¶1Terça-feira, 4 de agosto, o dia de ontem, em menos de 12 horas, o presidente da República viu a Polícia Federal apurar negócios que envolvem o próprio filho. Viu o nome do homem que até duas semanas atrás despachava na porta do gabinete dele, aparecer recebendo dinheiro de uma empresária investigada e viu o governo dos Estados Unidos revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington. Foi o pior dia de Lula em 4 meses. Pois é. Hoje a gente tem nas mãos a nossa pesquisa meio e de agosto e dela saia uma coisa que pode parecer em nada óbvia, tá?
¶2Dessas três notícias, a única que parece mexer em voto é a terceira e mexe a favor de Lula. Vamos por partes. A pesquisa foi a campo entre 31 de julho e 3 de agosto, ou seja, terminou anteontem, antes do inquérito, antes do visto, antes de tudo. E o que ela mostra é o melhor retrato de Lula em oito rodadas. A aprovação tá em 48.5%.
¶35% contra 49% de desaprovação. É a maior da série. Em maio era 44 contra 53. Quem avalia o governo como ótimo ou bom são 36.6%. Quem avalia como ruim ou péssimo 37%.
¶4Pela primeira vez em 8 meses os dois números se encontraram. Em maio a distância era de 15 pontos e 48% dizem que ele merece continuar também o maior número que a gente já mediu. No segundo turno contra Flávio Bolsonaro, o 48.5 a 43%. Pois é, o melhor mês de Lula, medido 3 dias antes do pior dia dele. Agora, a pergunta óbvia é: e depois de ontem?
¶5A pesquisa não mediu, nem podia, mas a gente já fez esse teste antes, tá? A gente fez em julho. Júlio, o caso do Banco Master, respingou dos dois lados. Tinha o áudio do Flávio com banqueiro Daniel Vorcaro e tinha operação que envolvia o ex-líder do Senado do governo, Jaques Wagner. E perguntamos na lata dos dois lados, isso aumenta ou diminui a sua chance de botar nesse cara?
¶6Sobre Flávio, 29.5% diziam que diminuía. Sobre Lula, 17.3%, 3% já é quase metade, mas o número que interessa é outro. Entre as pessoas que naquele momento já votavam em Lula no segundo turno, quantas disseram que o caso diminuí a chance de votar nele? Zero. Não é força de expressão, não.
¶7Zero. Nenhum dos entrevistados que votavam nele. Os 17% inteiros que diziam que suas chances de votar em Lula diminuiu, viam de gente que já não ia votar nele de jeito nenhum. O eleitor de Lula simplesmente está menos preocupado com corrupção do que o eleitor de Flávio. É isso.
¶8Os escândalos de Flávio o ameaçam mais do que os de Lula ameaçam o presidente. Sabe o que que é escândalo? Não recruta. Escândalo. Confirma.
¶9Guarda essa ideia porque ela explica quase tudo nessa eleição. Mas vamos lá. Tem um número da pesquisa de agosto agora, essa de agosto, que devia tirar o sono do Planalto. A gente perguntou qual a prioridade do próximo presidente. A resposta mais escolhida do país inteiro, com 33.1% foi acabar com a corrupção e fazer a lei valer para todos.
¶10Na frente de saúde, de educação, tá, que ficaram com 20.9%. Na frente também da economia com 16.4%. É a prioridade número um dentro do eleitorado do próprio Lula. Só que veja como esse eleitor é diferente do resto da base dele. Entre os eleitores de Lula que priorizam saúde e educação, 41.9% avaliam o governo como ótimo.
¶11Entre os eleitores de Lula que priorizam corrupção, 27.8%. 14 pontos de diferença dentro da mesma torcida. É gente que vota em Lula por desempenho, não por identidade. São os 14% do eleitorado brasileiro. E é exatamente esse pedaço que uma história com filho do presidente, chefe de gabinete, Corroi.
¶12Mas presta atenção no verbo, corroi não transfere. Ele não perde essa gente para Flávio, ele perde ela paraa abstenção. E numa eleição decidida por cinco pontos, isso já basta para empatar. Então, para uma notícia dessas tirar voto, ela precisa encontrar alguém que ainda esteja em jogo. E do lado de Lula, quase não tem ninguém em jogo.
¶1347.4% dos brasileiros dizem sozinhos, sem lista, sem ninguém sugerir que não votariam nele de jeito nenhum, quase metade do país. Essa gente não pode rejeitar Lula duas vezes. Ela ela já rejeitou e quem vota nele hoje não tem para onde ir. Dos eleitores de Lula, 87% dizem que não votariam em Flávio Bolsonaro de jeito nenhum. Sobram 13% que não fecham a porta.
