Radar

radar · Política & notícias

IA resolve seu problema de casa? | Pedro+Cora

¶1Cora Rona, de que falaremos hoje em Pedricora? >> Da saga da minha geladeira. >> Ah, e de comunistas também, tá? Vem. [música] Me conta das suas desventuras com sua geladeira.

¶2>> [risadas] >> vontade de sentar no chão e começar a chorar. Aliás, foi [roncando] o que eu fiz no primeiro dia dessa saga. Mas vamos começar do começo porque >> afinal >> é sempre um bom lugar para começar, né? Pois não. >> Então, sexta-feira retrasada, a gente gravou aqui, eu fui jantar na casa da minha irmã, eu tava super cansada porque eu tava me sentindo meio gripada, inclusive assim, de uma coisa qualquer.

¶3Não, meu anivers foi antes do meu aniversário, exatamente uma semana antes do meu aniversário. Quando eu chego em casa, a cozinha está alagada, mas alagada seriamente. Eu fui ver o que que era. A geladeira estava morta. E essa geladeira é uma geladeira que faz gelo e tem água na porta e por em consequência tem o filtro que fica >> claro >> ligado ali e tal.

¶4Bom, eu fui lá, procurei a porque o fil supostamente teria um lugar para desligar, não consegui encontrar esse lugar. É uma instalação diferente, instalação de geladeira, mas a parte do gelo tem um negócio como se fosse essas boias de >> de de >> de água. Quer dizer, ela quando o gelo cresce, aquilo levanta e, portanto, tá desligado, tá deslig aquilo. Eu tenho, sei lá, 10 panos de chão em casa. Consumi todos os panos de chão, depois fui paraas toalhas.

¶5Isso meia-noite, 1 hora da manhã. >> Ai meu Deus do céu. >> Enfim, eu terminei esse negócio, perguntei pra Bia, Bia, arranja, pelo amor de Deus, um um é um cara de geladeira para mim, um bom técnico? Aí eu, a Bia tem um grupo de amigas onde estão todos os técnicos do Rio de Janeiro e mais alguns. E me passou esse técnico, só que estamos falando de sexta-feira, que essas coisas só acontecem na sexta-feira, >> evidentemente, >> né?

¶6Claro. >> E esse técnico era péssimo de comunicação e eu não conseguia falar com ele. [roncando] Mas aí de alguma maneira combinamos que ele viria na segunda-feira consertar as coisas. Bom, isso eu perdi tudo que tinha no congelador. >> Uhum.

¶7>> Na verdade, o que era esquisito nesse momento é que a geladeira funcionava, mas o gel o congelador tava pifado. Então não perdi as coisas de dentro da geladeira, perdi todo o congelador. Técnico mexeu aqui, mexeu ali. OK. Saiu a geladeira funcionava.

¶8Fiquei toda feliz, mas não comprei nada pro congelador porque eu ainda não estava pondo fé naquilo. Quarta-feira eu acordo e a cozinha está lagada novamente. Comecei a ligar pro cara, cara que não é bom de comunicação. Você manda WhatsApp, o cara não responde, não, [roncando] não escreve, não manda bilhetinho, não manda telegrama, assalada, nada, nada. Silêncio do outro lado.

¶9Dinheirão consertar R$ 750, você quase compra uma geladeira por esse preço. Bom, aí ele finalmente apareceu, veio, ah, o termostato, não é o [limpando a garganta] termostato, um uma pecinha que manda ela começar a funcionar. queimou. Então ele trocou essa pecinha aqui. Muito bem.

¶10E aí, de fato, a geladeira funcionou bem na quinta-feira. Quando foi na sexta-feira, meu filho, era possível. >> A gente gravou aqui. Eu fui jantar na casa da minha irmã, ficamos conversando até tarde, como sempre. Fui pra minha casa.

¶11Chego na minha casa, a parte da geladeira está toda congelada. Blocos de gelo. Não tinha >> a da geladeira, não do congelador. >> A da geladeira, o congelador tá vazio. Porque eu ainda não tinha pegado confiança naquilo.

