a tese
Dois especialistas em C. S. Lewis (Jordiel Perez, primeiro a defender tese sobre Lewis no departamento de teologia de Oxford, e Leslie Baynes, biblista, autora de "Between Interpretation and Imagination: C. S. Lewis and the Bible", 2025) discutem se Lewis pode ser tido por teólogo e quão bem lia a Escritura, com John Nelson na condução.
aprofundar
sim
a crítica de Wright/Baynes ao trilema e a leitura de Marcos 2 pelo papel sacerdotal são exatamente o tipo de discussão exegética e cristológica que interessa ao Bruno e casa com o acervo (Wright, Carson, Bock no Logos).
O que foi dito
- Baynes recorda que Lewis se dizia amador em teologia e estudos bíblicos, e insiste na distinção acadêmica entre teologia (sistemática) e estudos bíblicos, disciplinas que ela trata como campos distintos.
- Perez, seguindo Alister McGrath (seu orientador em Oxford), defende que “teólogo para quem” é a pergunta certa: se comunidades cristãs pelo mundo recebem Lewis como voz teológica confiável, ele é teólogo para elas (Lewis recebeu doctor honoris causa em Divindade por St. Andrews em 1946); ambos relatam o preconceito acadêmico contra estudar Lewis.
- Perez argumenta que a própria condição de amador tornou Lewis melhor comunicador (prefácio de “Reflexões sobre os Salmos”: escreve de um aprendiz a outro), mas Baynes contrapõe que, ao enfrentar especialistas como Rudolf Bultmann sem tê-lo lido a fundo, Lewis “cai” e fica fora de sua profundidade.
- Baynes revela sua descoberta de arquivo: ninguém antes examinara a biblioteca física de Lewis (no Marion E. Wade Center, em Wheaton) para ver o que ele leu e anotou sobre a Bíblia; conclui que Charles Gore, biblista e teólogo anglicano, foi influência decisiva na reconversão adulta de Lewis (fim dos anos 1920).
- Segundo Baynes, Gore (ensaio “The Holy Spirit and Inspiration” em “Lux Mundi”, 1889) sustentava que toda a Escritura é inspirada mas não inerrante, com erros históricos e científicos, ficção em Jonas e Jó, apoiando-se em Crisóstomo e Orígenes; e que a Escritura não é o Logos (João 1.1 refere-se a Jesus, não ao texto) — posições que Lewis seguiu, dizendo que na Bíblia transparecem ingenuidade, erro, contradição e até maldade.
- Sobre o trilema de “Cristianismo puro e simples” (mentiroso, lunático ou Senhor), Baynes, alinhada a N. T. Wright, ataca a premissa histórica: nos sinóticos Jesus nunca diz ser Deus e quase nunca se chama Filho de Deus; só em João há falas que parecem afirmá-lo, e mesmo essas são disputadíssimas entre os joaninos.
- Baynes usa o perdão do paralítico em Marcos com o argumento de Wright (e E. P. Sanders): ao dizer “teus pecados estão perdoados”, Jesus não usurpa a prerrogativa de Deus, mas a do sacerdote do Templo (Levítico), o que explicaria o escândalo por ele não ser de família sacerdotal; conclui que, restrito aos textos que Lewis de fato citou, o trilema não se sustenta, e Jason Staples não conhece biblista que o aceite.
- Perez discorda em parte: cita Brant Pitre (Notre Dame) defendendo que o Jesus histórico se disse Deus, admite que Pitre vai contra o consenso, e propõe que o próprio projeto do “Jesus histórico” repousa em pressupostos questionáveis; Baynes concorda que a antiga busca (de seu mestre John Paul Meier) foi hoje quase repudiada pelos neotestamentaristas.
- Perez desloca o trilema para outras falas (Jesus mandando comer sua carne, João 6) e defende uma leitura pela beleza (via pulchritudinis) e pela ficção: como Dom Quixote, Jesus poderia dizer coisas escandalosas e ainda ser exemplar; há “ficção sagrada” além de “fato sagrado”.
- Sobre “As Crônicas de Nárnia”, Baynes rejeita a etiqueta de alegoria (Lewis a chamava “supposal”) e destaca alusões bíblicas granulares — por exemplo, ao ouvir “Aslam”, as crianças reagem como a quem ouve “boas novas” (euangélion), Lewis escondendo o evangelho à vista para driblar os “dragões vigilantes”; ambos fecham refletindo sobre a dificuldade do estudioso de ler a Escritura devocionalmente sem dissecá-la (Baynes lê hebraico e grego antes do culto para depois só receber).