a tese
Mariliz Pereira Jorge defende a frase de Wagner Moura sobre o "fascisminho de esquerda" e argumenta que o patrulhamento identitário virou método autoritário, modelo de negócio e o maior cabo eleitoral da extrema direita.
aprofundar
talvez
o conteúdo político em si não é novidade e o texto é de coluna, não de análise, mas o mecanismo que ela descreve tem tradução direta para o que te incomoda na sua própria tradição: a fogueira reservada ao de dentro que desvia um milímetro, o narcisismo das pequenas diferenças e a pureza policiada como moeda de pertencimento funcionam igual numa congregação e num campo político.
O que foi dito
- Parte da constatação de que Moura não foi cancelado por ser grande demais, astro internacional e rosto de símbolos do imaginário progressista, e que a guilhotina das redes não tem lâmina para alguém daquele porte.
- Traduz o que entende ser o alvo da fala dita na entrevista a Pedro Bial: a patrulha do vocabulário, a fiscalização obsessiva da pureza alheia e a interdição sumária de quem pensa fora do cercadinho.
- Reivindica autoridade para falar como mulher progressista já atacada por discordar, e caracteriza o fenômeno como recusa infantil ao contraditório somada ao prazer de destruir reputações por uma cartilha que muda toda hora.
- Enumera os casos que considera exemplares: João Bosco emparedado por letras históricas feitas com Aldir Blanc, obras que driblaram a ditadura militar agora submetidas ao tribunal das redes; Ana Maria Machado atacada depois de uma vida dedicada à formação de leitores; Chico Buarque aposentando música do repertório, o que na opinião dela não deveria ter feito; e Caetano Veloso confrontado num Roda Viva a que ela assistia por usar a palavra mulato, respondendo que a acha linda e não deixaria de usá-la.
- Rebate a objeção conceitual de que fascismo é termo restrito à extrema direita europeia do século XX: ninguém ouviu ali uma aula sobre a Itália dos anos 1920 ou o corporativismo de Mussolini, porque a crítica é a comportamento e método, não a doutrina, e autoritarismo não se torna democrático por vestir a cor preferida nem por usar linguagem neutra.
- Delimita o alvo, dizendo não falar de quem nega direitos a mulheres ou a casais homoafetivos, mas de divergências dentro do mesmo campo tratadas com interdição da conversa.
- Desenvolve a tese econômica: causas coletivas foram capturadas por um empreendedorismo moral individualista, em que a indignação vira carreira, convite para evento e circuito de palestra corporativa, de modo que um mundo que melhora deixa de ser bom negócio para quem vive de vender antídoto contra a desgraça social.
- Observa que essas figuras não estão nas galerias do Congresso pressionando por leis nem organizando trabalho de base na periferia, e que a interdição preventiva funciona por carimbo (reacionária, defensora de privilégios) para atacar o caráter e escapar do argumento.
- Explica por que o alvo preferido é o aliado e não o adversário, com três razões: audiência, porque briga dentro de casa atrai plateia; prova de pureza, porque condenar o inimigo não custa nada e humilhar o colega sinaliza que não se poupa nem os amigos; e reserva de mercado, porque queimar o parceiro abre vaga nas mesmas colunas, palcos e contratos.
- Ancora isso historicamente: a Inquisição não gastava lenha com o infiel distante, com quem se fazia guerra ou comércio, e reservava a fogueira ao herege da própria paróquia, o que ela liga ao narcisismo das pequenas diferenças de Freud.
- Desloca o dano do artista para o cidadão comum: o professor calado em sala, o estudante com medo de levantar o braço, a profissional que engole o bom senso numa reunião para não ser denunciada no canal de ética por um mal-entendido, num país em que todos admitem no privado o que ninguém diz em público, porque o silêncio virou estratégia de sobrevivência.
- Menciona que Moura está em turnê com a adaptação de Um Inimigo do Povo, peça de Ibsen de 1882 sobre o médico que descobre a água envenenada da cidade e vira inimigo de uma maioria enfurecida, e a considera retrato do presente.
- Fecha com o argumento eleitoral: a esquerda identitária que fala ao trabalhador comum com arrogância professoral e responde à dúvida com violência moral empurra o cidadão humilhado para quem promete peitar a patrulha, e combater o autoritarismo em casa é o que separa um projeto democrático de mais uma seita.