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Ninguém precisa dar golpe | Ponto de Partida

¶1A eleição de 2026 não é igual à eleição de 2022. O que o que eu quero dizer é o seguinte: não há um risco à democracia brasileira. Não há, não como que se apresentou em 2022. Agora, isso não quer dizer que não exista uma extrema direita no Brasil. Ela existe entre políticos e sim, também no eleitorado, mas é menor do que era e tá fragmentada.

¶2O que tá em jogo na eleição de 2026 não é se teremos uma democracia ou não nos próximos anos. O que tá em jogo é a qualidade da nossa democracia no futuro. Porque de 2010 para cá, olha, foi um descarrilhamento só. Eu tenho plena consciência de que essa não é uma opinião popular, tá? Vai ter um monte de gente aí nos comentários gritando: "Passa pano" de um lado e do outro e tudo bem.

¶3Deixa eu enfrentar uma coisa da qual a turma da direita reclama muito e outra da qual a turma da esquerda se queixa demais. Primeira queixa da direita. Ah, mas agora tudo extrema direita. Não, eu não acho que tudo seja extrema direireita. Na verdade, acho que a extrema direireita é minoritária no Brasil, tanto entre os políticos de direita quanto entre os eleitores de direita.

¶4Então, quem entra no extremismo, uma extrema direita brotou no ocidente em meados dos anos 2010 como resposta simultânea globalização e aos avanços liberais e progressistas nas sociedades. Muita gente, principalmente entre homens com ensino médio na Europa, nas Américas, sentiram que saíram perdendo no jogo. E olha, saíram mesmo. Conforme esquerda e liberais voltaram suas costas para esses homens, a sua frustração muito real voltou-se para quem falava sobre eles. E quem falava?

¶5Donald Trump, Victor Orban, Benjamin Netaniaraho, Neigel Fr, Javier Miley, Jair Bolsonaro. Esses não são políticos iguais em tudo. Um MI é libertário, um Trump é desenvolvimentista, um Bolsonaro assena pros dois lados. É um confuso. Ideologia não importa aqui.

¶6O que importa é o método iliberal de fazer política, ou seja, a exclusão de quem pensa diferente. Pior, transformar quem pensa diferente inimigo a ser derrotado. O que eles todos têm em comum é o fato de que exploram a raiva. Mais do que isso, ensuflam a raiva. A partir daí, só consideram ser possível governar se com domínio total.

¶7É o discurso do homem forte, do único que pode resolver, do não é possível permitir qualquer espaço aos adversários, aliás, vão além. A nação precisa ser toda reconstruída, né? As escolas precisam ser reinventadas. O funcionarismo público precisa responder diligentemente ao comando do chefe. As entidades da sociedade precisam seguir em linha.

¶8Não pode haver espaço para discenso. Quer ver um exemplo? Paulo Figueiredo, ele não considera qualquer adversário humano, já reparou? Presta atenção nas palavras que ele usa para se referir a qualquer pessoa de quem não gosta. Não é que seja duro, não é que seja ofensivo, é mais embaixo, é degradante, é transformar gente em coisa.

¶9Política na qual não basta derrotar. É preciso humilhar antes e depois eliminar. A maioria dos políticos de direita não são assim. O teste mais fácil é o seguinte: respeito. Tratou com respeito, quem discorda?

¶10Tá no outro patamar. Aí o ponto da esquerda. Todos são de extrema direita, pois falam em anistia Bolsonaro ou porque subiram num carro de som em algum momento. Quando eu osso esse tipo de argumento, me parece que há duas ideias misturadas aí. Uma é legítima e a outra é cínica.

¶11A legítima é de que defender a anchia de golpista facilita um golpe futuro. Eu concordo. Aliás, a história do Brasil mostra isso, tá? Jcelino Kubichek antiou os golpistas de 1954 e 55 acreditando que ele ia se livrar do problema. Não aconteceu.

¶12Na verdade, ele ganhou uma nova tentativa de golpe em 59. Dessa vez não anciou, mas aí Jio Quadros anichou e os caras voltaram de novo. Golpista tenta e a cada tentativa aprende algo. Uma hora eles conseguem. Em 1964 conseguiram.

¶13O pessoal anicha em 54, 55, 59 tava todo lá no golpe de 64. Essa é a leitura que eu faço do que a história brasileira conta. Só que aí começa a parte complicada desse argumento. Achar que defender anistia é tá na extrema direita é dizer que essa ideia não pode ser defendida por ninguém jamais. E desculpa, claro que pode.

