¶1Se você estiver caído numa cama, sem ânimo nem vontade para fazer nada, só pensando bobagem, ruminando pensamentos tenebrosos sobre como a sua vida não se parece em nada com aquilo que ela deveria ser, saiba que não é um grande feito, não é uma grande coisa que vai te tirar dessa situação. O que vai te tirar daí são várias pequenas coisinhas. escovar os dentes, cortar as unhas, limpar o quarto, uma melhoria por vez. E aí, sem melhorias depois, aquela grande mudança que você queria quando tava lá afundado na cama começa a ficar aparente. Sei que parece conversa de coach, eu sei que parece tudo óbvio demais para quem não tá numa situação dessas, mas é só um necessário preâmbulo para dizer que uma dessas coisinhas banais que vão fazer toda a diferença paraa sua revolução pessoal é tratar a sua saúde mental como aquilo que ela é, uma questão de saúde.
¶2Como um adulto responsável, você tem essa obrigação com o seu autocuidado. E como um cidadão brasileiro, você tem esse direito. Tudo começa com uma consulta que você pode marcar pelo aplicativo do SUS. Se esse vídeo te encontrou num momento de crise, você tem tudo para sair dele melhor do que entrou. Essa é a minha intenção pessoal, mas eu não podia deixar de fazer esse alerta.
¶3Tudo dito? Bora pro vídeo. Se você se sente deprimido e tem dificuldade para sair da cama, para se manter ativo, o ambiente ao seu redor acaba sofrendo com isso. Porque se uma pessoa não tem energia para sair da cama, nem para fazer alguma coisa que dê prazer a ela, imagina então ter energia para levantar da cama e começar uma faxina. Aí é que não mesmo.
¶4Da mesma forma, se você sofre com certas compulsões, essas compulsões também vão se manifestar no espaço que você habita. Se alguém compra mais do que precisa, aí o armário vive cheio de coisas jamais utilizadas. Se alguém fuma demais, os cinzeiros estão sempre cheios. Se alguém come demais, é bem possível que a pia viva lá, cheia de coisa suja e assim por diante. Partindo dessa constatação de que o espaço de fora reflete o que acontece dentro da gente, surge uma pergunta: E se fosse possível fazer o caminho reverso, arrumar a bagunça de fora e aí com isso perceber algo mudar dentro de nós?
¶5Será que isso é possível? Eu sou árvore árvore broba. Avro broba me notou falando a broba. >> E eu tô aqui para te fazer um convite. Você pega a sua baderna, eu pego a minha e vamos juntos atrás dessa resposta.
¶6>> Você já ouviu falar de um cara chamado Jordan Peterson? Esse é um psicólogo canadense que há uns 10 anos atrás começava a ganhar fama, principalmente aqui no YouTube. E ele dava uns conselhos muito básicos, consensuais, conselhos inofensivos, quase sempre saudáveis. E o mais impactante deles, limpe o seu quarto. Você pode começar pelo seu quarto, você tá lá olhando o teu espaço e aí você pensa: "Puxa vida, e se eu fosse gastar 10 minutos, tornando esse espaço em que eu tô um pouquinho melhor?" Aí você se faz essa pergunta como uma pergunta genuína mesmo, não como uma ordem, uma tarefa.
¶7Você começa a se perguntar: "O que que eu posso fazer aqui para esse lugar ficar melhor?" Aí as coisas vão se destacando no ambiente. Puxa vida, tem uma pilha de papéis ali que tá me incomodando. Será que eu não deveria arrumar? Tem lixo jogado atrás do monitor do computador. Eu poderia dar um jeito nisso.
¶8Não faço isso há se meses. Tem um canto empoeirado e assim por diante, os fios emaranhados. E aí você vai arrumando essas coisas. Se você simplesmente se permitir considerar o espaço no qual você existe, várias pequenas coisas vão surgir, coisas que você pode consertar. E eu diria, se você viesse me procurar para fazer psicoterapia, a primeira coisa que eu ia pedir para você seria, olha, organiza o seu quarto, vai.
¶9E você ia pensar, tá, mas faxina agora é psicoterapia? E a minha resposta ia ser: depende de como você entende os limites do seu ser. Comece onde você pode começar, porque se alguma coisa se anuncia para você como algo que precisa de um reparo ou de uma limpeza, então conserte. Então limpe. Porque se você consertar, se você limpar sem pequenas coisas, a sua vida vai acabar sendo muito diferente.