¶12Mas aí a Cláudia tinha deixado umas gelatinas di para mim que eu como se tudo congelado com uma camada de gelo por cima. Eu tava com um monte de peririnhas ercolinees, sabe? aquelas perinhas pequenininhas >> que tinha exatamente ficado maduras. Botei na geladeira, tava achando maravilhoso como é aquilo gelado. Congeladas as uvas, mas uva resiste bem a congelamento, porque uva eu às vezes boto no congelador de propósito.

¶13Os queijos, cara, tudo que estava na geladeira morreu congelado. >> Incrível. sexta-feira com aquele cara. Aí o cara acabou vindo segunda. Ah, aí ele antes ele tinha ficado de passar na [limpando a garganta] quarta, na quinta-feira para ver se tava tudo OK.

¶14Não passou porque ele caiu da laje de um cliente, se machucou, mandou foto do machucado, coisa estava bom. Finalmente o cara chega, diz: "Ah, é esse termostato aqui em cima e supostamente consertou aquilo". E aí é que a geladeira morreu de uma vez e morreu. Morreu porque nesse interu, bom, nunca mais falei com com esse cara, não. Imagina, né?

¶15teve todas as chances do mundo. Chamei um um cara da assistência técnica autorizada, o cara me disse: "Morreu, >> morreu, morreu, >> morreu, morta". >> Quantos anos >> é? 16 anos. Mas 16 anos em muito bom estado, uma máquina gigantesca.

¶16Isso, isso me deixa tonto. Eu sei que para vocês não é um relato muito emocionante, mas é deprimente paraa criatura que passa por isso, porque eu inclusive tinha um apego afetivo a essa geladeira já. Porque >> é, mas posso te falar uma coisa? Eh, cora, eu eu me separei eh faz 11 anos e e montei uma casa toda do zero, né? Comprar geladeira, fogão, sofá, tudo.

¶17Eh, o fogão que eu comprei ao me separar já troquei. A geladeira tá fazendo uns barulhos. que e eh eh eh eh eu tem um mistério aí que eu não sei se é o fato de ter ficado mais eletrônico e menos elétrico. Eh eh ou ou eu não sei se é uma coisa de obsolência planejada pelas próprias empresas, mas eu não lembro da minha infância de meus pais jamais trocarem uma geladeira. Não, eu também não.

¶18A >> as coisas simplesmente existiam e elas duravam e não era uma coisa assim. E quando quebrava uma coisa, você trocava uma peça. >> É isso. Eu o que eu descobri nessa brincadeira, >> porque veio o pessoal da assistência técnica, disse: "Olha, essa peça não se fabrica mais". Então eu descobri que essa geladeira, que em tese poderia funcionar muito bem, ah, porque da primeira vez ainda teve o lance do gás.

¶19que disse: "Ah, não tinha gás", etc. Aquela lembra aquele ponto zero da >> esse sujeito da assistência técnica, eu disse: "Não tem conserto porque essa peça não é mais fabricada". Esse fio aqui tá partido, não sei que eu digo, mas isso aqui não dá para emendade não, de jeito nenhum. Pronto. Aí eu resolvi comprar uma geladeira nova.

¶20Me perguntei pro chat dept que eu faço, né? Chatt me disse: "Não, é melhor você comprar uma geladeira nova essa altura do campeonato". Mas ele também não é um conservacionista. Eu digo, não, conselho errado do chat, né? Aí liguei para um outro, mas aí pedi pro chef me dar a melhor oficina de geladeira do Rio de Janeiro.

¶21O chefe me deu, liguei para lá, o pessoal me perguntou o que que aconteceu. Pediu o rótulo da geladeira com as especificações, mandei, expliquei, eles disseram: "Morreu, essa peça não existe mais e não se deve emendar". E aí ele me E aí esse cara nessa conversa, ele me disse: "Olha, as peças hoje duram elas, eles mantém peças no mercado por cerca de 5 anos. E eu fiquei pensando que isso no fundo é o fim da picada, porque a gente tá com mundo explodindo de olha, nós estamos caindo de é >> de lixo. [limpando a garganta] Nós estamos rompendo pelas costuras porque o mundo não tem mais onde botar.