¶14Anistias a crimes estão previstas na Constituição. Alguns ministros do Supremo dirão que não são legais nesse caso, outros dirão o contrário. A democracia tem seus ritos, eles vão ter que tomar uma decisão. O espírito de pacificar e contornar o confronto é parte da mente conservadora. Dizer que você não pode colocar a ideia em debate é, em essência dizer que o conservadorismo tem de ser banido.

¶15Olha, um regime que bane toda uma corrente de opinião e cai nós, nesse caso é mais de metade da sociedade brasileira, já não é mais ele próprio um regime democrático. E aí entra a parte cínica, tá? Uma coisa na qual todas as pesquisas concordem é a seguinte: mete o sobrenome Bolsonaro em alguém e a rejeição dispara. Quer dizer, igualar toda a direita Bolsonaro é um jeito de garantir que ninguém cresça, fique só Flávio Bolsonaro na briga com Lula. Esse é o caminho mais tranquilo de vitória pro presidente.

¶16Tem um pedaço da esquerda que defende inclusive nas redes isso aí e na cara dura. Tá com esses argumentos. É mais fácil pro Lula e é mesmo. Não dá trela pros outros, iguala todo mundo. Flávio é o melhor adversário.

¶17E de novo, é mesmo. Eu sei o que muita gente vai escrever embaixo. Eu já falei isso antes. Olha, passapano é uma dessas muitas expressões que entraram no nosso vocabulário político nos últimos 10 anos. Expressões assim existem por uma razão.

¶18O seu objetivo é inibir opiniões impopulares. Aliás, mais do que isso, seu objetivo é inibir qualquer um que proponha uma conversa com o outro lado. Nosso risco não é tanto mais o de golpe. Nosso risco é de seguirmos com uma democracia de má qualidade. Vamos pensar juntos.

¶19Então, vem comigo. Eu sou Pedro Dória, editor do meio. Pois é. A direita vai passar 10 anos com três quartos do Congresso. Numa democracia, isso acontece porque alguém convenceu mais eleitores.

¶20Só que essa conta não começou agora. Ela vem de longe e ela nunca fechou. É disso que trata os partidos, o filme que a gente deixou aberto no YouTube até domingo. Quem é esse povo que vota? Como se armaram os partidos que deveriam representá-lo?

¶21E por que essa conta nunca fechou? Sabe se o parlamento que eu acabei de descrever te incomodou, esse com 3/4 na direita, aliás 4/5 na direita, nesse episódio a gente explica como a gente chegou nele. Iram de cinco, tá? Os outros cinco episódios estão no streaming do meio também, inclusive o primeiro sobre o povo brasileiro que tanta gente pediu para abrir e a gente não abriu. Quem viu um entendeu um pedaço.

¶22O conjunto explica a eleição que você vai assistir daqui até outubro. Assina o meio prêmium, gente, são R$ 15. E esse aqui, esse é o ponto de partida. A eleição ainda demora, vai ser em outubro. A crise na campanha do Flávio Bolsonaro não para e o principal sinal é a vice-presidência, tá?

¶23Um político após o outro tá recusando o convite. Os militantes do seu próprio partido abandonam a convenção enquanto ele tá discussando. Ó, quem gosta de cultuar bicho papão pode seguir pela rua gritando que o fim tá próximo, porque no mundo da direita a briga é outra. Quando o Flávio perder, quem assume o bastão? Veja bem, eu não prevejo o futuro.

¶24Viradas acontecem, explodem um escândalo, rola um acidente. Cada eleição tem sua história. Mas a base bolsonarista na sociedade tá bastante mais frágil, muito menos convicta e o mundo político abandonou o barco. Uma vitória de Flávio não tem nada de impossível, mas é cada vez mais improvável. E aí a gente precisa voltar a conversar.

¶25Mais do que isso, a gente precisa voltar a achar normal as pessoas terem opiniões diferentes das nossas. Gente, isso inclui opiniões muito diferentes das nossas, tá? Ah, mas se abrirmos a conversa, direitos vão regredir. Posso dar real? Junta todos os deputados de esquerda com todos os liberais progressistas e não dá 110 deputados de um total de 513.

¶26Essa eleição não vai mudar esse quadro periga piorar. As alternativas são duas. uma juntar toda a militância de esquerda para gritar nas redes sociais contra liberais progressistas e aqueles da esquerda não alinhada. Porque cancelamento é isso, né? Não é contra o outro lado.

¶27É sempre com quem tá mais próximo, mas não alinhado. Qual o efeito prático disso? Metade do mundo progressista para de falar. Com a outra metade do mundo progressista, algumas vidas são destruídas e nenhum milímetro de direito é avançado. E a direita segue tendo 3/4 dos parlamentares ou 4/5.

