¶1É o livro da Teresa Monteiro, se chama O Rio de Fernando Sabino, passeio afetivo pela cidade, é da editora Autêntica. Ela, a Teresa Monteiro, que é especialista em Clarisspector, escreveu uma ótima biografia, pioneira. Ela ela organiza esses passeios culturais pela cidade do Rio de Janeiro, mostrando a presença da literatura pela cidade. E esse livro é o mapa da vida do Fernando Sabino pelo Rio, >> um dos mineiros mais cariocas. >> Sim.
¶2E daquele grupo. E olha que edição bacaninha que tem o falecido guia de ruas, tá vendo? >> Ah, que bacana. [risadas] [roncando] Todo o táxi que a gente pegava no Rio, >> isso >> no nos primórdios da existência, quando ainda não via computador, nem celular, nem nada, tinha o negócio todo, >> o Geiax, >> o guiax todo detonado no porta-luvas e os taxistas procuravam. Olha aqui, é como as edições da autêntica todas.
¶3É uma edição caprichadíssima. Olha aqui >> que coisa tão bonita. os percursos do Sabino tem fotos, tem fotos dos amigos, tem e o mapa dos pontes. Então, por exemplo, Copacabana tem o apartamento do Fernando Sabino e da Helena Valadares, depois tem o apartamento do Augusto Frederico Schmid, o apartamento do Drumon, o apartamento do Drumon, aliás, era na conselheira, que é bem esquina com Ipanema, né, que a gente nem a gente nunca sabe se aquilo é Copacabana. >> O Ipanema.
¶4>> O Ipanema como a rua Canim, >> onde Fernando Sabino morava, >> que ali, ali do lado Fernando Sabino morava na Can. Aí tem o clube dos marimbaás, tem o apartamento, o quarto do Paulo Mendes Campos. >> Quarto. >> Quarto. Naquela época ainda se alugavam quartos, lembrando.
¶5>> E o Paulo Mes Campos escolhia morar num quarto? >> É, quando ele era muito jovem, parece que sim. >> Ah, isso. Eles garotos quando foram para >> Sim. Quando quando vieram pro Rio e tal, ã, o um tempo mais tarde ele foi pro Leblom.
¶6Você sabe quem que trouxe, quem que eh eh apresentou o Rio de Janeiro ao Sabino, né? Mário de Andrade. >> Foi Mário de Andrade. É. Não sabia.
¶7Olha aqui, Clube dos Marimbáis, Barbico. E vou te dizer uma coisa, para uma pessoa da minha geração que cresceu andando por essas ruas, que frequentou esses bares, que frequentou esses restaurantes, é uma viagem fabulosa no tempo. Até o estúdio do Milor tá aqui. É muito bom livro. Eu >> estudo do Milour era na Prudente, né?
¶8Não, na Gomes Carneiro. >> Gomes Carneiro. >> Ali quase em frente, quase na esquina com a Prudente em frente ao ao Zona Sul. >> Aham. >> Mas eu num primeiro momento eu achei que isso aqui seria um livro para cariocas, porque para nós ele tem um peso emotivo e e sentimental que não vai ter para mais ninguém.
¶9Mas independentemente de qualquer coisa, ele é um livro para qualquer pessoa que gosta do Rio de Janeiro, que gosta das histórias dessa grande geração de escritores que por acaso floresceram aqui. >> Uhum. >> nesse período e nessa área realmente pequena ali entre Copacabana e Panema, Leblongávia, né? Zona sul. >> Isso.
¶10>> Do Rio de Janeiro. >> Tem muitas histórias. o o Vinícius que tem um livro que editaram para ele, né, o roteiro lírico sentimental do Rio de Janeiro, que eu acho um nome lindo e o nome desse me lembrou. É, é basicamente isso. E, e, e tem uma coisa, ela fez uma pesquisa assombrosa, porque ela, em cada lugar que ela se refere, até florista, a mesma florista que fica lá em Panema há 80 anos, porque era uma senhora, depois vê a filha dela, hoje é a neta, >> hum, >> que cuida.
¶11Fernando Sabino comprava as flores lá. Isso também me lembrou como a gente mandava flor antigamente. Era um >> Mas posso te falar uma coisa? Eu compro flor todo sábado. >> Ah, que bonitinho.
