¶1Olha, vou ser bem direta, tá? Elise Matsonaga não é heroína de coisa nenhuma. Repita comigo. Elise Matsonaga não é heroína de coisa nenhuma, muito menos heroína do feminismo. Pois é.
¶2E eu não tô acreditando que isso precisa ser dito, mas com o lançamento do filme Elize, Sombra de uma mulher na Netflix veio com força total aquele discurso bem torto de que a Elise teria sido uma vingadora injustiçada. O filme tem direção do Felipe Velas, roteiro do Rafael Montes, da Mariana Torres, com a Lorena Comparato no papel principal. A Lorena, todo mundo tá falando, tá impecável no papel, tá entregando uma atuação visceral, equilibrada, que consegue passar toda a densidade, o isolamento da personagem sem cair na caricatura. E o Rafael Montes, né, gente, é um craque absoluto do suspense da literatura policial no Brasil. Meu amigo, autor de fenômenos como o Bondia Verônica, Jardim secreto, uma família feliz.
¶3Ele sabe como ninguém prender atenção, criar atenção, construir narrativas magnéticas. É uma produção de altíssimo nível, super bem acabada, que coloca camadas dramáticas, complexidade em toda essa história e tudo bem. Roteiro de dramaturgia, atuação de primeira existem para isso mesmo, para explorar as sombras, as contradições, a psicologia profunda dos personagens. Ninguém aqui precisa ignorar ou fingir que o passado da Elise não foi pesado. Ela, segundo ela conta, tem uma história marcada por abusos na infância, na adolescência, uma trajetória vulnerável, dolorosa, que é parecido com de tantas mulheres brasileiras.
¶4Entender essa bagagem é fundamental para compreender a figura humana. O problema é quando o público confunde análise psicológica e recurso de cinema com uma licença moral. Entender o contexto de alguém é uma coisa, usar esse contexto para passar pano para um homicídio frio e calculado é outra completamente diferente. Não existe nenhuma nenhuma justificativa para esquartejar uma pessoa. A verdade é que essa romantização não nasceu hoje, tá?
¶5quando lançaram os primeiros documentários lá sobre o caso uns anos atrás, essa leitura de da coitada que reagiu já tava lá ensaiando os passos na rede nas redes. Na época eu cheguei ouvir de uma pessoa muito conhecida, influente, que ela era team Elise, do time da Elise, como se um assassinato brutal, um esquartejamento, né, dentro de um apartamento fosse uma final de campeonato de futebol ou um paredão de um reality show com torcida organizada. hashtag e o escambal. Só que agora com a ficcionalização do filme, as pessoas perderam completamente o pudor. Eu fui dar uma olhada nos comentários que as pessoas estão deixando nas redes sociais e o negócio é assustador.
¶6Eu separei alguns aqui para vocês verem, pra gente ver junto o nível da degradação moral. Vamos embora. Teve uma pessoa que escreveu isso aqui que teve mais de 10.000 curtidas. Elise não agiu. Elise reagiu.
¶7Outro comentário mandou a seguinte pérola com mais de 2.000 curtidas. Eu sou super a favor da Elise. Mulheres não se permitam ser ameaçadas. Homens não têm dó. Aí você continua rolando, lé que porque eu continuei rolando e vem mais.
¶8Continuo sendo a favor dela, antes ele do que ela. Outro usuário, outra usuária falou o seguinte: "Foi top, meu pano é rosa para ela." Aí vai mais uma e solta o seguinte: "Deixem a diva em paz. Eu teria coragem de fazer pior se extrapolarem meu limite ou meu pano para diva é de algodão egípcio." Teve até quem resumisse a obra assim: "É isso. A moral do filme é: Começou, começou de gracinha, já corta". corta ou né?
¶9Teve uma outra pessoa que escreveu exatamente o seguinte: "Elise, saiba que você é uma inspiração para grande parte da sociedade feminina e estamos do seu lado. Espero que reencontre sua filha e que ela não seja manipulada ao ponto de não entender que você era vítima". Vamos ler isso aqui de novo com calma. Inspiração para grande parte da sociedade feminina. Meu pano é rosa para diva.