¶1413. Então, mesmo que a notícia de ontem cole e ela pode colar, tá? O destino dessa gente não é o adversário, é o branco, o nulo, o sofá de casa. Agora, calma. Isso não quer dizer que ele esteja imune.
¶15Quer dizer outra coisa do eleitor que fica em casa porque desistiu de votar em Lula, quase nenhum vai para Flávio. E Flávio precisa somar votos. Lula não. Bom, aí vem a terceira notícia. A gente também perguntou em agosto sobre o apoio de Donald Trump.
¶16A frase lida pro entrevistado na pesquisa foi a seguinte: O apoio de Donald Trump a um candidato a presidente do Brasil aumenta as chances de o seu voto nesse candidato concordaram 20%, discordaram 44.9%. E dentro desses 30.3% escolheram a a opção mais dura da escala. Discordo totalmente. Foi a resposta mais marcada de toda a bateria de perguntas da pesquisa. O apoio de Trump não é ativo eleitoral no Brasil, é passivo.
¶17Quanto mais Trump atacar ataca, mais atrapalha Flávio. E não é de agora, viu? Em abril a gente já tinha perguntado sobre a ideia de os Estados Unidos pressionarem o Brasil para as eleições aqui seguirem padrões americanos. 52% responderam que eleição brasileira se decide entre brasileiros. 28% acharam legítimo buscar apoio de fora.
¶18Dois em cada 10 de um lado, cinco em cada 10 do outro. E aí você olhe o que aconteceu ontem. Os Estados Unidos revogaram o visto de Maria Luía Ribeiro Viote, embaixadora do Brasil em Washington. E o Departamento de Estado explicou porquê. Essa é a parte boa, porque o Brasil ainda não deu o aval diplomático para Daniel Perez, o deputado da Flórida, que Trump indicou em julho, em junho para ser embaixador aqui.
¶19O governador, o governo brasileiro, avisou que só dá esse aval depois de outubro, depois da eleição. E Washington disse com todas as letras que devolve o visto do dia em que o aval sair. 10 dias antes disso, o Itamarati já tinha negado, visto a dois funcionários do Departamento de Estado que viriam o Brasil. Os dois que, segundo o Washington Post vinham com a missão de questionar a confiabilidade das nossas urnas. Você não precisa interpretar nada aqui, tá?
¶20A conta é essa. Aceite o meu embaixador antes de você votar ou a sua embaixadora fica sem visto. Agora junta as duas pontas. O apoio de Trump é passivo eleitoral no Brasil e só tem um candidato brasileiro com Trump colado nele. O mesmo que esteve com Trump e com Marco Rúbio em maio.
¶21O mesmo que falou das urnas na frente de embaixadores estrangeiros duas semanas atrás. Olha o que aconteceu com a rejeição ao Flávio Bolsonaro nesses 8 meses. Em janeiro, 30%. Agora em agosto 48%, 18 pontos. No mesmo período, a rejeição ao Lula subiu sete de 40.8 para 47.4%.
¶22Nessa rodada, pela primeira vez em oito pesquisas, Flávio Bolsonaro é mais rejeitado do que Lula. Foi nessa rodada que as duas linhas se cruzaram. Eu sou Pedro Dória, editor do meio. Tudo que eu te falei aqui saiu de uma pesquisa que tá no ar desde hoje de manhã. É a meio ideia de agosto, a oitava rodada.
¶23E o assinante do meio não recebe o resumo dela, não, tá? Ele entra na pesquisa inteira e cruza o que que o que quiser. A gente fez isso de um jeito que nossos assinantes têm nas mãos um tipo de informação sobre pesquisa que no passado só quem trabalha em banco ou partido político tinha. Porque isso é informação importante, sabe? Eu vou te dar um exemplo que é o número mais desconfortável dessa eleição.
¶24Peguei os eleitores de Lula e separei em dois grupos. os que dizem que a prioridade do Brasil é saúde e educação e os que dizem que é acabar com corrupção. Os primeiros avaliam o governo como ótimo em 41.9%, os segundos em 27.8%. É a rachadura de que eu falei e ela tá aberta na base dele desde antes de ontem. Esse cruzamento eu fiz em 2 minutos.
¶25Você faz também com qualquer recorte, renda, região, escolaridade, voto em 2022. Numa semana como essa, é a diferença entre acompanhar a notícia e saber o que ela vale. Assim no meio premmium são R$ 15. E esse aqui, esse é o ponto de partida. Essa eleição vai ser decidida por rejeição.
