¶1Tem uma cena do seriado House que voltou a circular com força nas redes como resposta à nova onda antivacina nos Estados Unidos e no Brasil. É aquela em que o doutor refuta, com todo o seu cinismo, o argumento de uma mãe antivax, antivacinas, com um bebê no colo, de que vacina só existe para dar lucro pra farmacêutica. Aí o House responde: "Sabe qual outro negócio é muito bom, muito lucrativo? pequenos caixões para bebês. Apelar ao cinismo é muito tentador para responder aos antivax, eu confesso, porque me dá um desgosto, um engulho ter de debater ciência com negacionista em 2026, depois de tudo que a gente viveu, que eu nem sei explicar.
¶2Quando o ex-presidente Jair Bolsonaro foi derrotado em 2022 e eu acabei chorando na live do meio, os mais antigos aqui vão se lembrar. O principal sentimento que motivou aquele choro era uma profunda exaustão de ver tanta morte na pandemia e ver o negacionismo e o discurso anticiência e antijornalismo imperando. Mas eu vou resistir à tentação do cinismo, do deboche e da raiva. E eu vou tentar entender o que tá por trás desse momento de retomada desse discurso e vou torcer para que de alguma maneira, aos poucos, a gente vá restabelecendo a fé nos dados, no método, na ciência e nas vacinas, em vez de ter de reviver aquele pesadelo de caixões e mais caixões enfilerados que a gente viveu em 2020, 2021 e 2022. E dessa vez o número de caixões de crianças tende a ser maior, tá?
¶3Duas crianças foram enterradas nos Estados Unidos, berço do movimento antivax, no ano passado, por uma doença que a ciência erradicou há décadas, o sarampo. A doença que a vacina apagou do mapa em 2000 matou duas crianças de 6 e 8 anos no Texas e um adulto não vacinado no Novo México em 2025. as primeiras mortes por sarampo no país desde 2015. E neste ano, mesmo sem nenhuma morte registrada até agora, a doença já bateu um novo e triste recorde nos Estados Unidos. Segundo o CDC, que é o órgão de controle da saúde, até 6 de agosto, os Estados Unidos somavam 2.465 casos confirmados de sarampo, um número que já supera o ano de 2025 inteiro.
¶4Esse recorde norte-americano é parte de um quadro regional ainda mais grave. A Organização Pan-Americana da Saúde alertou que os casos de sarampo nas Américas mais do que triplicaram em 2026, comparados a 2025. O número, o número de mortes também disparou, 44 só neste ano contra 32 no ano passado. O vírus desacelerou em alguns lugares, mas continua circulando. E o Brasil, com 24 casos confirmados só no estado de São Paulo, tá longe de ser exceção nesse mapa.
¶5Pois foi bem neste cenário que o deputado federal por Minas Gerais do PL, Nicolas Ferreira, gravou um vídeo antivacina para dizer que tudo aquilo no fundo é exagero, que a vacina contra Covid talvez nunca tenha sido necessária, que Jair Bolsonaro com seu negacionismo tinha razão o tempo todo. Então vamos por partes, porque esses últimos dias concentraram coisa demais pra gente deixar solta. Tudo começa ali em 29 de julho, quando o imunologista Anthony Faut, ex-diretor do principal instituto de doenças infecciosas dos Estados Unidos, conselheiro de Donald Trump e depois de Joe Biden durante a pandemia, Faust foi convocado a depor numa audiência pública no Senado americano pelo senador R, seu adversário histórico. Não era uma investigação, era uma audiência pública. FA invocou a quinta emenda, o direito constitucional de ficar calado.
¶6Ele fez isso mais de 100 vezes. Isso porque ele foi aconselhado pelos próprios advogados, com medo de que Paul pegasse uma resposta qualquer e a distorcesse para montar um processo criminal contra ele por perjúrio. E por que isso aconteceria? Dias antes da audiência, Rainp divulgou mais de 16 páginas de anotações pessoais de Anthony Faut. Entre elas, há algumas perguntas que muito cientistas se fez no começo da pandemia, por exemplo, sobre a eficácia de alguns medicamentos, tudo que depois foi devidamente testado e eventualmente derrubado pelos métodos científicos.
¶7Ou seja, Faust sabia que o senador Poul poderia montar uma armadilha em que ele fosse pego em contradição com o que disse em depoimentos posteriores, com a ciência já mais avançada no campo, para acusá-lo de ter mentido para autoridades. E foi em cima desse material, desse diário, que Nicolas Ferreira construiu um vídeo que já passa de 36 milhões de visualizações só no Instagram. Ele faz três afirmações que o diário prova que F sabia que a hidroxicloroquina era segura e escondeu isso do público. Que falte teve um efeito colateral pulmonar depois de tomar a vacina e escondeu também isso do público e que o silêncio de falte no Senado é por si só prova de que ele mentiu sobre máscara e distanciamento à pandemia inteira. Nenhuma das três se sustenta.