¶10Começou de gracinha já corto. Vocês têm a dimensão do delírio coletivo que isso representa para transformar Elis Matsunaga em diva ou inspiração, a pessoa precisa fazer um um malabarismo mental de proporções olímpicas. É preciso rasgar os autos do processo, apagar a cronologia básica do crime. Gente, não teve surto, não teve no calor do momento, não teve a legítima defesa. O que teve ali foi uma logística fria, organizada.
¶11A Elise deu um tiro na cabeça do marido. Depois de atirar, ela não entrou em pânico, não tentou socorro, não chamou a polícia, ela não agiu com desespero. Ela saiu do apartamento, ela pegou o elevador, ela foi ao supermercado, ela comprou facas, ela comprou malas, ela voltou para casa, ela passou 6 horas, 6 horas fatiando o corpo do marido em sete partes para desovar na estrada. Enquanto ela fatiava o marido, ela ia lá cuidar da filha, voltava e continuava a picotar o marido. O motivo declarado por ela própria na confissão foi o seguinte: fato descoberta de matraição, medo de perder a guarda da filha, o pavor de perder o padrão de vida conquistado no casamento rico.
¶12Tudo isso é, todos esses medos são compreensíveis, né? Acho que são medos reais. Eu vejo muita gente tentando, né, colocar esse crime, guardar esse crime num crime passional. Eh, e aí que mora uma das maiores ironias dessa história. Vamos lembrar que em 2023, depois de décadas de luta exaustiva do movimento de mulheres, o STF finalmente declarou inconstitucional aquele aquela tese nojenta de legítima defesa da honra, aquela tese que homens usavam nos tribunais para sair impunes depois de matar as mulheres, alegando que tinham sido traídos.
¶13Foram anos de mobilização para dizer em alto bom som, traição não justifica assassinato. E o que a gente está vendo agora nas redes? Pessoas que se dizem esclarecidas, ressuscitando exatamente a mesma tese grotesca da legítima defesa da honra. Só que com os sexos invertidos. Não só a legítima defesa da honra, por conta de todos os abusos emocionais que a Elise conta que sofria pelas ameaças de perder tudo que ela tinha.
¶14Isso teria uma justificativa. Vocês acham realmente esses argumentos aceitáveis? Eu acho tudo isso constrangedor, muito constrangedor. Não existe barbárie do bem. Achar que a justiça com as próprias mãos é um avanço para as mulheres é uma ingenuidade bastante perigosa.
¶15O estado de direito e as leis existem justamente para proteger quem é mais fraco. Num regime de vingança privada, porque é disso que se trata, né, de lei da selva, quem ganha é quem tem mais força física, mais arma ou mais frieza para cortar um corpo em pedaços. E ó, vou dar um spoiler. Nesse jogo bruto de violência física, não são as mulheres que saem ganhando. Luta contra feminicídio se faz exigindo medida protetiva que funcione, botão do pânico, patrulha Maria da Penha na rua, delegacia da mulher aberta de madrugada, acolhimento de verdade, não é promovendo uma condenada à ícone do Girl Power no catálogo do streaming.
¶16Confundir o homicídio frio com legítima defesa só serve para enfraquecer as mulheres que realmente precisam da lei para não morrer. Em março desse ano, um júri em Belo Horizonte absolveu uma mãe que matou o companheiro quando flagrou ele durante a madrugada abusando da filha dela que tinha 11 anos. Ali tinha uma criança sendo atacada naquele exato segundo. Tinha uma agressão iminente, gravíssima, que tava em curso. A mãe reagiu para salvar a criança e foi absolvida.
¶17E mesmo assim por um placar apertadíssimo de quarto a três. No apartamento de São Paulo não tinha agressão acontecendo, tinha um plano executado passo a passo. A justiça soube ver a diferença gritante entre esses dois casos. Agora, o tribunal da internet prefere misturar tudo na mesma lata de lixo moral da história. E tem aquele comentário que eu li para vocês que fala sobre a filha da Elise.
