¶1Numa situação como essa, a gente tem, portanto, uma crise de credibilidade no poder judiciário que acaba tornando a situação um perigo existencial paraa própria democracia. Porque o que acontece numa sociedade em que não há confiança de que o império da lei seja um horizonte ético a ser buscado pelo funcionamento do sistema de justiça criminal. O que começa a acontecer é desobediência. O que começa a acontecer é uma anomia, é uma ausência de norma. e uma atitude do ponto de vista dos agentes individuais que compõem o sistema e que tinham o dever de ter a sua atuação estritamente restrita pela lei, eh, de um salve-se quem puder, de um uso das moedas do poder de acordo com os seus próprios interesses de sobrevivência e perpetuação no próprio cargo.
¶2Isso é um é um faroeste que leva a uma degradação sistêmica. Então, acho que eh isso precisa ficar muito claro do nível de problema, não é uma questão, portanto, eh de quem gosta ou desgosta da figura pessoal do ministro Alexandre de Moraes. A questão é muito mais ampla, como disse o Pedro, é uma questão da própria sobrevivência das nossas instituições, da viabilidade de sermos uma comunidade. nesse aspecto político mais amplo, a viabilidade de sermos, de nos reconhecermos como eh guiados pela mesma lei, pela mesma regra, tendo que obedecer a certos critérios comuns que foram acordados. Eh, o que tá em risco é tudo isso.
¶3Então, é algo que na prática nos deixa diante de um desafio democrático, que é de uma natureza eh da ameaça diferente do golpe eh de 2023, mas que é igualmente existencial. Eh, porque o rumo disso é muito perigoso. A gente vai eh adotar um cinismo completo, a gente vai fingir que nada disso é extremamente grave, a gente vai fingir que tá tudo bem. Eh, todas essas revelações que ocorreram e qual é o próximo passo diante disso? Se a gente começa a fingir que tá tudo bem e não toma atitudes que sejam dignas da responsabilidade que a Constituição delega a autoridades numa situação como essa, qual será o desfecho disso?
¶4Eh, muito provavelmente teremos algum tipo de irrupção ou a sociedade numa hora vai acordar e criar algum tipo de movimento nesse eh sistema que pode acabar sendo um movimento até de caráter revolucionário. Pense, sei lá, numa em condições de queda de regime, eh, como a queda do antigo regime, por exemplo, irrupção, ou a ascensão de uma figura. eh autoritária que prometa soluções fáceis para um problema extremamente complexo, que no fundo tá arraigado na nossa cultura. Quando a gente pensa em como chegamos até aqui, foi com muita banalização de absurdos, foi com muita camada de eh cinismo deliberado em função de cegueiras ideológicas, onde as pessoas são capazes de reconhecer os vícios do adversário, mas se portam como detentores da virtude ou elegem os seus políticos ou autoridades de estimação, que seriam santos, prontos. para canonização.
¶5Eh, e na prática, eu tava até conversando com o pessoal aqui em São Paulo antes da gente entrar no ar, eh, tem uma eh um processo de banalização tão grande que se verifica até mesmo na conduta até das famílias. Eu lembro que no âmbito da Lava-Jato, quando a gente tinha a revelação de algumas condutas corruptas de altos executivos, por exemplo, de algumas empresas, tinham notícias em paralelo que chamavam menos atenção, mas que era uma coisa do tipo, o filho ficou escandalizado ao saber que o seu pai, que sempre teve a imagem de um auto executivo, na verdade era um corrupto. E o que a gente vê agora é uma participação familiar completa dentro dos esquemas, né? é um desejo de na verdade participar da degustação de whisky, de ser incluído na viagem paga com o dinheiro de um banqueiro mafioso. Então isso são sintomas meio antropológicos do quanto a gente na prática banalizou na nossa cultura a ideia de que é isso mesmo.
¶6Só que agora é é aquela história, quando a gente traz eh a a gente acende a luz e vê que tá todo mundo nu, eh algo precisa ser feito e o fato é que o rei está nu. Então eu concordo totalmente com o ponto do Pedro de que num contexto como esse não nos resta outra alternativa que não a total transparência. Porque se as autoridades não cumprem o seu papel num sistema democrático, o que pode acontecer como recurso final é a sociedade fazer alguma escolha que mexa nesse jogo. dar algum sinal, algum tipo de eh punição eleitoral para algum político, algum tipo de construção, >> como solução política, no caso, né, com punições, incentivos políticos aos atores se posicionarem bem. E pegando um gancho nesse que você falou, né, dos da canonização, eu vi algumas pessoas assim meio em choque com, não sei por, mas enfim, muito chocadas com eh o comportamento do tipo, poxa, mas por que e para que?
