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Centrão só olha pro próprio umbigo nas eleições

¶1Eu venho de uma geração, isso é uma coisa bem interessante, eu venho de uma geração que foi formada na universidade a partir de algumas percepções que se mostraram eh pelo tempo bastante equivocadas, mas que eram vendidas como muito muito corretas. Vou te dar dois exemplos aqui. Por exemplo, eh, na minha geração se dizia que o grande problema da democracia brasileira era o financiamento privado de campanha e que o financiamento privado de campanha deveria acabar e que a gente devia partir para um financiamento público e que o financiamento público tornaria as campanhas mais eh justas, equânimes e efetivamente dariam eh a possibilidade da cidadania se renovar. Eu acho que o Pedro vem dessa geração também, que na hora que eu comecei a comentar, ele deu um risinho. Eu vi daqui da da do cantinho.

¶2>> Passei 20 anos profissional. >> Passei 20 anos da minha vida profissional, mais de 20 anos da minha vida profissional ouvindo isso. Não deu muito certo, tá? É isso, [risadas] não deu muito certo. E aí eu vou trazer outro que eu acho muito interessante também, que vinha desse período do do meu começo de caminhada na universidade.

¶3Quero dizer assim que o bom seria que a gente tivesse uma concentração de forças políticas num modelo muito mais semelhante àquilo que a gente via, por exemplo, nos Estados Unidos, republicano contra democratas ou na Inglaterra, assim, que hav haveria pouco espaço de gente trabalhando no meio e aí essas concentrações dariam mais estabilidade, mais concretude ideológica ao sistema e e tudo melhoraria. Hum. >> A gente tem isso, né? O PT é a principal força política da redemocratização para cá e o antipeitismo foi se metamorfoseando, teve a sua fase tucana e hoje ele tem uma fase bolsonarista. E efetivamente essa radicalização de espíritos e corações não trouxe nada que preste, né?

¶4Essa é a grande verdade, né? se fala menos de política pública, se desenvolve menos, o estado é menos criativo, a quantidade de políticas públicas novas, né, de inovação em política pública que realmente resolva problemas dos mais vulneráveis, que eu acho que tem que ser o foco e é o grande diferencial da democracia, eh, inexiste. E aí a gente cai no centrão, né, que sempre foi visto como parte do problema. Me parece que nos últimos tempos, sobretudo diante dos momentos de maior radicalização, o centrão foi uma grande foi uma grande válvula de escape que impediu que isso que a gente chama de Nova República fosse fosse pro espaço, né, nessa ideia de que pode embarcar e de que pode desembarcar. E aí eu vou diretamente à pergunta, Flávia, para não parecer que eu tô fugindo, né?

¶5>> [risadas] >> Eh, efetivamente, eu acho que o ponto interessante do centrão nessa nessa eleição, mais do que em qualquer outra, é que o centrão talvez seja, não é, não acho que é nem uma discordância com o que você disse, é uma percepção distinta. Eu acho que o centrão fez uma aposta para valer em um ator político, nele mesmo. E aí isso significa dizer o quê? olhou pro mapa da eleição presidencial e viu, cara, essa é uma eleição em dois turnos, em que quem ganhar vai ganhar com um ponto e alguma coisa, no máximo dois. Se fizer mais de dois pontos, vai ser uau, que maravilha.

¶6É uma eleição em que o discurso vai ser muito jogo baixo, vai ser bem suja a campanha por questões institucionais e questões de de propaganda. vai ter muito problema e isso significa dizer ao fim do dia que vai custar uma baba de dinheiro para vencer a eleição. E para cada real que eu usar em campanha presidencial, eu não vou ter R para fazer campanha de deputado, campanha de senador. Lembrando que deputado é de onde sai o dinheiro que alimenta a máquina. Então os caras pegaram e falaram: "Olha aqui, a regra é a seguinte.

¶7Nacionalmente a gente não tá com ninguém, obviamente baseado nos eventuais equívocos que Lula e Flávio cometeram ao longo do tempo, né? O Lula de se de rejeitar e entender que ele precisava de um articulador político na primeira metade do governo que fosse mais afeito ao centrão. É, e a gente estava falando do presidente Artur Lira que inclusive deu uma dica para ele no primeiro ano dizendo: "Tira o Padilha e põe o Hadad, né? Vai funcionar". E o Lula não quis fazer e aí pagou o preço disso.

