¶110 de março desse ano, São Luís do Maranhão, a Polícia Federal bate na porta de um homem chamado Luiz Pablo. Ele tem um blog e o blog se apresenta da seguinte maneira: jornalismo independente que incomoda o poder. O que ele vinha publicando eram textos sobre carros oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão, do governo do estado, que estariam sendo usados por Flávio Dino e pela sua família. Dino é ministro do Supremo Tribunal Federal. Antes disso, foi ministro da justiça de Lula e antes governador do Maranhão por 8 anos.
¶2Os policiais levaram os celulares, levaram o HD e levaram o notebook do jornalista. A investigação, veja bem, não era sobre as reportagens, era sobre perseguição. Artigo 147A do Código Penal, o que pune quem persegue alguém de forma reiterada, ameaçando a integridade física da pessoa. A tese é que aquilo ali não era jornalismo, era caçada a um ministro do Supremo. A operação foi autorizada por outro ministro, Alexandre de Moraes.
¶3Salta 5 meses comigo. Terça-feira, 11 de agosto, ontem, a Polícia Federal já tinha aberto o notebook e dentro do notebook tava a conta de WhatsApp Web do dono. Sabe aquela versão do WhatsApp que roda no computador espelhando o celular? Pois é, aquela. No Zap tinha um nome, Raimundo Cutrim, delegado aposentado da própria PF, ex-secretário do governo do Maranhão.
¶4Era ele quem tinha passado informação e imagem para as reportagens sobre os carros. Morais então determinou busca e apreensão contra Cutrm e contra um advogado, Diogo Diniz Lima. Levaram celulares e computadores dos dois. O pedido partiu da Polícia Federal e teve aval da Procuradoria Geral da República. A decisão menciona possível conexão com o inquérito das fake news.
¶5[suspirando] Vamos chamar isso pelo nome que tem. Não houve vazamento, não houve delação, ninguém entregou ninguém. O estado brasileiro, com autorização judicial abriu o equipamento de trabalho de um jornalista, leu com quem ele conversava e foi atrás da pessoa. Isso tem um nome só e o nome tá na Constituição. Artigo 5º, inciso 14.
¶6É assegurado a todos o acesso à informação, resguardado o sigilo da fonte quando necessário o exercício profissional. uma linha. Olha, quase ninguém entende isso. Sigilo de fonte não é privilégio de jornalista. Funciona assim.
¶7Dentro de qualquer repartição, de qualquer empresa, de qualquer tribunal, tem gente que vê o que tá acontecendo. O servidor que viu o contrato, o policial que viu o inquérito ser engavetado. Essa pessoa quase sempre é subordinada a quem ela vai denunciar. E ela só fala, se tiver certeza de uma coisa, de que ninguém vai bater na porta dela depois. Quer dizer que a garantia não é do repórter, ela é sua.
¶8No dia em que a fonte deixa de ter certeza de que pode dizer escondido, ela para de falar e você passa a ler apenas aquilo que o poder resolveu deixar você ler. É só isso, entendeu? Então, respira fundo. Tem outro lado. Perseguir alguém é crime.
¶9Ministro do Supremo tem direito à segurança como qualquer cidadão. Dino, aliás, pediu ampliação da proteção para ele e pra família e diz a interlocutores que sofreu perseguição no Maranhão. Sobre os carros, a assessoria dele afirma que jamais houve uso irregular. O blindado teria sido cedido pelo Tribunal de Justiça a pedido da Secretaria de Segurança do próprio STF num acordo que vale para todos os tribunais do país. O problema é o seguinte: A PF não encontrou uma emboscada, não achou um plano, uma ameaça, uma arma, nada.
¶10Ela encontrou uma conversa, uma conversa entre um jornalista e a pessoa que falou com ele. O que foi descoberto dentro daquele notebook não foi um crime, foi a fonte. E eu não sei como é que se defende isso depois de ler o artigo 5º da Constituição, tá? Vamos então retornar ao passado. 7 de agosto de 2019, Gilmar Mendes, numa ação chamada ADPF 601 concede uma liminar proibindo autoridades públicas de investigar ou responsabilizar um jornalista pelo que ele havia publicado.
¶11O jornalista era Glenn Greenwald e o que ele publicava era as mensagens da Vaz Jato, os diálogos entre procuradores e juiz da Lava-Jato. Sabe o que a direita falava? Greenwald era militante. O que ele publicou veio de um crime de vazamento. Era acusado de publicar material obtido por hackers.
