A conversão de Joe Schmid ao catolicismo importa não como prova de que o cristianismo é verdadeiro (isso seria apelo à autoridade), mas porque um dos críticos tecnicamente mais capazes do teísmo clássico no espaço online agora pretende defender aquilo que atacava, conhecendo as objeções por dentro. Elijah Johnson comemora abertamente e ao mesmo tempo pede que os cristãos não transformem Schmid em troféu contra ateus.
talvez
o vídeo é reação entusiasmada e não análise, mas a exposição da inércia existencial, do argumento da solidão divina e do trabalho de Schmid sobre colapso modal mapeia com precisão as frentes que interessam ao Bruno em teísmo clássico, simplicidade divina e conhecimento divino de verdades contingentes, tema vizinho do molinismo. Vale mais ir direto ao vídeo de testemunho do próprio Schmid.
O que foi dito
- Johnson abre insistindo que quem não circula em filosofia da religião, teologia natural e teísmo clássico não tem como medir o tamanho da notícia, e apresenta as credenciais de Schmid: doutorando em filosofia em Princeton, artigos com revisão por pares, livros, interlocução com William Lane Craig, Trent Horn, Gavin Kerr e R. T. Mullins.
- Reconstrói o trajeto biográfico: Schmid perdeu a fé por volta do décimo ano escolar, tornou-se ateu, leu obras de Alexander Pruss que o fizeram reconsiderar o ateísmo e chegou ao fim do ensino médio já agnóstico, ficando conhecido online como crítico agnóstico e sério do teísmo clássico.
- Relata que muçulmanos, ateus e cristãos não clássicos citavam Schmid contra ele em discussões, o que serve de medida do peso argumentativo do personagem.
- Explica a inércia existencial: contra a tese aristotélico-tomista de que coisas contingentes precisam de causa não só para começar a existir mas para continuar existindo, Schmid pergunta por que uma coisa concreta, uma vez existente, não simplesmente continua a existir a menos que algo a destrua, o que ameaça a prova do ser puramente atual.
- Responde à objeção pela via tomista clássica: em Tomás de Aquino o ente finito não tem existência por si, ela é recebida e participada, e a analogia é a do objeto iluminado pelo sol, que não armazena a luz recebida uma vez mas depende da fonte a cada instante. Dizer que a coisa continua a existir porque nada a destruiu explica só a não interrupção, não a atualidade presente, e vira circularidade. Johnson conclui que a inércia existencial não refuta o argumento tomista, apenas rejeita sua metafísica, e recomenda um vídeo curto de Gavin Kerr. Lembra ainda que Schmid escreveu um artigo contra a prova neoplatônica e coautorou o livro “Existential Inertia and Classical Theistic Proofs”.
- Detalha o argumento da solidão divina (aloneness argument), feito com R. T. Mullins: num mundo possível em que só Deus existe, ainda há verdades contingentes (por exemplo, que Deus escolheu não criar). Deus é onisciente e conhece essa verdade, mas nada fora de Deus pode fundamentá-la, logo o conhecimento contingente teria de ser intrínseco a Deus, o que parece um acidente, e a simplicidade divina nega acidentes em Deus. Resulta tensão entre simplicidade, onisciência e liberdade de não criar.
- Credita a Schmid honestidade intelectual: em seu trabalho sobre o colapso modal ele argumenta que certos argumentos populares de colapso modal não funcionam contra o teísmo clássico, ou seja, corrige outros críticos e aponta que o problema real estaria em outro lugar.
- Faz ressalvas explícitas: a conversão não prova o cristianismo, gente inteligente se converte e se desconverte, e tornar-se católico não implica tornar-se tomista nem retratar todas as objeções anteriores. Johnson diz querer ouvir de Schmid exatamente onde suas posições mudaram, e registra o que ele já afirma crer: existência de Deus, senhorio de Cristo, Trindade, encarnação, ressurreição e sacramentos.
- Cita trecho do próprio Schmid anunciando a virada do canal: quer produzir a melhor série já feita sobre argumentos para a existência de Deus e para o catolicismo, começando por argumentos para o teísmo, depois respondendo a argumentos ateus, examinando o caso miraculoso e o não miraculoso do catolicismo e respondendo a objeções de ateus, teístas genéricos, protestantes e ortodoxos.
- Fecha pedindo comedimento: nada de comentar em posts de ateus dizendo que o filósofo deles virou cristão, porque a conversão não é um ponto marcado para o time cristão mas o resultado de anos de luta com perguntas sobre existência de Deus, inteligibilidade do real, mal, simplicidade divina, liberdade criadora e escrutínio histórico do cristianismo. A lição que ele extrai para os cristãos é seguir a verdade mesmo quando custa admitir erro.