¶1Presidente Lula disse num comício nessa sexta-feira, dia 18, em Guarulhos, em São Paulo, que as bets são a coisa mais horrorosa que ele já viu na vida e classificou a dependência dos jogos online como uma doença grave, uma verdadeira epidemia de ludopatia. Ludopatia é o vício em jogos. No palanque, o presidente relatou conversas dramáticas com pessoas que perderam tudo que tinham, venderam bens, acumularam dívidas extremas e chegaram ao desespero de tentar tirar a própria vida por causa do vício nas apostas. E quando os clubes de futebol reagiram com o manifesto corporativo afirmando que o fim das bets quebraria o futebol nacional, Lula foi mais rápido na ironia. Lembrou que Pelé no Santos, Zico no Flamengo, Guardiões históricos do São Paulo, Corinthians, Grêmio, Internacional foram campeões mundiais numa época em que camisa de time não precisava estampar propaganda de cassino.
¶2Ele arrematou dizendo que o governo não tá preocupado em perder a arrecadação de impostos, mas sim em evitar que a população empobreça e perca sua renda. O discurso do presidente é forte, é necessário, tem um apelo popular imediato, só que como quase tudo na política de Brasília tem um abismo entre o que se fala no palanque e o que se desenha na prática. Dois dias antes, num podcast, o Lula já tinha dito, tinha falado da sua disposição pessoal de acabar com as bets, chamando problema de doença e cravando que não existe aposta boa ou aposta ruim. Em Guarulhos, ele endureceu o Tom, disse que a proibição acabaria também com a lavagem de dinheiro e com a roubalheira. Mas o que o governo de fato prepara nos bastidores é uma medida provisória bem mais estreita.
¶3A proposta em estudo visa proibir os cassinos virtuais, os jogos rápidos e viciantes do tipo tigrinho, revogando o texto da lei 14.790, 1790, que regulamentou os jogos virtuais, mas preservando as apostas esportivas e os patrocínios milionários do futebol. Essa distinção técnica é fundamental para uma análise séria. Um jogo de cassino online com caçanis de bolso, né? aquele resultado instantâneo, a cada 3 segundos, repetição compulsiva. Isso tem um potencial de dependência psicológica brutalmente mais agressivo e destrutivo do que apostar no placar de um jogo de futebol no fim de semana.
¶4Mas a questão de fundo que a gente precisa encarar com honestidade é anterior a tudo isso. Como é que o Brasil chegou a esse estado de calamidade e principalmente quem é que tá pagando o pato segurando a fatura, uma fatura devastadora dentro das casas? A verdade incômoda é que a abertura, regulamentação de jogos no Brasil foram feitas num autêntico bunda lelê. Essa é a palavra. Uma liberação estabanada, sem planejamento, sem medição prévia de impacto social e sanitário, sem limite de publicidade predatória que tomou de assalto à televisão, os estádios, as transmissões esportivas, as redes sociais de influenciadores digitais.
¶5abriram, ó, a porteira sem programar o básico de alerta contra superendividamento, sem travas responsáveis e sem uma rede eficaz de apoio de tratamento pelo SUS para colher quem se vicia. Foi um salve se, aliás, foi não, né? Tá sendo, tá sendo um salve se quem puder, em nome de um otimismo irresponsável de promessas de arrecadação fácil. O tamanho do estrago que foi plantado ali hoje é medido com números estarrecedores documentados por estudos robustos e variados. O levantamento da Confederação do Nacional do Comércio, a CNC, estima que os gastos com apostas online no Brasil saltaram de praticamente zero em janeiro de 2023 para mais de R bilhões deais por mês.
¶6Nesse intervalo, cerca de R3 bilhões deais foram denados do comércio e do varejo, empurrando cerca de R8.000 1 famílias para inadimplência severa. Só no acumulado de 2025, as famílias brasileiras perderam 62 bilhões deais pras plataformas no mercado que movimentou 351 bilhões e no qual os homens de baixa renda acima de 35 anos aparecem como os mais vulneráveis. Ortudado impressionante. Ao isolar o impacto do jogo de variáveis como juros e crédito, os pesquisadores descobriram que o coeficiente do impacto das betes no endividamento familiar é cerca de três vezes maior do que o peso dos juros ao consumidor e cinco vezes maior do que o do crédito. Em resumo, mesmo com a taxa CELIC de 15%, apostar no celular virou uma força de empobrecimento mais veloz e destrutiva do que o cartão de crédito ou o cheque especial, que a gente sabe que é muito caro.
