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I Was Raised Evangelical, Now Studying God at Oxford — Here is My Worldview | Miles K. Donahue

a tese

Entrevista de perfil em que Miles K. Donahue, doutorando em Oxford criado no fundamentalismo evangélico, expõe um agnosticismo tentativo em quase tudo e assume que sua crença em Deus se sustenta menos na força dos argumentos (a credência dele no teísmo pode ficar abaixo de 50%) do que num argumento pragmático independente da verdade: crer estabiliza a vida, e por isso ele reza e age como se Deus existisse.

aprofundar

talvez

porque o valor não está nos argumentos (nada aqui é novo em relação aos vídeos do próprio canal dele) mas na confissão metodológica: um filósofo da religião de primeira linha admitindo que sua fé se apoia num pragmatismo à la James, independente da verdade, é um caso de estudo direto para o que Bruno resiste quando fala de fidelidade ao evangelho.

O que foi dito

  • Donahue narra a formação num lar batista fundamentalista (criacionismo de terra jovem, obsessão com arrebatamento e segunda vinda) e a escada que o tirou de lá: Lee Strobel e “Em defesa de Cristo”, depois William Lane Craig, “Philosophical Foundations for a Christian Worldview” de Craig e J. P. Moreland, e enfim Alvin Plantinga, de quem diz ter adotado por atacado o duplo ideal de clareza e rigor.
  • Sobre as críticas correntes à filosofia da religião, ele concede as duas (motivação apologética que precede a investigação; desconhecimento das outras subdisciplinas, já que a filosofia da religião é o eixo de uma roda cujos raios são todas as demais áreas), mas argumenta que ambas afligem os filósofos em geral, porque pouquíssimos mudam de posição depois de assumir publicamente uma tese.
  • Ele conta que lhe disseram, ao candidatar-se a programas de doutorado, que ter mestrado em teologia filosófica, mesmo em Oxford, e um projeto sobre fine-tuning não ajudavam sua candidatura.
  • Perguntado pela probabilidade que atribui à existência de Deus, responde que não a colocaria alta e que, sob pressão, ficaria abaixo de 50%; sustenta que os benefícios pragmáticos de habitar a crença são grandes o bastante para tornar racional cultivá-la independentemente de ser verdadeira, e reconhece que a resposta frustra tanto os crentes quanto os ateus.
  • Sobre fine-tuning ele é enfático: o argumento é discutido, antigo e resistente demais para cair por uma objeção que caiba num comentário de YouTube; a dificuldade real é o problema do gap, porque comparar teísmo apenas com o naturalismo de universo único e fatos brutos não diz nada sobre as hipóteses intermediárias, e foi isso que motivou seu artigo no Canadian Journal of Philosophy sobre simulações e universos conscientes.
  • Contra o Deus limitado de Philip Goff, ele objeta que a hipótese é ad hoc e de baixa probabilidade intrínseca, sobretudo porque Goff precisa de um Deus poderoso o bastante para ajustar as constantes da física e incapaz de impedir Caim, o Holocausto ou um gato preso na árvore; contrapõe a simplicidade do Deus de Robin Collins, derivado do único atributo de consciência ilimitada.
  • Sobre a hipótese da simulação, aplica o problema dos cérebros de Boltzmann e a instabilidade cognitiva de que fala Sean Carroll: toda evidência de que estamos numa simulação viria de dentro dela, de modo que crer nisso serra o galho da própria justificação.
  • O que o tira o sono não é Deus, mas o livre-arbítrio libertário: ele o defende, teme os argumentos de ininteligibilidade e a pergunta de como o cérebro poderia ser fonte desse poder, e conclui que sem responsabilidade moral o amor perde o que o torna valioso.
  • Ele é pessimista quanto ao progresso filosófico: dois mil e quinhentos anos depois, a filosofia é boa em descartar argumentos ruins e fraca em estabelecer teses substantivas, e nem uma superinteligência resolveria, porque a dialética se recriaria num nível mais alto; sobre AGI, dá 50/50 e admite às vezes desejar ter vivido cinquenta anos atrás, antes do risco de a filosofia humana virar redundante.
  • Nas conversas do próprio podcast, aponta Michael Huemer (seis participações, dualista de substância, ateu, realista moral e simpático à reencarnação), Randal Rauser e Ethan Muse como os interlocutores que mais o forçaram a pensar; com Muse a discordância foi frontal sobre fine-tuning, papado e inferno eterno, tema que ele diz ainda estar processando.
  • Quanto ao que mudaria sua posição, responde que só uma experiência religiosa como a de Tomás de Aquino, que passou a ver a Suma como palha, ou um milagre presenciado, e observa que não existe anti-milagre simétrico que o empurrasse para o ateísmo; quando o entrevistador sugere a tragédia (a mulher de Jó mandando amaldiçoar a Deus e morrer), ele concede o ponto e diz não ser presunçoso como Pedro a ponto de garantir que jamais negaria.
  • Ele afirma nunca ter tido experiência religiosa, paranormal ou miraculosa, e é isso que torna o naturalismo inicialmente plausível para ele; encerra dizendo que, se pudesse fazer uma pergunta a Deus com resposta garantida, pediria para ver o plano por um instante e entender por que o sofrimento humano de fato acontece, não uma abstração sobre bem maior.