¶12Metade do país achava que ele era peça de uma operação política para salvar o Lula e dizia isso em alto e bom som. Mas o Supremo o defendeu e escreveu na decisão que o sigilo constitucional da fonte jornalística impede que o Estado use medidas coersivas para constranger a atuação profissional. Impede o Estado, sem asterisco, sem, com exceção de um momento assim assado, nesses 7 anos, o artigo 5º ele não mudou uma única vírgula e a jurisprudência do próprio tribunal não foi revista. O que mudou foi simples de dizer, tá? Em 2019, quem apanhava na reportagem era Lava-Jato.
¶13Em 2026, quem apanha na reportagem é um ministro do Supremo Tribunal Federal. É por isso que a gente defende princípio e não pessoa. Não é elegância moral, não é neutralidade, não é muro. É a coisa mais prática que existe. Se você defende que todo mundo seja tratado do mesmo jeito diante da lei, inclusive o sujeito de quem você não gosta, inclusive o blogueiro do lado errado, inclusive o jornalista que você acha que é militante, então no dia em que o poder virar e ele sempre vira, a mesma regra vai tá ali de pé para te proteger.
¶14É seguro. Você paga o prêmio hoje defendendo o adversário e recebe amanhã quando for a sua vez de est lado de fora. Só que a gente escolheu o contrário. A gente aprendeu a olhar primeiro quem tá sendo atingido para só depois decidir se aquilo é certo ou errado. Tá acontecendo com todos nós.
¶15É impressionante. E quando se faz isso, não sobra princípio, sobra placar. E o placar sabe como é que é? Quem tá ganhando? Posso falar?
¶16A conta que vem aí é bem maior do que um blogueiro do Maranhão. Bem maior. Mesmo se esse blogueiro não for confiável, tá? Eu sou Pedro Dória, editor do meio. Você acabou de ouvir uma história sobre o que que acontece quando fica caro contar o que o poder não quer que se conte.
¶17É por isso que o meio existe do jeito que ele existe. Sustentado por quem lê, não por quem é noticiado. E tem todo tipo de assinatura, tá? A gratuita te garante uma newsletter com o principal do noticiário do dia. 8 minutos de leitura facinho.
¶18A premium tem o streaming e os nossos documentários. Tem o meio político, a edição de sábado, análise, um mergulho mesmo para entender o que que tá por trás dos grandes acontecimentos. E a prime isso e ainda os cursos do meio, incluindo o nosso campeão de audiência, tá? Você sabe usar a inteligência artificial direito? A gente tem um baita curso sobre isso com vários professores.
¶19Escolhe a sua assinatura, assine o meio. Aliás, esse aqui é o ponto de partida. Você deve est pensando que o Supremo sempre foi assim, não foi? A virada se deu em duas datas. Agosto de 2012, começa o julgamento do Mençalão, 53 sessões, até março de 2014.
¶20Joaquim Barbosa é o relator em vira presidente do tribunal no meio do próprio julgamento. É ali que o Supremo deixa de ser aquele lugar distante que decidia recurso e passa a ser ator político de primeira grandeza. Foi legítimo, foi um julgamento e mudou o país. 14 de março de 2019, essa data é a que importa mais. O presidente do Supremo, José Antônio Dias Tofle, assina uma portaria e abre um inquérito.
¶21Não foi o Ministério Público que pediu, não foi a polícia, foi o tribunal que abriu sozinho um inquérito para apurar ataques contra ele mesmo. E o relator não foi sorteado como manda regra da casa, foi escolhido a dedo. Alexandre de Morais, o inquérito não tem objeto definido, quer dizer, não tem fim. Ali tinha um argumento, um presidente se organizando para dar um golpe. Esse argumento não existe mais, faz 3 anos.
¶22O inquérito segue sem fim e nele cabe qualquer coisa que os ministros quiserem fazer caber. Em 2012, o tribunal virou ator. Em 2019 o tribunal virou parte. Parte investigador e juiz na mesma causa ao mesmo tempo. Isso foi questionado.
¶23Claro. E quem julgou se aquilo podia? O próprio Supremo. 10 a 1. Só Marco Aurélio votou contra.
¶24E Marco Aurélio não tá mais lá. 7 anos depois, a decisão que mandou a Polícia Federal à casa da fonte de um jornalista menciona a possível conexão com este mesmo inquérito. Não é coincidência, ali cabe tudo. E tem o Maranhão. Flávio Dina é hoje no Supremo o relator de um inquérito sobre um homicídio de 2022 e sobre suspeita de propina envolvendo políticos do estado que ele governou por 8 anos.