¶18A pessoa escreveu que espera que a menina não seja manipulada a ponto de não entender que a mãe era uma vítima. Gente, eh, pensa no nível da crueldade disso. Tem uma adolescente de 15 anos no meio dessa tragédia toda, porque é uma tragédia. Uma garota que cresceu sem o pai que foi assassinado, sem a mãe que foi presa, a mãe que fatiou o pai. Agora ela é obrigada a abrir a internet e ver milhares de pessoas transformando a mãe que matou o pai numa diva pop, numa inspiração feminina.
¶19Que tipo de consideração humana existe em cobrar de uma menina que ela preste, enfim, e empatia à mulher, a mãe que escortejou o pai? Para mim, isso é um egoísmo, um egoísmo enorme. As pessoas não tão pensando nessa menina, no que é melhor para ela. Tão pensando em construir uma história toda com uma narrativa que no final todas as mulheres eh se dão à mãos, né? Ninguém solta a mão de ninguém e todas as mulheres são absolvidas dos seus crimes.
¶20Então essa filha vai ter que absolver, vai ter que perdoar a mãe. Será que é por aí? Nenhuma narrativa de heroísmo cabe aqui, porque essa menina, essa adolescente, é a vítima real que ninguém nas redes sociais se importa em contabilizar. E vejam bem, o ponto mais grave de tudo, eh, de tudo isso é que esse discurso não tá restrito a uma militância radical de nicho. São mulheres comuns, são vizinhas, colegas de trabalho, conhecidas do grupo do WhatsApp, pessoas absolutamente, ou pelo menos aparentemente normais, que perderam completamente a bússola moral, embarcaram nessa onda de vingança que a gente tá vendo.
¶21gente que passou a achar que a justiça é a mesma coisa que esse linchamento que a gente vê acontecendo nas redes sociais. Eleger uma escartejadora como símbolo desmoraliza tudo que o feminismo sério construiu. O movimento de mulheres nunca jamais reivindicou o direito de matar. Sempre reivindicou o direito de viver, o direito de ser levado a sério na delegacia, de ver a medida protetiva ser cumprida, de não ser morta dentro de casa. Olha, inverter os papéis, né, de vítima e de agressor não vai tirar a gente desse buraco.
¶22Vai só piorar ainda mais a situação que a gente tá. As pessoas precisam urgentemente voltar à razão. A Elise Matsonaga não é heroína de nada, muito menos do feminismo. Ela foi condenada por homicídio qualificado. E se a nossa única resposta para essa selvageria for a celebração da própria selvageria, a sociedade inteira já perdeu.
¶23E eu não sei se a gente vai encontrar algum tipo de salvação. Agora me conta uma coisa, com as eleições se aproximando, como é que você tá se informando sobre essa disputa? Se é fugindo da polarização, o meio é o seu lugar. Newsletter gratuita de segunda a sexta, cedinho, direto no seu e-mail, 8 minutos de leitura, organizando o essencial para você compreender o dia sem ter que escolher um lado. Assina lá e experimenta, vale muito a pena.
¶24Três coisas que separam quem só assiste a seleção de quem realmente acompanha ela. Ó, a primeira, acessa as análises que costumam ficar restritas às salas de decisão. Ou seja, quem [música] lê pesquisa, poder, sociedade, por dentro. Você encontra esse material no meio político toda quarta-feira [música] e também em matérias e entrevistas na edição de sábado, além dos dados da pesquisa Meio Ideia Mensal, que agora interativa e te permite, [música] se você é assinante, fazer o recorte que mais te interessa dentro do nosso site. A segunda é ter opinião de verdade, não é prestada.
¶25É a diferença entre repetir o que ouviu e entender [música] porque aquilo aconteceu. O tipo de leitura que te deixa seguro numa roda de conversa traz repertório e não te deixa cair no argumento [música] pronto. E agora a terceira, a mais difícil. Atravessar essa eleição sem virar refém de bolha, militância, cinismo. Discordar faz parte, mas sem transformar [música] isso em guerra.
¶26É isso que o meio premium sustenta todo mês com catálogo de produções originais no nosso streaming. [música] Com a eleição chegando, não é só que você vai ficar mais por dentro, é que em nenhum outro lugar você vai entender melhor o movimento político [música] dos próximos meses. Só R$ 15 por mês. Assina meio premium. [música]