¶12>> Eu compro flor todo sábado pro vaso que fica em cima da mesa de jantar. >> Mas os teus gatos permitem? >> Permitem. >> Engraçado que os gatos da minha irmã também. Mas >> é, é, eu tenho, eu tenho no eu moro num duplex, né?
¶13O, o apartamento não é muito grande, mas tem uma escada. Eh, eh, em dois e e na varanda, no segundo andar, tem vários vasos com matos diversos. Então, os gatos se servem ali. >> Ah, tá bom. >> Eh, em nome do >> É porque o Toro acha que é salada.
¶14Eu eu toda vez que eu recebo flor. [risadas] Eu tenho que trancar as flores, eu tenho que é é uma é uma coisa bizarra, porque ele realmente acha que >> é >> que é para ele. >> Mas eu eu gosto de flores. Eh, >> eu gosto também. A minha irmã tem uma coisa que é uma assinatura de flores.
¶15>> Ah, eu preciso disso. >> Então depois eu te dou os detalhes, porque a Manuela, a filha dela que fez para ela, toda semana ela recebe um buquê. E a Laura adora fazer arranjos de flores. E a Laura deve ter uns 150 vasos diferentes, porque ela faz questão de combinar o vaso com a flor e, enfim, depois eu, se você quiser, eu te passo esse. >> Ah, super, super quero, porque eu em geral volto da feira sobrecarregada e a última coisa que eu faço é comprar flor.
¶16>> É, na feira, quando eu vou à feira, eu compro flor, mas já >> com essa ideia da derrota na cabeça, >> não é? Eu eu eu não faço arranjo de flores. Eu chego no florista lá na feira e falo: "Ah, me vê dessa laranja aqui, me vê aqui e tal." Aí junto umas faz uma juntada de flores, eu >> boto no vaso como >> é o que a gente faz. Mas nessa época, nos anos 80, ainda nos anos 80, eu acho que talvez um pouco adiante, se mandava muita flor, porque eu acho que você não tinha WhatsApp, você não tinha, você ia jantar na casa de uma pessoa, você mandava flor no dia seguinte. Hoje você agradece pelo WhatsApp.
¶17>> Ah, entendi. >> Entendeu? Quer dizer, qualquer da cá, aquela palha, a flor entrava como como espécie de correio. >> Entendi. >> Quer dizer, qualquer coisa que se fosse agradecer, qualquer era mais comum receber flor do que >> eu entendi.
¶18Faz sentido >> receber e mandar flor do que do que hoje. Mas olha isso aqui. Ela pegou as crônicas do Fernando Saba, ela pegou as crônicas dos outros. Todo lugar que ela vai, ela tem uma referência. Ela é o Fernando Sabino contando dele naquele lugar, naquela casa, naquela livraria.
¶19>> Que coisa bacana. >> Tem a nossa livraria Letras e Expressões. >> É, segundo um amigo meu, Letras e Depressões. [risadas] >> É, pois é. muito caro, mas que é e tinha a letras e expressões aqui em Ipanema e tinha no Leblon também.
¶20Aqui em Ipanema. Olha, >> tinha Lebl >> diz a outra. Eu tô com Libro na mão. Nós estamos em Botafogo. >> Eu eu frequentava porque eu frequentava do Leblon morando na Gávia, né?
¶21Eh, >> eu ia muito lá, tinha um ótimo café no aliás, não sei nem se era ótimo, mas era o café, o baldo que a gente adorava. O o o cigarro que eu fumava, quando eu fumava cigarro, era mais fácil de achar na letra as expressões. >> Ah, pronto. E e os irmãos eram gêmeos, né, que eram donos das >> É, eu tenho até hoje um bonequinho do Vinícius Morais de Barro que eu comprei, que eles vendiam aqueles bonequinhos bonequinhos e eu me lembro que eles eram gêmeos e o Milô sempre perguntava qual eram letras e qual expressões. [roncando] Enfim, olha, isso daqui é uma delícia de livro.
¶22Sei lá, o Clube de Regatas Guanabara, por exemplo, tá aqui. >> Eu não sei onde fica esse clube. >> É claro que você sabe, você não tá ligando o nome da pessoa. Quando você sai do túnel, tem o Botafogo ali com aquela parede arredondada de concreto, >> certo? >> E do outro lado, você vê a plataforma de mergulho é o Guanabara.
¶23>> Ah, é? >> É. [limpando a garganta] Ainda existe. >> Existe, claro. Minha mãe nadava lá até outro dia.
