¶1uma menina de 13 anos tirou a própria vida numa transmissão ao vivo no Discord. É até difícil encontrar o que falar, né? Eh, a gente deveria estar pensando o que que tá acontecendo com esses adolescentes? É o tipo de notícia que devia fazer a gente parar tudo, olhar para dentro de casa, para dentro da escola, paraas nossas instituições. Mas o que aconteceu no minuto seguinte, o de sempre, não teve gretaria, é verdade, porque a gravidade desse caso impõe um tom de luto.
¶2Mas eu vi muitos vídeos nas redes sociais, gente comovida, né, com discursos emocionados, muita emoção e quase nenhuma informação, nada, absolutamente nada que ajudasse alguém a entender o que está acontecendo com essa geração. E no meio desse, né, mard de emoções, voltou à conclusão de sempre: proíbe, tem que tirar o discórde do ar, tem que acabar com esse aplicativo. Eh, eu vi política, eu vi influenciador, eu vi celebridade, a primeira dama janja, todo mundo embarcou de novo no discurso proibicionista. É a mesma cena de quando miraram no TikTok, vocês se lembram? É gente que não faz a menor ideia de como a internet funciona correndo lá para pegar o microfone, para pedir a extinção do aplicativo da vez, movidos muito mais eh pela comoção do que por qualquer conhecimento do assunto.
¶3E o que eles vendem é uma ilusão gostosa, né, de comprar. Apaga lá aquele ícone na tela do celular que tá ameaçando essas crianças e tá tudo resolvido. Não tá, gente, proibir uma uma plataforma não vai salvar as nossas crianças. E eu quero explicar porquê por que a gente precisa parar de transformar essas tragédias em demagogia digital para entender porque que proibir não resolve, que a gente precisa olhar como é que esse crime funciona na prática. Não é uma loja, não dá para chegar lá, baixar a porta, botar um cadeado e pronto, acabou, o dono foi embora.
¶4Que a gente tá vendo funciona mais ou menos como a híbra da mitologia grega. Sabe aquela serpente que você corta uma cabeça e nasce três no lugar? É a imagem exata do que acontece na internet. Você não elimina o bicho cortando a parte dele que tá aparecendo, porque aliciamento de menor, indução ao suicídio, incitação, automutilação, nada disso depende do aplicativo onde aquilo tá acontecendo. O aplicativo é só o endereço da vez, é o hospedeiro temporário.
¶5E olha que o Discord nem foi feito para isso, ele nasceu como uma ferramenta pros gamers, para conversar por voz enquanto joga. Tem servidor aberto, mas tem principalmente sala privada fechada por convite. E foi nessas salas que esses grupos se instalaram, porque exatamente ali querem ver o que tá acontecendo. Só que esses grupos não moram só ali, eles moram em todo lugar ao mesmo tempo. As investigações mostram redes que operam simultaneamente no Discord, no Telegram, no Roblox, no Minecraft, em fórum fechado, em servidor privado, vai fechar tudo.
¶6São estruturas descentralizadas, sem sédio, sem liderança visível, organizadas em célula e que caçam adolescentes justamente onde ele tá mais frágil, em comunidade de saúde mental, em grupo de gente solitária, em espaço de quem tá procurando alguém para conversar. Aí o governo dá uma canetada hoje, bloqueia o Discord no país inteiro e amanhã, amanhã esses mesmos grupos já estão em outro lugar. Essa molecada é rápida. A migração não leva 5 minutos. O cara que alicia uma criança leva o grupo inteiro na hora pro Telegram, pro Simplex, pro Wire, pro Kick, pro Rob, pro Roblox, pro fórum, que a maioria dos adultos nem sabe que existe.
¶7Isso, ó, não é novidade. A gente já viu esse filme, tá? Quando o X foi bloqueado no Brasil em 2024, o uso do VPN no país cresceu 1600% em um dia. Se você não sabe o que é VPN, é simples. É um aplicativo que faz a sua conexão parecer que ela tá saindo de um outro país.
¶8Você tá aqui em São Paulo, no Rio de Janeiro, mas a internet enxerga você no Canadá, na Alemanha, onde for. Baixa em 2 minutos, tem versão de graça e pronto. O bloqueio brasileiro deixa de existir para você. Não é hacker, não é dark web, não é nada, é um botãozinho. Foi isso que aconteceu com o X, 1600% num dia.