¶25num tabuleiro em que estão o governador com quem ele rompeu e o sobrinho do governador. Em julho foi Dino quem decretou busca e prisão domiciliar contra o mesmo Raimundo Cotrim de anteontem. Os interlocutores de Dino dizem que ele não se enquadra em nenhuma hipótese legal de suspeição. E eles estão certos. Ele não é parente de ninguém ali.
¶26Não é amigo íntimo, nem inimigo capital, não foi parte em ação nenhuma. Sabe o que que é? É esse o problema. A regra foi escrita pensando em cunhado, em compadre, em desafeto pessoal. Ela não foi escrita pensando em alianças e rupturas entre políticos, mas elas estão lá.
¶27Entende uma coisa aqui, decisão judicial se cumpre sempre, [risadas] inclusive, principalmente a que a gente acha errada. Quem só obedece a decisão de que gosta não tá defendendo a lei. E é aqui que os dois lados fazem exatamente a mesma coisa. Em 2019, quando o Supremo protegeu o Greenw, foi a direita que gritou, chamou de aparelhamento, disse que o tribunal tava blindando o criminoso, protegendo o Lula. A esquerda achou lindo.
¶28Agora, em 2026, o alvo escreve contra um ministro indicado por Lula e as posições só trocaram de lado. O problema não tá só no Supremo. Presta atenção em quem senta lá. Lula indicou Cristiano Zanim, que era o advogado dele, indicou Flávio Dino, que era o ministro da justiça dele, indicou Jorge Messias, que era o advogado geral da união dele. Todos amigos.
¶29Bolsonaro indicou André Mendonça, que era advogado geral da união dele, indicou Cásio Nunes Marques, pensado por ser aliado. Eu não tô dizendo que nenhum deles seja competente, eu tô dizendo outra coisa. Virou normal o presidente escolher pra corte quem pode julgá-lo um aliado. E aí? E aí o Senado rejeitou Jorge Messias, né?
¶3042 a 34, a primeira rejeição de um indicado Supremo desde 1894, faz tempo. Muita gente comemorou como se fosse um gesto republicano. Gente, claro que não foi. Os senadores não recusaram o ministro do presidente. Os senadores reivindicaram o ministro deles.
¶31O Senado também quer quem o proteja no Supremo. Cada um querendo o seu ministro. É esse o país. E agora vem a conta. A nossa pesquisa meio ideia perguntou aos brasileiros o que aconteceria se um candidato ao Senado prometesse votar pelo impeachment de ministros do Supremo.
¶3242,7% disseram que isso aumentaria a chance de votar nele. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 86,7. Presta atenção no que esse número é e no que ele não é. Ele não é um levante nacional contra o Supremo. Entre eleitores de Lula, por exemplo, essa promessa afasta voto, não atrai.
¶33Mas ele também não precisa ser nacional. 42% não elegem um presidente, mas elegem um Senado. E é o Senado que aprova ministro, que julga ministro, que decide o tamanho do tribunal. Sabe, democracia não acaba só como Bolsonaro queria com tanque na rua. Também acaba sim.
¶34Um Congresso dominado pelo centrão, um tribunal que já não parece árbitro, parece jogador, um presidente, qualquer presidente, escolhendo o juiz pela lealdade pessoal. E do lado de fora, uma população que olha para tudo isso e não reconhece nada daquilo como sendo dela e conclui que o sistema inteiro é uma quadrilha. Aí um dia alguém aparece prometendo vai rer tudo. Varre, varre, varre vassourinha numa versão pior. E essa pessoa não vai precisar dar golpe de estado nenhum.
¶35Ou você acha que é coincidência que mais de um candidato tá dizendo que pode passar por cima do Supremo quando quiser. O meio começou com a newsletter que chega na sua caixa de entrada com as principais notícias do dia. Sabe qual é, né? Aquela que você lê em 8 minutos. [música] Depois, depois a gente evoluiu pros vídeos aqui no canal do YouTube.
¶36São as análises e programas que mais tarde foram adaptados para áudio com os podcasts que você [música] pode ouvir lavando louça na academia, na fila do mercado, cozinhando e a barra ficou mais alta. Porque chegamos às produções audiovisuais com qualidade de cinema e um swing próprio. [música] São séries e documentários originais e um catálogo exclusivo para eles, os nossos assinantes premium. É assim que o jornalismo do meio vem [música] crescendo para caber no seu dia e do jeito que fizer sentido para cada um dos nossos leitores se informar. Conheça o nosso acervo premium e faça parte de uma comunidade [música] que não apenas consome notícia, mas analisa o que tá lendo, ouvindo e assistindo.
¶37Assina meio premium. เฮ