¶7E aí uma coisa que eu me lembrei, né? E você falando de Tanu também, eu lembrei disso, é no Gênesis, né, na Bíblia, eh, o primeiro pecado, o pecado de Adão é, né, querer ser Deus, né, se colocar acima do bem e do mal. E muito do que eu vejo em toda essa questão do do banco macho, pessoal aceitando um dinheiro, se envolvendo com as coisas assim que são do tipo assim, o pessoal nem fez o esforço direito de esconder, sabe? eh eh acha tem uma uma postura meio generalizada se de se achar acima do bem e do mal, achar que nada vai acontecer, porque se chegar, né, o ponto de ser investigado, de ser julgado, vai ser protegido, porque eu sou Deus, eu tô quase lá e e isso vai ser feito. e conta com apoio, não acho que não da maioria da sociedade, graças a Deus, por enquanto, [risadas] mas conta com apoio dos setores, né, como o Mano Ton falando, que por paixões eh eh ideológicas, partidárias ou interesses de sobrevivência contribuem, né, para essa para essa essa maçaroca institucional que a gente tá vivendo.
¶8Então é a coisa basicamente a como é que foi isso? a coisa mais velha que existe desde que o mundo é mundo na humanidade, que é, tem gente que acha que tá acima do bem e do mal, que tá acima das instituições, independente da qualidade das mesmas, e vamos continuar enquanto tiver espaço para fazer isso, não tiver conição, seja ela política eleitoral, seja ela jurídica, seja uma eh questão de, como é que chama? de de capital social, né, de enfim, seja qualquer uma dessas, eh, enquanto não tiver punição, vai continuar acontecendo de forma generalizada, como a gente tem visto. >> Pois é, tem uma informação aqui que a gente não deve de forma alguma ocultar. Eh, eh, tem duas notícias referentes ao ministro André Mendonça, uma de que eh ele teria sido acompanhado até um alfaiate, um alfaiate caro em São Paulo, eh, por um dos associados do Daniel Vorcaro.
¶9E aí o cara fala: "Ah, tô aí, tô aqui indo com o ministro pro eh eh pro Alfaiate e tal. A a mensagem não deixa claro um se ele de fato teria ganho um terno do André Mendonça, mas a gente tava tentando aqui brincar com eh eh com exceção do humano, nenhum de nós jamais comprou um terno caro aqui. Eh eh eh tipo de de alfaiate assim, bacana, né? Humano, sim. Mas [risadas] a gente tava tentando chutar aqui o quanto quanto custa um um um terno caríssimo.
¶10E é o quê, gente? R$ 20.000, R$ 30.000. Eu não tô tentando sugerir que seja normal um ministro do Supremo Tribunal Federal ganhar um terno de presente de alguém que tem interesse diretamente relacionado a uma causa que ele possa julgar, porque não tem nada de normal, entendeu? É absurdo. É isso.
¶11R$ 137 milhões deais não tem comparação. E e eu quero ressaltar uma coisa aqui que é o seguinte, não está claro de forma alguma que Mendonça não tenha pago o seu terno, tá? podia ter recebido uma recomendação de um bom afoiarte e e ido lá e pago pelo seu terno. Eh, eh, não existe indício de corrupção do ministro eh André Mendonça. E e a o encontro que se foi encontrado com ele, que de fato aconteceu com o Daniel Vorcaro, foi dentro da agenda oficial do Supremo Tribunal Federal.
¶12Quer dizer, a gente a gente por enquanto não tem indícios de que existe um problema eh eh do ministro André Mendonça. O que a gente tem de indício, claro, é o seguinte. Eh, André Mendonça e Alexandre de Morais se odeiam e e tão em guerra um com o outro e isso, evidentemente, é um problema. Agora, eh, vira aquela coisa maluca que é rápido [roncando] de um jeito que jamais foi nessa PGR. O Gonê decidiu entrar e pedir para anular todas as provas, que são provas que envolvem ele e Gonê.
¶13Tipo, não, meu, meu Deus do céu, não pode. E agora a gente começa a ter indícios concretos, não só de que o ministro Alexandre de Moraes e editou o o o contrato da do escritório da mulher dele com Daniel Vorcaro, como de fato deu informações sigilosas a respeito do caso para Daniel Vorcaro, a a respeito de como tava caminhando a a investigação da Polícia Federal. Gente, qual é a situação que a gente tem aqui? Eh, isso é extremamente delicado. Eu tava tendo uma conversa ontem com um amigo, eh, que é um amigo que é um pouco mais de esquerda do que eu e um pouco mais, não é não é um cara super de esquerda, eh, tal, e, e é um, um dos melhores analistas, eh, políticos do Brasil.
