Radar

radar · Política & notícias

Crise no STF: Mendonça e Morais usam seu poder no limite

¶1Eu acho que tem três histórias que tão circulando e é importante a gente ter consciência de que existem três histórias diferentes sendo contadas. A primeira história é a história bolsonarista, entendeu? André Mendonça está promovendo uma limpeza dentro do Supremo Tribunal Federal. >> Uhum. >> Eh, a segunda história é a história petista.

¶2E o que que diz a história petista? Ah, bem, André Mendonça é um agente do bolsonarismo, está trabalhando para eleger Flávio Bolsonaro. A terceira história é o que que tá acontecendo e a gente não sabe o que que tá acontecendo. Eh, eu eu eu não tô querendo parecer irônico com isso, não. A intenção realmente não é de ironia, é simplesmente ter consciência de que a gente não sabe o que que tá acontecendo.

¶3Existe, evidentemente, uma disputa de poder dentro do Supremo Tribunal Federal com, de um lado, o André Mendonça, do outro lado, Alexandre de Moraes. Essa disputa de poder pode perfeitamente ser uma disputa de poder interna, não necessariamente com o objetivo eleitoral. Agora, tem uma segunda camada nessa história que é a seguinte: existe impacto eleitoral. Flávio Bolsonaro está sendo beneficiado por essas decisões. Ele tá sendo beneficiado pelo seguinte.

¶4Quando você escolhe tornar públicos todas as conversas do Alexandre de Morais com Daniel Vorcaro e escolhe esconder as conversas de Daniel Vorcaro com o Flávio Bolsonaro, a gente tem um problema de disparat de armas nessa eleição. Eh, de alguma forma, um bando de gente dentro do bolsonarismo botou na cabeça que pro Flávio Bolsonaro tudo bem porque era dinheiro privado. >> Hum. >> Pro Alexandre de Morais tudo mal porque ele é ministro do Supremo Tribunal Federal. Só tem um problema.

¶5Se é para ser cínico, é o contrário, porque o dinheiro não foi pro Alexandre de Moraes, foi pra mulher do Alexandre de Moraes, que ela sim é uma advogada privada. Flávio Bolsonaro é senador da República. Eduardo Bolsonaro era quando recebeu a grana deputado federal. Então, na verdade é muito mais grave se é para sermos cínicos. >> Uhum.

¶6>> Entendeu? Porque é no cinismo que você se vira e fala que pro dinheiro, pro Flávio é é dinheiro privado, é puro cinismo. Se é para sermos cínicos, aí a história beneficia, na verdade o Alexandre e não o Flávio. É muito grave que o cara, que é o operador do maior escândalo financeiro da história da República, tenha pedido 25 milhões de dólares e tenha ganhado, até agora sabemos, pelo menos 14 milhões de dólares. Agora, quem tá procurando uma história limpa, quem tá procurando uma história fácil, quem tá procurando uma história eh corriqueira, [risadas] tem alguns problemas.

¶7Um dos problemas é o seguinte, eh aquele relatório que o Alexandre de Moraes tornou público sobre o Mendonça é um relatório absurdo que não podia de fato ter sido produzido. Metade é feito pelo chatt, tá? Obviamente foi uma coisa produzida as pressas. Agora, aquele relatório não podia, aquele relatório é ilegal e, portanto, justifica legalmente o afastamento do pelo ministro Mendonça da do comando da Polícia Federal. Porque se eles de fato produziram um relatório apócrifo, porque é um relatório apócrifo, né?

¶8Não tem nenhuma assinatura. Se eles de fato produziram um relatório apócrifo, eh, indicando que eles estavam acompanhando, investigando o ministro do Supremo Tribunal Federal, isso ilegal. E sabe o que que é o pior? Tem precedente. Jair Bolsonaro quis nomear Alexandre Ramagem paraa diretoria da Polícia Federal e Alexandre de Moraes como ministro do Supremo bloqueou, entendeu?

¶9Com o uso do da mesma autoridade que o Mendonça tá usando agora. Então, se era legal quando o Alexandre fez, é legal agora que o Mendonça faz. Veja, nada disso é simples, porque no fim das contas, quando Mendonça faz um gesto desses de uma agressividade dessas, porque é um gesto profundamente agressivo, que é de de eh afastar do cargo o diretor da Polícia Federal, quando o Arix de Moraes bota um colega da Suprema Corte no no inquérito do fim do mundo, o Faquim tirou horas depois, mas o Arixan botou. Na verdade, o que a gente tá vendo são dois ministros do Supremo Tribunal Federal usando o seu poder no limite, no talo, no máximo, que é exatamente o que se espera que pessoas republicanas não façam nunca quando tão ocupando poderes, quando estão ocupando funções públicas com muito poder. Você nunca usa seu poder no limite.

