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O risco que Lulinha apresenta para reeleição de Lula | Cá Entre Nós

¶1Tem gente que diz que a eleição de 2026 vai ser decidida no primeiro turno. Tem gente que aposta que vai ser no segundo turno. Tem gente que já garante até o nome do próximo presidente. Há quem jure que o decisivo vai ser a economia, outros que vai ser a soberania. Ih, até rimou.

¶2Mas eu tô começando a pensar que essa eleição, no fundo, é sobre pais e filhos. De um lado, Flávio Bolsonaro, que não é só filho do Jair, é também candidato, é meio que vice do fantasma vivo do pai, tenta ser herdeiro do capital político do capitão e carrega ele mesmo um histórico de escândalos que vão da mansão em Angra dos Reis ao afer com banco master no rolo do filme sobre adivinhe só o seu pai. Do outro lado, Fábio Luiz Lula da Silva, o Lulinha, que não é candidato a nada, nunca foi, mas que ainda assim reaparece a cada eleição e consegue mobilizar Brasília inteira. Só da semana passada para cá, a Polícia Federal pediu a abertura de três inquéritos contra ele e o Supremo autorizou os três. Dois pais, dois filhos, dois problemas e, em tese, duas formas diferentes de lidar com eles.

¶3Vale a gente mencionar que nenhum dos dois filhos mais velhos, das duas figuras mais populares da redemocratização, à esquerda e à direita, nunca foi condenado a nada. E ambos têm investigações neste momento caminhando contra si. Meu mergulho nesta coluna não é tanto sobre o lado judicial das acusações, mas dos seus efeitos políticos, especialmente no que se refere a Lulinha. E por uma razão muito simples, o argumento central de defesa do presidente Lula e do PT, sempre que uma nova acusação ou denúncia contra alguém do seu campo aparece, é o de que nos governos petistas a Polícia Federal e o Ministério Público têm liberdade de investigar e a justiça de julgar. Um dos trunfos desse argumento é o fato de que o próprio Lula acabou condenado e se entregou para cumprir pena, sem pedir golpe, e só foi solto quando a própria justiça concluiu que os processos que o condenaram não haviam valido.

¶4Acontece que o caso Lulinha revelou até aqui mais do que um possível tráfico de influência do filho do presidente, o que já seria grave, mas politicamente contornável caso isso fique provado, ele seja julgado e condenado. Se Lula puder sustentar o discurso de que viu o próprio filho pagar por seus erros de maneira republicana. O que vem sendo contado pela imprensa e pela própria cronologia dos fatos públicos é uma briga de versões nos bastidores. A peleja é entre o ministro André André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal e a cúpula da Polícia Federal, com suspeitas de que o diretor geral da corporação, escolhido pelo próprio Lula, pode ter agido para proteger Lulinha. A acusação na mão contrária é a de que Mendonça, escolhido por Jair Bolsonaro, age com desconfiança da PF e com velocidades diferentes paraa investigação que envolve Flávio e o Máster.

¶5Então, hoje o cá entre nós é sobre as suspeitas reais que envolvem Lulinha e os riscos políticos potenciais e já precificados que eles representam pra campanha de Lula. Mas vamos dar um passinho atrás antes. E aqui eu vou me inspirar na newsletter do meu querido amigo Thomas Trauman no Globo, que é sempre excelente e eu recomendo. Uma das forças mais constantes da política brasileira desde a redemocratização é o antilulismo, certo? Desde 1989, em praticamente todo o segundo turno presidencial, essa força aparece como um dos eixos organizadores do voto.

¶6A gente poderia dizer que é o mais poderoso deles não fosse o fato de que Lula ganhou a maioria das eleições que disputou se considerarmos que ele fez a sucessora, inclusive a Dilma, duas vezes. Lulismo e antilulismo medem forças a cada 4 anos. Em 2018, o antilulismo ganhou uma versão mais radical, o bolsonarismo, que segue posto como vetor do campo contrário a Lula. O fato de que Lula voltou a ganhar em 2022 por pequena margem sugere que ele segue sendo maior que o antilulismo, ainda que apenas ligeiramente maior. O fato de que Flávio segue apresentando imensas imensa resiliência nas intenções de voto, mesmo depois do caso Dark Horse e da briga com Michele Bolsonaro, também indica que nesses 4 anos de terceiro mandato, Lula não conseguiu diminuir o antilulismo.