¶8Começando pela última, o silêncio sob a quinta emenda não é confissão de culpa, é uma proteção jurídica prevista na Constituição Americana há mais de 200 anos. Tem na brasileira também. Sobre a parte científica, vamos lá. O Estadão Verifica checou e mostrou que essas alegações do Nicolas Ferreira já tinham sido desmentidas por estudos e entidades médicas, inclusive uma revisão de 44 estudos publicada na revista Lancet, que confirma que distanciamento e máscara reduzem a transmissão do vírus. Sobre a hidroxicloroquina, o diário mostra exatamente o contrário do que Nicolas diz.
¶9Quem defendia publicamente o remédio eram Trump e seus assessores, enquanto F dizia que as evidências de eficácia ainda eram insuficientes. E sobre o suposto efeito colateral pulmonar escondido, até hoje não existe nenhuma comprovação pública de que aquilo tenha relação com a vacina. Só que isso não é um vídeo isolado. A agência Lupa monitorou grupos de mensagens e redes sociais nesta última semana e encontrou bolsonaristas e pessoas antivacina usando a audiência de falte para reviver em bloco as mesmas narrativas de 2020 e 2021. é a mesma engrenagem, só que foi ligada de novo.
¶10E para completar o cenário, Donald Trump assinou uma ordem executiva na segunda-feira, reduzindo de 17 para 11 o número de vacinas infantis recomendadas de forma universal nos Estados Unidos, citando um vínculo entre vacina e autismo, que a ciência já mostrou repetidas vezes que não existe, propondo até dividir a vacina tríplice viral, que é a de sarampo, cachumba e rubéula, em três aplicações. separadas, quando toda a evidência médica diz que a fórmula combinada é segura e mais eficiente. É a terceira tentativa desse tipo em menos de um ano. A primeira foi barrada na justiça. Então vamos à pergunta que interessa.
¶11Por que vale a pena pra extrema direita americana e brasileira reativar esse negacionismo? A resposta mais fácil e imediata é a da proximidade com as eleições, tanto lá quanto cá. O partido republicano de Trump tá se sentindo realmente ameaçado nas midtermes de novembro. Nicolas Ferreira é candidato à reeleição para deputado. Aqui nessas disputas proporcionais, esse tipo de discurso inflamado, negacionista, divisivo, polarizante e que aciona muitas paixões é muito eficiente, mas muito mesmo.
¶12Mas há uma outra parte da resposta que se correlaciona com isso, mas que é mais de fundo. Vamos pensar sobre ela juntos. Então fica aqui comigo mais um pouquinho. Eu sou a Flávia Tavares, editora do meio. Gente, as campanhas estão aquecendo as suas turbinas para decolar neste domingo.
¶13Tem produto do meio para todo tipo de demanda do nosso leitor, espectador e ouvinte. Tem newsletter diária gratuita, podcasts e lives no YouTube, tem coluna de opinião como esta aqui. Tem análise profunda no meio político e na edição de sábado, mas tem também os documentários no streaming do meio, sem falar da nossa pesquisa meio ideia, né? O melhor jeito de você acompanhar tudo isso é sendo um assinante premium, que te dá acesso a tudo e ainda financia o nosso jornalismo gratuito. Então, assine o meio.
¶14O negacionismo, todo ele funciona de maneira poderosa como um discurso anti-elite. Autoridade científica sobre vacina vende instituições que so distantes, não eleitas, CDC, OMS, agências reguladoras como Anvisa, de gente que passou anos estudando sem entender a realidade das pessoas. Percebem como é fácil colocar isso na mesma seesta retórica da elite globalista, que já é alvo de outros discursos antisistema, sobre urna eletrônica, sobre imprensa, sobre Banco Central, sobre o judiciário, meio que sobre tudo isso que tá aí. O truque é esperto, porque o negacionista não precisa vencer o argumento científico. Ele só precisa fazer a pessoa desconfiar de quem tá falando, vê-la como um inimigo.
¶15Um estudo da Universidade Estadual de Maringá mapeou exatamente isso. Extrema direita e Movimento Antivacina compartilham o boicote a instituições internacionais. Compartilham também a defesa do direito individual acima do coletivo e a desconfiança permanente e sistemática das mesmas fontes de autoridade. Ciência e imprensa para começar tudo no mesmo saco. Além do ressentimento antielite e antisistema, esse movimento ativa um dos sentimentos mais poderosos da política populista, o medo.