¶10Eu digo para as pessoas, conserte as coisinhas que estão ao seu redor o dia todo. As pessoas tendem a achar que a vida vai mudar quando elas mexerem em coisas grandes e não nas triviais. Mas não, você se levanta, escova os dentes, toma o café da manhã, segue a rotina todo dia. Aí as pessoas pensam: "Ah, tudo isso aí é banal, não tenho nem que prestar atenção nessa rotina". Mas não, não é assim, é justamente o contrário.
¶11As coisas que você faz todos os dias são as mais importantes de todas, sem dúvida. Basta fazer as contas. Você percebe isso rapidamente. E aí, depois de 100 pequenos ajustes, 100 pequenas limpezas, no seu domínio mais próximo, no seu quarto, você vai perceber que vai ter muito menos, muito menos lixo, muito menos armadilhas nas quais você possa tropeçar. E isso, isso se alinha à ideia do Jung sobre integrar a sombra.
¶12Uma vez que a sua mente e as suas emoções estão alinhadas e você tá agindo de acordo com isso, então você pode expandir o que você considera parte de si e começar a consertar as coisas que fazem parte de um entorno ainda mais amplo que o seu quarto. E tudo culmina em Carl Gustav Jung, o pai da psicologia analítica. A ideia de integrar a própria sombra, começando pelo espaço ao redor, tem algum apelo. A sombra não é necessariamente a parte maligna de nós mesmos, é a parte inconsciente. E a verdade é que muito do que a gente faz sem consciência deixa sujeira ao redor.
¶13O salgadinho que se come só por comer, sem muita atenção, vai deixando farelo em tudo quanto é canto, às vezes até a embalagem para trás. Todo fumante tem no seu cinzeiro várias bitucas de vários cigarros que ele nem percebeu que acendeu. Integrar a sombra no jargão yunguiano é tornar consciente os aspectos inconscientes de nós mesmos. Limpar o quarto, por outro lado, é aplicar atenção, é aplicar consciência aquilo que a gente sujou por desatenção, enquanto estava vivendo de forma inconsciente, sempre no automático. É desse aspecto mental da faxina e da organização que esse vídeo vai tratar.
¶14Antes disso, porém, falemos do Jordan Peterson, vai. Ao longo dos últimos anos, ele foi acumulando uma trajetória controversa. Hoje ele é conhecido por usar esse terno de duas cores. Parece um vilão do Batman, né? Mas diz ele que simboliza aí a dualidade entre o céu e o inferno.
¶15Vai saber, né? E ele também é uma referência intelectual para muitos apoiadores da gestão do Donald Trump lá nos Estados Unidos. Dia desses, o Jordan Peterson teve no Brasil e foi a convite de quem? do site Brasil Paralelo. >> O Jordan Peterson é uma fraude.
¶16É preciso repetir esse tipo de coisa porque tem gente no Brasil depois que ele veio para cá ganhando dinheiro aí com cursinho de livros dele, como se esses livros merecessem ser lidos. Hã, não são lidos ao redor do mundo. Ninguém liga pra obra do Jordan Peterson. J Peterson não é lido na psicologia, não é lido na filosofia, ninguém da academia o leva a sério e hoje a grande parte do seu público é feita de ignorantes que não conhecem aquilo que se discute no meio universitário, que não conhecem a fronteira do conhecimento e acham que esse tipo de sujeito é levado a sério. >> Esse é o nosso João Francisco, um filósofo da USP de São Paulo, que entre outras coisas comenta a sociedade política do Brasil lá no Instagram.
¶17É um conteúdo tão bom que eu não sei nem porque o Instagram me entrega. Não é do feitil do Instagram, esse tipo de coisa não. Seja como for, o alerta dele sobre o Jordan Peterson é bem eloquente, é brabo. >> O fato bruto, concreto, triste para esses aí que ficam buscando heróis antiacadêmicos, outsiders, é que o Jordan Peterson não é ninguém, não produziu nada. A roga para si mesmo uma autoridade que ninguém na academia reconhece.
¶18E a bem da verdade é que só ganhou alguma fama pela sua oratória, pela sua retórica no debate público. Os únicos que o leem agora são esses que pagam muito caro para vê-lo em palestrinhas assim como ele veio aqui dar no Brasil e ficar dando ao redor do mundo agora, enganando essa conservaiada toda. Enfim, que tá órfã, né, de charlatão. E escolheu este tipo de gente medíocre agora para botar fé e dar autoridade. E além de ser visto como um herói antiacadêmico, como o João pontuou ali, o Jordan Peterson também é ou seria visto nos Estados Unidos como um modelo de masculinidade.
