¶1Olha aqui. Você viu, que coisa bonitinha, eu até vou botar esse lápis aqui. Porque esse livrinho veio, chegou às minhas mãos assim. Ele se chama Voz Ativa, o manual do jornalismo anti-feminicídio. Foi escrito pela Niara de Oliveira e pela Vanessa Rodrigues e editado essa gracinha, essa tetéia, essa coisa fofa >> jornalista.
¶2>> pela Drox Editora. E o que que que ele é? Ele é um bloco de jornalista, essencialmente. Porque o que que ele é? Ele é um manual para jornalistas.
¶3Eu acho que ele é um livro que deve ser adotado em todas as as faculdades de jornalismo. Agora, olha que ediçãozinha mais caprichada, tem tem adesivos aqui que dizem não esquecer, nunca mais, atenção, importante. E ele ele é exatamente isso, ele é um manual. Ele tem ele é um caderninho. Ele é, de fato, um caderninho para você escrever e tomar, fazer anotações e tal.
¶4Mas é um tipo de educação fundamental, importantíssima. Hoje a gente tá falando tanto em feminicídio e uma das coisas que a gente não tá prestando atenção é a forma como a mídia tá lidando com isso. Então, esse se chama Voz Ativa porque na maioria dos casos ainda se usa voz passiva, a mulher foi encontrada morta. Mulher tem, é morta. Cara, a mulher não foi encontrada morta, não foi assim que caiu um raio do céu e ela foi morta.
¶5>> Uhum. >> Então, esse tipo de vício que você tem, a outra, outra coisa que elas apontam, aqui elas fazem considerações muito importantes, elas, elas partem de um livro delas mesmas que foi aliás finalista do Jabuti e se chama histórias de morte matada contadas feito morte morrida a narrativa de feminicídio na imprensa brasileira eu tenho a impressão que eu falei desse livro ou aqui ou no jornal porque é um livro muito importante e mostra esse tipo de coisa sabe o a outra que tem umas coisas que eu marquei aqui porque eu achei tão importante uma das coisas por exemplo é esse uso do termo suposto que me irrita mais não poder porque o cara é pego coberto de sangue dos pés a cabeça com a faca na mão e aí quando a gente faz a notícia ou quando vem a notícia tá o suposto assassino não né esse suposto a gente sabe essa esse é feito >> para escapar de processo >> não é só para escapar de processo é porque você pressupõe a inocência até a prova em culpado quer dizer enquanto o cara não é julgado você não pode dizer que ele é um assassino porque a justiça ainda não não cumpriu o seu papel mas está errado há um momento olha aqui o termo suposto embora possa ser usado para indicar uma hipótese quando empregado em excesso pode transmitir a ideia de falsidade ou dúvida injustificada e é isso que que ele traz e é isso que irrita tanto o leitor porque eu acho que como jornalistas como gente que escreve para outras pessoas lerem a gente tem que se pôr no lugar das outras pessoas e eu como leitora como ouvinte eu cada vez que o jornal diz de um sujeito que é obviamente um assassino obviamente um criminoso que ele é o suposto assassino, quando é óbvio que foi, quando ele confessou, quando ele foi preso em flagrante. Isso me faz descrer da justiça e me faz crer da imprensa também. >> [roncando] >> Mas isso é um problema tão difícil. >> É um problema muito difícil, mas a gente tem que pensar sobre esse problema.
¶6>> Não, [limpando a garganta] é claro, não é porque é difícil que a gente não vai pensar sobre isso. Mas é é porque existe a presunção de inocência. [roncando] >> Existe a presunção de inocência, mas mesmo quando o cara está coberto de sangue, com a faca na mão, pode ser que alguém tenha entrado, jogado um balde de sangue nele ou de tinta ou whatever, enfim. Não, eu estou, evidente que eu estou exagerando aqui. Mas eu acho que o até aqui, o que ela diz aqui, o desafio para o jornalista é encontrar o equilíbrio entre a presunção de inocência e o dever de informar com clareza e precisão.
¶7>> Uhum. >> Se você diz que um assassino confesso é o suposto assassino, você não está sendo preciso. Você está dando uma margem de dúvida ali para aquele cara, >> Claro. >> que ele não merece. >> Claro.
¶8>> Sabe? >> Claro. >> Então, o que eu gostei muito, ah, olha, elas concluem dizendo isso, o objetivo não é antecipar um julgamento e sim fornecer ao público informações factuais e contextualizadas sobre o andamento do caso. >> Uhum. >> Então, a gente tem que pensar muito em como a gente está escrevendo esse guia.
¶9Eu acho excelente, eu eu eu acho que ele deveria ser adotado em todas as as faculdades de jornalismo, provavelmente será, porque é um é um um recurso maravilhoso, ele tem fontes de dados e de pesquisas. >> a forma da edição é espetacular. >> É é é uma é uma obra de arte, né? Tá aqui, olha, elas têm recursos para jornalistas, tá vendo? Tem sugestões de fontes complementares e lista de fontes especializadas, então, é, digamos, é um, é um livro dedicado à categoria, mas que eu acho que pode se tornar uma uma leitura interessante para qualquer pessoa.
