¶1Virar uma eleição presidencial no segundo turno é algo muito difícil, sem precedentes. Mas se tem alguém com alguma chance de fazer isso, é Lula. Até aqui, por incrível que pareça, seu maior cabo eleitoral foi Valdemar Costa Neto, presidente do PL, partido de Flávio Bolsonaro. É sempre muito interessante assistir as entrevistas do Valdemar, que deixam uma turma do bolsonarismo fula da vida, porque ele comete uns sincerídios maravilhosos, mas esses arroubos de honestidade do Valdemar são sempre muito informativos. E embora a família Bolsonaro tenha tomado de assalto o PL, ele ainda é seu dono.
¶2É uma espécie de uso capião. Só que antes de falar do Valdemar, do que ele revelou na entrevista que deu paraa Globo News e das estratégias de Flávio Bolsonaro para tentar ganhar a eleição, eu quero falar do Lula, do PT e da esquerda. E a esquerda vai precisar fazer esse exame, mas porque mesmo porque sem entender e rápido onde se errou, não se corrige o rumo. E o próprio Lula falou disso na primeira reunião de redirecionamento da campanha para esses quase 20 dias de segundo turno pela frente. Então vamos partir do básico, que é uma avaliação macro do resultado de domingo.
¶3foi praticamente um empate técnico com Flávio numericamente à frente, exatamente como muitas das pesquisas apontavam que podia acontecer, inclusive a nossa meio ideia poderia ter sido o inverso, mas Flávio é que tava com esse impulso na reta final. As apostas que Lula fez de última hora com o reajuste do Bolsa Família, proibição de Bets e Desenrola 3, ou não surtiram um efeito tão positivo quanto se esperava, ou evitaram uma derrota maior. Não há como a gente saber ainda. Outro dado, a abstenção, embora tenha batido recorde, não foi tão decisiva em desfavor de Lula assim. Agora, no momento, é onde tá o maior estoque de votos que Lula pode cobiçar e tentar conquistar.
¶4É difícil imaginar que alguém que faltou no primeiro turno vá se animar de ir no segundo, mas aí Valdemar pode cumprir um papel importante. A gente já fala disso ali na frente. Agora, o que me deixa atônita no governo, na campanha e no próprio Lula é a aparente surpresa com que eles receberam o resultado das urnas. Lula pode ter dito que esperava ser eleito em primeiro turno apenas como uma forma retórica de manter a militância animada, mas me pareceu ser genuína a sua reação. E somada a uma frase que ele disse no Flow, na entrevista que deu na noite do debate que não aconteceu na Globo, ela é muito sintomática.
¶5No flow, ele disse que demorou para proibir as bets porque só ficou sabendo da gravidade do problema há algumas semanas, que ele só tomou contato com a extensão da crise depois de convocar mulheres e homens endividados no Planalto para ouvir suas histórias. Isso tem coisa de um mês que o governo vinha mapeando o problema, havia proibido que se usasse dinheiro do Bolsa Família em apostas, por exemplo, mas que ele mesmo só tomou contato com o drama humano quando chamou esses brasileiros e os ouviu. É curioso que agora uma parte da campanha esteja culpando justamente a proibição das bets pela derrota, quando é nesse episódio que se encerram tanto o desafio quanto a solução pro lulismo. OK? Talvez uma transição em vez da proibição completa fosse mais bem-sucedida eleitoralmente.
¶6A gente não sabe. Mas Lula narrar como seu distanciamento das pessoas de baixa renda o deixou sem búsola para tomar a medida e como a sua reconexão com eles o levou a se mover, é a descrição completa do resultado da urna. Para mim, [roncando] o presidente Lula sempre conseguiu entender as dores do pobre. Foi um deles. Essa noção simplista que muita gente tem de que se político usasse SUS e serviços públicos seria um governante melhor, se aplicava a Lula em muitas dimensões.
¶7Um nordestino retirante que viveu na pele o que é ser miserável no Brasil. Pois bem, seu governo Lula 3 refez algumas das pontes que haviam sido destruídas por Jair Bolsonaro de política pública para os mais pobres. Restaurou farmácia popular, restabeleceu uma merenda escolar minimamente decente, recuperou o salário mínimo e aos 45 do segundo tempo reajustou Bolsa Família. Acontece que existe uma classe média baixa, essa que ele recebeu no Planalto para falar de Bets, que não se sente contemplada ou não suficientemente contemplada pelas políticas de Lula, por suas falas, por sua agenda como um todo. A representação direta disso é o custo de vida.
¶8Tá doloroso fazer compra no supermercado para todo mundo. Eu sei, você sabe, o mundo tá enfrentando aperto, não é só aqui. Mas esse não é um argumento que comova o eleitor, não. E essas pessoas não se sentem mais ouvidas por Lula, que dirá representadas por ele. Sabe como o centrão reclamava que o presidente não recebia mais eles no gabinete para aquele papo, para aquele cafezinho?
¶9Então tem um pedaço do povo se sentindo assim também. Esse pedaço é a classe C. E aí o que que faz a a campanha? Monta palcos em que ele aparece como um popstar lá no alto. Marca eventos em que ele fala mais com a própria militância.
¶10Adota um tom de enaltecer o seu legado em vez de conquistar votos. O legado de Lula vai ser digno de ser enaltecido? Quando ele sair da disputa eleitoral, enquanto ele nela estiver, ele precisa convencer e entregar, falar de futuro, não do que já fez no passado. A campanha de Lula foi pouco profissional, foi feita por quem vê Lula com olhos de militante, com olhos apaixonados. Não por quem compreende que num país ainda dividido ao meio é importante convencer, conquistar, batalhar, ouvir.
