a tese
Miles Donahue faz um Q&A de 4 mil inscritos e assume publicamente uma posição de agnóstico epistêmico com inclinação teísta motivada por argumentos empíricos (sobretudo fine-tuning) e por considerações pragmáticas independentes da verdade, sustentando ainda um universalismo condicionado ao teísmo e uma leitura séria do problema dos males horrendos.
aprofundar
talvez
porque há material de qualidade em filosofia da religião próximo aos interesses do Bruno (contingência de Rasmussen/Pruss, harmonia psicofísica de Cutter e Crummett, universalismo, males horrendos de Marilyn McCord Adams), mas o formato Q&A é disperso e superficial; vale mais garimpar as referências citadas do que o vídeo em si.
O que foi dito
- Donahue diz que o convidado que mais o desafiou foi Michael Huemer (grafia incerta; provavelmente Michael Huemer), que lhe deu confiança em realismo moral, livre-arbítrio libertário e num caso pela reencarnação, e cita “Troy Dana” (grafia incerta) por críticas ao fine-tuning que “o tiram o sono”, com paper coautorado sob revisão avaliando rigorosamente esse argumento anti-design.
- Sobre a independência das constantes fundamentais, afirma que não há razão em física contemporânea para pensar que as cerca de 32 “chaves” que fixam a física efetiva do universo se reduzam a um único parâmetro, tratando isso como possibilidade epistêmica remota que não se deve esperar de uma futura gravidade quântica.
- À pergunta “por que há algo em vez de nada”, responde que a resposta é um ser necessário (necessidade análoga à de 2+2=4), e escapa do problema de derivar contingência dele apelando à liberdade libertária desse ser ou à indeterminação quântica.
- Lista, além do fine-tuning, o argumento da contingência (creditado a Josh Rasmussen e Alexander Pruss) e o argumento da aplicabilidade da matemática (desenvolvido por William Lane Craig, que ele vê como contínuo ao fine-tuning) como os melhores para o teísmo, dizendo querer também trabalhar o argumento moral para montar um caso “fully orbed”.
- Defende que o universalismo é altamente provável dado o teísmo, pois um ser onisciente, onipotente e perfeitamente bom encontraria como realizar a plenitude de cada humano ganhando seu assentimento livre sem violar o livre-arbítrio.
- Responde à objeção da “understated evidence” de Paul Draper (que os argumentos teístas usariam evidência recortada/gerrymandered, ignorando a esterilidade do universo) dizendo que isso não é bem uma objeção mas apenas contra-evidência fraca, que não contrabalança o fine-tuning depois de já fatorado.
- Distingue argumentos pragmáticos dependentes da verdade (a aposta de Pascal) dos independentes da verdade, alinhando-se aos segundos: num quadro epistêmico 50/50 (agnóstico), considera racional que a estabilidade, a esperança e o sentido que a crença em Deus oferece “aqui e agora” inclinem a balança, e admite sem constrangimento que boa parte de sua fé repousa nisso.
- Aponta o problema dos males horrendos, na versão “common sense” (a intuição modal de que certos males são gratuitos, sem razão moralmente suficiente possível), como o que mais o abala, e rejeita o teísmo cético por sobregeneralizar (implicaria que nenhum mal concebível poderia contar como evidência contra o teísmo).
- Escolheria conversar com três filósofos mortos: Marilyn McCord Adams (males horrendos, “alma-estilhaçantes”), Tomás de Aquino (de cuja metafísica e confiança na razão natural discorda) e Platão (por “A República”), e declara que não falaria com Kierkegaard, a quem não suporta.
- Sobre argumentos que “dependeriam de modalidade” (fine-tuning, harmonia psicofísica, harmonia nomológica), sustenta que não exigem assumir a contingência dos fenômenos, bastando a possibilidade epistêmica dela, e cita Cutter e Crummett (grafia incerta) sobre harmonia psicofísica; nega assimetria de compromissos metafísicos entre argumentos teístas e ateístas.