¶1Saiu esse mês um livro chamado Brasil da Maioria. É um livraço. Se você quer entender o nosso país, vai lá na livraria e compra. O autor é o Renato Meireres do Instituto Locomotiva e antes disso do Data Popular. Ele passou a vida inteira fazendo uma coisa que quase ninguém em Brasília faz, tá?
¶2Ele senta na sala da casa das pessoas e ouve 25 anos disso. Lá no meio tem uma frase que um bocado de gente no Palácio do Planalto devia ler em voz alta até entrar. Quem insiste em falar de cima oferecendo o que acha que as pessoas precisam, em vez de perguntar o que elas querem, perde participação de mercado, perde relevância e perde votos. [roncando] Pois é, guarda essa ideia aí porque eu vou voltar nela. A gente vive dizendo que o Brasil tá polarizado, né?
¶3Nove em cada 10 brasileiros acham isso, mas quando você pergunta às pessoas onde elas se colocam, o retrato é outro. Só 36% dos brasileiros dizem entender direito o que significa direita e esquerda. E na classe C, que a maioria do país, quase metade, 44% tá simplesmente fora desse debate. Sabe qual é a conclusão do Merireres? As pessoas não são alienadas, não, tá?
¶4O problema não é desinteresse, é só que olham para um canto da classe política, olham pro outro e concluem: "Cara, ninguém aí representa meus interesses." Não, calma, não reage, só escuta, deixa assentar a ideia. Quase metade da maioria do país não está confusa. Ela não se reconhece no que os grupos políticos oferecem. É só isso. Se esse pessoal não é de direita, nem de esquerda, então que é?
¶5São pragmáticos. Pega duas cenas e você vai entender. Primeira, uma mãe leva o filho na UPA, fica 6 horas na fila, descobre que o exame só tem vaga no ano que vem. O que que ela conclui dali? Tá faltando estado.
¶6Segunda cena, um rapaz da periferia quer abrir uma barbearia no bairro. Aí ele descobre as taxas, descobre a papelada, que na maior parte nem digitalizada é. E o que ele conclui? Que tá sobrando o estado. Pessoas da mesma família, tá?
¶7mãe, o rapaz às vezes na mesma semana e não tem contradição nenhuma nisso, não, tá? Falta estado onde ela precisa ser cuidada e sobra estado onde ela precisa ser deixada em paz. Por isso, os números dela parecem loucos para quem lê tudo pela caixinha ideológica. 76% da classe C acha que rico tem que pagar mais imposto e 56% acha que empreender é o melhor caminho para subir de vida. Essa pessoa não quer estado mínimo, nem estado máximo.
¶8Ela quer um estado que funcione. Teve uma entre o estado que resumiu isso pro Mereres de um jeito que eu não consigo esquecer. Ele perguntou o que ela esperava do governo, né? E ela respondeu: "Eu não quero promessa, eu quero paz. Falta estado, sobre estado." Agora vem comigo, porque com essa ideia na mão, você entende os últimos do anos do governo Lula, sabe?
¶9Sem piscar o olho. Agosto de 2024, entra em entra em vigor a taxa das blusinhas, 20% em cima de qualquer compra internacional de até $50. Aquela camisa moderninha de R$ 40 que vem da China, o carregador, a capinha de celular. E não é só quem compra não, tá? Tem muita gente que vive de revender essas coisas.
¶10Aí, janeiro de 2025, a receita publica uma instrução normativa sobre monitoramento de transações. Em poucos dias, o país inteiro entendeu que o governo ia taxar o Pix. Não era isso, mas foi isso que chegou no celular das pessoas e chegou com uma ajuda de muita gente interessada que chegasse desse jeito. Chegou desse jeito também porque o governo não se deu ao trabalho de explicar direito porque queria monitorar o Pix. Olha o que esses casos têm em comum.
¶11Não é que o governo mexeu no bolso do brasileiro. Governo mexe no bolso do brasileiro todo dia. É o que governos fazem. Mas ele mexeu no lugar exato onde o brasileiro que se vira ganhou pão. A blusinha é o revendedor.
¶12O Pix é o meio de pagamento de quem não tem carteira assinada. Nos dois casos, o estado apareceu do lado do corre, não apareceu na fila da UPA, apareceu na barbearia. Agora veja, é claro que se lá no Planalto eles soubessem da dor de cabeça que isso ia causar, ninguém tinha feito. A explicação que gente do próprio governo deu aos jornalistas depois sobre o Pix foi a seguinte: aquilo tinha caráter burocrático, não houve cálculo político nenhum, nem a equipe econômica tinha qualquer noção do impacto que a coisa ia ter. Pois é, não houve cálculo político.