¶8E o próprio Flávio, sobretudo naquilo que envolve o master, quando ele viu que explodiu, sobrou o nome do Ciro Nogueira, ele falou: "Opa, deu um bom passinho para trás e falou: "Se vira, o caminão tá vindo aí, você trata com ele. É o caminão descendo a ladeira 200/h, você estica a mão e vê se para". Esses dois movimentos expulsaram o centrão dessas coalizões. E aí geram fenômenos interessantes, né? Por exemplo, o jogo, o jogo muito bem desenhado pelo PP quando do convite a Teresa Cristina, que admite de público, sabendo que de acordo com seus interesses a legenda e a vetar, o Ciro Nogueira, num movimento que é muito comum na sua trajetória, não corre nenhum risco de fazer uma convenção, faz uma nota dizendo qual é a qual é o caminho que o PP vai tomar.

¶9O André Ruído, entendendo a importância da federação, decide não ir pro embate direto e fica isso. Cada um nos seus 27 diretórios decide para onde vai, nacionalmente não tá com ninguém, apesar do Ciro ir lá e dizer que pessoalmente votaria no Flávio. >> Então me parece que o o o centrão entendeu o preço do jogo e optou por um caminho diferente do Cassabi, né? O Cassab quer estar no jogo gastando pouco dinheiro, que é a campanha do Caiado, para que depois ele para que tenha maior controle da bancada ser eleita e depois possa ser indispensável na negociação. O centrão parece ter menos pressa e ele sabe que esse diálogo não é no atacado, esse diálogo é no vareijo.

¶10Então, por exemplo, se o Lula ganha, o Lula sabe que leva o Hugo Mota mais o pai pra base, mas não vai levar, por exemplo, alguém que foi eleito no Rio Grande do Sul. >> Uhum. >> Né? Eh, e o Flávio, da mesma forma sabe que leva algumas pessoas, mas não vai levar todas. E o centrão é o jogo da paciência, porque o jogo do centrão é comentado por um tripé que eu acho que é muito impactante para entender os problemas da democracia hoje, é emenda parlamentar, orçamento, fundo partidário e fundo eleitoral, que significa dizer que você tem um exóscelo que blinda a política e a política não precisa da sociedade.

¶11Faz com que cada um de nós aqui fique olhando e dizendo: "Ah, eu gostaria que tal coisa fosse feita". passa no portão quando eles acham que é conveniente. Quando não é, não passa. E não importa se somos nós individualmente, se é uma instituição, se é um banco, se é a maior fábrica de refrigerante do mundo, não vai passar se eles não tiverem afim. E o centrão entendeu esse jogo mais rápido do que todo mundo.

¶12Significa dizer o quê? a gente tem uma dinâmica que é parlamentar em que o parlamento não é pressionado por nenhum tipo de responsabilização. Então, se tem mal feito, não tem eleição, não tem dissolução de congresso e tudo segue como antes, na terra de Abrantes e vamos embora. Deixa eu falar eh eh tudo o que o Creomar e a Flávia disseram. Com outras palavras, eu eu vou [risadas] pedir desculpas para vocês, porque eu vou repetir tudo o que vocês falaram, mas eu vou tentar fazer com que tudo [risadas] que eu fale pareça diferente, embora seja exatamente a mesma coisa.

¶13Mas isso é ótimo. Você já Pedro do dom da oratória. >> É, é, [risadas] >> desde que não pareça mais inteligente nem mais charmoso, tudo bem. >> Do que você, [risadas] Flávia, do que o cromar, talvez. Do que você é muito difícil.

¶14>> Então, um justo. [risadas] >> Deixa eu começar com pesquisas. Eh, Piauí pesquisa Atlas Intel Meio Norte. Eh, a Atlas faz boas pesquisas. Segundo turno, essa pesquisa 15 e 20 de julho desse ano, ou seja, tem um pouco mais de um mês, um mês e meio.

¶15No segundo turno, Lula no Piauí tem eh 70.8% dos votos e Flávio Bolsonaro tem 22% dos votos. Eh, Paraíba. Eh, a pesquisa lá foi feita pela Real Time Big Data, que é uma pesquisa que eu acho que eu eu tenho eu tenho dificuldades com a metodologia da Real Time Big Data, mas é a pesquisa que a gente tem. Eh, segundo turno, eh, Lula, 58% dos votos, Flávio Bolsonaro, 30% dos votos. Eh, isso na Paraíba, nas Alagoas, é mais ou menos a mesma coisa.

¶16Eh, e o ponto que eu tô fazendo aqui é isso não é único, tá? Eh, eh, isso é meio que a cara do Nordeste brasileiro. Eh, em todos os estados você tem essa proporção, mais ou menos [roncando] 3/4 dos votos pro Lula, 1/4 dos votos pro Flasg. é o Nordeste. Se você fosse fazer essa essa pesquisa no Centro-Oeste, seria muito diferente.