¶10Você evita ao máximo de usar no seu poder no limite. É, é por quê? Porque isso essencialmente faz com que a crise se aprofunde, se aprofunde, se aprofunde. Eh, tem um monte de coisa complicada, tem um monte de coisa atrapalhada, tem e essa história é muito mais complicada, me parece, do que a trivialidade das duas torcidas tá fazendo parecer. Mas a maior maior preocupação que qualquer brasileiro hoje devia ter é o seguinte.

¶11precisa tornar públicas as conversas de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro. Precisa tornar público tudo que se sabe sobre Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro por um motivo muito simples. Não [limpando a garganta] pode essa eleição ser decidida com com [roncando] pouca com informação pela metade. Você não pode ter o eleitor não pode ter só metade das informações a respeito do que tá acontecendo. É preciso, eu vou ficar batendo nessa tecla até o último momento.

¶12Não pode o Flávio Bolsonaro passar como limpo nessa história quando ele obviamente não é. A gente já sabe do pedido de grana que é essencialmente. Eh, olha, é um filme do né, gente? A a a a a a a razão pela qual a família Bolsonaro pediu essa grana, o motivo pelo qual o Daniel Vorcaro pagou essa grana, é porque percebia que ele tinha o potencial de chegar à presidência da República e tava literalmente tentando comprar um presidente da República, assim como estavam literalmente tentando comprar ministros, não só um, né, ministros do Supremo Tribunal Federal. É isso que Daniel Vorcaro fazia.

¶13Daniel Vorcaro não distribuiu dinheiro em Brasília que não para pessoas que poderiam beneficiá-lo porque ele sabia que ele tava montando um escândalo de pirâmide gigante. E a única maneira dele sair daquele negócio livre e com dinheiro é se ele tivesse pago gente o suficiente para poupá-lo de ser condenado pelo crime que ele tava cometendo, que é de novo o maior escândalo financeiro da história da nossa república. E tudo isso já seria muito doido se a gente ficasse apenas na parte institucional dessa questão, né? se a gente estivesse pelo menos eh dentro de um cercadinho em que a gente estivesse tratando apenas do Supremo Tribunal Federal, se a gente tivesse tratando apenas de dois ministros utilizando os seus muitos poderes para atacar um ao outro, para afetar eh o poder um do outro e tivéssemos um presidente do Supremo Tribunal Federal que tá ali no meio. Calma, pessoal, em 5 dias, por favor, tragam-me suas explicações.

¶14e a gente nem conseguiu chegar nesses 5 dias ah e tivéssemos estivéssemos vendo a um esfarelamento institucional que coloca em termos quase literais muitas das figuras das de linguagem que a gente utiliza no dia a dia. Olha, eh, há uma guerra civil no Supremo Tribunal Federal, há uma divisão entre alas do Supremo ou a divisão entre uma certa instituição? Nesse momento, me parece quase que literal que há alas na Polícia Federal. Há alas que estão literalmente quase, né, não literalmente com armas, mas estão se atacando eh e tentando se proteger dos poderes de uma outra ala do Supremo Tribunal Federal. Eh, e o comportamento dos membros dessas alas é especificamente da forma que a gente esperaria que que eh se comportassem se de fato estivessem times opostos.

¶15E bem o Gilmar Mendes pedindo vistas e é a confirmação de novo de que há realmente times diferentes com Fux e no outro lado. Enfim, quem confirma confirma. Eh, quem é pé de vistas confirma a expectativa desse outro time também. E o Brasil vai tornando literal essa abordagem da conversa sobre política. E tudo isso já seria muito grave, porque nós estamos vendo as instituições que deveriam freiar o poder uma das outras, eh, se esfarelando entre si mesmas.

¶16E tudo isso acontece, e por isso que eu digo que não é só uma crise institucional, tudo isso acontece a 30 dias de uma eleição presidencial que todas as pesquisas mostram eh a mais apertada desde a redemocratização. Então, eh o o que a gente o que a gente acredita ou o que os militantes dos dois principais candidatos eh acreditam nesse momento é irrelevante. as intenções de cada lado ou as intenções de cada player dessa confusão toda é irrelevante, porque no final obviamente vai ter um impacto sobre sobre a eleição. E é muito grave que a gente eleja um presidente da República sob o efeito dessa nuvem de incerteza. Não, não é só confusão, não é só h esse essa contaminação institucional, não é só essa desconfiança generalizada, é uma incerteza, porque, bom, como vocês estavam dizendo, a gente não sabe qual vai ser o fruto do próximo vazamento, a gente não sabe qual é o conteúdo do próximo vazamento.