¶13Sabe o que que é? Esse é o governo do homem que por 40 anos foi o político brasileiro que menos precisou fazer cálculo político na vida. Ele simplesmente sentia. Ele foi classe média baixa. Ele sabia o que ia pegar mal antes de qualquer pesquisa dizer.
¶14Era isso que fazia dele o Lula. Só que aquele Lula de 35 anos, líder sindical, foi classe média baixa num outro mundo, num mundo sem Pix, sem lojas chinesas, sem smartphone ou redes sociais, sem evangélico. Gente, o Lula de hoje pertence a elite faz umas três décadas e agora ele precisa calcular e calcula errado. Olha, a gente sabe que calculou errado porque ele voltou atrás nos dois, tá? no Pix em 10 dias, na taxa das blusinhas em maio desse ano, 21 meses depois de criá-la.
¶15Ala política do governo vinha dizendo o tempo todo que aquilo derrubava a aprovação do presidente. Demorou maio desse ano. Guarda essa data porque eu vou voltar nela. Mas antes, porque isso importa mais do que parece? Porque o eleitor de classe C é pendular, ele não é cativo de ninguém.
¶16Em 2006 deu a vitória à esquerda. Em 2010 também, em 2014 ainda deu, mas por pouco. E aí em 2018, em 2022 foi paraa direita. Esse eleitor foi pra direita. O Meres tem uma explicação para essa virada, tá?
¶17E ela não é sobre costumes. Ele diz que houve uma desconexão do campo progressista com o Brasil real e aponta o lugar exato. A esquerda brasileira construiu a identidade dela em cima da carteira assinada. Então, quando o país encheu de autônomo, de made de motorista de aplicativo, de gente que revende, essa esquerda olhou e viu perda de direito, viu gente que precisava ser salva, só que essa gente não tava pedindo para ser salva, ela queria condição pro negócio dela prosperar. Crédito menos papelado, um estado que chegasse junto em vez de chegar cobrando.
¶18Você entendeu? Lula não perdeu o povo mais pobre. Você olha a pesquisa, ele tá lá líder com 55% no Nordeste, com 51% entre os brasileiros de menor escolaridade. Ele perdeu outro grupo. Ele perdeu exatamente quem o governo dele fez subir.
¶19Aquela classe C que nasceu com plano real e se consolidou na década de otimismo entre 2003 e 2013, a que foi pra faculdade pelo PRO UNI, que andou de avião pela primeira vez, subiu, mudou a régua e passou a querer prosperidade no aumento de salário mínimo. E quando ela olha pro estado hoje e não vê mais o cara que atirou da pobreza, vê a taxa da blusinha. E ainda assim a direita tá metendo os pés pelas mãos. Tanto que Lula é favoritíssimo para vencer na eleição que começa semana que vem. Eu sou Pedro Dória, editor do meio.
¶20Ó, quase ninguém em Brasília senta na sala da gente, dessa gente, sabe? Para perguntar o que ela quer. Em quarta-feira a gente pergunta, vai ser a nova pesquisa Meio Ideia. E tem um bloco nela que é exatamente sobre o brasileiro, de quem eu falei aqui, o [roncando] autônomo, o entregador, o motorista de aplicativo, quem não tem carteira assinada. O que ele acha que oferece a melhor condição de trabalho pra vida dele?
¶21Carteira assinada com FGTS, seguro desemprego ou autonomia tocar o próprio negócio? Pergunta se ele quer um valor mínimo por corrida garantido por lei. E aí pergunta de novo para quem disse assim: "Continua querendo depois de saber que isso encarece a corrida". E se deixaria de votar em quem não apoia o fim da escala 6 por1? É bom a gente fazer essas perguntas, né?
¶22Isso não é corrida de cavalinho, quem tá na frente, é a pergunta que esse episódio fez e não tem resposta. E assinante do meio não recebe só um PDF, não, tá? Você entra na pesquisa e cruza o que quiser por renda, por região, por quem votou em quem 2022. Quer saber o que pensa quem já teve posição política e hoje não tem mais? Então cruza você mesmo.
¶23Sai quarta. Assinante vê primeiro. Assine o meio premium. São só R$ 15. E esse aqui é o ponto de partida.