¶19Jovens carentes de referências sobre o que é ser homem de maneira ética e saudável no século XX, estariam recorrendo aos conselhos dele. Essa constatação não é minha, é da Christine Emba, que é autora de um livro que investiga esses novos modelos de masculinidade. E posso dizer que todos esses caras aí são maus. Tem algum bem sendo feito ali, talvez muito. Quando eu falo com os jovens sobre o que gente, tipo Jordan Peterson e Joe Brogan fazem por eles, a primeira coisa que eles me citam é que eles ensinam algum tipo de empatia.
¶20Esses homens parecem se importar com as dificuldades que os jovens estão tendo e falam sobre isso de maneira muito direta. E além disso, eles também oferecem soluções. O Jordan Peterson, por exemplo, é famoso por dizer: "Arrume o seu quarto". E mesmo que isso pareça um conselho muito básico, muito simples, né? Para mim parece uma coisa que teu pai devia ter te ensinado, seu avô devia ter te ensinado, mas ainda assim essa frase fala diretamente aos homens que não tiveram uma figura paterna ou um mentor masculino para ensinar isso.
¶21Como você percebeu aí, a Christine reconhece a validade do conselho do Jordan Peterson. Limpe seu quarto, não é uma coisa ruim. Só que ela também alerta para um problema aí do Jordan Peterson e de todos esses coaches de masculinidade que parece que no exterior aí são chamado de meninfluencers. Então tem alguma influência positiva que esses que esses influenciadores masculinos aí exercem? Mesmo ao dizerem aos jovens coisas tipo, olha, não fica sentado no sofá, quer uma namorada, vai lá fora, conversa com as meninas, arruma sua cama, encontra um emprego, desenvolva uma habilidade.
¶22Só que tem um lado muito negativo, muito mesmo. Muitos desses influenciadores masculinos definem masculinidade em oposição ao feminino. E ao definir o masculino meramente, simpamente, como o oposto do feminino, esses caras abrem um caminho que leva para ideias perigosas, tipo as mulheres são o inimigo. E aí numa boa, né, uma ideia dessas é o caminho pra infelicidade de qualquer homem. Eles passam muito tempo falando sobre como o feminismo está levando os homens para baixo.
¶23A conclusão aqui é de que a Christine faz uma crítica até mais severa ao Jordan Peterson que aquela do nosso João lá no começo. Porque o João não faz mais do que dizer que as credenciais acadêmicas do Jordan Peterson não são uma grande coisa. Já a Christine vai muito além e pontua que muito do que o Jordan Peterson diz é perigoso pras mulheres e até pros homens que querem ter relacionamentos saudáveis e equilibrados com elas. Só que mesmo a Christine valida aquele conselho, limpe seu quarto, um sinal de que a ideia é boa mesmo, básica, óbvia, mas boa mesmo assim. E aí a pergunta que me ocorre é: como é que um conselho tão simples acabou dando fama de filósofo vanguardista a uma pessoa como Jordan Peterson?
¶24A minha hipótese vai, ele deu a mensagem certa pra geração certa na hora certa. Homens jovens vivendo de maneira apática, letárgica entre uma cama e um computador ouviram: "Limpe seu quarto." E nisso eles entenderam uma espécie de chamado, de despertar. E assim o Jordan Peterson virou um ícone. Se essa hipótese que eu tô lançando aqui for válida, aí me surge uma segunda dúvida, né? Que dificuldades os nossos dias podem estar oferecendo pra organização pessoal?
¶25O que é que colocou o público do Jordan Peterson numa situação tão crítica que fez com que o conselho óbvio que ele deu parecesse uma revelação divina de algum tipo? A gente vai ter que entender a ciência e a lógica desse conselho que tornou Jordan Peterson um ícone da disciplina, suposto ícone, talvez. Antes disso, porém um parênteses para tratar de um outro conselho, de um ícone da preguiça. É, tô falando do gato Garfield, sabe? Cá estamos nós no Twitter, território perigoso da internet, onde eu leio que vou acabar assinando a fmica por causa do, ih, rapaz, sou eu, é do Ziri PhD, vou curtir, né?
¶26E ele manda esse meme aqui com um pequeno texto de sabedoria que vem atribuído ao Garfield, um rosto que de fato inspira muita credibilidade. Fosse um filósofo, esse gato aqui seria o Domênico de Masi, aquele que diz que a gente tem que descansar mais. Que que tá escrito aqui? Você não é imune à propaganda. Mas eu também não sou.
¶27Só tô apontando isso para que possamos continuar vigilantes sobre o que consumimos sem descartar críticas. Acho que no fim das contas esse é um esforço coletivo e deveríamos ser menos desdenhosos e mais didáticos sobre isso. Muito legal, Ziri. Mas eu tenho uma outra pérola de sabedoria sobre propaganda, que aqui será atribuída ao gato félix, uma outra entidade ainda mais antiga, ainda mais sábia que Garfield. E Félix disse: "A propaganda é o microplástico do entretenimento".
