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Cármen Lúcia: vida está pior | De Tédio a Gente Não Morre

¶1Olha só, nos últimos dias a ministra Carmen Lúcia soltou uma frase que me pegou de jeito e ficou ali na minha cabeça. Ela disse o seguinte com todas as letras, tá? Estamos piores do que há 20 anos em termos de direitos das mulheres. Vamos lá. Quando uma frase dessas vem da Carmen Lúcia, que é essa mulher admirável, uma ilha de compostura e sobriedade no meio daquele lamaçal de Brasília, a primeira reação de todo mundo é balançar a cabeça e concordar.

¶2Até porque a sensação térmica de quem abre o vídeo do celular todo dia é exatamente essa, a de que o mundo virou um moedor de mulher. É feminicídio na hora do almoço, caso de estupro coletivo no café da tarde, juiz humilhando em audiência, influenciador misógeno destilando ódio na internet. A gente tem a nítida impressão de que tá andando de marcha réo lá pra Idade Média. Mas depois que passou esse primeiro impacto da fala da ministra, eu parei, respirei fundo e me fiz aquela pergunta incômoda. Será que a Carmen Lúcia tá certa?

¶3Será que a gente tá mesmo pior do que em 2006? Ou será que a gente tá confundindo o barulho, barulho muito saudável, diga-se de passagem, das de todas essas denúncias e das cobranças com um suposto retrocesso na vida real das brasileiras. Isso não é picoinha de número, gente. Isso é muito sério. Sabe por quê?

¶4Porque se a gente passa o dia inteiro martelando na cabeça das pessoas e principalmente na cabeça das meninas mais novas, das mulheres mais jovens, que 20 anos de luta, de passeata, de leis históricas, de bateboca público não serviram para absolutamente nada. O efeito não é despertar a coragem de ninguém, o efeito é o desespero, é o medo, é a paralisia. Eu ando muito angustiada com o que a gente tá fazendo com a cabeça dessa nova geração. Por um lado, tá? A gente passou os últimos 15 anos quebrando silêncios históricos.

¶5E que bom, né, gente? Tem que falar mesmo, tem canancar. O que antes ficava escondido entre quatro paredes com aquele rótulo covarde de briga de marido e mulher. Só que o excesso de foco exclusivo na desgraça tá produzindo um efeito colateral estranho. Em vez da gente ver jovens, mulheres entrando na vida adulta, seguras, confiantes, sabendo que hoje contam com uma rede de proteção, com leis, né, que as mães delas nem sonhavam em ter, o que a gente tá vendo é uma geração de meninas apavoradas, meninas que parecem ter medo de tudo, medo de se relacionar, medo de homem, medo de sexo, medo de casar.

¶6Medo de ter filho, medo de envelhecer, medo de viver. Elas olham para trás e acham que o presente é a pior coisa do mundo. Só que a verdade nu e crua é o oposto. Há 20 anos a vida da mulher brasileira era infinitamente pior. Agora vamos sair do achismo, tá?

¶7Vamos botar os números na mesa. Essas esta semana o economista Pedro Fernando Neri fez um levantamento muito bom comparando exatamente esse período, o Brasil de 2006, né? O marco de 20 anos em que a Carmin Lúcia citou e o Brasil de hoje em 2026. E o que que ele e os dados mostram? mostra uma melhora brutal na vida da mulher comum, da mulher que pega ônibus lotado e precisa botar comida na mesa.

¶8Vamos começar pela sobrevivência básica. Entre 2006 e 2026, a taxa de pobreza entre mulheres caiu para menos da metade e a extrema pobreza caiu para menos de 1/3. Vocês têm noção do que significa isso na prática? Mulher que vive na miséria, não tem como fugir do marido violento. Não tem como pegar os filhos no colo e bater a porta eh da rua se não tiver um tstão furado para comprar para um pacote de arroz no dia seguinte.

¶9Ter dinheiro próprio, ter redo na mínima, é a primeira e mais eficiente ferramenta contra a violência doméstica. Independência financeira salva vidas. E tem mais, nesses 20 anos, as brasileiras ganharam em média 3 anos a mais de estudo e 3 anos a mais de expectativa de de vida. A gente estuda mais e vive mais. A gravidez na adolescência, que sempre foi aquela âncora que enterrava o futuro de tantas meninas na periferia, tirando elas da escola, empurrando para subempregos, despencou 40%.