¶9Quando bloquearam o Telegram, a mesma coisa. Todo mundo instalou, continuou usando. Não existe um caso brasileiro em que o bloqueio tem acabado com o comportamento. Ele só mudou de endereço. Você fecha uma porta e aí não morre.
¶10Ela só reaparece com mais cabeças em salas. mais subterrâneas, mais escuras e muito mais difíceis de vigiar. E repara na perversidade da coisa. Quem sabe usar VPN é justamente quem organiza a rede criminosa. Quem não sabe é a menina de 13 anos que jogava ali com os amigos.
¶11O bloqueio acaba expulsando o usuário comum e mantém o predador. É uma peneira que filtra exatamente o contrário. E aqui entra a parte técnica que ninguém explica nesses vídeos, né? cheios de emoção. Banir a plataforma é um tiro no pé da própria segurança pública.
¶12Aí você me diz: "Ah, Marilis, mas essas empresas não cumprem ordem judicial nenhuma". O juiz pede a quebra de sigilo, pede o IPI do criminoso, elas enrolam, criam caso, ignoram. Tudo é verdade, tá? A colaboração dessa turma é lenta, burocrática, profundamente irritante, mas tem uma diferença enorme que quem defende a proibição finge não enxergar ou não enxerga mesmo. Discore, TikTok meta, todos eles têm representação legal no Brasil.
¶13Tem CNPJ, tem conta bancária, tem executivo aqui. Ou seja, dá para apertar. A justiça pode multar em milhões por dia, pode congelar conta, pode intimar o diretor, pode obrigar a mudar a configuração pardão do aplicativo. Existe rastro, tem endereço, tem alguém para responder por aquilo. Agora me diz o que que acontece quando o estado vai lá e acaba, bane a plataforma oficial, ele empurra essa meninada toda direto pro colo do aplicativo clandestino, hospedado em paraíso fiscal, desenhado de propósito para não obedecer lei nenhuma, sem dono conhecido, sem escritório, sem servidor rastreável, sem ninguém para intimar.
¶14O resultado é é um apagão total. A polícia que já não tem estrutura para investigar crime cibernético como deveria, fica de mãos amarradas. Você troca uma briga judicial difícil contra uma empresa grande por uma investigação simplesmente impossível. E olha só, gente, quem comemora é o aliciador, porque ele acabou de ficar invisível. Repara que nesse caso que a gente tá falando, a investigação funcionou.
¶15A operação da polícia identificou, aprendeu eh as pessoas envolvidas em cinco estados diferentes. Isso é rastro digital sendo seguido. É exatamente esse rastro que desaparece quando a rede migra para onde ninguém coopera com ninguém. A gente tá falando do Discord, mas essa mesma investigação mostrou que esses criminosos atuavam em outras plataformas. Ou seja, tem gente levantando a bandeira para derrubar o Discord, para banir o Discord, mas e as outras redes?
¶16Vai derrubar todas as outras redes? Será que não não dá para parar para pensar que não adianta derrubar uma rede ou duas ou 10 redes que não é este o problema, que não é essa a questão? Então, gente, proibir dar um monte de manchete, alívio de consciência, mas a gente tá cobrando exatamente o que dos nossos governantes. A gente devia est cobrando regulação dura, que é chata, é lenta, é técnica, não vende vídeo emocionado. A primeira coisa é segurança desde o projeto, o que o pessoal chama de segurança por concepção.
¶17plataforma nenhuma poderia lançar transmissão ao vivo para menor sem idade sem trava de segurança pronta antes de o produto ir ao ar. Isso quer dizer moderação de verdade em português feita por gente que entende o país. Quer dizer inteligência artificial obrigada a derrubar transmissão de violência, de automutilação no instante em que ela começa. Quer dizer idade que funcione. Não aquela bobagem lá de você clicar num botão dizendo que você tem mais de 18 anos.
¶18E quer dizer canal de emergência ligado direto na segurança pública, sem intermediário e sem formulário para preencher. Segunda coisa é inteligência policial para valer. Gente, essas células aí não brotam do nada. Elas dão sinal, deixam rastro, funcionam em rede e se contaminam umas às outras. O estado não pode aparecer só no final para recolher o corpo.
¶19Precisa de delegacia cibernética aparelhada, com investigador treinado para monitorar, infiltrar, desmontar esses grupos e prender essa gente antes que eles façam uma próxima vítima. Aliás, o Congresso acabou de provar uma lei que permite infiltação policial em ambiente virtual. Acabou de aprovar. A gente precisa olhar o que que a gente tem de ferramenta, o que que precisa ainda que seja criado, mas muito mais fácil pedir bloqueio, né? Isso diz muito sobre a nossa pressa de parecer que que a gente tá fazendo alguma coisa.
