¶1Falei cedo demais, hein. Falei cedo que o Wagner Moura ia passar totalmente eleso quando se reviu aos exageros dos movimentos identitários, como fascisminho de esquerda. Eu escrevi isso nesta terça na minha coluna na Folha de São Paulo. Claro que ele não foi cancelado. Wagner Moura é grande demais pra fogueira dos twitiros de plantão.
¶2É um astro internacional. Protagonizou símbolos máximos do imaginário progressista. A guilhotina das redes simplesmente não tem lâmina para apitar alguém do tamanho dele. Mas bastou o homem sentar ali na frente do perdubial, olhar pra câmera e soltar essa frase para que muita gente começasse a torcer o nariz, se contorcer na cadeira. E claro, ele já foi chamado até de, tá vendo?
¶3o capitão Nascimento. Ele não falou nada que alguém mais atento e sensível não tenha percebido. Falou só daquele papo de que isso não pode, aquilo não sei o quê, né? A gente não tem como adivinhar o que exatamente passa, passou na cabeça dele para falar isso, mas dá perfeitamente para imaginar do que que ele tá falando. E é exatamente por isso que tem tanta gente que tá incomodada.
¶4Ele tá falando da patrulha histérica do vocabulário, da fiscalização obsessiva, da pureza alheia, da interdição sumária de qualquer pessoa que ouse pensar fora do cercadinho progressista. E eu tenho lugar de fala porque eu sou uma mulher progressista, já fui muito atacada porque eu ouso discordar. O que essa galera faz é uma recusa infantil ao contraditório, a certeza muito arrogante de que quem se acha dono de uma superioridade moral inquestionável e o prazer quase sádico de destruir reputação de quem não reza pela mesma cartilha, cartilha do dia, porque essas certezas mudam toda hora, né, em geral para pior. Eu não tô falando teoricamente, a gente viu isso acontecer na prática com alguns dos maiores nomes da cultura brasileira nos últimos anos. Isso agora gente de ponta com décadas de história na luta democrática ser colocada no banco dos réus.
¶5Emparedaram João Bosco. A gente já falou disso, né, por causa de letras históricas feitas com o Audit Blan. Como se uma obra que driblou a ditadura militar devesse agora pedir licença para um tribunal do Twitter, do Instagram, seja lá que for. caíram em cima da Ana Maria Machado, uma das maiores escritoras infantes juvenis que esse país já teve, com uma vida inteira dedicada a formação de leitores. Fizeram o Chico Boarque aposentar música do repertório, ele não deveria, tá?
¶6E eu vi pessoalmente, porque eu tava participando desse Roda Viva, o Caetano Veloso ser confrontado por usar a palavra mulato. A resposta dele foi que para ele é uma palavra linda e que ele não deixaria de usá-la. Alguém ousou cancelar o Caetano? Tem louco para tudo, né? Mas nesse caso eu pelo menos não me lembro de ninguém que tenha se atrevido.
¶7Quando a patrulha decide atacar figuras desse tamanho, a mensagem que ela passa pro resto da sociedade é muito assustadora. Se a gente bota contra a parede quem ajudou a construir a cultura do país, imagina o que a gente faz com você se ousar abrir a boca. A primeira reação dessa turma para desviar da crítica do Wagner Moura foi apelar para um pedantismo de cartilha. Disseram que na ciência política o fascismo é um conceito restrito à extrema direita europeia do século XX. Gente, vamos conversar de adulto para adulto.
¶8Ninguém que ouviu aquela entrevista achou que o Wagner Moura tava dando uma aula de história sobre a Itália de 1920 ou sobre o corporativismo do Mussolini. A discussão não é uma discussão acadêmica. Quando se fala em facisminho de esquerda, todo mundo entendeu ou entende ou deveria entender o recado, porque a crítica não é sobre a doutrina, é sobre comportamento, é sobre método, é sobre a truculência que a gente tem visto. Se o único jeito de lidar com quem pensa diferente é o linchamento, o carimbo moral, a censura, o medo, pouco importa a sua ideologia. O autoritarismo não vira uma coisa linda só porque veste a sua cor favorita.
¶9Ele [roncando] não fica mais democrático só porque os juízes do tribunal da internet usam uma linguagem neutra, botam pronomes na biografia. Truculência fantasiada de virtude continua sendo truculência. E olha só, eu não tô falando de gente que defende que mulher não pode votar ou que prendeu, matou ou que casais gays não podem adotar filhos. Eu tô falando de discordâncias dentro da mesma ideologia, de discursos fascistas que tentam interditar a conversa. E tem uma tem uma outra coisa que a gente precisa ter coragem de encarar.
¶10Vamos lá. A privatização das causas coletivas. O que nasceu historicamente como uma luta legítima, urgente, fundamental por direitos, igualdade racial, dignidade paraas mulheres, pra população LGBT, que é mais, foi capturado por um modelo de negócios individualista, virou empreendedorismo moral. Hoje em dia, a indignação virou escada para fazer carreira e para ganhar dinheiro. Serve para bombar o perfil, para garantir convite para um evento, para faturar no circuito das palestras corporativas.