¶22Cacareco velho. >> É, é uma é uma loucura. Porque existe uma razão para você trocar computador, sei lá, de 5 em 5 anos. Eh, existe um avanço tecnológico real que faz com que as máquinas fiquem muito melhores em termos de a a sua capacidade de fazer a sua função. >> Quer quer saber uma coisa?

¶23Eu já nem acredito em trocar computador no ano. >> É que você >> Eu acho não, eu acho que é é um prazo maior, dois em dois anos. Houve Houve um tempo. >> Computador não, o computador eu troco de cinco em cinco. >> Pois é.

¶24Houve um tempo em que era de seis em seis meses, mas hoje eu já acho que é mais, eu acho que já não. >> Ah, não, não. Cinco em c anos. O celular, >> celular de dois em dois, computador de 5 em cinco. E porque a gente é profissional disso, né?

¶25>> É, não precisa, não precisa realmente >> não. O computador dura 5 anos. Eh, ele um, se você compra, e eu sempre compro um computador, tipo, >> quando você compra o topo de linha? >> Eu eu sempre compro o topo de linha e ele dura 5 anos. Eh, agora uma geladeira, qual é exatamente o o avanço tecnológico que o modelo de 10 anos atrás tem em relação ao modelo?

¶26>> Nenhum, >> tipo, eu realmente só preciso de algo que mantenha os alimentos frios e e num frio que não congele, >> é isso. >> Mas ao tempo que preserve, né? Eh, é isso. >> Olha, e eu que me que me corta o coração nessa história é que é uma geladeira que tá nova em tese, >> é uma peça, né? >> É um e uma peça pequena que me pareceu de plástico inclusive.

¶27Então isso passar os 5 anos, se a tua geladeira der algum problema, você não vai ter conserto. >> É incrível, >> porque os fabricantes não, olha, isso tem uma coisa de perverso. >> Uhum. >> Porque só eles têm a lucrar com isso. >> Claro.

¶28>> O mundo não lucra, o consumidor não lucra. Ninguém tem que trocar geladeira a cada 5 anos. É, não, você tem toda a razão. Você tem toda a razão, >> sabe? Então que você não encontre essa geladeira sólida e é muita coisa.

¶29Você vê que aquilo vai ocupar um espaço inútil no mundo. É muito ferro, é muita coisa. >> E e eu sinceramente tenho e eu sinceramente tenho essa impressão de que >> eh tem alguma coisa que acontece que as coisas duram menos. Eh, as coisas duram menos. E eu não e eu não sei explicar porque isso, eh, porque não fazem peças de reposição.

¶30Porque antigamente a geladeira dos nossos pais quando queimava e queimava até com mais frequência do que as nossas, porque eu volto e meia tinha alguém mexendo com o motor da geladeira lá em casa, que eu me lembre, mas consertava. Então, então aquela geladeira durava décadas, não era um eletradeira aparelho para durar 20 anos. Não tem, não tem por não durar 20 anos, né? >> Examente. Não.

¶31E e essa geladeira, como meu computador era topo de linha, então o o melhor material que havia a época e não sei mais o que. Você ainda pode alegar que as geladeiras antigamente consumiam mais energia, mas eu não sei se é pior pro planeta uma geladeira que consome mais energia ou uma geladeira que vai pro lixo por falta de uma peça. >> Claro, claro. >> Enfim. Aí eu voltei pro chat de PT, digo, você tinha razão, a geladeira morreu.

¶32Que que eu faço? Qual que eu compro? O espaço é esse. Dei altura, largura, profundidade. Aí ele me diz: "Ah, você tem que comprar LG, não sei das quantas, porque é que cabe no espaço que você tem e é que está funcionando melhor?" Ele se tem queixas contra a descendente da tua Brastemp porque não está gelando a água na porta, tem queixas na internet.

¶33A outra que eu recomendaria não cabe porque você precisa ter um espaço para respirar dentro do do vão, ela não pode ficar totalmente, enfim, me deu uma pré-eleção sobre geladeiras elétricas. Eu fui confirmar em dois ou três links. De fato, ele tinha toda a razão. E >> eu compro, eu só compro essas coisas agora consultando o chat que é o Clod. E ele e ele tinha toda a razão.

