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Provei que feminicídio existe: cadê o Pix? | De Tédio a Gente Não Morre

¶1Olha, eu assisti a esse vídeo que circulou pelas redes sociais e a minha primeira reação foi simplesmente ignorar, porque tem provocação na internet que é feita exatamente para isso, pra gente gastar tempo, perder a paciência, dar audiência de graça para um sujeito desse tipo. Mas vamos ver o vídeo pra gente tá na mesma página. >> Se alguém aqui conseguir me explicar o que é feminicídio, eu tenho R 1 milhão deais guardados na no banco, prontos para depositar via Pix. da minha imaginação, mas é o mas é a minha provocação para vocês. Não existe feminicídio.

¶2Tirem isso da cabeça. Não existe feminicídio. Tirem isso da cabeça. Não existe feminicídio. Tirem isso da cabeça.

¶3>> Dá para acreditar nisso? Mas é o seguinte, esse candidato ao Senado, pois é, Senado, veja bem, a casa que faz, revisa as leis do nosso país, ele gravou um vídeo dizendo com todas as letras que o crime de feminicídio não existe e ainda fez essa provocação que vocês viram. prometeu transferir R 1 milhãoais no Pix para qualquer pessoa que provou o contrário. E foi aí que eu mudei de ideia por dois motivos muitos claros, muito simples. O primeiro, eu quero esse R 1 milhãoais.

¶4Não para mim. Tem casa de abrigo fechando as portas por falta de verba em praticamente todos os estados do país. Existe centro de acolhimento funcionando com duas psicólogas para atender uma cidade, uma região inteira. R 1 milhão deais na conta de algumas dessas instituições que são sérias, que acolhe mulheres que saem fugindo de casa de madrugada com a roupa do corpo, às vezes segurando um filho no colo para não serem assassinadas, faz uma diferença brutal. Então o desafio tá mais do que aceito.

¶5Eu vou provar aqui com a lei e dados oficiais e o senhor já pode preparar a transferência bancária. Pode ser assim? E olha, quem tiver sugestões de instituições, deixa aqui nos comentários pra gente organizar a distribuição desse dinheiro que vai ser muito bem-vindo. Segundo motivo é mais chato, mas ele realmente vale ligar a câmera. Eu recebo e leio muitas dúvidas desse tipo há anos.

¶6Na maioria das vezes não é gente com uma fé como esse candidato. É gente comum que ouve essas conversas na internet, fica com uma dúvida honesta: "Mas por que criar uma lei só paraa mulher? Mas não morre muito mais homem no Brasil e aquelas que mentem na delegacia para se vingar do ex? Essa é uma clássica que tem aparecido toda hora, né? Então vamos organizar essa conversa de uma forma direta, simples, com números reais.

¶7Vamos botar tudo aqui nessa mesa. A primeira coisa que a gente precisa fazer é abandonar uma frase que virou quase um slogan, né, mas muito simplista e também meio preguiçosa e que atrapalha o entendimento de quem quer aprender. Dizer que feminicídio é a mulher que é morta apenas por ser mulher. Vamos lá, gente. Uma parte enorme da população não tem obrigação de entender conceitos acadêmicos de sociologia.

¶8Quando uma pessoa comum ouve essa frase na rua, ela pensa: "Como assim? O sujeito acordou, vi uma mulher andando na na calçada, deu um tiro nela só porque ela é mulher?" Não, isso não faz sentido na cabeça de ninguém. A mulher não morre só por causa da sua biologia. A mulher é assassinada porque o homem se acha dono dela. Para e pensa.

¶9Feminicídio é um crime de posse, de controle, de punição. A autonomia feminina. O sujeito mata a companheira ou a ex-namorada porque ela quis terminar o relacionamento. Mata porque ela arrumou um emprego fora de casa, começou a ter o próprio dinheiro. Mata porque ela saiu com as amigas e colocou uma roupa que ele não gostou.

¶10ou porque ela simplesmente disse a palavra não. A frase real por trás do feminicídio não é vou matar porque a mulher a frase que se repete em quase todos os inquéritos policiais é: "Se você não for minha, não vai ser de mais ninguém". É transformar uma pessoa numa propriedade particular. E aí entra a confusão que esses negacionistas adoram espalhar por aí. a mentira deslavada que agora a polícia, a justiça carimbam qualquer morte de mulher como feminicídio.

¶11Isso não é verdade. Isso é uma mentira e muito fácil de desmontar, tá? O Código Penal Brasileiro é muito rigoroso, estabelece que só existe feminicídio em duas situações específicas. Primeiro, quando o crime acontece em contexto de violência doméstica. É isso que a gente tá falando aqui, né?