¶14E o que ele tava dizendo para mim era o seguinte, não tem agora, agora a gente precisa tomar muito cuidado, porque ele esse meu amigo tem convicção de que a ele tá com uma cabeça da qual eu discordo, que é ele sente que nós estamos em 2022 ainda e que é preciso fazer de tudo pra eleição de Lula, porque se Lula não for presidente, o risco é Flávio Bolsonaro ser presidente. E aí o o o céu cai sobre as nossas cabeças. Eh, isso e aquilo. Eu eu discordo dele e eu discordo dele. Eu entendo quem pensa desse jeito, entendeu?
¶15Quem ainda tá preocupado com golpe de estado, quem ainda tá preocupado. Eu não acho que exista o risco de um golpe militar, eu não acho que exista. Eu eu na verdade espero de um governo Flávio Bolsonaro, na verdade um governo que apodreça ainda mais o Brasil do que ele já tá apodrecido, porque Flávio Bolsonaro é um sujeito profundamente corrupto e com as piores conexões possíveis aqui no e políticas possíveis aqui no Rio de Janeiro. Ele é ligado à milícia e ele é ligado à gangue que quebrou o Rio de Janeiro de uma maneira eh eh aterradora. O problema de Flávio Bolsonaro para mim não é golpe de estado, é apodrecimento moral.
¶16São coisas distintas, gente. Não é a mesma coisa. Mas é meio botar Wilson Wits na presidência da República, é botar Cláudio Castro na presidência da República. É gente intelectualmente medíocre, de uma profunda inepscia, eh eh como administradores públicos e corrupto, profundamente corrupto. E suposto esse é o problema do Flávio.
¶17O problema é o seguinte. A minha impressão é de que a principal ameaça que a democracia brasileira sofre hoje é o descrédito das instituições. E as e o descrédito das instituições não tá vindo de uma grande ameaça americana, não tá vindo de uma campanha de desinformação, tá vindo dos homens que têm poder nessas instituições. Eu tô falando especificamente em homens porque, por acaso, são todos homens. Eh, eh, eh, eh.
¶18É, gente, alguém acha que Alexandre de Moraes é um homem honesto? Tipo, na boa, alguém acha isso? Alguém tem essa impressão nesse momento? Entendeu? Eu entendo que você pragmaticamente se vira e defende, defenda.
¶19Não, não, tipo, não, não, não mexe porque vai piorar. Eu eu acho que é uma posição que pode ser defensável. Vamos trocar argumentos agora. Ciro Nogueira, Davi Columbe. É Flávio Bolsonaro.
¶20A a a maneira como o filho do presidente da República faz lobby com o chefe de gabinete do presidente da República de uma forma completamente desassombrada. Mas meu Deus do céu, não aprenderam nada com a Lava-Jato, não aprenderam nada com mensalão, não tiveram cuidado, pelo amor de Deus, de pelo menos ser discretos na tentativa de roubo. Eu eu eu fico, sabe, e eh eu eu fico por um lado meio e eh meio constrangido com esse tipo de discurso, eh porque eu eu sinto muito receio de tá parecendo moralista, sabe? Assim, do tipo, esperando que as pessoas sejam perfeitas, tentando colocar presidente da República eh eh em pedestal. Eu não acho que não seja perfeito.
¶21Eu não acho que seja possível haver um estado sem corrupção. [suspirando] Eh, é, é, é só que quando um homem só compra com esse tipo de valor uma quantidade de tão grande de gente na República, é só que quando a gente vê pela primeira vez na história da República um escândalo de corrupção envolvendo o Supremo Tribunal Federal, tem uma hora que a gente tem que tem que poder se virar e falar: "Nunca foi assim. Ninguém aqui vai dizer em quem você deve votar". Na verdade, aqui centro, esquerda e direita, todos têm espaço, mas nas próximas semanas muita gente vai tentar dizer em quem você deve votar. Então, como não se perder em meio a tanta notícia, promessas vazias e fragmentação de conteúdos.
¶22Ele 2026. A escolha pode ser o seu material de apoio para escolher quem vai assumir a presidência do país. O documentário parte dos cinco principais candidatos, quem são o que fizeram [música] até aqui. Mas eleição não se explica só por candidato. O filme também olha pro país que o próximo presidente vai encontrar.
¶23Já tá no streaming do meio com outras produções originais que trazem base para votar sabendo exatamente os motivos. [música] Assina o meio premium. Assiste agora. >> [música]