a tese
Dois sermões atribuídos a Agostinho, recém-identificados em um manuscrito medieval na Polônia, mostram-no pregando sobre a feiticeira de En-Dor (1Sm 28) e, surpreendentemente, cogitando que o próprio Saul possa ter se arrependido e sido salvo, hipótese praticamente sem paralelo na cristandade antiga.
aprofundar
talvez
o vídeo é uma reportagem competente e honesta sobre patrística agostiniana genuína (En-Dor, hermenêutica da graça, Sirácida 46) que interessa ao Bruno, mas é divulgação sem originalidade exegética, então vale acompanhar a edição crítica dos sermões quando sair, não este vídeo em si.
O que foi dito
- Cameron Bertuzzi abre anunciando a descoberta de dois sermões desconhecidos atribuídos a Agostinho sobre o episódio de Saul, a feiticeira de En-Dor e o retorno do profeta Samuel, mas já pondera que o achado não muda nada de grande nem equivale a um livro perdido da Bíblia.
- Traça um perfil biográfico de Agostinho (nascido em 354 em Tagaste, na Numídia/Argélia; mãe Mônica cristã; passagem pelo maniqueísmo por cerca de nove anos; professor de retórica em Milão; conversão em 386 sob influência do bispo Ambrósio e do platonismo; batismo na Páscoa de 387; ordenação em Hipona em 391).
- Resume a obra colossal de Agostinho (cerca de 100 livros, 300 cartas e 600 sermões sobreviventes, incluindo as Confissões, A Cidade de Deus e o De Trinitate) e sua morte em 430 durante o cerco vândalo a Hipona.
- Discute como católicos e protestantes disputam Agostinho (uns citando sua defesa da graça contra os pelagianos, outros sua eclesiologia sacramental e episcopal), advertindo que é anacrônico enquadrá-lo em qualquer lado moderno.
- Narra a descoberta: em 2024 Paul Nabauer (grafia incerta) achou o material no códice 114/195 da biblioteca diocesana de Pelplin (Polônia), cópia do século XII feita na abadia de Bad Doberan; os filólogos Christian Tornau (grafia incerta) da Universidade de Würzburg e Clemens Weidmann passaram quase dois anos analisando língua, estilo, humor e uma oração final típica do norte da África, concluindo pela autenticidade provável sem objeções sérias de outros especialistas.
- Reconta o texto de 1Sm 28 (Deus silencia diante de Saul, que consulta uma médium que ele próprio banira, pede para invocar Samuel, e a figura anuncia juízo: “amanhã tu e teus filhos estareis comigo”), levantando o duplo enigma de ser mesmo Samuel ou um demônio e de como um ritual proibido teria poder sobre um profeta de Deus.
- Explica que Agostinho já tratara do tema antes (na resposta a Simpliciano inclinava-se à imagem demoníaca; depois, respondendo a Dulcício e lendo Eclesiástico/Sirácida 46, passou a crer que Samuel de fato profetizou após a morte), e que o primeiro sermão novo foi pregado num domingo como “cliffhanger”, retomado na quarta-feira seguinte.
- Apresenta a resposta de Agostinho nos sermões: a médium não teve poder sobre Samuel, que apareceu apenas por permissão de Deus, de modo que Saul, ao tentar escapar de Deus, encontrou na casa da médium justamente o juízo divino.
- Destaca como novidade central (segundo Tornau) que Agostinho cogita se Saul se arrependeu após ouvir a profecia e foi salvo, algo sem paralelo em suas obras conhecidas e na cristandade antiga, embora ele não o afirme dogmaticamente e a edição crítica completa ainda não tenha sido publicada.
- Encerra enquadrando o instinto como tipicamente agostiniano (o teólogo da graça recusando presumir que a graça não alcançaria nem mesmo o rei rejeitado) e prometendo voltar ao tema quando sair a edição crítica.