¶7Para completar esse retrato clínico de terra arrasada, uma pesquisa recente feita em parceria com Unicampio mostrou que 99% dos apostadores tiveram prejuízo financeiro nos últimos 30 dias. 81% acumularam dívidas, 41% tiveram que cortar despesas com itens essenciais. A gente tá falando de comida e remédios. E 97% dizem que querem apostar menos, mas só 9% acreditam que vão conseguir. Vamos lá, vou repetir isso porque é muito sério.
¶897% dizem que querem apostar menos ou parar, mas só 9% acreditam que vão conseguir fazer isso sozinhos. Isso sem falar daquele dado emblemático do Banco Central que chocou o país e que já rodou por aí, que os beneficiários do Bolsa Família chegaram a transferir R 3 bilhões de reais via PIC para plataformas de apostas no único mês. Ou seja, a premissa do desastre tá amplamente documentado. Mas quando a sociedade e a imprensa discutem esse problema, a imagem que sempre vem à tona ainda é a figura masculina, né? O homem vidrado na tela, torcendo pelo lance.
¶9E é exatamente aqui que entra o ponto cego da discussão pública no Brasil. Um estudo divulgado pelo estúdio Clarice jogou luz sobre o verdadeiro epicentro dessa crise que a gente tá vivendo. A epidemia das betes atinge em cheio as mulheres e tá implodindo as famílias por dentro. A pesquisa mostrou que quase metade da população brasileira, 49% aposta ou já apostou. Entre as mulheres, o índice alcança 42%.
¶10Elas não são exceção, nenhum público periférico, são quase metade de quem aposta no país. E são elas que estão berrando de desespero. 67% das que foram ouvidas alertam com todas as letras que as apostas online estão destruindo as famílias brasileiras. É uma percepção maior do que a dos homens. 59% dos homens acham isso.
¶11Não por acaso são as mulheres que lideram com folga a cobrança por uma solução radical. 62% delas defendem a proibição total de jogos online no país contra 50% dos homens. E olha, gente, num país fraturado pela polarização ideológica, onde raramente existe um consenso sobre qualquer assunto, a rejeição ao avanço das betes conseguiu um feito raro. Unir os dois lados da arquibancada política. Entre os eleitores do Lula, 62% apoiam o banimento total.
¶12Entre os eleitores do Bolsonaro, 56% querem exatamente a mesma coisa. A vida real de quem precisa botar comida na mesa superou a cegueira das torcidas partidárias. O diagnóstico das pesquisadoras do estúdio Clarice, Beatriz de Laa Costa e a Mariana Ribeiro, é cirúrgico. As plataformas de aposta capturaram dois imaginários profundos na nossa sociedade. A promessa de uma vida digna e o papel histórico do cuidado familiar atribuído à mulher.
¶13Para muitas mulheres, a Bet não foi vendida como entretenimento ou adrenalina, mas como uma tentativa aflita, né, de fechar as contas do mês, garantir lá comida na mesa, a conta de luz paga, o presente de aniversário do filho. Olha que loucura. A casa, esse principal espaço em que a mulher exerce sua gestão e a sua liderança, acabou capturada por essa armadilha. E tem um agravante que a macroeconomia ignora completamente. Mesmo quando a mulher não joga, é ela quem paga a conta dessa tragédia.
¶14A Mariana Ribeiro destacou isso. Olha, onde tem aposta, tem uma mulher pagando a conta. Isso é muito grave. É a mãe, a esposa, a avó que precisa se desdobrar para cobrir o rombo quando o companheiro torra o salário da família no seu lar. E essa dívida visível é só a ponta do iceberg.
¶15O estrago real corroi as relações que sustentam o lar por dentro. A mulher gerencia a ruína do dinheiro e simultaneamente a ruína das relações. E o levantamento trouxe um dado estarrecedor. 23% dos entrevistados conhece ou já presenciaram episódios de violência doméstica desencadeado diretamente por perda nas apostas. Ou seja, o vício mostra, né, o segredo, a vergonha, a mentira e com uma frequência assustadora, agressão física dentro de casa.
¶16E o que o poder público ofereceu para essas famílias até agora? Absolutamente nada. O estudo da da Clarice revelou que 70% dos brasileiros nunca ouviram falar do sistema de autoexclusão criado pelo governo federal. é uma ferramenta que teoricamente permitiria ao apostador bloquear o próprio acesso aos sites. E esse desconhecimento é ainda maior justamente entre as mulheres da classe D e E, que são as mais asfixiadas por esse problema.
¶17Nenhuma campanha educativa decente, nenhuma linha de amparo, né, anônimo, uma medida que 57% dos apostadores frequentes gostariam de ter. Ou seja, nada, não tem nada. É fácil entender porque que diante de um quadro tão revoltante, a reação imediata é dizer: "Então, proíbe tudo de uma vez por decreto". Mas é exatamente aqui que a gente precisa dar um passo atrás e agir com a cabeça. A discussão real é sobre o instrumento.