¶24[música] Maio desse ano foi quando o governo zerou a taxa das blusinhas. Pega outra data, primeiro de janeiro desse ano. Entrou em vigor a maior mudança na tabela do imposto de renda. Olha, em muito tempo, quem ganha até R$ 5.000 por mês parou de pagar. 15 milhões de brasileiros, 10 milhões que ficaram isentos, 5 milhões que passaram a pagar menos.
¶25Em janeiro o contra-cheque aumentou, em maio a taxa impopular sumiu. Em outubro tem eleição. Essas datas não são coincidência, né? A isenção de imposto de renda foi uma promessa de campanha, tá? O governo tinha de entregar.
¶26Se não entregasse era só do que os adversários iam falar. Mas olha, tava prometido. Não é que o governo passou a entender melhor esse brasileiro. Ele sempre soube que dinheiro e classe C são pontos sensíveis. Mas, mas presta atenção em como eles fizeram.
¶27Isenção de imposto na tabela, transferência de renda, salário mínimo, é um instrumental de 2003, as mesmas ferramentas. É o que funcionou e funcionou muito com quem tava embaixo. Só que a gente passou esse episódio inteiro falando de outra gente, a que já subiu. E para essa o estado que aparece não é o que transfere, é o que taxa a blusinha. E o problema das ferramentas de 2003 é que a gente não tá mais no tempo da monança econômica.
¶28Então, então o governo precisa pensar também no que vem depois de outubro. Porque posso falar uma coisa para vocês, haverá um depois de outubro. O Samuel Pessoa, economista do Ibre, tem um cálculo simples. Lula recebeu a dívida pública em 72% do PIB. Ele termina esse ano perto de 85%.
¶29O Samuel honesto nessa conta, tá? Metade disso é herança, metade é decisão desse governo. O que o pessoa diz é que ganha e quem ganhar o próximo presidente vai ter que desindexar o salário mínimo e desindexar os pisos de saúde e educação e provavelmente precisará aumentar imposto de novo. Sabe por quê? Uma recessão em 2027 não está descartada.
¶30Olha o tamanho da ironia. Se Lula ganhar em outubro, ele começa o quarto mandato tendo que desindexar o salário mínimo, ou seja, desmontar exatamente a ferramenta com que ele fez a classe C subir. O instrumento que criou a popularidade do Lula. Aquela frase do Meireles que eu pedi para você guardar no começo, que insiste em falar de cima, oferecendo o que acha que as pessoas precisam, em vez de perguntar o que elas querem, perde participação de mercado, relevância e votos. Lula deve ganhar essa eleição, não é certo, mas é o mais provável.
¶31A direita, principalmente o bolsonarismo, tá fazendo o serviço por ele. Mas ganhar não é a mesma coisa que entender e não é nem de longe a mesma coisa que governar. Em janeiro de 202, quem sentar naquela cadeira vai ter que olhar no olho do Brasil e explicar uma conta que ninguém quis explicar durante a campanha. Se a gente não começar a cobrar essa conversa agora em agosto, a gente vai ser informado dela em janeiro. Três coisas que separam quem só assiste a seleção de quem realmente acompanha ela.
¶32Ó, a primeira, acessa as análises que costumam ficar restritas às salas de decisão. Ou [música] seja, quem lê pesquisa, poder, sociedade, por dentro. Você encontra esse material no meio político toda quarta-feira e também em matérias, entrevistas [música] na edição de sábado, além dos dados da pesquisa meio ideia. mensal que agora interativa e te permite, se [música] você é assinante, fazer o recorte que mais te interessa dentro do nosso site. A segunda é ter opinião de verdade, não é prestada.
¶33É a diferença entre repetir o que ouviu e entender [música] porque aquilo aconteceu. O tipo de leitura que te deixa seguro numa roda de conversa traz repertório e não te deixa cair no argumento pronto. E agora a terceira, a mais difícil. Atravessar essa eleição [música] sem virar refém de bolha, militância, cinismo. Discordar faz parte, mas sem transformar isso em guerra.
¶34É [música] isso que o meio premium sustenta todo mês com catálogo de produções originais no nosso streaming. Com a eleição chegando, [música] não é só que você vai ficar mais por dentro, é que em nenhum outro lugar você vai entender melhor o movimento político dos próximos meses. [música] Só R$ 15 por mês. Assina meio premium. >> [música]