¶1Domingo à noite, na Casa Ferjan, no bairro de Botafogo. Quatro candidatos ao governo do Rio de Janeiro, cada qual atrás do seu púlpito, discutindo segurança pública, que aqui no Rio não é tema de seminário, não, tá? é o assunto que decide se você volta para casa em segurança. Naquele palco tinha também um lugar vazio. O lugar era de Eduardo Pais, que lidera a seleção com uma folga que nenhuma pesquisa discute.
¶2Pais não foi. A campanha dele explicou que o departamento jurídico orientou a no porque sabe, campanha oficial só começa no dia 16. Os outros quatro candidatos todos tinham exatamente a mesma orientação disponível. foram. Pois é, não foi só ali, né?
¶3Na mesma noite no Paraná, Sérgio Moro, que lidera com 39%, também não apareceu e disse que debate virou rinha de galo. Em Brasília, Lula já tinha avisado que não vai a debate nenhum de primeiro turno. Prefere dar entrevista na sede da presidência no formato dele. Flávio Bolsonaro respondeu que vai se Lula for. três que lhe deram suas disputas e um quarto que se escondeu atrás do primeiro.
¶4Quatro jeitos de dizer a mesma coisa. Eu não dou satisfação a você. Você, no caso, é você aí, tá? E cada um de nós eleitores. Só que teve um debate no domingo em que os dois principais candidatos apareceram, foi em São Paulo e é ele que estraga o argumento de todos os outros.
¶5Ao menos em um lugar no Brasil, os dois principais candidatos lembraram que participar de debate não é prazer, obrigação cívica. E candidato, não importa quão na frente esteja, tem obrigação de responder ao questionamento dos seus adversários. O eleitor tem o direito de vê-lo passar por esse teste, de vê-los juntos, em ação, poder comparar um com o outro. Vamos abrir as quatro desculpas, uma por uma, porque elas parecem diferentes e não são. Pais, o departamento jurídico.
¶6A campanha oficial começa no dia 16 e antes disso um debate seria pré-campanha, certo? Só que André Marinho, Anthony Garotinho, Douglas Ruas e William City estavam sob a mesma lei no mesmo calendário e presumo com advogados que também sabem ler. Os quatro foram: "Quando uma regra vale para cinco pessoas e só uma descobre que ela impede de comparecer, o problema não é a regra." Moro, debate virou rinha de galo. Ele também acusou PT e PSD de jogo combinado. É, pode até ser, tá?
¶7Mas repara só como essa coisa vai ficando circular. O debate do Paraná foi disputado por dois candidatos, porque o terceiro que lidera com 39% não foi. Debate sem o favorito vira sim uma sessão sobre o ausente. Moro produziu a rinha de galo e depois usou a rinha de galo como razão para não ter ido. Lula, a dignidade do cargo.
¶8A campanha argumenta que entrevistas na sede da presidência otimizam a agenda do chefe e do executivo e garantem acesso igualitário aos veículos. Duas coisas. Ele não pede voto como chefe do executivo, tá? pede como candidato e candidato não tem cargo, tem pedido. A própria campanha já avisou que se houver segundo turno, ele debate.
¶9Quer dizer, a dignidade do cargo aguenta um debate em outubro e não aguenta um em setembro. O que muda entre um e outro não é a dignidade, é a margem. E Flávio, vou se ele for. Essa é a única resposta honesta das quatro e e por isso é mais útil. Não invoca princípio nenhum.
¶10Dizem voz alta, tá? O que as outras três disfaçam, isso aqui é cálculo. Se o adversário se expõe, eu me exponho. Se ele não se expõe, não sou trouxa. Agora, deixa eu fazer uma coisa que eu preferia, na boa, não precisar fazer.
¶11Eu vou elogiar Tarcío de Freitas. Eu vou elogiar Fernanda Hadad. Domingo, nos estúdios da Band São Paulo, os dois debateram segurança, educação e economia. Hadad cobrou os 4 anos de gestão do adversário. Tarcísio defendeu os resultados e tentou colar Hadad no governo Lula.
¶12Ou seja, aconteceu num debate o que deve acontecer num debate. Não é só isso, não. Tarcísio lidera São Paulo por 16, 18 pontos, dependendo da pesquisa. É exatamente a situação de paz no Rio e de Moro no Paraná. O manual brasileiro mandava Tarcis ficar em casa.
¶13Ele tinha inclusive qualquer uma das mesmas desculpas à mão. Foi assim mesmo. Não dá para dizer que agiu contra o próprio interesse, tá? Talvez tenha calculado que ir era melhor. Mas o importante é o seguinte.