¶11Parece que se está cogitando substituir Sidôneo Palmeira por João Santana, que diga-se vem se reciclando e falando de inteligência artificial na política há mais de ano. para um campo político com tanta deficiência no campo digital, não teria sido uma escolha óbvia desde o princípio. Agora, quem cobre os bastidores de diz que o descolamento de Lula de uma campanha de rua e de aliados que sejam mais antenados tem mais a ver com Janja do que com Sidônio. E aí fica mais complexo de consertar. Bom, mas aí logo depois do primeiro turno, a esquerda vai em peso pras redes sociais falar em ódio ao povo que votou no Flávio Bolsonaro, em vingança, que motoboy tem mais é que se ferrar mesmo.
¶12Olha, eu até entendo essa tentação. Eu vejo nisso um dos estágios do luto, o da raiva, o de buscar culpados. Mas vamos pensar o seguinte, primeiro, rede social se alimenta de ódio e tudo que a esquerda não conseguiu engajar nos últimos anos vai conseguir nessa mensagem que é profundamente arrogante e que afasta o voto que ela precisa virar. Segundo, o eleitor não deve qualquer gratidão a político algum. Lula tirou milhões da miséria, deu acesso para à universidade.
¶13Que bom, é o que se espera de qualquer líder decente. O eleitor segue querendo mais e com razão. E se está interpretando que Lula não entregou, a culpa é do que Lula não entregou ou do que faltou comunicar que entregou, não é do eleitor. Terceiro, escolher é uma premissa democrática. Se a extrema direita tá sendo mais eficiente em convencer, e a gente sabe que ela conta ainda com a ajuda dos algoritmos, das bigtecs e com outros mecanismos de articulação, inclusive internacional, o trabalho da esquerda é mais desafiador, mas ainda mais importante.
¶14Culpar o eleitor é um caminho preguiçoso e autoindulgente. Quarto, o próprio Lula pediu que seus apoiadores parem de fazer isso e procurem ouvir o que as pessoas estão vendo no adversário, entender os seus motivos. Talvez seja tarde, mas parece que o presidente tá com um diagnóstico muito certeiro do que precisa fazer se quiser promover uma virada histórica, ir pra rua, ouvir as pessoas, ir aos debates, mostrar projeto e confrontar propostas. É um diagnóstico que poderia ter sido feito pelo menos um mês atrás. Muitos analistas vêm falando disso a tempos aqui no meio.
¶15Inclusive, o tempo tá curto, a tarefa é ercúlia, mas o diagnóstico tá certo. E a direita e o Valdemar. Vamos falar disso? Então fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio.
¶16Nós fizemos uma cobertura do primeiro turno muito especial, da qual eu tô muito orgulhosa. A gente trouxe pesquisas eleitorais desde janeiro com insightes sobre tudo de mais quente que vinha rolando e que sempre foram enviadas primeiro [limpando a garganta] para assinantes premium. E tem mais pesquisa vindo aí. A gente publicou reportagens, artigos, entrevistas de fôlego sobre os planos de governo dos principais candidatos, coisa que passou longe do debate eleitoral. Fizemos um documentário pro nosso streaming e tudo isso foi oferecido aos assinantes premium por apenas R$ 15 por mês, gente.
¶17E são essas assinaturas que nos permitem bancar o jornalismo gratuito, que contou com uma super live no domingo no YouTube. Então, se você gosta do nosso jornalismo, assine o meio. A gente conta com isso. E hoje ainda por cima é meu aniversário e você me dá isso de presente. [música] Flávio Bolsonaro não tá precisando fazer muita coisa para ganhar, não.
¶18Ele teve coisa de 2 milhões de votos a mais que Lula, mas havia mais candidatos à direita e o espóo da maioria deve vir paraa sua conta. Além disso, a lavada que a direita deu nas eleições pro Congresso e para governador são um indicativo de que uma parte desse voto tá mais convicto, com uma dose grande de ideologia que vai além do antipulis e isso favorece Flávio Bolsonaro, evidentemente. Ainda assim, Flávio também não foi realmente testado em nada do que pensa e do que quer, do que propõem. Ele foi parcialmente testado em escândalos e sobreviveu. Mas o sentimento de quem vota nele se divide em três.
¶19Ou na esperança de que ele reproduza o governo do pai e seja uma espécie de Jair Bolsonaro 2, ou na torcida de que ele seja uma versão moderada do pai, ou ainda que ele seja qualquer coisa que não o Lula, até o pai. Para uma parte desses eleitores ou mesmo de quem se absteve ou esteve dividido até o finzinho ali, o que Valdemar falou na Globo News não ajuda em nada. Valdemar Costa Neto foi claro ao dizer que Jair Bolsonaro governará com o filho. O próprio Flávio já havia dito que subiria a rampa com o pai ao lado e o voto favorável à revisão criminal do ministro Cássio Nunes Marques já tá prontinho, inclusive com uma liminar de soltura de Jair. Valdemar vai além dizendo que é óbvio que Flávio vai querer fazer um governo igual ao de Jair e mais ainda que Jair é candidatíssimo em 2030.
¶20Olha, a rejeição a Flávio Bolsonaro é tão alta quanto a de Lula. Em algumas pesquisas é maior e boa parte dela é herdada do pai, como toda a carreira política do 01. Não à toa o esforço da campanha de suavizar sua imagem e vendê-lo como o Bolsonaro vacinado. Até agora, o maior cabo eleitoral de Lula nesse segundo turno foi Valdemar Costa Neto, acompanhado do fantasma de Jair Bolsonaro. Agora falta a Lula fazer o resto.
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¶23[música]