¶18Proibir simplesmente funciona no mundo real. Vamos lá. Experiência internacional mostra que não é bem assim. O caso mais estudado, emblemático é o da Itália, que em 2018 aprovou um decreto banindo de forma categórica qualquer publicidade e patrocínio de apostas. 8 anos depois, o resultado prático foi decepcionante.
¶19O mercado ilegal online italiano explodiu e hoje movimenta cerca de 20 bilhões de euros por ano, contra 11 bilhões do mercado legal. teve CPI no parlamento italiano que constatou que o jogo clandestino continuou crescendo, inclusive entre menores de idade. E tanto o Senado quanto a agência reguladora de lá já discutem afrouxar a regra porque o estado perdeu o controle sobre os operadores clandestinos. Bélgica, França, Holanda, enfim, tem outros países viram o mesmo filme Proibindo Papel. só empurra os apostadores para sites hospedados em paraos fiscais, fora do alcance da lei, sem nenhum filto de proteção e sem pagar nenhum centavo de indenização a quem foi lesado e sem pagar impost impostos de forma alguma.
¶20Por isso o debate não pode ser infantilizado, nem ficar refém da demagogia. A decisão que o governo ensaia de cortar pela raiz os cassinos virtuais de resultado instantâneo que operam como caçanqueis, né, desenhados especificamente para denar o cérebro humano, é um primeiro passo indispensável. Mas achar que uma canetada encerra o assunto, gente, é ilusão. O Brasil precisa encarar as Bets como uma emergência de saúde pública, de assistência social. Isso passa por impor limites severos ao uso do Pix, restringir a propaganda abusiva sem ceder a pressão dos cartolas do futebol e, acima de tudo, estruturar canais de atendimento psicológico, tratamento médico pro SUS, para pras famílias atendidas, mas coisas que funcionem.
¶21Nenhuma resposta do Estado vai ser minimamente eficaz se o poder público continuar fingindo que não vê o papel central das mulheres nessa crise. Como bem concluiu a pesquisa da da Clarice, a perspectiva da mulher é a única pela qual se enxerga a crise inteira, na ponta do dinheiro e na ponta das relações. sem escutar quem quem tá na linha de frente segurando os escombros dentro de casa, o governo vai continuar trocando discursos inflamados no palanque por medidas burocráticas que não chegam aonde a dor realmente mora. Pessoal, estamos a 15 dias do primeiro turno das eleições de 2026 e que disputa movimentada, né? Se você não quer perder nenhum detalhe até lá, nos newos letter gratuita do meio, é o jeito mais rápido de acompanhar tudo.
¶22De segunda a sexta, direto na sua caixa de entrada. São 8 minutos de leitura o suficiente para entender o principal do dia, sem precisar rolar o feed atrás do do pedaço da notícia. Já vem tudo organizado, o que aconteceu no Brasil, no mundo e o que isso significa pra corrida eleitoral até as urnas e depois delas também, tá? Então assina lá para já começar, se inscreve lá para começar a semana bem informado. E eu e você, a gente se vê na semana que vem.
¶23Eu espero que com uma voz melhor, porque eu tô meio afônica. A gente se vê então daqui uma semana. >> No noticiário político não se fala em outra coisa que não essa crise do STF, né? No meio a gente faz essa cobertura completa, sim. Mas vamos além.
¶24Nas edições de sábado de setembro, nosso time foi atrás de quem estuda o Supremo. Entrevistamos alguns dos maiores juristas e pesquisadores do [música] país para analisar essa crise, para explicar essa crise. Não é opinião de mesa de bar, é contexto, [música] é informação. Foi assim com Rubens Gler da FGV Direito SP sobre urgência de uma reforma na corte. tá lá na nossa edição mais recente, mas o STF não pode abafar todo o resto.
¶25Por isso, trouxemos entrevistas e artigos sobre os outros temas que também preocupam o brasileiro nessa eleição, como economia, como educação. A Débora Bizarria, por exemplo, escreveu um artigo comparando os cinco programas de governo na economia. A Priscila [música] Cruz, do Todos pela Educação, bateu um papo com a gente sobre o que cada presidenciável propõe nesse campo. São os temas que o noticiário do dia a dia deixa passar, mas a gente não. Se você quer acompanhar essa eleição com esse nível de profundidade, qualidade de análise, assina o meio premium [música] e receba a edição de sábado, toda semana.
¶26vai fazer diferença para você entender no que tá botando. >> [música]