¶20Combater crime se faz com polícia na cola de criminoso, não com burocrata desligando o sinal da internet. E agora a parte incômoda, né? Aqui os vídeos comovidos passam bem longe. O aplicativo é o palco onde a tragédia acontece, mas a matériapra é a dor, é o isolamento, é o abandono dessas crianças e adolescentes que faz uma menina de 13 anos procurar acolhimento, validação, sensação de pertencimento dentro de um grupo que vai sequestrá-la, torturá-la e fazer o que ela fez. Essa pergunta que a gente devia estar fazendo, essa pergunta que é mais difícil de responder.
¶21Eu tô vendo pouca gente discutindo sobre isso, porque é muito mais fácil culpar a tecnologia do que encarar a crise de saúde mental que tá devastando os nossos adolescentes. É muito mais fácil apontar o dedo pro algoritmo do que admitir que falta escuta dentro de casa, que falta alertamento de tal, que a rotina esmaga todo mundo, que a gente virou uma sociedade de analfabetos afetivos, que não sabe perguntar como outro tá e não sabe ficar quieto esperando a resposta. Até a morte de uma adolescente como se fosse um bug do Discord é também terceirizar a nossa responsabilidade coletiva. Proibir funciona como anestésico, né? O político faz lá o teatro dele assim no projeto, ganha manchete, os influenciadores fazem vídeos, os adultos vão dormir com a sensação de dever cumprido.
¶22Só que canetada, gente, não resolve dor, não resolve depressão, solidão, vazio, não resolve essa busca desesperada por pertencer, que empurra essas crianças adolescentes pro colo de aliciador. Enquanto a gente continuar tratando essa crise psíquica de uma geração inteira, como se fosse um problema da tecnologia, vai continuar enxugando o gelo. E pior, vai continuar enterrando mais crianças. Proibir é fácil, dá like, dá engajamento, aliviar a consciência. Agora, regular com rigor, reestruturar a inteligência da polícia, sentar para escutar o que que tá acontecendo com essas crianças, dá um trabalho enorme.
¶23A gente precisa parar de dar palco e engajamento para pessoas que não entendem o funcionamento dessas redes e como tudo acontece, porque senão a gente vai ficar patinando no mesmo lugar, né? A pergunta é até quando que a gente vai aceitar esse teatro enquanto todo esse horror continua acontecendo na sala ao lado? Antes de eu me despedir, deixa eu deixar uma dica com vocês. Nesta semana saiu mais uma rodada da pesquisa Meia Ideia, a pesquisa eleitoral do meio feita em parceria com o Instituto Ideia. Ela traz um retrato atualizado da corrida presidencial depois das convenções partidárias e pela primeira vez perguntou como os brasileiros enxergam a influência do Donald Trump e dos Estados Unidos na eleição brasileira.
¶24Agora, quem é assinante premium tem uma vantagem, recebe cada nova rodada em primeira mão à meia-noite antes de todo mundo. É uma forma de começar o dia já com o acesso aos dados completos e acompanhar a discussão desde o primeiro momento. Se você ainda não é nosso assinante premium, o link tá aqui na descrição e o QR code também aparece aqui na tela. A gente se vê na semana que vem. Elas estão se aproximando as eleições e aqui no meio você acompanha com dados de verdade sem depender de conteúdos pouco confiáveis das redes sociais.
¶25Você sabe, né? A pesquisa Meio Ideia é uma das nossas bússolas. É a nossa [música] pesquisa independente registrada no TSE, feita todo mês em parceria com o Instituto Ideia. A edição de agosto traz o retrato mais atual da corrida. Quem é assinante premium recebe a pesquisa completa [música] em primeira mão e ainda garante acesso à nossa plataforma interativa que permite o cruzamento da intenção de voto por região, por classe, por gênero, para comparar com as rodadas anteriores e ver com os próprios olhos o que que mudou de verdade a cada mês.
¶26Esse tipo de leitura, até pouco tempo [música] atrás, só quem trabalhava dentro de um banco ou de um partido conseguia ter acesso. Agora tá disponível para quem assina o meio prêmium. Em um ano como esse, olha, vale o ouro. Assine e receba mais esse material exclusivo. >> [música] [música]