¶24>> Olha só. >> Tá lá com a sua plataforma e eu saltei daquela plataforma. >> Isso na Lagoa >> não. Lagoa não. Botafogo.
¶25>> Ah, sim. >> Se situou. >> Eu me situei na, quer dizer, na beira da Bahia mesmo. >> Não, Botafogo de Remo. O >> a na Bahia.
¶26Na beira da Bahia. Isso, isso, isso. >> Entendi, entendi. [roncando] >> O, o botar fogo fica colado >> isso. >> Na Bahia, você atravessa aquela rua e tem o Guanabar em frente.
¶27>> Ah, entendi. Eu sei qual é a altura eu preciso localizar esse prédio. >> Morisco. Morisco. >> Morisco, >> sacou?
¶28>> Sim. >> Tá visualizando >> porque o Guanabara você só vê >> o muro e aí o que você vê do clube, basicamente aqueles edifícios lá atrás, mas é muito distinto pela plataforma de mergulho que ele tem lá. Ele é uma plataforma de 10 m lá. É, é, >> é uma, é uma estrutura de concreto. >> Isso.
¶29>> Imensa. >> É. >> E tem uma churrascaria hoje lá. >> Tem no Botafogo também. >> No Botafogo.
¶30É. É. Não, tudo bem. Eu já sei onde é. >> Você citou?
¶31>> Sim. Sim, sim. >> Então, tá aqui o Guanabara, olha, que fica na Avenida Repórter Nestor Moreira. >> Ele, ele, ele, ele nadava. O Fernando, ele tem cara de quem nadava.
¶32>> Ele nadava. Ele conta isso. Ele foi campeão de natação. >> Exato. Eduardo Marciano.
¶33>> Eduardo Marciano conta disso. Isso. Isso. Mas ele nadava até com a Maria Lenk. >> Olha só.
¶34E você sabe que a a aquela cena ele ganha num determinado momento, tava justamente contando, ele ganha num determinado momento um concurso eh final de adolescência, ele ganha um concurso de texto e ele vem pro rio de trem e o acompanha o professor que era um homem mais velho. E ele conta a história de uma forma ambivalente, que à noite o professor chega nele e tenta forçar um beijo e tudo mais. >> Mário de Andrade. >> Ah. Ah.
¶35>> Ah. E e e a a o grande mistério por trás é o que aconteceu, [risadas] se ficou de fato onde onde o Fernando interrompe no encontro marcado ou ou se vai a lei >> agora. O Fernando não ia à praia. >> Ah, ele não ia praia >> não. Era um >> era um mineiro.
¶36>> Era um mineiro. Era dificílimo levar ele pra praia. as pessoas tinham que chamar, insistir, não sei que ele ia e não gostava de praia. Ele nunca desenvolveu o hábito da praia. Aí olha, tem e isso aqui tem tudo.
¶37Isso aqui, isso aqui é um roteiro sentimental, isso aqui é um roteiro das ruas. Isso aqui é a descrição de um estilo de vida carioca da segunda metade do século XX. é um repositório de conhecimentos, de sorrisos, sabe? De formas de viver a vida, de pequenos casos que aconteceram, de dos quais ninguém se lembra mais. Mas aí você junta eles todos, olha aqui essa loja, lembra dela?
¶38>> Claro que sim. >> A a loja de louças, né? O Lavandaria Norte América. São aquelas lojas que a gente fala, Rio Lisboa. Rio Lisboa é famosa, mas >> ainda existe a Rio Lisboa.
¶39>> Existe, existe a loja de louças também, mas o são umas lojas que só importam para quem é do bairro. São aquelas lojas que os turistas não reparam, mas que são as grandes lojas para >> claro >> para quem vive perto delas, né? Mas olha, é uma coisa tão simpática, tão bom, tá tá tão e tão bem editado. Eh, e eu tenho eu tenho um carinho, sabe, muito muito grande. Eh, são é engraçado porque as pessoas têm os seus favoritos, né?
¶40E e é claro que eu tenho um um imenso texto pelo um imenso respeito pelo Ruben Braga como cronista, como autor, como eh eh eu acho que o Paulo Mendes Campos escreve umas coisas tão lindas, tão lindas, tão lindas, mas tem uma coisa ali nessa segunda geração do modernismo, eh, os meus dois caras são o o Sabino e o Vinícius. Eu eu tenho eh eu eu acho que eles têm uma eu acho que é por conta de uma coisa que eu percebo nos dois mais do que noutros. Os dois escrevem com ternura. >> Sim, sim. >> Os dois escrevem com ternura.