¶17O Caiado até tá pontuando eh melhor do que nas outras regiões, mas evidentemente quando a gente vai pro pro segundo turno, 3/4 dos votos vão para Flávio Bolsonaro e 1/4 dos votos vão pro Lula. Qual o ponto aqui? O ponto aqui é que Ciro Nogueira é do Piauí. é que tanto o Renan Calheiros quanto Artur Lira são das Alagoas e o Gumota, evidentemente é da Paraíba. E qual o ponto que eu tô fazendo aqui?

¶18Bem, eh, Ciro Nogueira, talvez nosso público não lembre, mas a Flávia e o Creomar lembrarão. Ciro Nogueira passou metade do primeiro semestre acenando assim pro Lula: "Ei, tô aqui, tô aqui, não quer conversar não?" Lula não quis. Mas o Ciro não foi ser neutro porque, eh, veja bem, para mim tanto faz quanto ganha. Ele foi ser neutro porque abraçar o Flávio é suicídio e o presidente Lula não tava fim. E aí Ciro Nogueira foi ser neutro.

¶19Agora, qual é a história de Artur Leira? A história de Artur Leira é o seguinte: Renan Calheiros está eleito senador nas Alagoas. Ele tem um recall imenso e eh ele e o filho são super populares. E o Renan, desde que o PMDB se acertou com o PT ali por meados do primeiro mandato do governo Lula, o Renan e o Lula formaram uma aliança que é meio que indestrutível. Os dois se conhecem, os dois sabem o que que um entrega pro outro.

¶20Eh, o senador Renan Calheiros é um dos parlamentares mais experientes da República, é um aliado importante do presidente Lula que ele valoriza. E nas Alagoas, Lula é Renan, Renan é Lula. É isso, esse é o jogo. Então, Artur Lira não poderia ter o presidente Lula como aliado e ao mesmo tempo tem uma meia ele, o Artur Lira tá numa situação, embora ele tenha sido um político muito importante na Câmara dos Deputados, chegou algumas vezes a presidência da Câmara e tudo mais. Artur Lira tem um problema que é o seguinte, ele é o segundo.

¶21Tudo bem, são dois votos, mas ele é o segundo porque o primeiro é o Renan. E e e metade do povo vai chegar na urna ali naquele primeiro domingo de outubro e descobrir na urna que tem que votar em dois senadores, entendeu? Então o que o Artur Lira precisa é tirar a maior quantidade possível de de candidatos. E o Flávio ofereceu essa ajuda para ele. Quando o Flávio ofereceu essa ajuda para ele, bem ou mal, vai ter lá seus 30% de votos nas Alagoas.

¶22Se o Flávio fizer muita campanha pro Artur Lira, ele tem uma chance de ser o segundo mais votado mesmo. Quer dizer, é bastante razoável a gente acreditar que Renan Calheiros e Artur Lira serão os senadores das Alagoas para eh eleitos nesse ano. E por fim, a gente tem a Paraíba e e e Hugo Mota, seu pai que é o Nabor Vanderlei, que era prefeito de Patos lá no interior eh da Paraíba, ele é candidato ao Senado. Quem é de novo o sujeito que tem 80% dos votos no segundo turno na Paraíba? Luís Inácio Lula da Silva.

¶23Se você quer ter certeza de que seu pai vai ser eleito senador, você quer que em todo o estado a foto do seu pai e a foto do Lula apareçam juntos. E e esse é o preço. Esse é o preço da eleição do pai Diogo Mota como senador. Esse é o preço que Artur Lira tá pagando. Toda política é local.

¶24E aí eu vou reafirmar o que que o Creomar disse de uma outra maneira a respeito do centrão. A gente deu ali na no período da constituinte esse nome para esse pedaço da direita brasileira e muitas vezes se tem aquela turma que se vira e fala: "Ah, o centrão na verdade é direitão". E é ou então nosso amigo, né, Flávia, Zé Roberto Toledo, que chama de Arenão, que é um ótimo nome também. Eh, no fim das contas, o centrão é a força política mais antiga do Brasil. O centrão é a base da primeira república.

¶25O centrão são os chefes políticos regionais. Ele faz uma política que é uma política que é mais primitiva do que do que o PL e o PT fazem. Em que sentido? O PL de fato tem a partir do bolsonarismo, o PL de fato tem uma cara ideológica, uma cara racionária, nacionalista, mas ele tem uma cara ideológica. Eh, o PT, evidentemente, desde a sua fundação, tem uma cara ideológica, tem um conjunto de valores que ele defende.