¶34E eu aí entrei no site da LG, vi o modelo, depois passei lá na F shop para ver a cara do modelo. [risadas] E a nova geladeira tem Wi-Fi. >> Ah, claro, porque você precisa de Wi-Fi na geladeira, né? >> Primeiro achei uma frescura. >> Hum.

¶35Porque eu já tive uma máquina de café na Expresso com Wi-Fi, [risadas] não teve a menor utilidade. Porque o seguinte, o Wi-Fi não pega a cápsula e põe para você, né? >> Claro. >> Quando você diz pro Wi-Fi liga, você tem que ter posto a cápsula. Então, né, irrelevante, tanto que ela não seguiu adiante.

¶36Eu fiz, gente, uma geladeira com Wi-Fi. Para que que eu quero isso? Não, eu me lembrei daquele futurismo que a gente viu várias vezes geladeira comunicando a você o que que tinha lá dentro e >> isso >> e se conectando com a Amazon e encomendando tudo que faltava e tal. Mas esse modelo já já se questiona muito essa ideia, né? Não, >> claro, >> não sei se foi uma coisa que a pegou >> e aí fui ler as especificações e cheguei à conclusão que geladeira tem que ter Wi-Fi, que é uma ótima ideia.

¶37>> Por quê? Ah, >> para quê? >> Pelo seguinte, porque a geladeira se conecta com o aplicativo que você tem no celular. >> Uhum. Então ela diz, se a porta ficou aberta, ela permite a você regular a temperatura por aqui.

¶38Se você quer um congelamento rápido, se quer digelar um pouco, ela te avisa quando tem alguma coisa que não está bem resolvida, que não está funcionando. Quer dizer, eu nunca mais serei surpresa por uma cozinha alagada, porque se acontecer alguma coisa assim, >> ela vai te dizer que ela tá alogando a cozinha. Ela ela vai me avisar antes de alargar, eu imagino. >> Quer dizer, [roncando] daqui daqui a 15 anos a gente conversa, mas eu tô pondo fé. [suspirando] >> Quara, temos livro?

¶39Ah, ah, essa pergunta hoje sou eu que faço. Pedro, temos livro? >> Temos livro. A gente tá fazendo uma, a gente vai fazer uma coisa diferente, excepcional, que dessa vez o livro Quem trouxe sou eu. É, é esse livro aqui, sala 4 da Maria Vernec, editado, Cora, pela Matinas, >> do nosso amigo Matinas Suzuki, >> do nosso queridíssimo amigo eh Matinas Suzuki.

¶40O o Matinas fez uma editora, eh, ele tem uma sacada que [roncando] eu acho fenomenal, que é o seguinte, eh existem livros que precisam existir, mas não é tanta gente assim que os quer, mas eles precisam existir, eles não podem morrer. E então a impressão é sobre demanda. Você compra e aí o livro impresso entregue para você. Ele não precisa ficar com o estoque do livro. >> Print on demand.

¶41>> Print on demand. eh, mas extremamente bem editado, muito cuidadoso, muito bonito. E e por e eu fiquei muito emocionado. Eh, uma pessoa com quem eu tava conversando me contou que o Matinas tinha publicado este livro aqui. Eh, e eu fiquei super emocionado, super mexido.

¶42Eu tenho também a edição original dele quando ele saiu em 1988. E a razão pela qual fiquei muito emocionado é o seguinte. Maria Vernec é minha tia avó. Eh, ela era irmã da minha avó e a vovó Silvia. A minha avó eu não conheci.

¶43Ela morreu antes de eu nascer. Mas a tia Maria não só eu conheci como convivi com ela e e ela é uma das ela de certa forma é a minha primeira guia literária, >> porque eu eu pequeno tinha eu aprendi a ler nos Estados Unidos porque meu pai professor universitário, tava lá. Aí eu voltei um pouco atrapalhado com eu eu já sabia ler, mas eu nunca tinha lido em português, eu falava português e e através do Monteiro Lobato, ela foi me recomendando, você vai primeiro ler esse, depois esse aí meu pai ia me levava pra casa dela. Eh, e a gente ficava, porque a tia Maria era professora de português e ela ficava me fazendo perguntas sobre o livro. o que que você achou dessa passagem daquela tal.