¶17E se na discussão de políticas públicas muito se discute sobre as leis, as mudanças de de legislação que são feitas no calor do momento. Acontece uma tragédia, aí há uma mudança de legislação feita de forma meio irrefletida no calor do momento, porque alguma coisa aconteceu, a sociedade precisa dar uma resposta política. Agora a gente tá vivendo isso numa forma muito mais profunda e muito mais grave, que é a decisão eleitoral para um mandato de 4 anos de presidente da República, de governadores, senadores feitas no calor do momento e não só no calor do momento, no sobre uma nuvem de incerteza gigantesca que pode se dissipar a qualquer momento. E se as informações aparecem 5 dias depois que a gente já elegeu um presidente da República ou reelegeu o Lula e a gente não sabe, é dessa forma que a gente chega nessa nessa eleição de 2026. E tudo isso é muito perigoso em vários degraus.

¶18A gente pode discutir isso aqui ao longo do programa, mas o potencial de que a gente acredite estar nesse momento no fundo do poço, mas que a gente não esteja exatamente no fundo do poço e que isso ainda possa se complicar, não é pequena, porque nós temos uma investigação muito grande que envolve pessoas muito importantes, encargos muito importantes, acontecendo num momento importante de decisão e que eh pode ser que a gente não seja não esteja ainda no no fundo do posto. Isso me deixa bastante não só apreensivo sobre o que pode acontecer, mas muito inseguro, porque a gente tá brincando com um fogo, um fogo bem bom, um fogo bem quente, porque o esparelamento institucional tem um potencial de dano pros próximos anos que talvez a gente não tenha experimentado ainda, que seja muito pior do que corrupção, que seja muito pior do que um ou outro contaminado. Tem uma coisa que tá me chamando atenção e eu até pegando também uma coisa que o Pedro falou eh e que eu falo no meu cá entre nós de hoje que vai a hora mais tarde, que é o seguinte. Sempre que a gente fala de crise institucional eh parece uma coisa um pouco etérea, um pouco, né, abstrata. Eh, e principalmente num momento de uma crise que tá se agudizando como essa também dá a impressão de que ela começou a semana passada.

¶19Mas eh quando eu fiz as entrevistas que eu fiz paraa última edição de sábado do meio, eh que é exclusiva para assinantes premium, inclusive, eh eu entrevistei o professor Oscar Vilena, eu entrevistei o professor Rafael Mafei, dois juristas da mais alto do mais alto gabarito, e entrevistei o Felipe Recondo, >> que é jornalista e pesquisador, escritor sobre também tem tudo de Supremo. E ele me deu um exemplo, Pedro, eh, não comparando com o Ramagem, porque não tinha ainda acontecido, eh, o episódio de hoje, né? >> Mas hoje até ouvi o professor Gustavo Sampaio no rádio falando que não é exatamente a mesma coisa justamente pelo que você apontou, né? N o Mendonça pega um cara que já está no cargo e pede o afastamento. O outro impede de assumir duas medidas graves, mas ainda em momentos diferentes.

¶20Mas a analogia, >> você vai lembrar, Flávia, que o Gilmar impediu o Lula de assumir ministro da Casa Civil. >> Isso >> que é uma intervenção tão grave quanto se não for maior nesse caso, né? Exatamente. Então você vai e e aí era exatamente aí que eu ia chegar, porque [risadas] >> a cada erosão institucional, né, a cada a cada grauzinho de desrespeito à institucionalidade, de atuação eh autocentrada de de pessoas que ocupam cargos institucionais, mas que agem mais guiadas pelos seus próprios interesses, seja do grupo que representa, seja da própria sobrevivência, do que pela institui instucionalidade mesmo, o como isso vai pavimentando a crise institucional ali da frente. E a gente fica aqui, né, eh, matracando semana após semana.

¶21Olha a crise institucional aí. Olha a crise institucional aí, parecendo só que é um bando de alarmista. E aí ela vem. >> Você tá cansado, né, dessa disputa que parece ficar só entre dois lados. Mas e se eu te contasse que o Brasil que chega às urnas é muito mais complexo do que isso?

¶22Bom, o meio existe para quem quer fugir da polarização, [música] do extremismo e formar a própria opinião. Aqui a gente apura, ouve diferentes perspectivas, faz as perguntas que precisam [música] ser feitas e coloca os fatos em contexto, sem transformar discordância em guerra. É esse olhar que atravessa tudo que [música] fazemos, das notícias do dia, as entrevistas, das análises profundas às [música] pesquisas e as nossas produções originais no streaming. Porque nosso trabalho não é simplificar o Brasil para caber em [música] lados, é dar você mais elementos para enxergá-lo por inteiro e formar o seu [música] próprio juízo de valor. Com a assinatura premium, você acessa a edição de sábado, meio político, a pesquisa, meio ideia e o streaming completo.

¶23[música] Se esse é o tipo de jornalismo que você procura, assina o meio premium. Ah.