¶16Doença que a vacina apagou vira invisível. Quase ninguém no público desse discurso viu uma criança morrer de sarampo ou viu uma criança com poliomelite. E o pior, quando o sarampo volta, como tá voltando agora, isso não convence quem já desconfia. Pelo contrário, vira prova de que alguém tava escondendo informação o tempo todo, prova do conspiracionismo. Um estudo publicado pelo BMC Public Health, com dados dos Estados Unidos, mostra algo assim: A ligação entre ceticismo vacinal e posição política conservadora é forte e não diminui nem quando a pessoa perde alguém de verdade para doença.
¶17A conclusão dos pesquisadores é que essa resistência não é sobre falta de informação, ela é ideológica, ela é identidade. E identidade não se corrige com estatística. O drama, gente, é que vacina não protege por decisão individual, ela protege por adesão coletiva. Quando cerca de 95% de uma população tá vacinada contra o sarampo, cria-se o que a ciência chama de imunidade de rebanho. O vírus não encontra corpo suficiente para se espalhar e mesmo quem não pode ser vacinado como um bebê muito novinho ou uma pessoa imunida, fica protegido pela barreira que os outros formam ao redor.
¶18Vejam, é uma imunidade de rebanho controlada, não é como aquela que o bolsonarismo defendia de deixar o vírus circular livremente. O surto atual em São Paulo mostra exatamente o que acontece quando essa adesão coletiva racha. O vírus não vai perguntar se você acredita nele ou não. Ele só precisa de um espaço para circular. E cada família que decide individualmente não vacinar, não tá fazendo uma escolha isolada, tá furando um muro que protege todo mundo ao redor dela também.
¶19Só que essa aposta política no discurso antivacina tem limite. E o próprio partido republicano americano tá mostrando isso agora. O Axius revelou essa semana que senadores e médicos do partido criticaram publicamente a decisão do estado da Flórida de acabar com a exigência de vacina nas escolas. E um operador de campanha republicano avisou, sem meias palavras que ir contra todas as vacinas de uma vez, abre aspas, vai deixar os democratas fazerem propaganda nos culpando pelos surtos de sarampo. Fecha aspas.
¶20Ou seja, até quem mais se beneficia desse discurso politicamente já reconhece que ele tem um teto. E esse teto é diferente conforme o cargo que você disputa. Nicolas Ferreira é candidato a deputado federal. Na eleição proporcional, esse discurso funciona bem. Não precisa convencer uma maioria, precisa mobilizar um núcleo fiel.
¶21E foi exatamente esse jogo de nicho que elegeu deput que elegeu o Nicolas deputado, o mais votado da história de Minas Gerais. Mas na eleição majoritária o cálculo muda. Tanto que Flávio Bolsonaro vinha publicamente se apresentando como o Bolsonaro vacinado numa tentativa clara de se descolar do pior legado do seu pai, justamente nesse ponto. Então é isso, Nicolas tá lendo certo a lógica eleitoral de extrema direita do próprio jogo na proporcional negacionismo da voto. Mas ao reabrir esse discurso em plena eleição majoritária, ele tá reacendendo exatamente uma ferida que Flávio vinha tentando fechar com a própria imagem.
¶22E você que tá se perguntando sobre por a gente tá debatendo vacina e cloroquina de novo no meio de um surto de sarampo, eu espero ter ajudado a entender as motivações políticas por trás disso. Não se deixa enganar e vai se vacinar. Elas estão se aproximando as eleições e aqui no meio você acompanha com dados de verdade sem depender de conteúdos pouco confiáveis nas redes sociais. Você sabe, né? A pesquisa Meio Ideia é uma das nossas bússulas.
¶23É a nossa pesquisa independente registrada no TSE, feita todo um mês em parceria com o Instituto Ideia. A edição de agosto traz o retrato mais atual da corrida. Quem é assinante premium recebe a pesquisa completa em primeira mão e ainda garante acesso à nossa plataforma interativa que permite o cruzamento da intenção de voto por região, por classe, por gênero, para comparar com as rodadas anteriores e ver com os próprios olhos o que que mudou de verdade a cada mês. Esse tipo de leitura, até pouco tempo atrás, só quem trabalhava dentro de um banco ou de um partido conseguia ter acesso. Agora tá disponível para quem assina o meio premium.
¶24Em um ano como esse, olha, vale ouro. e receba mais esse material exclusivo.