¶14Ele aceitou um formato que não controlava. E Hadad, ele largou o Ministério da Fazenda para disputar um cargo que possivelmente não vencerá e foi o único lugar onde teria de responder na cara pela parte mais impopular do governo de que faz parte. E perdoe se você gosta da economia desse governo, as pesquisas deixam claro que é extremamente impopular. Hadad podia ter empurrado o assunto para uma entrevista mais macia. Não empurrou, mostrou a cara, foi.
¶15Só que o que esses dois fizeram é o mínimo. Aparecer na hora combinada, no lugar combinado e responder a pergunta. É isso. Não deveria render elogio de ninguém. O escândalo desse domingo não é que dois candidatos foram a um debate, é que isso virou notícia.
¶16Pior, a gente se acostumou a achar normal que candidato na liderança não participe de debate. Mas então, o que se perde quando os outros não vão? Não é a resposta. Resposta o candidato dá em live, em podcast, entrevista, no Instagram e dá o dia inteiro, tá? Sem parar.
¶17O que a gente perde coletivamente é outra coisa, uma coisa que nada substitui. O debate é o único lugar em que você vê os dois lado a lado na mesma pergunta, no mesmo segundo, com a resposta de um encostada na do outro. Você eleitor compara sozinho sem intermediário, vendo os dois a ação. A entrevista na sede da presidência que a campanha de Lula tá oferecendo pode ser dura. O entrevistador pode ser implacável e ainda assim não faz isso.
¶18Não por má vontade, por construção. Ela entrega um homem sozinho falando com um monte de símbolo em volta, dizendo: "Eu sou chefe". Ele não tá numa posição de igual aos outros candidatos. Por isso, quando o favorito não vai, não é ele que fica devendo, somos nós que ficamos sem. Você deve est pensando que isso é coisa de agora, que a política ficou assim nos últimos anos, com as redes, com os cortes, com candidato que fala direto e dispensa intermediário, mas não é.
¶19E a história disso no Brasil é muito pior do que a que você imagina. Guarde isso aí, tá? Porque a gente vai voltar nela. Eu sou Pedro Dória, editor do meio. Olha, você é cidadão dá trabalho e se existe um momento do ano em que esse trabalho importa de verdade, são nesses dois meses antes da eleição.
¶20É agora que se decide o que o país vai ser e agora que o barulho é maior de todos os lados. Os candidatos, você acabou de ver, vão escolher quando e onde respondem. Então o instrumento tem de ser seu. O meio tem pesquisa própria. A meio ideia vai a campo em ondas e não pergunta só em quem você vota, pergunta o que o eleitor pensa, o que mudou de uma onda para outra e por quê.
¶21Assinante recebe em primeira mão antes de virar manchete. E toda quarta o meio publica o meio político que traz bastidores, as pensatas e as estratégias de campanha, a análise. Não importa qual governo, não importa qual oposição. R$ 15 por mês sem fidelidade. Assina o meio premium, leva esses dois meses a sério.
¶22Aliás, esse aqui, esse é o ponto de partida. Nada disso é novo, sabe? O Brasil não tá esquecendo como é que se faz. O Brasil, o Brasil nunca aprendeu. É um pedaço fundamental do rito democrático e a gente nunca aprendeu.
¶2315 de setembro de 1960, a TV Tupi marca num programa chamado Pingafogo o que seria o primeiro debate entre candidatos a presidentes da história da nossa televisão. Ademar de Barros aceita, o Marechal Henrique Teixeira Lote aceita. Jân Quadros prefere manter um comício no Recife. Cancelaram o debate. O primeiro debate televisionado do Brasil não existe, porque o favorito não foi e o favorito virou presidente.
¶24Daí para frente uma lista, tá? 1989, primeira eleição direta depois da ditadura. A Band organiza em julho o primeiro debate ao vivo da nossa história. Color não apareceu nem ali, nem nenhum dos seis do primeiro turno. Ganhou.
¶25Fernando Henrique, presidente, candidato reeleição, recusou todos os convites. Aquela eleição presidencial passou inteira sem um debate nenhum. Ele foi reeleito. Lula, presidente, candidato à reeleição. Não foi a nenhum debate do primeiro turno.
¶26Avisou a Globo 3 horas antes e a emissora deixou a cadeira lá vazia no estúdio. A explicação dele na época não queria entrar em grosseria e agressão num jogo de cartas marcadas. sua familiar é a Rinha de Galo do Moro, né? 20 anos antes. Naquela eleição, pela primeira vez desde a redemocratização, o segundo turno não teve debate nenhum.
