a tese
Entrevista-resenha de Yago Martins com Rafael Abdala, presidente da Convenção Batista Brasileira, sobre o livro "Viva de Novo: o poder de Jesus para transformar finais em novos começos" (Mundo Cristão); a tese do livro é um consolo pastoral que evita tanto a teologia da prosperidade quanto a "teologia da derrota", afirmando que Deus pode transformar finais em recomeços sem prometer que sempre mudará a circunstância.
aprofundar
não
é entrevista-resenha promocional de tom pastoral, sem densidade exegética nova; o interesse maior está no retrato do establishment batista (Abdala à frente da CBB) do que no conteúdo do livro.
O que foi dito
- Abre com Abdala explicando a eclesiologia batista (regime congregacional democrático, cerca de 14 mil templos autônomos, a CBB como entidade de cooperação sem autoridade individual sobre as igrejas), contrastando com a leitura católica que enxerga os evangélicos como fragmentados em vez de corpos autogovernados unidos em prol do reino.
- Boa parte do episódio é o testemunho de conversão de Abdala: converteu-se aos 8 anos numa Escola Bíblica de Férias num distrito rural do sul capixaba (Celina/Alegre), levado por uma tia-bisavó que dirigia cerca de 6h por domingo para buscá-lo; pai tetraplégico, mãe que foi embora quando ele tinha 12, e quatro gerações de família marcada por alcoolismo e falências.
- Abdala relata ter vindo da teologia da prosperidade e hoje ser “ressabiado” com toda linguagem de autoajuda; Yago diz ter pego o livro “de armas levantadas” esperando prosperidade e ter se surpreendido com um consolo bíblico que narra casos de doença e luto sem entregar vitória garantida no final.
- O eixo teológico: a Escritura tem promessa de conforto e alento (cita Filipenses 4.19, lido como suprir a “necessidade” e não o desejo, a ganância ou o topo da montanha), mas o sofrimento é pedagógico e não pode ser desperdiçado; qualquer fé que prometa ausência de sofrimento promete o que Deus nunca autorizou.
- O livro nasce de uma série de sermões sobre os textos de ressurreição: três no AT (um de Elias, dois de Eliseu), as operadas por Jesus, e as de Pedro (At 9) e Paulo (At 20); Abdala insiste que a ressurreição neste plano é exceção (contabiliza cerca de 10 textos em 66 livros), de modo que o livro é “afago no enquanto”, não promessa de reverter o luto.
- Desenvolve a ideia de “visão de ressurreição” (enxergar potencial de vida nova em situações aparentemente mortas, celebrar ressurreições pequenas e cotidianas), lendo Lázaro, a viúva de Naim, Atos 17.28 e Colossenses 2.3, e associando o “pão nosso de cada dia” ao milagre cotidiano e básico.
- Dá dois conselhos pastorais contra o triunfalismo do “inconsciente coletivo” evangélico brasileiro: primeiro, sofrer não significa estar fora da vontade de Deus (Paulo obedece e naufraga); segundo, cercar-se de amigos e conselheiros maduros capazes de dizer verdades inconvenientes.
- Fecha com o par “dia do fracasso / dia do sucesso” como dois péssimos conselheiros (ambos embaçam a visão) e a citação recorrente de C. S. Lewis sobre o sofrimento como megafone de Deus.