¶1Nós estamos no pior momento de corrupção da história do Brasil. No pior. Não é só porque a corrupção excessiva no estado, não. É também porque porque o eleitor se conformou. Porque o eleitor, ao ouvir sobre a corrupção dos políticos de que gosta ou de gente próxima, vira pro lado, finge que não vê.
¶2Deixa eu contar duas coisas que eu vi nos últimos meses de duas pessoas que ocupam cargos muito, muito altos no poder público. Uma me falou o seguinte: Daniel Vorcaro corrompeu algo como 1/3 de Brasília. Aí eu repeti o mesmo comentário para outra pessoa noutra cidade, noutro momento, para ouvir a reação. Eu iria além. Essa segunda pessoa me disse, Vcaro corrompeu todo mundo que tava à venda, inclusive aquelas pessoas que ninguém sabia que tavam à venda.
¶3Não é só o caso do Banco Master. Até a semana passada, o escândalo de desvio de dinheiro de aposentados e pensionistas parecia coisa que tinha surgido pequena no governo Temer, ganhado corpo no governo Bolsonaro e se instalado de vez no governo Lula, beneficiando principalmente o PDT no Ministério da Previdência. Mas quando o filho do presidente Lula e sua melhor amiga celebram, tem placado um nome no comando da data préve. Aí a coisa chegou no Palácio do Planalto. Lulinha, claro, tá na Espanha, nos Estados Unidos está Eduardo Bolsonaro, filho do outro.
¶4Foi para lá quando? No exatíssimo momento em que Daniel Vorcaro começou a transferir 25 milhões de dólares pros irmãos Bolsonaro, o mais velho negocia o dinheiro, o mais novo gerencia a recepção. O presidente do Senado, o presidente da Câmara dos Deputados, os dois principais candidatos à presidência da República, dois, possivelmente três ministros do Supremo Tribunal Federal e o eleitor não tá nem aí. Os números de Lula nas pesquisas eleitorais são rigorosamente os mesmos desde o início do ano. Sobe um ponto, desce um ponto, uma linha reta.
¶5Os números de Flávio até deram uma decidinha em maia, mas já voltaram. O ódio dos eleitores de um lado aos do outro é tão grande que nada importa. O importante é derrotar aqueles que representam o pior que a nação tem a oferecer. Aí perguntamos aos bolsonaristas: "Mas meu Deus, vocês não vem essa corrupção?" A resposta se repete nos comentários, nas redes, nas mesas de bar. Ah, mas não se compara com a corrupção do PT.
¶6Mas não se compara. Você tem a mais vaga ideia do que são 25 milhões de dólares. Quantos políticos recebem do maior fraudário do Brasil algo nesse tamanho? Me cito um único político que conheçamos, que tenha recebido numa só atacada qualquer coisa próxima desse tamanho, não tem na história. Aí perguntamos aos lulistas, a resposta é completamente diferente, mas ao menos no nosso governo se investiga.
¶7Essa resposta é literalmente o rouba mais faz. É literalmente a gente deixa roubar, mas a gente deixa a polícia trabalhar. É uma coisa assim, o ruber da vida e ficar reclamando disso é moralismo de direito. E sabe o que que é pior? É por autoengano.
¶8Porque o presidente, veja, o presidente fala ao microfone que tem de investigar o filho e no outro dia o diretor da Polícia Federal tira da função o delegado que mandou investigar o filho do presidente. No terceiro dia, o mesmo filho do presidente, ó, se muda paraa Espanha. E ficamos conjuntamente celebrando. Mas neste governo investiga, não interfere na polícia. É bom repetir, repetir, repetir, repetir até acreditar, porque funciona.
¶9Aí vem a pior de todas, né? Falsa equivalência. A gente para, só para, só convence a vocês mesmos. Só serve para uma pessoa de esquerda se autocongratular com outra pessoa de esquerda. Não ser golpista, mas ser corrupto não devia ser consolo para ninguém.
¶10Na sequência dirá o eleitor: "Foi sempre assim. No Brasil a corrupção vem da colônia. Como se corrupção fosse, sei lá, um aspecto essencial da nossa cultura da qual somos incuráveis. É uma doença, pega a pele". Sabe?
¶11É isso realmente que acreditamos a respeito de nós mesmos, que a corrupção é da nossa natureza, que somos algum tipo de povo incapaz de conduta ética e por isso não devemos cobrar nada de quem elegemos ou de quem eles indicam para outros cargos. Primeiro, corrupção é da natureza do ser humano, não de culturas específicas. O que combate corrupção é uma coisa só, a certeza de que será punida. Nos países em que a punição é certa, a corrupção é baixa. Nos países em que é incerta, a corrupção segue.
¶12Ou seja, nosso problema é que não, a gente não pune. A evidência de que nem neste nem nenhum governo se puniu bastante é o fato de que a corrupção está visivelmente aumentando. Número dois, não é verdade que a corrupção é uma marca brasileira? A história do Brasil diz o contrário. Antes dos anos 1950, era raríssimo político que enriquecesse pelo cargo.
¶13Patrimonialismo sempre teve peculato, o desvio de dinheiro público era muito raro. Ademar de Barros não é uma lenda porque era o que mais roubava. Era uma lenda porque ele roubar como roubava chamava atenção de tão bizarro que era o comportamento. Você conhece a história da corrupção no Brasil? Vem comigo, porque é importante conhecer.
¶14Eu sou Pedro Dória, editor do meio. Gente, vocês vocês acabaram de ouvir porque os dois lados dessa eleição combinaram sem sem combinar que corrupção é um não assunto. Some um tema da campanha e a conta de entender fica com você. Estreia sábado o novo documentário do meio. Se chama Eleições 2026 a escolha.