¶11Para aqueles mais radicais que acabam nem sendo convidados para nada disso, né? Virou um comércio com direito a chave Pix na bio e monetização da culpa alheia. O que a gente tá vendo crescer cada vez mais é uma indústria, é uma indústria da reclamação em que o progresso real é um péssimo negócio. Pensa aqui comigo. Para quem vive de vender antídodos contra a desgraça social, um mundo que melhora, mesmo que aos trancos e barrancos, esse mundo não dá lucro.
¶12Quanto mais intolerante opressor desesperador o ambiente, né, pareça, mais rentável é o papel do influenciador que toca o alarme do pânico. A revolta dá engajamento, a solução mais pacífica, ela não rende cliques, não vende curso de conscientização e muito menos ajuda, né, o Pix para aquele para que aquele guerreiro ali continue fazendo o seu combate. Combate quer cancelar. Gente, repara numa coisa. Essas pessoas não tão nas galerias do Congresso pressionando os parlamentares pela aprovação de leis urgentes.
¶13Não tão nos bairros periféricos organizando trabalho de base de conscientização e olha, muito menos debatendo problemas sérios que afetam a população. O que a gente percebe é que esses grandes problemas da sociedade que afetam as minorias não são discutidos de forma séria, porque essa galera tá ocupada em cancelar a gente. E para manter essa engrenagem rolando sem incômodo, a tática é a interdição preventiva. Se você aponta um exagero gritante, se acha ridícula a perseguição a uma palavra qualquer, a uma ideia, ou se diz que a vida real é mais complexa do que, né, uma coisa ali na rede social, você ganha um carimbo na testa na mesma hora. Você vira reacionária, defensora de privilégios, inimiga dos avanços sociais.
¶14Eu uso isso sempre dessas mesmas figuras. Ninguém quer saber do seu argumento. Atacam o seu caráter para fugir da conversa. O detalhe mais revelador dessa dinâmica, exatamente a escolha dos alvos. Bater na extrema direita não dá lucro nenhum nessa economia dos cliques.
¶15Xingar o extremista do outro lado é quase uma obrigação burocrática. Se você faz isso, a sua bolha dá um like automático, né? O adversário nem toma conhecimento e vida que segue. Não tem surpresa, não tem emoção. O verdadeiro filé mininhon da patrulha, o que realmente bomba e que dá autoridade moral é queimar quem tá do mesmo lado.
¶16É apontar o dedo e dizer: "Tá vendo? Essa pessoa não tá exatamente do nosso lado. Ela quer manter os seus privilégios. Degolar um possível aliado rinde muito mais por três motivos bem simples. Primeiro, pela audiência.
¶17Nada atrai mais gente do que briga dentro de casa com todo mundo puxando a pipoca para ver o circo pegando fogo. Segundo, pela prova de pureza, condenar o inimigo não custa nada, não prova nada. Agora, quando você humilha e cancela um colega ali dentro do mesmo campo, você manda um sinal pra sua pra sua seita, dizendo que você é tão implacável, tão implacável, que não poupa nem os seus amigos. Terceiro, pela reserva de mercado. Queimar um parceiro de trincheira abre vaga na disputa pelas mesmas colunas, pelos mesmos palcos, pelos mesmos contratos, pelos mesmos holofotes e pelo dinheiro que pode pingar na sua conta.
¶18A inquisição, gente, já funcionava assim séculos antes do surgimento dos algoritmos. A igreja nunca gastou lenha com o infiel que morava longe. Com o infiel se fazia guerra ou comércio. A fogueira era reservada pro herege, pro sujeito de dentro da paróquia, que desviava 1 mm do dogma do padre. É o narcisismo das pequenas diferenças que o Freud já explicava.
¶19Quanto mais parecidos nós somos, mais feroz é o ódio pela menor divergência. O perigo desse clima todo não atinge o Wagner Moura. Ele tem carreira lá fora, tem estabilidade, tem prestígio suficiente para não ser abandonado por medos e de postos raivosos e não tem nem rede social, o que ele tá muito certo. O problema é o que isso faz com cidadão comum, com um acadêmico, com um jornalista. É o professor que fica coado na sala de aula.
¶20É o estudante com medo de levantar o braço e fazer uma pergunta. Uma amiga minha me contou isso esses dias. Profissional dentro de uma empresa que engole o bom senso numa reunião para não ser denunciado no canal de ética por um colega que resolveu militar em cima às vezes de um mal entendido. Essas pessoas comuns estão aterrorizadas, medindo as palavras o tempo todo com pânico de perderem contatos, amizades, sustento da família. A gente a gente criou uma sociedade absolutamente hipócrita no privado, na mesa de bar, na conversa de WhatsApp, todo mundo admite que as coisas passaram completamente do ponto e que esse patrulhamento virou uma loucura.