¶44Invariavelmente tinha um um velhinho, de vez em quando tinha um velhinho na no meio da sala dela, que é, eu vou mostrar depois para vocês, o livro tem dois autógrafos que eu peguei no dia do lançamento. É, o lançamento foi em 1988, o o ano da constituinte que a tia Maria me lançou esse livro e tinham duas pessoas lá eh dando autógrafos. Eu peguei das duas pessoas. A segunda pessoa era justamente esse velhinho muito cabugento, muito malmorado, que de vez em quando tava na sala da tia Maria, que era o cavaleiro da esperança, >> Luiz Carlos Prestes. >> Eu conheci.

¶45>> Você o conheceu? Eu conheci razoavelmente bem. [risadas] >> Não, eu eu conheci Não, eu eu conheci >> naquela coisa política, evidentemente, de [limpando a garganta] >> é >> de ser jornalista e tal. >> Malumorado confere. >> É.

¶46É. Pois é. [risadas] E e com nenhuma paciência, isso eu posso te falar, talvez você não tenha o percebido, não muito interessado em crianças. Ah, não, isso não notei porque eu já [risadas] tinha passado esse estágio e não era nem há pouco tempo, era bastante. >> Eh, esse livro foi, ele tem uma história que é a seguinte, o o Fernando Moraes tinha lançado um livro chamado Olga, que é uma biografia da Olga Benário, tipo, no ano anterior, eh, Olga Benar, evidentemente, mulher do Prestes, eh, que tava grávida.

¶47eh quando foi extraditada eh pelo governo Getúlio Vargas paraa Alemanha nazista. A Olga era cidadã alemã e era judia. Eh, ela e a e a Elsa, que a Elisa, que era uma outra companheira delas, ambas judias e alemãs, foram extraditadas e morreram. Eh, aga, se não me engano, morreu em Auschwitz. [suspirando] Eh, e e eu lembro que foi esse livro do Fernando Moraes, eh, essa biografia da Olga, foi um certo pandemônio, eh, dentro daquele mundo com o qual eu tive algum convívio, que era dos velhinhos, que tinham sido do Comitê Central do Partidão, porque ninguém gostou do do livro.

¶48Eh, e aí a tia Maria decidiu contar de certa forma a versão dela. Eh, ela, o que que é a sala quatro? Quando houve a intentona comunista em 1935, uma tentativa de revolução comunista absolutamente desastrada. E e quem tava no Comitê Central foi todo mundo preso, quem tava no comando. Eh, eram em grande parte homens, mas tinha um pequeno grupo de mulheres que, como não eram tantas assim, ficaram todas presas na mesma cela, a sala quatro.

¶49>> Sala quatro. >> E a tia Maria era uma dessas mulheres presas. O meu bisavô, o pai dela era deputado federal. Eh, o o justo justo Mendes de Moraes, ele tinha sido constituinte em 1934, na Constituição de 1934 era deputado federal, era advogado também, era um jurista importante, recusou duas vezes convit para ser ministro do Supremo, eh, e era advogado. Essas coisas de Brasil são loucas.

¶50que o velho Justo, o meu bisavô, pai da tia Maria, pai da minha avó, era o advogado do Getúlio. Então é e e são essas coisas malucas. E ele era um liberal. >> Isso é tipo o suco de Brasil, né? >> Não é completamente.

¶51O velho justo era um liberal. Minha avó era liberal, tinha Maria era comunista. Eh, eh, e e elas tinham o tio Luiz, que era outro irmão, eh, outro dos meus tios avó, acho que era integralista. Era [risadas] uma coisa assim, tinha tinha era uma, >> parece a coisa daquelas irmãs Mitfort na Inglaterra, né? Lembra >> nesse caso?

¶52Ess essas irmãs que foram famosas, eram contemporâneas do Churchill e escreviam bem, uma, uma delas é uma escritora extraordinária e elas eram aquelas influenciadoras daqueles anos. Só que uma era casada com um nazista, tomou chá com Hitler, [risadas] a outra era comunista, >> a outra eram quatro Midfords na a Nancy Midford escreveu uns livros maravilhosos. >> E a irmã dela também, a irmã dela que herdou um dos castelos e e virou uma dessas inglesas que cultiva porcos e e flores e não sei mais o quê. Também escreveu um livro muito bom. Elas tinham talento na família, mas cada uma com uma ideologia diferente.