¶41Eh, eu adoro acidez, eu adoro outros jeitos de escrever, eu adoro secura, eu respeito. Mas tem uma tem uma coisa que me envolve emocionalmente, sabe? Eh, no texto do Fernando e do Vinícius, que >> eu gosto, eh, eu gosto imensamente e acho os dois, Vinícius, evidentemente é, né, Fernando não, mas eu acho os dois carioquésimos. Carioquésimos. Eles são muito cariocas.
¶42>> E o Fernando é a síntese do >> do mineiro convertido, né? mineiro convertido. É isso mesmo. É, tava pensando como é que eu poderia, >> porque tem muito, né? >> É, >> o Rio foi uma cidade de imigrantes, de uma certa maneira, porque >> ainda é >> é todo mundo vinha de outro lugar.
¶43>> É, >> havia muito pouca gente, carioca, né? É, >> tanto que sempre faltou a gente aquela coisa dos paulistas de 400 anos, que era típica de São Paulo. Embora São Paulo tivesse uma imigração gigantesca, mas o Rio, eu acho que tinha esse ar mais coisas de uma política. Eu eu eu não eu não se não, mas eu sei o que que aconteceu ali. Eh, e por acaso a minha família, o a família do meu pai é uma família paulista, eh, que veio na geração dos avós do meu pai.
¶44Eh, o o avô o o avô do meu pai, de cuja casa e Copacabana eu tava falando, eh ele era de São Paulo e o o que aconteceu foi o rei era capital. É isso. É, >> eh São Paulo >> era mais cosmopolita por >> São Paulo no início dos anos, São Paulo no início do século XX, eh São Paulo quando vem a república é uma cidade muito pequena, que enriquece na primeira república bárbaramente por causa do café. Bárbaramente, que o café vira uma coisa mundial super importante e São Paulo, de repente se torna um estado mais e aí o São Paulo começa a se industrializar, tal. Então, naquela São Paulo que tava começando a se mostrar pro Brasil na década de 1910, eles começam, a gente meio que precisa inventar uma nobreza da Terra.
¶45Então, a coisa paulista soa 400 anos, que é um discurso importante e tal, que inventa o paulista quatro centão, é uma coisa da década de 1900, 1910, inventando uma nobreza da terra. Eh, para meio que se apresentar ao Brasil, porque Salvador tinha uma coisa que era Salvador, o Recife tinha, São Paulo era província e de repente São Paulo fica muito grande. Emos, São Paulo fica muito grande, muito relevante. >> Rio, o Rio era nitidamente mais cosmopolita. Hoje São Paulo é cosmopolitista, né?
¶46Super, super. Mas nessa parte do século XX, o Rio era incontestavelmente mais cosmopolita, inclusive >> em termos geograficamente locais, né? Quer dizer, era gente do Brasil inteiro aqui, né? Então tinha uma coisa no Rio mesmo de eh eh é quase como se o carioca não existisse, >> né? Entendeu?
¶47Ser carioca é é é morar no Rio, não é ser do Rio. >> Exatamente. Exatamente isso. >> É é adotar o Rio. É uma cidade de Eu acho que ainda é eu acho que ainda é talvez menos hoje.
¶48>> Eu sei não, não sei a estatística, mas certamente durante muitos anos >> o estado tá diminuindo de população do do censo anterior para esse o estado diminuiu de população. >> É a crise. É a crise. Eh, >> pois é. Você não tem não sei quantos governadores jáulados e >> a e isso não tem custo.
¶49Tem custo, né? É. É. >> Mas vou falar da da revista então antes da gente entrar para esse capítulo deprimente. >> Por favor.
¶50Não, não, não é, vamos abandoná-lo. Eh, eh, vamos [risadas] abandonar o capítulo. >> Olha aqui, eu só posso dizer o seguinte, não consigo recomendar este livro o suficiente. Portanto, cariocas e não cariocas. O rio de Fernando Sabino, passeio afetivo pela cidade.
¶51>> E como toda edição da Autêntica, está um espetáculo batendo um bolão muito bem diagramado, muito ilustrado, feito com com autêntico espírito carioca. Pronto.