¶21Eu ouço isso o tempo todo de gente de esquerda, de gente progressista, mas em público, em público ninguém abre o bico porque o silêncio virou uma estratégia de sobrevivência. E o pior é autoengano de quem alimenta essa fogueira. As pessoas entram nos linchamentos achando que tão mudando o mundo, derrotando o preconceito a partir de um teclado. Não tão, gente, não tão ajudando uma única pessoa vulnerável, não tão mudando a estrutura social de nada, só compraram pertencimento da própria bolha e deixaram um ambiente coletivo muito mais covarde e muito mais paranóico. O Wagner Moura tá viajando com a adaptação da peça, o julgamento o inimigo do povo.
¶22A peça do Henryson que foi escrita em 1882. Eu assisti esse track no Rio e é impossível não ficar e abismado com como essa peça é atual. a história de um médico que descobre que a água da cidade tá envenenada e em vez de ser ouvido, ele vira o inimigo de uma maioria enfurecida que não quer encarar eh a verdade. É o retrato cuspido do nosso tempo. Na conversa com o Perdubial, o Wagner Moura teve a coragem de ser um democrata de verdade.
¶23Não só cutucou a histeria da própria bolha, mas defendeu que é preciso conversar com a direita. reconheceu que o outro lado traz questionamentos que são legítimos sobre o tamanho do Estado, sobre impostos, sobre o custo da da previdência e da educação. Divergir disso faz parte do jogo democrático. Tratar quem discorda de você como um monstro moral que precisa ser destruído é o caminho mais rápido para destruir a própria política. Ah, mas eles são desse jeito.
¶24A gente vai ser igual, né? a direita não conversa, eh, isso tá contaminando todo mundo e a gente vai ficar desse jeito. Mas voltando à esquerda, essa esquerda identitária que se recusa ao debate, que fala com o trabalhador comum com, né, aquela arrogância professoral e que responde a qualquer dúvida com violência moral, se transformou no maior cabo eleitoral da extrema direita. Quando o cidadão comum é humilhado por não saber a gíria acadêmica da semana, ele não vira um militante esclarecido. Ele corre pro lado de quem promete peitar essa patrulha e principalmente de resolver os problemas que ele de fato tem.
¶25Combater o autoritarismo do lado de lá é uma obrigação básica de quem defende a democracia. Mas combater essa atentação autoritária dentro da própria casa é o que define se você tem um projeto democrático de verdade ou se apenas virou o membro de de uma outra seita. O que o Wagner Moura disse é exatamente o que muita gente de esquerda pensa. Agora, quem quiser continuar fingindo que não entendeu, pode continuar, mas o diagnóstico tá feito. Depois não adianta dizer que ninguém avisou.
¶26Gente, quantas vezes vocês já ficaram uma hora rolando feed sem realmente aprender nada? Pois é, eu faço isso bastante e eu acho que já tá na hora de transformar isso num hábito de se informar de verdade. Vem comigo que eu vou te contar rapidinho o que que rola aqui no meio, porque tem opção para todo mundo. Tem assinatura gratuita para você garantir na sua caixa de entrada a nossa newsletter diária com as principais notícias do dia. Tem assinatura premium para quem quer ir além.
¶27Meio político toda quarta com os bastidores de Brasília. análise do cenário político, a edição de sábado, que é especial para quem gosta de mergulhar de verdade em temas que vão da política cultura, tem acesso à nossa pesquisa Meio Ideia em primeira mão com uma plataforma interativa para explorar os dados, o streaming com séries documentários originais e olha, ainda tem novidade chegando aí. Tudo isso por R$ 15 por mês, sem fidelidade. Ah, Mariliz, mas temas que eu não entendo, não tenho fundamento para acompanhar de verdade. A gente tem um plano que é o Premium Plus, que tem cursos com catálogo para você explorar.
¶28Então assim, não falta opção. Escolhe a que melhor funciona para você e assina o meio. >> O meio começou com a newsletter que chega na sua caixa de entrada com as principais [música] notícias do dia. Sabe qual é, né? Aquela que você lê em 8 minutos.
¶29Depois, depois a gente evoluiu pros vídeos aqui no canal do YouTube. [música] São as análises e programas que mais tarde foram adaptados para áudio, com os podcasts [música] que você pode ouvir lavando louça na academia, na fila do mercado, cozinhando e a barra ficou mais alta. Porque chegamos às produções audiovisuais [música] com qualidade de cinema e um swimming próprio. São séries e documentários originais e um catálogo exclusivo para eles, [música] os nossos assinantes premium. É assim que o jornalismo do meio vem crescendo para caber no seu dia, do jeito [música] que fizer sentido para cada um dos nossos leitores se informar.
¶30Conheça o nosso acervo premium [música] e faça parte de uma comunidade que não apenas consome notícia, mas analisa o que tá lendo, ouvindo e assistindo. Some meu primo. [música]