¶53>> É o o o velho justo que que de certa forma criou meu pai também. Eh, meu pai passou boa parte da adolescência morando não com os pais dele, mas com o o avô que era o velho justo. Ele morava numa casa em Copacabana, na Souza Lima, a uma quadra da praia, uma casa grande. É, daquelas casas normandas, né, que eram muito comuns no Rio de Janeiro. Ainda tem duas, eu acho, eh, uma Panema.

¶54uma no Leblon. >> Eu cheguei a pegar algumas dessas. >> É, é. E eh o o Ver justo, como era um velho liberal ali daquela geração formada com o Rui Barbosa, né? Eh, eh, >> vamos abrir um parênteses.

¶55Esse velho deveria ter 50 anos quando começou a se chamar de velho. >> Nessa, nessa é possível, Clara. Eh, e e que é minha idade, né? Eu tenho 51 de >> mas naquela, mas hoje nós não somos mais, nós não consumimos a velice da mesma forma, né? Verdade.

¶56>> Naquela, naquela época a pessoa chegava a cidade, ela se apresentava como um animal severo. >> Isso, >> de pancinê, >> é isso. >> Cata não sei o quê, coisa da qual, felizmente nós estamos livres. Mas enfim, >> mas o e como ele era um liberal, eh essa coisa de que os filhos fossem desde cedo criados para pensar cada um com a sua própria cabeça, deu nessa bagunça ideológica da família que tinha de tudo. >> Acontece, né?

¶57>> E eh era uma coisa muito e e eu fui criada assim, tá? Por causa disso, era uma coisa, essa essa importância da independência intelectual de que cada um tem que você não herda dos seus pais a sua ideologia, você é apresentado desde cedo a uma vastidão de leituras. É, me aconteceu isso também >> para você fazer a sua cabeça, para você chegar aos seus valores. Eh, eu fui criado dessa forma e isso é uma coisa que eu devo a esse meu bisavô que eu não conheci, eh, mas que é uma presença que é muito engraçada, né? Eu trato ele com essa intimidade, o velho justo, porque eu passei literalmente a vida ouvindo que não que o velho justo falava nessas horas tal coisa, tal outra coisa, tal, que era o pai da tia Maria.

¶58>> Olha aqui, eu quero saber onde a gente consegue esse livro. >> Você consegue pela Matinas e que é só entrar no site da Matinas. Bom, a gente deixar um >> Isso vai tá vai tá na a gente bota. >> E isso aqui é história de o que que foi ser preso como comunista no Estado Novo. Eh, as pessoas às vezes têm uma uma ideia educada de que a a Get a ditadura do Getúlio foi light e pesada foi a ditadura militar.

¶59Foi a mesma coisa. são exatamente iguais, >> com o mesmo nível de tortura no nos porões, com o mesmo nível de sofrimento. Eh, veja, essas pessoas aqui tentaram fazer uma revolução comunista no Brasil, tentaram derrubar o regime eh implantado pela Constituição escrita pelo pai dela eh entre outras pessoas. Eh, elas cometeram um crime. Várias delas, não foi o caso da tia Maria, não foi o caso das mulheres, várias delas foram foram bárbaramente torturadas.

¶60Agora, a cena mais comovente nesse livro, a primeira vez que eu li, eh, eu comecei a ler, eu comecei a chorar. Eh, a, a tia Maria, por que o pai dela era advogado, Dr. Getúlio? porque o pai dela eh tinha sido deputado a essa altura já cao, né, no Estado Novo. Ela tinha uma certa ascendência dentro da célula, de mulheres.

¶61Então a pessoa que tinha interlocução com os carcereiros e tudo mais era a tia Maria. E e tava todo mundo muito preocupado. A Olga tava grávida, a a Olga Benário, mulher do Prestávida. Tava todo mundo muito preocupado com o que que o Getúlio, com o que que o governo ia fazer com ela. Existia o medo de que decidissem deportá-la por ela não ser uma cidadã brasileira.