¶28É, a propaganda tá misturada em tudo. Então é realmente muito válido fazer esse esforço consciente aí sobre o conteúdo que a gente consome. Mais uma razão para assinar a fímica. uma plataforma de streaming que tem essa proposta, uma curadoria consciente que busca experiências que ficam na sua memória, ao invés desse trans maluco aí, que é ficar vendo vídeo curto por uma hora no celular e depois não se lembrar de nada do que viu, como se a gente tivesse sido abduzido por esse ralo de atenção que a gente carrega no bolso. Então, sim, faz sentido que a gente faça um esforço consciente, não apenas diante da propaganda, mas diante de todo o conteúdo em que ela pode e normalmente está misturada.
¶29E uma plataforma como a fúlmica só pode ajudar nisso, o que nos leva aos planos. O mensal sai por R$ 19,90 e o anual por R$ 199,90. Só que com o cupom Pix Árvor você paga R$ 99,90 e ganha um desconto de R$ 100. Muito obrigado, Filmica. Muito obrigado, Ziri PhD, esse teteiro de comportamento raramente amigável, né, num território tão hostil.
¶30Muito obrigado, Garfield, muito obrigado Gato Félix. Dois personagens tão carismáticos, tão queridos, certamente não se importarão de serem usados numa mera puble do YouTube. Claro que não, né? Conselho do Jordan Peterson, que viralizou na década passada Limpe seu quarto, coincidiu com uma série de estudos relacionando a limpeza da casa com a saúde da mente, estudos que foram feitos principalmente de 2008 para cá. Uma das pesquisas constatou que crianças que estudam em ambientes maisados tiram notas mais altas.
¶31Outra pesquisa descobriu que a faxina pode ter um efeito semelhante ao da prática de esportes no combate ao stress. Então, a base científica existe, mas tem uma questão. Essas pesquisas falam da necessidade de tornar a faxina e a manutenção do próprio espaço um hábito. Como tornar a organização um hábito? Talvez o problema esteja na maneira como nós encaramos as pequenas tarefas que a gente precisa fazer para manter o espaço e até o próprio corpo.
¶32A faxina, a manutenção. Nada disso precisa ser tarefa, chatice. Pode ser fonte de prazer nas palavras do aqui sempre citado Paulo Leminski. É na própria vida cotidiana que está o segredo. É preciso resgatar a grandeza infinita dos gestos simples e elementares.
¶33Cuidar da vida, curtir a minúcia, lavar a própria roupa, a louça, arrumar a casa, fazer sua comida, tomar banho como quem realiza um ato sacro. Recuperar o prazer da prática dos atos primários. Saber que ser matéria é uma dignidade e um esplendor dá trabalho. Mas para brilhar as estrelas têm que arder até o seu glorioso fim. Ponto final em mais um testão.
¶34Uso o espaço das considerações finais para me dirigir aos apoiadores desse canal. Muito obrigado, gente. Ó, a quinta parte da nossa série documental sobre a derrocada da União Soviética já tá no ar. parte importantíssima com a conclusão de diversos aprendizados históricos que tivemos nas quatro partes anteriores. Fica o convite.
¶35E esse vídeo que tá terminando agora, de alguma forma ele também é a lapidação, talvez a culminação de um outro vídeo publicado lá na área de membros. Esse aqui, nesse vídeo de novembro de 2025, a gente já tava discutindo a validade desse conselho do Jordan Peterson. Claro que não, com a profundidade, com as conclusões as quais esse vídeo de agora tá alcançando, né? Ainda assim, e é parte do caminho que nos trouxe até aqui. Eu tô tô orgulhoso desse vídeo aí.
¶36É dele, né? É desse vídeo que foi publicado na área de membros que eu vou tirar a título de PS, muito do improvisado, o comentário da Angela, a quem eu peço licença, mas gostei das palavras. Ela diz que tem horror ao Jordan Peterson, o que eu até entendo, né, mas gosta de ver a gente pensar alguma coisa no discurso dele que faça sentido. E ela percebe nas vivências dela que quando o caos se instala na cabeça dela, ela faz um esforço para manter a ordem no ambiente. E aí o entorno organizado traz paz.
¶37Também é a minha experiência, é a de muitos de nós, Ângela. E eu acho que mora aqui na sua conclusão um outro conselho muito valioso pra saúde mental, né? Que a gente possa manter a nossa concentração focada nas ideias e não nas pessoas. Aí a gente fica menos emocionado, né, com quem nos fez sentir isso ou aquilo. Certamente é um bom caminho para seguir.
¶38Um beijo, gente, e como sempre, valeu.