¶28As mudanças que quiserem fazer, eles vão fazer nos próximos 10 anos. E olha, a sociedade ainda assim não mudou. 52% de nós brasileiros são mulheres. Pretos e pardos também fazem mais de metade do todo. E a maior parte dos brasileiros dá muito duro na vida para garantir a sua própria vida.

¶29Para quem tá preocupado com dignidade humana, não devia ser difícil conversar com essas pessoas. Pra maioria das pautas, a dificuldade não tá em formar a maioria, tá em dar-se ao trabalho de construir essa maioria. Veja, o mundo progressista nunca teve dificuldade de falar com homens pobres. Perderam economicamente, por um lado, porque o seu principal empregador, que era a indústria de manufatura, foi pra Ásia. As fábricas foram embora, mas perderam também politicamente, porque os governos começaram a escolher outros grupos com os quais se preocupar em políticas públicas.

¶30No momento em que eles virou as costas, outra turma chegou e desequilibrou o jogo. Foi a esquerda que abandonou essa turma, tá? Registra isso. A direita tem 4/5 do parlamento e vai fazer as mudanças que desejar nos próximos 10 anos. vai acontecer porque numa democracia quem convence mais eleitores ganha para cadeiras no parlamento.

¶31Esse é o jogo. E aí tem outro lado dessa conta, o lado de quem tá ganhando. Porque se a direita vai passar 10 anos com maioria, então a pergunta que importa é: deixou de ser sobre golpe. Quem tem maioria não precisa de golpe. Você aprova o que quiser no dia que quiser e o outro lado que se vire.

¶32é legal, é constitucional, tem eleição, tem Congresso, tem Supremo, jogo jogado, tá tudo funcionando. E é exatamente aí que a democracia fica de má qualidade. Não no tanque, na rua. Aqui, olha o teste do respeito que eu dei lá atrás e ele serve para saber quem é extremista. Esse aqui é outro.

¶33Esse é o teste da maioria e ele só vale para quem ganhou. Quando você tiver os votos todos e não precisar de ninguém, você ainda vai deixar o outro lado falar? Vai deixar a escola ensinar o que você não gosta? Vai deixar o servidor discordar do chefe, vai deixar a entidade da sociedade sair de linha? Se a resposta for não, você não precisou de extremista nenhum para chegar lá.

¶34Chegou sozinho pelo voto, com tudo em ordem. E governar por cima de 1/3 do país não faz esse terço sumir, faz ele esperar. Cai entre nós. Esse filme a gente já viu. Gente que fica de fora do jogo não desaparece.

¶35Ela volta e volta mais brava do que quando foi embora. Nós precisamos voltar a entender que quando grupos grandes da sociedade t opiniões distintas das nossas, o trabalho de convencer a mudar de ideia é a essência da democracia. Convencer, não xingar. Hoje nós estamos num mundo em que ambos os lados escolheram que o melhor jeito de lidar com o outro lado é gritando mais alto e tentando calar, seja com intimidação, seja com assinatura de juiz. Nosso risco não é golpe.

¶36Nosso risco é de uma democracia capenga, corrupta, na qual lá em cima eles fazem seus acordos enquanto estimulam as brigas aqui embaixo. Porque olha, não se iluda. Na hora de fazer o acordo sobre o master, vai est todo mundo à mesa. Três coisas que separam quem só assiste a seleção de quem realmente acompanha ela. Ó, a primeira, acessa as análises que costumam ficar restritas às salas de decisão.

¶37Seja quem lê pesquisa, poder, sociedade. Por dentro, você encontra esse material no meio político toda quarta-feira e também em matérias e entrevistas na edição de sábado, além dos dados da pesquisa Meio Ideia Mensal, que agora interativa e te permite, se você é assinante, fazer o recorte que mais te interessa dentro do nosso site. A segunda é ter opinião de verdade, não é prestada, é a diferença entre repetir o que ouviu e entender porque aquilo aconteceu. Um tipo de leitura que te deixa seguro numa roda de conversa traz repertório e não te deixa cair no argumento pronto. E agora a terceira, a mais difícil.

¶38Atravessar essa eleição sem virar refém de bolha, militância, sinismo. Discordar faz parte, mas sem transformar isso em guerra. É isso que o Meio Premium sustenta todo mês com catálogo de produções originais no nosso streaming. Com a eleição chegando, não é só que você vai ficar mais por dentro, é que em nenhum outro lugar você vai entender melhor o movimento político dos próximos meses. Só R$ 15 por mês.

¶39no meio prêmio.