¶7Mais do que isso, embora Flávio apareça constantemente, pelo menos cinco pontos atrás de Lula nas intenções de voto do segundo turno, na maioria das boas pesquisas, a avaliação de Lula não melhora quase nada, mesmo com todas as medidas eleitorais que o incumbente tem à sua disposição. E Lula vem dispondo delas, claro, isso reforça que o bolsonarismo e a direita, a direita como um todo, seguem turbinados pelo antilulismo. Pois bem, voltando ao trauman, vou tomar emprestada a expressão que ele usou para definir como Lulinha se encaixa nesse contexto. O filho mais velho do presidente e sua atuação como empresário enrolado frequentemente com negócios e pessoas suspeitas funciona como uma espécie de fetiche do antilulismo acionado a cada eleição. não ajuda em nada o fato de que Lulinha parece est sempre vestido de couro e empunhando um chicote nas mãos.

¶8Vamos combinar, né? Tá. Eu peguei um tipo de fetiche bem específico, cada um que imagine o seu. Mas veja, as acusações da vez são de que Lulinha fez lobby no Ministério da Saúde por uma empresa do careca do INSS de medicamentos de cannabis e por uma empresa de um suposto sócio oculto do careca do INSS para obter contratos no data préve. Não bastasse, o Marcola, chefe de gabinete de Lula, até duas semanas atrás, admitiu que recebeu pagamentos de Roberta Luxinger, amiga de Lulinha e lobista do careca do INSS.

¶9Marcola jura que foram empréstimos pessoais, mas mesmo que seja isso, o que fica difícil acreditar, é se a gente não sabe pegar empréstimo em banco, não. Porque o que quer que fique provado com as investigações não muda o fato de que as suspeitas chegaram à anteessala do presidente Lula. E para explicar o que é ou o que não é verdade, ele vai ter de gastar imensa energia e capital político. Isso tudo com esse contexto novo de um antilulismo em busca de abrigo na cédula eleitoral, pressionando a pequena margem de vantagem que Lula apresenta nas pesquisas e de uma ameaça esse argumento central de da defesa do presidente, da sua absoluta isenção no correr das investigações. Vamos entender um pouco melhor esses dois fenômenos.

¶10Então fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do meio. Falando em pesquisa, no primeiro minuto desta quarta-feira, 5 de agosto, a gente manda no e-mail dos assinantes premium a nova rodada da pesquisa Meio Ideia. São dados de qualidade, confiáveis, pensados para te entregar uma análise que vai além da corrida de cavalinhos dos candidatos, sabe? A gente sempre pergunta sobre algum assunto da atualidade também para entender como os eleitores estão pensando nesse momento da disputa, nesse retrato.

¶11Então, assine o meio agora mesmo, receba a pesquisa a partir da meia-noite e saia na frente como referência de informação fresquinha e embasada. [música] >> [música] >> É óbvio que quem é bolsonarista raiz ou antilulista convicto, mas de outras filiações, não precisa de muita coisa para justificar que não vai votar no Lula. Seu filho sendo ou não inocente, o presidente tendo ou não contado com a proteção da Polícia Federal, tendo ou não ganhado o triplex e o sítio, etc., tudo tá na conta do Não voto nesse cara de jeito nenhum. E isso funciona na outra via, certamente, e retroalimenta a polarização afetiva, aquela em que não basta eu gostar do meu político, eu também tenho de odiar o político dos outros. Lula e Flávio e seus respectivos grupos sabem disso.

¶12Não à toa eles tratam certas denúncias como precificadas, traduzindo, como tem um contingente grande de gente que não vai votar no meu candidato de qualquer maneira, uma manchete negativa a mais ou a menos, não faz tanta diferença assim. Aí vem os escândalos não precificados, os que podem mexer nos ponteiros dos eleitores, nem nem os que não querem votar em nenhum dos dois polos, justamente por não se empolgar com ninguém. Esses eleitores vão provavelmente escolher em quem votar, fazendo uma listinha de razões para rejeitar menos um do que o outro, não sobre coisas que gostam em ambos, certo? E um dos itens para rejeitar a família Bolsonaro é a certeza de que Jair Jair Bolsonaro usou tudo que pôde quando era presidente para blindar os filhos e a si mesmo das investidas da Polícia Federal e de outros órgãos fiscalizadores como COAF. aquela fala dele na reunião ministerial, eh, dizendo que não ia esperar alguém ferrar a sua família para demitir delegado, ministro, todo mundo, é um marcador muito negativo e se uniu às acusações do então ministro da justiça, Sérgio Moro, nesse sentido, tudo devidamente já superado pelo Moro.