¶10>> E pelo que eu tô entendendo do que você tá descrevendo, as fontes são um desafio a, tenta escapar dos clichês diversos que a gente usa. >> Exatamente. >> Para pensar sobre, de fato, o que que são as histórias que a gente tá contando. >> É, exatamente, e tem olha, e, elas dizem o que que você tem que fazer antes da apuração. Você tem que se preparar emocionalmente, para início de conversa, né?
¶11Durante a apuração, como é que você deve se comportar. Após a apuração e a e a publicação. Ritual de desligamento, criar um hábito que marque o fim do trabalho. Caminhar, ouvir música, o que for. Processamento emocional e não levar o caso para casa.
¶12Você vê, ele é muito voltado para a nossa profissão também, porque cobrir esses casos é emocionalmente exaustivo. >> Eu nunca consegui. >> Eu tive que cobrir dois casos horríveis, horríveis. E um foi um, o assassinato de uma menina chamada Araceli. >> Uhum.
¶13>> E eu tava grávida, né? >> famoso. >> É, eu tava grávida naquela época. Chefia de redação idiota, sinceramente, você não manda uma jovem grávida, aliás, eu muito jovem >> Chefia de redação idiota. >> e muito grávida, para cobrir o caso do assassinato de criança terrível, né?
¶14Aí, o papel das redações e dos editores é zelar pela saúde mental da equipe é uma responsabilidade institucional. Redações devem possuir rodízio de pautas, briefings e debriefings emocionais, acesso a psicólogos, enfim. Tá tudo aqui no papel, sabe? Então eu acho esse livrinho precioso. Eu não traria normalmente porque o como se ele é um manual >> Claro.
¶15>> de jornalismo para jornalistas mas eu acho que ele vai além. Eu acho que dá para a gente pensar como hoje todo mundo escreve em rede social como todo mundo reage em rede social e como esses assuntos fazem parte do nosso cotidiano esse livro dá muito que pensar. Eu acho que ele é um um bom presente para quem tá pensando em escrever, para quem escreve, jornalistas têm que ler. Jornalistas que não só os que cobrem essa área porque a gente nunca sabe quando a gente vai ter que escrever sobre o assunto. >> É um tema importante, a gente tá e a gente tá escrevendo mais sobre isso, a gente tá o o o o jornalismo descobriu que feminicídio existe, né?
¶16>> Pois é. >> E o e o que eu quero dizer com com essa frase é a a gente parou como classe, né? A gente parou de falar de crime passional, a gente parou de falar >> coisa que elas observam aqui. >> É é a gente a gente já passou a tratar a coisa pelo que a coisa é. >> É, é um crime de ódio.
¶17>> É um crime de ódio contra mulheres é e que tá e intimamente ligado ao sentido de posse que o homem tem da mulher, né? >> E que tem crescido porque a A cada vez mais ocupa espaço na sociedade e o homem não está preparado para isso, nem todos os homens estão preparados para isso. >> é mais do que isso, eu acho que tem tem isso é mas a gente tem um um muitos índices é é a gente tem muitos índices mostrando que o aproveitamento na escola e na universidade de mulheres está maior do que o de homens. Então isso quer dizer que você forma cada vez mais mulheres do que homens. >> Sim.
¶18>> É na classe média baixa o número de mulheres formadas já é muito superior de homens formados. Isso dá uma diferença de renda é então o numa [limpando a garganta] cultura que é machista você tem uma quantidade de homens se sentindo é inferiores às mulheres por causa de renda. >> Por quê? Se você considerar o que constitui a pessoa ser vencedora ou não na nossa sociedade ainda é renda. >> é a renda, claro.
¶19>> Então só >> É claro. >> É complicado. >> Então aí tem as coisas culturais, né? O o menino precisa sair para trabalhar porque os pais acham que ele tem que trazer dinheiro para casa. A menina precisa menos e isso é uma das coisas que vão enfim é a gente tá num momento crítico na sociedade em relação a isso.
¶20>> Muito complicado. E esse livro eu achei excelente como livro eu achei extraordinário como apresentação porque em geral você tá na na faculdade as obras de referência são sempre chatas, né? Não são edições eu tô dizendo chatas no sentido de monótonas visualmente >> edição assim [limpando a garganta] convida >> Não tem uma coisa lúdica que essa daqui tem, por que que um >> É. >> um livro na faculdade não pode ter os adesivinhos, né? >> Claro.
¶21>> É lindo, o caderninho, olha, o perfeito caderninho do jornalista. [limpando a garganta] >> Voz ativa. >> Voz ativa, manual do jornalismo anti-feminicídio, Dani Arrais de Oliveira, Vanessa Rodrigues e com parabéns enormes para a editora Drops porque eles fizeram um trabalho. Aliás, a Drops é super caprichosa, uma editora muito pequena mas faz cada coisa tão linda, sabe? são tão caprichosas que que eu fico feliz quando eu vejo cada lançamento deles, é sempre muito caprichado, feito com muito amor.
¶22Esse aqui é um exemplo.