¶26O que o centrão defende não é um conjunto de valores, não é ideologia o norte da política do centrão, mesmo que boa parte dos políticos sejam conservadores, não é isso que é relevante. A pauta relevante é a pauta regional, é a pauta local, é aquele grupo de prefeituras que eles defendem aquilo. É por isso que eu remeto a primeira república, que era a república dos governadores, que era a república eh eh dos coronéis, porque era uma república em que não eram valores que que definiam como que você organizava aquela república politicamente, era quem que mandava em cada local. E esses 3/5, pouquinho mais de 3/5, 300, 350 deputados federais, dá um pouco mais de 300 deputados federais, eles são essencialmente políticos que ideologicamente eles são amorfos, não porque eles não tenham valores, mas é porque não são os valores deles que definem o que o a as suas condições de eleger, de se eleger. Agora, eu acho que é importante, cromar, Flávia.

¶27Eu acho que é importante a gente sempre lembrar às pessoas que o Brasil não tem na sua Câmara de Deputados uns 300, 310, 320 deputados que eh tão lá para defender os interesses regionais e não os interesses de determinados valores, né? É porque o Brasil é primitivo, isso e aquilo. Isso é uma escolha institucional que nós fazemos. A partir do momento que a gente escolhe que boa parte do dinheiro arrecadado vai paraa Brasília, paraas mãos do presidente da República e ao Poder Executivo Federal e a União que vai decidir quem vai receber o que daquele dinheiro. A partir desse momento, os prefeitos passam a ter a necessidade de ter algum tipo de representante de Brasília.

¶28E a maneira mais fácil de você ter esse tipo de representante de Brasília é você elegendo um deputado federal. Por que que um deputado federal é o tipo de representante mais útil para um prefeito? Porque um deputado federal tem uma coisa que um presidente precisa, ele tem o voto dele dentro da Câmara. enquanto que um embaixador, um enviado, ou seja, um escritório que você abre em Brasília não vai te dar esse tipo de poder sobre o poder executivo. E aí eu venho para só para terminar esse raciocínio que é o seguinte, o que que desde o governo Dilma, mas principalmente a partir do governo Bolsonaro, o centrão conseguiu, ele conseguiu autonomia sobre boa parte da verba federal sem a necessidade de passar pelo presidente da República.

¶29E aí, Creomar, eu concordo 100% com você. Boa parte do que evitou um golpe de estado foi a existência de um centrão. Não por uma questão ideológica, mas é só porque numa ditadura o poder volta pro presidente da República. O centrão tá no melhor lugar que ele jamais esteve. Ele tem poder sem que o presidente da República possa adaptar em como ele distribui aquelas verbas.

¶30E é para isso que o central existe. Eu eu acho muito importante a gente tirar um pouco esse estigma. Ah, são fisiológicos, são isso, são aquilo. Gente, o nosso desenho institucional, porque a gente é desenvolvimentista, porque a gente é centralizador, porque a gente acredita que o governo federal tem que tomar uma quantidade imensa de decisões sobre cada pequeno canto do Brasil, porque a gente acha coletivamente isso. A gente montou um desenho em que a existência de um centrão é inevitável.

¶31E neste momento, quando alguém me pergunta, você tem medo de uma ditadura, se o Flávio Bolsonaro ganhar uma coisa assim, eu não tenho medo de uma ditadura como eu tive com Jair Bolsonaro por uma única razão, porque o central tá com faca e o queijo não. Elas estão se aproximando as eleições e aqui no meio acompanha com dados de verdade sem depender de conteúdos pouco confiáveis das redes sociais. Você sabe, né? A pesquisa meio ideia [música] é uma das nossas bússolas. A nossa pesquisa independente registrada no TSE, [música] feita todo mês em parceria com o Instituto Ideia.

¶32A edição de agosto traz o retrato mais atual da corrida. Quem é assinante premium recebe a pesquisa completa em primeira [música] mão e ainda garante acesso à nossa plataforma interativa que permite o cruzamento da intenção de voto por região, [música] por classe, por gênero, para comparar com as rodadas anteriores e ver com os próprios olhos o que que mudou de verdade a cada mês. [música] Esse tipo de leitura, até pouco tempo atrás, só quem trabalhava dentro de um banco ou de um partido conseguia [música] ter acesso. Agora tá disponível para quem assina o meio premium. Em um ano como esse, olha, vale o ouro.

¶33Assine [música] e receba mais esse material exclusivo.