¶62E e num determinado momento chega eh a um sujeito, fala: "A gente vai levar Olga, é pro exame pré-natal". Ela ia pro Gafreguini, que era um hospital, ainda é um hospital eh importante, era um hospital maternidade referência na época. E e aí decidem que a Olga só sai se acompanhada da tia Maria. Eh, [limpando a garganta] e e na negociação ali com um diretor do presídio, eh, OK. Entram as duas no camburão.

¶63Imagina num camburão alga grávida, barrigão. Entram as duas na parte trás do camburão e elas vão até onde hoje fica a UFRJ e o pinel ali na entrada da praia vermelha. >> Sim. Eh, elas vão até aquela região ali. Eh, aí o carro para, o camburão para e a parte de trás é aberta.

¶64Eh, o policial armado se vira e fala pra tia Maria que ela tem que descer. Aí ela diz: "Eu não vou descer. O que que tá acontecendo?" Eh, e elas entendem o que que vai acontecer. Aí a Olga se vira para minha tia e fala: "Eh, não adianta resistir. Vou fazer o quê?

¶65Eh, não adianta resistir. >> Coitadas, >> as duas eh se abraçam apertadas. A tia Maria salta do camburão e o camburão vai direto pro porto, onde a Olga é embarcada num navio e e despachada paraa Alemanha, onde Adolf Hitler já onde as leis de Nuremberg já existiam, Adolf Hitler já governava e ela morre. Eh, é, é uma história, olha, eh, é uma cela em que tava a Olga, tia Maria, Nise da Silveira, várias mulheres que as pessoas >> conhece doutora Nise? Meus pais se conheceram na casa do Dra.

¶66Nise. >> Ah, >> num grupo de estudo da Dra. Nise. >> Que que eles achavam dos gatos? E sobretudo que os gatos achavam eles eles quando a Dra.

¶67não estava vendo, às vezes tirava os gatos da cadeira, o que era uma ofensa mortal naquela casa, né? >> Conversar com ela uma vez [risadas] e eu e ela tava de poucas palavras, sabe? Eu não queria falar. E eu tô lá e aí tô vem um gato, vem outro e é eu com gato. Pronto.

¶68Quando ela viu isso, ela começou a falar. >> [roncando] >> É, >> eu disse: "Ah, você tava querendo ver como é que eu entendia com os gatos?" >> Ela disse: "Não, eu tava querendo ver o que que eles achavam de você. [risadas] >> O fato de eu me entender com com os gatos era irrelevante. O que contava era a opinião dos gatos e eu só tinha a concordar. O >> o o o Mário era igualzinho ao marido dela, né, Mário Magalhãe.

¶69Eh, a mesma coisa com com gatos. Mas enfim, eh, >> ah, só mais um. Ela tem um livro, já que a gente tá falando de livro, ela tem um lindo livro que da Dra. Nice da Silveira chamado Gatos, a emoção de lidar. É um belo livro sobre gatos.

¶70Eu tenho um parte prim, mas enfim, tem edição dele, inclusive. Ele não é um livro que tá fora de mercado, tá em mercado. >> É, é assim como Bárbara de Odora era Lady Shakespeare no Brasil. Eh, Dra. Nier, Lady Jung no Brasil, né?

¶71É a fundadora da Escola Yungiana Brasileira. >> Eh, é uma é uma, olha, não tem uma mulher que não estava naquela cela que não era uma mulher brilhante. É, é, é, era um time, mas eu >> formidavelmente sofisticado. >> Eu vou te dizer o seguinte, eu acho que isso se explica inclusive, porque naquela época o papel da mulher não era se meter em política. Naquela época o papel da mulher ainda era ser dona de casa.

¶72Ou no máximo ter essas profissões que eram aceitas para as mulheres, enfermeira, professora, secretária, telefonista. É, é que é que na >> eu acho que paraa mulher embarcar numa trajetória dessas de >> eu eu eu acho que não foi isso. Eh, >> eu acho que é um sentimento diferente. Eu acho que que havia eram mulheres diferentes nesse sentido de >> É, mas eu eu acho a a na minha família eh na família do meu pai, na minha família paterna, eh esse meu bisavô não tinha isso. Minha avó era advogada, Maria era advogada de formação.