¶15A gente foi atrás de quem conhece os candidatos de perto para contar quem eles são e foi atrás de mais do que isso, de gente que entende o momento do Brasil para explicar o que tá de fato em jogo nessa eleição e quais os desafios que o próximo presidente vai herdar. 1 hora e meia. No fim dela, você não sai tendo feito a escolha, não, tá? Sai sabendo o que precisa para poder fazer. É o objetivo de todos os nossos filmes, ajudar a entender, ajudar, ajudar a pensar.
¶16Assinante do meio já assiste agora no sábado, desde cedinho na madrugada. Assina o meio premium, gente, é tão barato. Aliás, esse aqui, esse é o ponto de partida. Sempre houve centrão, desde o império sempre teve. Centrão é o seguinte: políticos que baseiam seu jogo de poder, não ideias e valores, mas no controle de um grupo político regional.
¶17Eles se aliam uns aos outros para conseguir construir algum tipo de força na capital. Seu ponto de modo domínio foi na primeira república, quando formaram um pacto, ajudavam as elites de São Paulo e Minas Gerais a manter a presidência da República. Em troca, nenhum presidente interferia. Dava pitaco mesmo no exercício de poder regional. Aí a partir de 1930 virou e nunca mais.
¶18Naquela época, esses camaradas tinham poder porque tinham dinheiro, não o contrário. E os presidentes, quase todos voltavam a trabalhar após deixarem o governo, porque precisavam para se sustentar. A gente começa a ver um corrupto aqui, ali no Estado Novo, Getúlio pô gente, olha aí o Ademar de Barros nos governos dos estados e esses caras um ou outro aproveitavam para se lucupletar. Em 1953, quando o Carlos Lacerda cunhou a expressão que é famosa, né, bar de lama nos porões do catete. Para falar de corrupção, sabe qual era o escândalo gigantesco do governo Vargas?
¶19Veja só, o ministro João Gular, o Jango, havia permitido que o Banco do Brasil desse empréstimo subsidiado, com juro subsidiado ao filho do presidente. Era um empréstimo para pagar dívidas de jogo, um empréstimo. Maneco ainda ia ter de pagar ao banco. E naquela época, 53, 54, era um escândalo absurdo. A primeira explosão de corrupção foi a construção de Brasília.
¶20Jino Kubichek sabia que construir uma cidade de concreto armado no meio do Centro-Oeste em 5 anos ia gerar corrupção. Então criou uma empresa, a Nova CAP, e a isolou do governo federal. A corrupção tava na estatal, não tocava nos ministros. Explosão. Explosão mesmo.
¶21Aí veio na ditadura militar. Olha como é recente. Com poder da censura nas mãos, total controle das polícias e o plano de enormes e caríssimas obras públicas. Os generais permitiram roubo farto, sempre com as empreiteiras no jogo. JK ensinou o caminho paraas empreteiras.
¶22As fortunas se fizeram na ditadura. Ponte Rio, Niterói, Transamazônic, Taipu, Usina de Angra. Ali se fez muito dinheiro. Sempre que tem muita obra, o perigo de corrupção aumenta. É natural.
¶23Por isso, dobrar a vigília é fundamental, é do jogo. Mas foi agora no governo Jair Bolsonaro que o centrão assumiu o centro do poder. O governo Bolsonaro tinha ímpetos autoritários, mas foi um governo fraco. Aliás, desde Dilma Roussef temos governos fracos que entregam cada vez mais poder pro centrão. Vai ser difícil ter volta.
¶24Agora, quando o centrão assume as rédias da República, o que temos é isso aí. Ninguém com real poder tem projeto de país, tem uma ideia de o que espera do Brasil. Não são valores que estão em jogo, é outra coisa. É a manutenção de poder no interior, num conjunto de cidades. A preocupação do presidente da Câmara é eleger o pai, ex-prefeito de cidade pequena, senador.
¶25A preocupação do ex-presidente da Câmara é virar senador e manter o pai prefeito de cidade pequena. É [limpando a garganta] para todo lado, gente, para todo lado. A política do interior do Amapá, do interior do Piauí, do interior das Alagoas, do interior da Paraíba, assumiu as rédias de um país de 213 milhões de brasileiros. Vocês acham que faz diferença se Lula ou Flávio ganha? Eles não vão governar.
¶26O centrão tá no poder. A diferença vai ser cosmética. Uns militares no ministério é aqui, uns identitários no ministério é ali. É isso. A militância de esquerda acha que toda direita é extremista e golpista.
¶27A de direita acha que toda esquerda é corrupta e quer corromper as crianças. Enquanto ambos se odeiam, o centrão assumiu as rédias e não vai largar. Não vai ter golpe porque o centrão não vai abrir mão de poder. Esse Brasil aqui é o Brasil ideal do central. Não vai ter uma mudança radical de distribuição de renda porque o presidente não tem dinheiro para fazer nada.
¶28O dinheiro está com centrão. O ódio de brasileiros contra brasileiros, que é esse momento que vivemos, isso é a nossa ruína. A ideia errada de que somos por natureza corruptos vai postergar um problema pontual que nós temos. Não vai ser simples resolver, mas é fundamental compreender que estamos no fundo do buraco e nossa briga interna entre brasileiros é a nossa ruína. [música] Essa campanha tem que começar a verdade derrotando a mentira.
¶29O filho mais velho do capitão segue aqui de pé, firme e forte ao lado do povo brasileiro. [música] Os dois estão jogando o mesmo jogo, cada um preocupado [música] com a sua eleição. Ninguém tá preocupado com o Brasil. [música] >> Tudo que dá certo nesse país parece que o Ped não gosta. >> [música] >> Nós não precisamos ser refém de um debate político construído entre um mongoloide como Flávio Bolsonaro e um cachaceiro senil como o Lula.
¶30>> [música] [música]