¶12Violência doméstica e familiar. Segundo, quando há menospreso, discriminação explícita contra a condição de daquela pessoa que é mulher. Quer entender o que que não é feminicídio, por exemplo? Vamos lá. Uma mulher tá no ponto de ônibus, chega um assaltante, puxa a bolsa dela, ela se assusta, reage e leva um tiro.

¶13Isso não é feminicídio, é latrocínio. É que é um roubo seguido de morte. Uma mulher é atingida por uma bala perdida numa troca de tiros numa avenida que a gente sabe que acontece. Não é feminicídio, é homicídio decorrente de violência urbana. Uma mulher assassinada num acerto de contas do tráfico de drogas não é feminicídio.

¶14Dois vizinhos brigam por causa de uma cerca e o vizinho mata a vizinha. Não é feminicídio. Um filho mata a mãe exclusivamente para ficar com a herança da família, sem nenhum componente de violência de gênero testado antes disso. Não é enquardado como feminicídio. E que é um dado oficial que destrói de vez a narrativa de que rotulam tudo como feminicídio.

¶15Segundo os dados, a gente tá falando de dados, tá? dados consolidados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2025, 44,4% das mulheres assassinadas no Brasil foram classificadas como vítimas de feminicídio. Presta atenção nesse número. Mais da metade das mulheres assassinadas no país não entra nessa conta. Se a polícia e os promotores fossem essa máquina ideológica que esse candidato, esse tipo de gente inventa nas redes sociais, esse índice seria de 100%.

¶16Mas o sistema investiga, tem critério técnico e separa com rigor o crime comum daquele assassinato motivado por posse dentro de casa. Aí você pode me perguntar: "Mas se matar já era crime no Código Penal? Porque diabos precisou de uma lei específica? Porque o Brasil tinha uma ferida aberta, ainda tem, e fingia que ela não existia. Durante décadas, homem matava suas esposas e o caso era tratado na na imprensa, inclusive e nos tribunais como um crime passional, né?

¶17É uma expressão bastante covarde que dava a entender que o sujeito matou por excesso de amor ou porque ele tava emocionado por causa da traição. Os advogados iam pro Tribunal do Júri defender assassinos confessos, usando a tese medieval, né, de legítima defesa da honra, e saíam de lá com o sujeito aplaudido e absolvido. As pessoas ficavam com pena. Supremo Tribunal Federal só enterrou essa vergonha jurídica em 2023. A tibificação do feminicídio foi criada por três razões práticas.

¶18Vamos lá. Primeira, a gente precisava dar nome correto a esse tipo de violência, tirar o crime da gaveta do drama do amor e tratar esse crime como ele é. É um assassinato por controle e posse. Segunda coisa, medir o tamanho desse problema. A gente não tem como combater aquilo que a gente não consegue enxergar nas estatísticas, nos números.

¶19E agora a gente tem isso. E a terceira, endurecer as penas e criar mecanismos de prevenção. Porque a violência doméstica, ela é uma escada. Ela começa com grito, passa pela humilhação, vai pro empurrão para uma ameaça, pra ameaça de morte e termina no cemitério. Agora vamos lá, vamos ao argumento favorito dos homens da internet.

¶20Mas no Brasil morre muito mais homem de homicídio do que mulher. Você deve ouvir isso o tempo todo. Sim, é verdade. Morre 97% das vítimas de homicídio no Brasil são homens. Mas vamos fazer a pergunta honesta que ninguém nessa turma aí quer responder.

¶21Quem tá matando esses homens? Hum, pensa. Os homens são mortos por outros homens. Em brigas de trânsito, em disputa de em mesa de bar, assalto na rua, guerras de facções criminosas, confrontos com a polícia. O homem é vítima da violência pública urbana que é praticada na rua por, na maioria das vezes, por um desconhecido.

¶22A tragédia da mulher é o oposto. O cruzamento de dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do atlas da violência mostra que em mais de 70% dos feminicídios o crime acontece dentro da própria casa da vítima. E em mais de 80% dos casos, o assassino é o marido, o namorado, o ex-companheiro. Pegou? O homem morre na rua, nas mãos de um desconhecido.

¶23A mulher, a mulher morre no quarto, nas mãos do sujeito com quem ela dividia a cama, o café da manhã e a criação dos filhos. Tratar essas duas coisas como se fossem a mesma violência é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. E quando dizem: "Ah, mas a mulher também mata homem". Você deve ter ouvido isso. Vamos aos dados, tá?