¶2647,4% dos brasileiros rejeitam Lula. 48% rejeitam Flávio Bolsonaro. Pensa no que isso significa, tá? Cada um dos dois tem como teto absoluto o país inteiro, menos metade dele. Não existe candidato aqui com maioria possível.
¶27Existem dois candidatos com teto de 48. Agora faz a conta do Flávio. Para ganhar, ele precisa de praticamente todo mundo que rejeita Lula. Hoje ele leva quase tudo. De cada 10 brasileiros que dizem que jamais votariam em Lula, quase nove votam nele no segundo turno.
¶28Quase nove. É um desempenho altíssimo, tá? E não basta. Faltam cinco pontos e meio. Esses cinco pontos e meio teriam que sair do pouco que escapa.
¶29E o que escapa não tá à venda. De cada 10 que rejeitam o Lula e não votam em Flávio, seis dizem que também não votariam em Flávio de jeito nenhum. Não é indecisão, é rejeição dupla. Mesmo que ele conquistasse todos os outros, todos ainda perderia. E tem um pedaço que ninguém olha.
¶30Menos de 10% do país não rejeita nenhum dos dois. é o único eleitorado genuinamente em disputa nessa eleição. Sabe como ele tá dividido hoje? 64% com Lula, 14 com Flávio. Quatro para um.
¶31Pois é. A eleição tá sendo decidida no único lugar onde o Flávio tá apanhando. E aí você me pergunta, então troca o candidato, bota o Caiado, bota o Zema, bota o Renan Santos, sei lá. A gente testou, Caiado alcança melhor esse meio, leva mais da metade de quem hoje não vota em nenhum dos dois. contratar pouco mais de 1/3 do Flávio.
¶32Só que ele perde um em cada cinco eleitores do próprio Flávio pro branco e nulo. Resultado final, pior. 40 contra os 43 do Flávio Zema, o Renan. A mesma coisa. O problema da direita não é o nome, é que o eleitorado dela não soma.
¶33O candidato que segura base não alcança o meio e Caiado, que alcança o meio não segura base. Veja, claro que se Caiado chegar ao segundo turno, ele leva provavelmente os eleitores de Flávio, mas o eleitor de Flávio precisa antes mudar de ideia no primeiro turno e votar em Caiado. E é por isso que ontem foi o que foi, porque nesse meio de menos de 10%, o único que ainda decide alguma coisa, a interferência americana não passa. Cinco em cada 10 brasileiros dizem que a eleição nossa se decide entre nós. Dois em cada 10 aceitam apoio de fora.
¶34E quando o governo dos Estados Unidos ca o visto da nossa embaixadora para forçar o Brasil a aceitar o embaixador dele antes de outubro, não existe leitura sofisticada. Existe uma frase e ela cabe num rótulo. Quem manda no calendário do seu voto. Olha, eu não tô dizendo que Lula tá seguro, tá? Ele não tá.
¶35Ele tem 14% do eleitorado dentro da própria base votando nele por desempenho. E desempenho é a única coisa que um inquérito no palácio consegue estragar. Se essa gente ficar em casa, acabou o favoritismo. A pesquisa de setembro vai medir isso e eu não faço ideia do que que ela vai dizer. O que eu sei é o que é de agosto já diz, que numa terça-feira que o Brasil abriu o jornal e leu o nome do filho do presidente, o nome do chefe de gabinete do presidente e a palavra corrupção na mesma manchete, quem terminou o dia pior não foi ele, foi o candidato que passou os últimos 8 meses apostando que ter Donald Trump ao seu lado valia alguma coisa aqui.
¶36Não vale. Elas estão se aproximando as eleições. E aqui no meio você acompanha com dados de verdade, sem depender de conteúdos pouco confiáveis das redes sociais. Você sabe, né? A pesquisa Meio Ideia é uma das nossas bússulas.
¶37É a nossa pesquisa independente registrada no TSE, feita todo um mês em parceria com o Instituto Ideia. A edição de agosto traz o retrato mais atual da corrida. Quem é assinante premium recebe a pesquisa completa em primeira mão e ainda garante acesso à nossa plataforma interativa que permite o cruzamento da intenção de voto por região, por classe, por gênero, para comparar com as rodadas anteriores e ver com os próprios olhos o que que mudou de verdade a cada mês. Esse tipo de leitura, até pouco tempo atrás, só quem trabalhava dentro de um banco ou de um partido conseguia ter acesso. Agora tá disponível para quem assina o meio prêmium.
¶38Em um ano como esse, olha, vale ouro. Assine e receba mais esse material exclusivo.