¶73Eh, >> mas havia muitas, >> Dra. Nise era psiquiatra, né? >> Não, mas havia muitas advogadas formadas, mas não era usual a mulher agir politicamente. >> É. Pois é, mas é isso que eu tô falando.

¶74Na família do meu pai, isso não existia. todo mundo agia politicamente e e com a cabeça John Stuart do meu bisavô, eh, [limpando a garganta] não havia essa tipo, eh, minha tia avó tentou fazer uma revolução, eh, a irmã dela, minha avó, era uma advogada que tinha importância dentro da OAB. Eh, eh, a as mulheres na família não tinham essa coisa de o papel da mulher era cuidar dos filhos. Não existia isso. E nenhuma delas era eh eh era isso.

¶75Todas elas, um dos motivos meu pai morava mais na casa do meu e do meu bisavô do que dos pais dele. É porque os pais dele trabalhavam eh isso nos 40, nos 50. Então, e eu acho, eh, você tem razão que essa era a norma, é que essas mulheres comunistas elas todas cumpam a norma, eram todas de outro mundo. >> Pois é, mas é por isso que eu quero dizer que é explicável que elas tivessem juntas ali, porque elas eram mulheres que sentiam uma necessidade de ir além. >> Sim, com certeza.

¶76>> L era permitido e do que se esperava delas. Claro, não com certeza. El ela elas tiveram coragem de sair da zona de conforto, da zona de desconforto, se você quiser, porque não era nada confortável esse papel. Mas elas foram mulheres, >> é, >> que sentiram a necessidade de agir integralmente como cidadãs. É isso.

¶77>> Não, você tem você tem você tem toda a razão. Eh, mas é uma é uma geração admirável de mulheres, todas com ensino superior, todas agindo com a própria cabeça e naquela maluquice que foram os anos 30, né? eh, >> que se seguiram pela a maluquice dos anos 40, >> que por sua vez foram seguidos pela maluquice dos anos 50. >> Nós tivemos algum momento nesse país em que não foi uma maluquí? >> Eh, tia Maria morreu estalinista.

¶78Ela morreu estalinista. >> Bom, >> e como todos os estalinistas brasileiros, brisolista, né? Claro, faz sentido >> que é aquela coisa de eu [roncando] eu adolescente ainda perguntei para ela, mas mas A Maria me explica essa ida pro jetulismo, tipo, é porque eh eh isso aqui é o pior momento da vida de todos eles, de todos. Isso aqui, esse período da prisão, que foram anos de prisão, isso é o pior momento da vida de todos eles. Todos viraram jetulistas e ao fim estavam brisolistas.

¶79Porque porque o bezolismo é a a continuação do jetulismo, né? >> Sí, síndrome de Estocolmo. >> Eh, não foi orientação do partido na União Soviética. E como o partido acabou e a União Soviética acabou e não havendo mais um lugar de onde venha uma contraordem, assim [risadas] fica sendo, né? >> Eh, é uma, eu eu super recomendo, é uma, é um livro pequeno, eh, e >> vamos atrás >> até quinta-feira.

¶80>> Até quinta. >> Até quinta-feira. Elas estão se aproximando as eleições e aqui no meio você acompanha com dados de verdade sem depender de conteúdos pouco confiáveis das redes sociais. Você sabe, né? A pesquisa Meio Ideia é uma das nossas bússulas.

¶81É a nossa pesquisa independente [música] registrada no TSE, feita todo um mês em parceria com o Instituto Ideia. A edição de agosto traz o retrato mais atual da corrida. Quem é assinante [música] premium recebe a pesquisa completa em primeira mão e ainda garante acesso à nossa plataforma interativa que permite o cruzamento da intenção de voto por região, por [música] classe, por gênero, para comparar com as rodadas anteriores e ver com os próprios olhos o que que mudou de verdade a cada mês. Esse tipo de leitura, até pouco tempo atrás, só quem trabalhava dentro de um banco ou de um partido conseguia ter acesso. Agora tá [música] disponível para quem assina o meio prêmium.

¶82Em um ano como esse, olha, vale o ouro. Assine e receba mais esse material exclusivo. >> [música] [música]