¶27Você recebeu aí uma lista, né? E você percebeu que essa lista tem uma coisa em comum, não é? Jânio Color, Fernando Henrique duas vezes, Lula, todos faltaram, todos ganharam. E teve um segundo que recusou o debate de 1989, Ulícius Guimarães e o senhor Diretas. Por causa da aliança do PMDB com PFL, Ulisses tinha 22 minutos diários de horário eleitoral, mais que o dobro dos 10 de color.
¶28Tempo de televisão ele tinha de sobra. Recusou justamente o único lugar em que o tempo não era dele. Esse esse terminou lá atrás. O manual brasileiro no fim das contas é esse, né? Não é covardia, não é caráter, é uma conta e ela fecha a 66 anos.
¶29Então o que mudou pra gente estar falando disso hoje? Mudou que ficou mais fácil. Faltar tinha um custo pequeno, mas real. A cadeira ficava vazia e todo mundo via. Mas em 2022, Lula e Bolsonaro descobriram coisa melhor.
¶30Não precisam faltar. Bastou não confirmar. e CNN, Jovem Pan e Band cancelaram sozinho as três debates em agosto. Sem cadeira vazia não tem foto. E sem foto o custo é muito menor.
¶31Sabe, o candidato hoje tem canal próprio, fala com você a hora que quiser, do jeito que quiser, sem ninguém no meio. Tem uma equipe gigante arrumando todo o discurso para que a mensagem saia direitinho, indo macia para receber o eleitor. Sistema é propaganda, tá? O debate é a última coisa que a campanha não controla. Responde a quem não escolheu numa hora que não marcou sobre assunto que não sugeriu sem poder cortar.
¶32Não espanta que seja justamente isso o que ele quer eliminar. Todos eles, os que podem eliminam. Só que não é assim em todo lugar, tá? Na França, o debate entre os dois turnos existe desde 1974. Em 50 anos, ele deixou de acontecer uma única vez em 2002, quando Jack Shirack se recusou a debater com Jamarie Le Pen, dizendo que não banalizaria as ideias do adversário.
¶33Repara na diferença aqui. O o Lepen era de extrema direita numa época que extrema direita não era normal. O francês que faltou não fugia do adversário, fazia um julgamento sobre ele e teve de explicar isso ao país. Naquele caso, em massa, o país concordou. Ali a França não tinha dúvidas e a eleição não teve nada de apertada.
¶34Não há lei nenhuma na França obrigando o candidato a qualquer coisa. O que há é custo eleitoral. Por isso ninguém falta debate. A Argentina foi pelo outro caminho, tá? em 2016 aprovou uma lei que tornou o debate presidencial obrigatório.
¶35Quem não vai perde seu tempo de propaganda no rádio e na TV e esse tempo é redistribuído entre os adversários. E tem ali uma linha que é quase poesia. O espaço que seria do ausente permanece vazio. Tá ao lado dos demais para denotar a sua ausência. A cadeira vazia que aqui foi improviso de uma emissora em 2006 na Argentina é obrigatório por lei.
¶36No dia 23 de agosto tá marcado na Band o primeiro debate entre os candidatos à presidência da República. Até agora nem Lula nem Flávio Bolsonaro confirmaram. Você já sabem o que vai acontecer com eles se não forem, né? Nada. Faz 66 anos que não acontece nada.
¶37Isso acontece com a gente. Elas estão se aproximando as eleições. E aqui no meio você acompanha com dados de verdade, sem depender de conteúdos pouco confiáveis das redes sociais. Você sabe, né? A pesquisa Meio Ideia é uma das nossas bússulas.
¶38É a nossa pesquisa independente [música] registrada no TSE, feita todo um mês em parceria com o Instituto Ideia. A edição de agosto traz o retrato [música] mais atual da corrida. Quem é assinante premium recebe a pesquisa completa em primeira mão e ainda garante acesso à nossa plataforma interativa que permite o cruzamento da intenção de voto por região, por classe, por gênero, [música] para comparar com as rodadas anteriores e ver com os próprios olhos o que que mudou de verdade a cada mês. Esse tipo de leitura, até pouco tempo atrás, só quem trabalhava dentro de um banco ou de um partido conseguia ter acesso. Agora tá [música] disponível para quem assina o meio prêmium.
¶39Em um ano como esse, olha, vale o ouro. e receba mais esse material exclusivo. [música] >> [música]