¶13Claro, Lula sempre se valeu do argumento de que age de forma oposta, que a Lava-Jato só chegou onde chegou porque seus governos e o de Dilma, os dois de Dilma, não só fortaleceram a PF, como deixaram que ela atuasse livremente, assim como os promotores e procuradores do Ministério Público. Só que esse discurso está sob suspeita agora, porque dentro do próprio caso Lulinha explodiu essa queda de braço institucional entre o ministro André Mendonça e a cúpula da Polícia Federal comandada por Andrei Rodrigues, que foi nomeado diretorgeral da corporação por Lula e que tem longa trajetória nos governos petistas. Mendonça, ministro por sua vez indicado por Bolsonaro e relator de todo o processo do INSS, determinou que a Polícia Federal lhe enviasse diretamente e de forma imediata todo o material bruto da investigação, sem passar pelo filtro padrão da própria corporação. E foi além. determinou que Andrei Rodrigues ficasse sem acesso às informações do caso e que qualquer mudança na equipe investigativa fosse comunicada previamente ao seu gabinete.

¶14O motivo declarado por Mendonça foi garantir uma investigação sem interferência política e assegurar a defesa acesso aos elementos já produzidos. Ele também teria recebido informações de que depoimentos e relatórios periódicos não estavam sendo juntados aos autos, como havia sido determinado anteriormente. O embrolho entre STF e PF já vinha de quando Dias Tofol era o relator do caso master, mas escalou em maio, quando a Polícia Federal trocou a coordenação responsável pelo inquérito do INSS. Uma mudança que pegou o gabinete de Mendonça de surpresa e o desagradou. Foi depois dessa troca que Mendonça formalizou a exigência de ser avisado previamente sobre qualquer afastamento de policial da equipe.

¶15A PF reagiu acionando a advocacia geral da União para contestar essas medidas, alegando que isso fere a autonomia do delegado garantida, garantida por lei. Do lado da PF, o argumento também é que a exigência de material bruto direto quebra um procedimento padrão, que é de analisar provas, produzir relatório consolidado, só então enviar esse relatório ao relator, preservando a cadeia de custódia. E isso foi lido internamente como um sinal de desconfiança de Mendonça quanto à imparcialidade da corporação, o que levou então a cúpula a acionar a GU. Há também o argumento de que Mendonça é mais ágil nas decisões envolvendo o escândalo do do INSS do que do caso master, inclusive no inquérito que investiga o caso Dark Horse, que envolve Flávio Bolsonaro. Se as suspeitas se confirmarem de um lado, se ficar demonstrado que Andrei Rodrigues agiu para proteger Lulinha, o discurso de Lula de que ele nunca usa o aparato de estado para blindar os seus fica seriamente comprometido.

¶16E esse risco Lulinha certamente não está precificado. >> Três coisas que separam quem só assiste e a seleção de quem realmente acompanha ela. Ó, a primeira, acessa as análises que costumam ficar restritas às salas de decisão. Ou seja, [música] quem lê pesquisa, poder, sociedade, por dentro. Você encontra esse material no meio político toda quarta-feira e também em matérias e [música] entrevistas na edição de sábado, além dos dados da pesquisa Meio Ideia Mensal, que agora interativa e te permite, se você [música] é assinante, fazer o recorte que mais te interessa dentro do nosso site.

¶17A segunda é ter opinião de verdade, não é prestada, [música] é a diferença entre repetir o que ouviu e entender porque aquilo aconteceu. O tipo de leitura que te deixa [música] seguro numa roda de conversa traz repertório e não te deixa cair no argumento pronto. E agora a terceira, a mais difícil, [música] atravessar essa eleição sem virar refém de bolha, militância, cinismo. Discordar faz parte, mas sem transformar isso [música] em guerra. É isso que o meio premium sustenta todo mês com catálogo de produções originais no nosso streaming.

¶18Com a eleição chegando, não é só que você vai ficar mais por dentro, [música] é que em nenhum outro lugar você vai entender melhor o movimento político dos próximos meses. [música] Só R$ 15 por mês. Assina meio premium. >> [música]