¶10Tá, tá bom. Não, não tá. Gente, ainda tem muito que melhorar, mas eu tô mostrando a diferença entre 2006 e 2026. A taxa de filhos por mulher caiu 0,3%. Isso na demografia mundial é o indicador mais clássico de autonomia.

¶11Mulher que tem acesso a método contraceptivo, que decide se quer e quando quer ser mãe, é uma mulher dona do próprio corpo. Nos últimos anos, especialmente no pós-pandemia, esses ganhos econômicos deram um outro salto. Com o Bolsa Família pago preferencialmente no nome da mulher e com o mercado de trabalho aquecido, o desemprego caiu mais rápido para as mulheres do que para os homens. Foram sete pontos percentuais de queda para nós, contra cinco para eles. E o rendimento médio feminino subiu 25% contra 20% deles.

¶12A fatia das mulheres na renda do país nunca foi tão expressiva. Aí eu pergunto, como é que alguém consegue olhar para esses dados e sustentar que a gente tá pior do que em 2006? Não estamos. Aí você pode virar para mim e dizer: "Tá, tá bom, Maril, mas e a violência? A ministra talvez estivesse falando do feminicídio, do sangue, da agressão." Perfeito, gente.

¶13Vamos falar de segurança, então, que é uma coisa que eu sempre falo, a taxa geral de homicídios no país caiu cerca de 20% nessas duas décadas. Mas quando a gente olha, né, nos jornais, parece que a violência contra a mulher explodiu. Por que que essa conta não fecha? Porque aqui a gente bate de frente com o que a sociologia chama de o paradoxo dos nórdicos. Que que é isso?

¶14Países como Suécia, Dinamarca Noruega, onde a igualdade de gênero tá no nível mais avançado do planeta, registram taxas altíssimas de denúncias de violência doméstica, muito maiores do que países machistas e repressores. Por quê? Porque o homem sueco bate mais em mulher. Não é exatamente isso. É porque lá nesses países a mulher não aceita nenhum empurrão.

¶15Ela sabe o que é violência, tem delegacia que funciona, confia na justiça e não depende do cara para nada. Ela vai lá e denuncia. Em 2006, a lei da Maria da Penha tava acabando de nascer. A mulher apanhava em casa e ouvia do vizinho que em briga de marido e mulher não se mete a colher. Lá na delegacia levava sermão de policial, né, que não tava nem aí.

¶16via o agressor ser liberado para pagar uma cesta básica no juizado. E olhe lá, homem matava a mulher confessando crime e saía pela porta da frente do tribunal aplaudido por causa da tal legítima defesa da honra, aquela escrescência jurídica que o STF só enterrou de vez outro dia. Falei na semana passada, o fato de os boletins de ocorrência e os pedidos de medida protetiva terem disparado, não significa necessariamente que a violência aumentou, significa que a mulher brasileira parou de apanhar calada. A violência que antes era empurrada para debaixo daquele tapete finalmente foi parar nas estatísticas oficiais. Agora, sim, eu também acredito que além das das denúncias, a violência também vem aumentando.

¶17E por que que isso tá acontecendo? Exatamente por conta dessa autonomia da mulher. Porque os homens não aceitam essa autonomia da mulher, não aceitam que a mulher diga não, não aceitam que a mulher diga que não quer mais aquele relacionamento, não aceitam que a mulher viva de acordo com as próprias regras. Então sim, a gente também tá vivendo um momento de ver mais violência, porque tá tendo um backlash, tá tendo uma revanche, os homens não estão aceitando. Esse é um número difícil de calibrar, porque a gente também tá vivendo num momento de sociedade diferente de 2006, quando as mulheres aceitavam a palavra do homem passivamente, sem questionar, sem querer fazer diferente.

¶18Agora sim, uma sociedade que denuncia mais não é necessariamente uma sociedade mais violenta, é uma sociedade que tolera menos o abuso. Agora vamos lá, tem alguns buracos seríssimos onde a nossa situação piorou de verdade, só que ninguém tá falando deles. Querem ver só? Eu mesma não sabia desse dado. O Pedro Fernando Ner chamou atenção para uma coisa assustadora.

¶19A taxa de suicídio entre mulheres subiu 50%. tem mais brasileira morrendo pelas próprias mãos do que vítima de homicídio. Por que que isso não abre os telejornais? Porque essa pauta eh não tá na boca dos políticos. A gente tá vivendo uma epidemia de adoecimento mental, de esgotamento, de solidão.

