pessoal, se cuidem. Bebam água.
¶203Até amanhã. Tchau, tchau. Três coisas que separam quem só assiste à seleção de quem realmente acompanha ela. Ó, a primeira. Acessa as análises que costumam ficar restritas às salas de decisão, ou seja, quem pesquisa poder, sociedade por dentro.
¶204Você encontra esse material no Meio Político toda quarta-feira e também em matérias e entrevistas na edição de sábado, além dos dados da pesquisa Meio Ideia mensal, que agora é interativa e te permite, se você é assinante, fazer o recorte que mais te interessa dentro do nosso site. A segunda é ter a opinião de verdade, não é prestada. É a diferença entre repetir o que ouviu e entender por que aquilo aconteceu. O tipo de leitura que te deixa seguro numa roda de conversa, traz repertório e não te deixa cair no argumento pronto. E agora, a terceira, a mais difícil.
¶205Atravessar essa eleição sem virar refém de bolha. Militância. Cinismo. Discordar faz parte, mas sem transformar esse entorno. É isso que o Meio Premium sustenta todo mês, com um catálogo de produções originais no nosso streaming.
¶206Com a eleição chegando, não é só que você vai ficar mais por dentro. É que em nenhum outro lugar você vai entender melhor o movimento político dos próximos meses. Só R$15 por mês. Assina o Meio Premium.