¶24Nos casos em que o homem é morto pela parceira, a literatura criminológica e os registros policiais mostram um padrão claríssimo. Na esmagadora, maioria das vezes, trata-se de legítima defesa. São mulheres que passaram anos apanhando, sofrendo agressões e ameaças diárias até o dia em que elas reagem para elas mesmas não acabarem no caixão. E por fim, a história das falsas acusações. Ah, mas as mulheres inventam mentiras na delegacia para prejudicar os homens e abusem das leis que foram criadas.

¶25Levantamentos internacionais rigorosos, como relatórios do FBI nos Estados Unidos e do Crown Prosecution Service no Reino Unido. Falei bonito agora, né? Além de levantamentos das varas especializadas do judiciário brasileiro, mostram que as falsas denúncias em crimes sexuais e violência doméstica giram entre 2 e 6%. Sabe o que significa esse número? É exatamente a mesma taxa residual de falsidade encontrada em qualquer outro tipo de crime, como que em mente pra polícia, por exemplo, dizendo que o carro foi roubado só para dar um golpe no seguro.

¶26Tá certo? Claro que não tá. Mas aí dizer que isso é uma coisa absolutamente fora do normal também não. A regra no Brasil nunca foi a falsa denúncia. A regra histórica no país é o silêncio.

¶27Mais de 70% das mulheres assassinadas por feminicídio nunca tinham pisado numa delegacia para fazer um boletim de ocorrência e não tinham medida protetiva. São dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e de Estudos do Ministério Público. Essas mulheres morreram caladas, acoadas pelo medo, pela dependência financeira e também pela vergonha. Sim, as mulheres têm vergonha de apanhar. A Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio não são privilégios femininos, como eu vejo falarem, são mecanismo de emergência de um estado que passou séculos assistindo passivamente as mulheres sendo esfaqueadas na cozinha de casa.

¶28Se você abriu os portais de notícia hoje, vai lá agora. Não vai encontrar uma teoria abstrata. vai encontrar a mulher que foi morta na frente dos três filhos pequenos porque postou uma foto nas redes sociais depois da separação. Vai encontrar a jovem que teve o corpo queimado pelo ex-namorado que não aceitou o término. Vai encontrar a mulher que levou cinco tiros quando estava saindo do trabalho.

¶29Essas mulheres não morreram em assaltos, não morreram num tiroteio na rua. Elas morreram porque decidiram que a própria vida pertencia a elas e não ao homem que um dia esteve ao lado dela. Negar o feminicídio num país que enterra quatro mulheres por dia dentro de casa não é ignorância jurídica, é oportunismo eleitoral construído em cima do caixão dessas mulheres. O candidato fez a proposta do Pix de 1 milhão porque sabe que o algoritmo da internet adora polêmica barata e também desinformação. Mas os fatos estão aí documentados nas delegacias, nos tribunais, nos laudos do ML.

¶30O feminicídio existe sim, ao contrário do que ele fala. O que falta é vergonha na cara de quem usa o assassinato de mulheres brasileiras como palanque para caçar voto. A prova tá dada. Agora resta saber se o senhor candidato vai honrar a palavra e fazer o Pix para as instituições que salvam a vida dessas mulheres todos os dias. É isso que eu quero, é o meu compromisso.

¶31Ele vai honrar o compromisso dele. Faltam 36 dias para as eleições, gente. Já já você aperta e confirma. E eu sei que tem muita gente aqui na dúvida de quem vai escolher para presidente. Minha dica é para você que tá indeciso.

¶32Que tal aproveitar o fim de semana para assistir eleições 2026 a escolha, que é o novo documentário original do meio. O filme vai te dar um cenário geral que sustenta a disputa presidencial, a base que continua valendo mesmo quando a notícia do dia muda tudo, sabe? A gente reuniu a história de cada candidato, análises técnicas e o olhar de quem vive esse momento de perto. Tá disponível no streaming do meio, só R$ 15 por mês para ter acesso a todo o nosso catálogo. Assine o meio premium.

¶33Vem com a gente. Eu e você. A gente se vê na semana que vem. >> Ninguém aqui vai dizer em quem você deve votar. Na verdade, aqui centro, esquerda e direita, todos têm espaço, mas nas próximas semanas muita gente vai tentar dizer em quem você deve votar.

¶34Então, como não se perder em meio a tanta notícia, promessas vazias e fragmentação de conteúdos? Ele 2026. A escolha pode ser o seu material de apoio para escolher quem vai assumir a presidência do país. O documentário parte dos cinco principais candidatos, quem são? o que fizeram até aqui.

¶35Mas eleição não se explica só por candidato. O filme também olha pro país que o próximo presidente vai encontrar. Já tá no streaming do meio com outras produções originais que trazem base para votar sabendo exatamente os motivos. Assina o meio premium. Assiste agora.