¶20O número de mulheres morando sozinhas explodiu, a emancipação veio, mas veio acompanhada de uma sobrecarga absurda, de cobrança tripla, de isolamento, um isolamento enorme. E essa conversa ainda tá muito restrita às mulheres. As mulheres têm falado isso, as mulheres têm denunciado, as mulheres têm reclamado, mas da mesma forma que o feminicídio demorou muito para virar uma pauta política de todo o espectro político, porque hoje a gente vê, inclusive, a pauta sendo usada, né, por pessoas que até pouco tempo atrás não estavam nem aí. Eh, essa pauta da questão da saúde mental feminina, por enquanto, não interessa para esses políticos. Eles não entenderam ainda o buraco em que a sociedade feminina brasileira tá metida.

¶21Agora vamos falar de política institucional. A gente melhorou a representação no Congresso, tem recordes no legislativo, cinco mulheres liderando pesquisas para governos estaduais. uma chance de ver, por exemplo, no Distrito Federal, uma bancada no Senado formada a 100% de mulheres. Claro que ainda precisa melhorar, porque os números ainda são pequenos, mas no andar de cima, no Supremo Tribunal Federal, retrocesso é vergonhoso. O número de ministras, todo mundo sabe, despencou.

¶22Tribunal virou um clube do Boa Linha escancarado e a própria Carmen Lúcia ficou lá praticamente sozinha na bancada assistindo os homens de terno toga operando naquele balcão de compadril. Mas veja bem, a grande virada dos últimos anos não foi só no bolso, foi na cabeça e na linguagem. As meninas de hoje chegam aos 20 anos com vocabulário que a minha geração e as que vieram antes simplesmente não tinham. A gente sentia dores, passava por constrangimentos, mas não sabia nem como chamar tudo aquilo. Hoje qualquer garota sabe o que é consentimento, o que é relação tóxica, o que é assédio moral, o que é violência patrimonial, o que é gasling.

¶23Elas têm nome para cada coisa, tem redes sociais para gritar, tem respaldo da lei. Queria eu com os meus 20 ou 30 anos ter tido acesso a um démo dessas informações que essa moçada tem hoje. Saber que a gente tem o direito sagrado de não querer, não ceder, de não engolir sapo para ser agradável. Por isso me dá uma certa tristeza de ver as mulheres jovens sofrerem tanto, apesar de estarem tão bem informadas e preparadas pra vida do que nós fomos. A gente não tinha nem lei para fingir que protegia a gente.

¶24As novas gerações parecem ter medo de encarar o mundo. O levante feminista dos últimos 15 anos prometia entregar consciência, atitude, coragem para apitar as injustiças. No lugar disso parece que ficou só o pânico. Eu vou ser muito sincera, eu tenho horror a páginas que só sustentam esse discurso, que focam em como a vida da mulher é horrível, sem oferecer soluções, sem estender a mão, sem dar fôlego para que essas jovens mulheres enfrentem o mundo com as ferramentas que hoje estão disponíveis. Que bom que hoje a gente tá armada com informação, tá amparada pela legislação, mas não dá paraa gente tá preparada todo dia para uma guerra.

¶25Isso não é vida, tem nada a ver com o empoderamento. E repara só, a própria palavra empoderamento caiu de moda. E ó, vamos falar, graças a Deus, porque virou, né, um termo meio publicitário, um clicheão. O problema é que a atitude empoderada também desapareceu. Quando eu vejo tantas meninas inteligentes, cheia de teoria na cabeça, mas trancadas no quarto, com medo de dar a cara tapa no mundo real, a sensação que me dá é amarga.

¶26Parece que o patriarcado venceu pelo susto, porque nada agrada mais ao machismo tradicional do que uma mulher cheia de discurso, mas paralisada pelo pavor de viver. Tem muita coisa para melhorar ou se tem, né? Dupla jornada ainda é massacrante, a diferença de salário ainda existe, a violência machista ainda enche a gente de ódio todos os dias. Mas dizer que a gente tá pior do que há 20 anos é injusto com a nossa própria história. É cuspir na luta de quem abriu essa estrada, ó, no facão quando tudo era mato.

¶27Celebrar o o chão que a gente já conquistou não é um comodismo, é a única forma de ter fôlego para continuar brigando pelo resto. A ministra Carmen Lúcia errou na conta e errou no discurso, mas que bom que ela trouxe esse assunto pra roda pra gente poder, né, clarear as coisas. E antes que eu me esqueça, tá? No meio desse festival de promiscuidade, de banqueiro bancando autoridade e de homens poderosos se vendendo na bacia aí, né, de Brasília. Viva Carmen Lúcia.

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