a tese
Edição de sexta do Central Meio com Yasmin Restum, o analista Alexandre Borges e a editora-chefe Flávia Tavares, dedicada à guerra digital do segundo turno: a batalha entre Nikolas Ferreira e Ana Elisa em Minas, a adoção pela esquerda da desinformação por medo que ela mesma condenava, e a nova versão do caso Vorcaro.
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são quase duas horas de bancada eleitoral, mas dois trechos merecem nota avulsa: o bloco em que a editora checa uma a uma as acusações contra o plano de governo e o uso de Sémelin para explicar como a autoimagem de vítima autoriza a mentira militante.
O que foi dito
- Flávia abre com o levantamento factual: a campanha de Lula percebeu tardíssimo que precisava de presença digital e promoveu Ana Elisa, deputada eleita pelo PT de Minas aos 21 anos com cerca de 524 mil votos, a porta-voz informal da estratégia de redes, inclusive levando-a a entrevista na GloboNews e às reuniões de campanha.
- O diagnóstico dela é de método: Ana Elisa construiu sua base com o que o algoritmo premia, raiva e pertencimento por via identitária (racismo e machismo são os temas recorrentes dos vídeos), o que funciona numa campanha legislativa, que exige pouco voto, e não numa majoritária, além de abrir um flanco antiidentitário de rejeição a Lula que ainda não estava mobilizado.
- Nikolas, com mais de 3 milhões de votos, estaria um passo à frente por já ter furado a própria bolha com vídeos sobre corrupção e Pix, ampliando o público além do discurso de extrema direita com que começou.
- O episódio concreto: a direita desenterrou tuítes de Ana Elisa de 2022 a 2025 com deboche contra evangélicos (um deles mandando Lula fechar mesmo as igrejas, outro dizendo que quem apoia a direita vai queimar no inferno em que os crentes acreditam), ela fechou o X e nega autoria, e respondeu puxando um tuíte de 2014 em que Nikolas diz que a Virgem Maria foi estuprada pelo Espírito Santo, que ele também nega. Flávia lembra que o archive guarda os dois e lê a nota oficial da equipe dela, que nega o tuíte das igrejas, admite que outros posts são autênticos e de quando ela tinha 17 anos, se retrata, e afirma que hoje ela é católica praticante e defende o estado laico.
- Alexandre contrapõe com o que chama de petismo de largada, complemento ao antipetismo de chegada de Maurício Moura: parte da esquerda trata ser petista como condição natural do ser humano e, quando um grupo não vota no PT, pergunta o que deu errado, em vez de considerar que o problema é a mensagem e não o meio. Para ele apostar numa garota de 21 anos sinaliza desespero, e ele compara ao vício publicitário de contratar celebridade quando falta ideia, com o risco de atrelar a marca a uma pessoa.
- Há um debate franco entre os dois sobre o limite da crítica: Alexandre insiste em separar crítica política, vulgaridade e crime, e diz que ameaça de morte é caso de polícia mas que a extrapolação transforma cem mil críticas legítimas em violência; Flávia concorda na distinção e sustenta que o discurso de violência é arma de intimidação política usada de modo desproporcional contra mulheres, citando os ataques ao corpo de Eduarda Campopiano, da direita, como simétricos aos sofridos por Ana Elisa. Os dois divergem abertamente sobre o caso em que o Ministério Público acionou Campopiano por chamar Erika Hilton de homem biológico.
- O segundo bloco é o mais substantivo: a militância de esquerda passou a difundir que Flávio Bolsonaro vai acabar com Bolsa Família, BPC, farmácia popular e até com o Pix. Flávia checou item por item: o governo Jair Bolsonaro de fato reduziu o repasse da farmácia popular de 2 bilhões para 800 milhões, e mexeu na idade do BPC na reforma da Previdência, mas o plano de governo de Flávio não menciona nenhum dos dois, e só no salário mínimo consta explicitamente a ausência de reajuste real. A conclusão dela: a desinformação eficaz se constrói a partir de algo crível, e explorar o histórico do pai e a vagueza do plano seria legítimo e até tardio, enquanto fabricar o pânico é escolha de vale-tudo possivelmente irreversível.
- Ela nota que o TSE hoje é presidido por André Mendonça com Kassio Nunes Marques na vice, que o tribunal já derrubou posts dos dois lados (inclusive o de Nikolas sobre fechamento de igrejas, em 2022, com Flávio e Eduardo Bolsonaro repostando), e que recebeu em grupos a ordem de espalhar os vídeos.
- Alexandre acrescenta o caso do incêndio na universidade federal em Pernambuco atribuído a bolsonaristas nas redes, e relata que um colega da equipe, formado naquela instituição, aponta problema de manutenção em prédio velho, com paralelo no Museu Nacional em 2018. Para explicar o mecanismo, recorre a Purificar e Destruir, de Jacques Sémelin, sobre genocídios: todo regime que vai usar violência precisa antes se apresentar como vítima, porque o ser humano tem repulsa natural à crueldade, e só a legítima defesa autoriza moralmente o que seria condenável. A mentira eleitoral justificada por impedir o fascismo seria a versão leve do mesmo mecanismo. Cita Roger Scruton para dizer que democracia também é reconhecer a derrota.
- No bloco final repetem a checagem sobre o suposto áudio de Daniel Vorcaro e os 30 milhões para um documentário de Oliver Stone sobre Lula, com a apuração que contradiz a Veja e as fontes da PGR negando o documento, e Alexandre sustenta que Vorcaro comprou ou tentou comprar todos os lados, do Master baiano de Rui Costa e Jaques Wagner ao STF, Guido Mantega e escritórios de Ricardo Lewandowski. Encerram com Guilherme Werneck nas dicas culturais (os 90 anos de Tom Zé no Circo Voador com data extra em 13 de novembro, o festival da Matinê Zig, as Satyrianas na Praça Roosevelt, a exposição de Betina Samaia no Trianon) e a chamada da edição de sábado, com entrevista de Lara Mesquita, da FGV, mostrando que a reeleição garantida por emendas parlamentares não se confirmou nas urnas.