a tese
Monólogo que sustenta duas coisas ao mesmo tempo: que a candidatura de Flávio Bolsonaro é a forma mais perigosa do bolsonarismo por ser a mais polida, e que a esquerda perdeu a periferia por ignorar, há uma década, uma pesquisa feita pelo próprio PT sobre o que o eleitor popular de fato pensa e deseja.
aprofundar
talvez
o formato é monólogo de opinião e boa parte do argumento político é conhecido, mas o bloco sobre religiosidade periférica apoiado na pesquisa da Perseu Abramo é material de primeira para pensar sociologia da igreja brasileira e vale caçar a pesquisa original.
O que foi dito
- A apresentadora abre afirmando que Flávio Bolsonaro é a pior coisa que pode acontecer ao Brasil justamente porque opera em registro ameno, transitando no Senado como político tradicional do centrão enquanto é herdeiro das rachadinhas e da compra de imóveis em dinheiro vivo, e descreve esse estilo como verniz de normalidade que anestesia instituições e acalma o mercado.
- Ela situa a pergunta do título nos acréscimos do segundo tempo da eleição e diz que virar o jogo exige antes entender quem é o eleitor desiludido e a massa de abstenções, ponto em que, segundo ela, o castelo progressista desmorona.
- O diagnóstico de atraso é datado: a vitória de Lula em 2022 veio por 2,1 milhões de votos, margem de erro para o tamanho do Brasil, e só com uma frente ampla inédita (Geraldo Alckmin de vice, Simone Tebet, Marina Silva, Henrique Meirelles, economistas liberais, tucanos históricos), de modo que o trabalho de reconquista tinha de começar na posse, em 1º de janeiro de 2023.
- O eixo do vídeo é uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, braço de estudos do PT, feita há dez anos sobre o imaginário social nas periferias de São Paulo, que ela acusa o partido, a militância escolarizada e as bolhas de rede de terem ignorado.
- Os achados que ela destaca: o morador de periferia repudia o rótulo de pobre que precisa ser salvo pelo Estado e organiza a vida para “ser alguém” dentro da competição capitalista; prefere empreender a ser funcionário público (ela cruza com o Data Favela, 38% sonhando com negócio próprio contra 16% querendo concurso); tem solidariedade com o empresário e reproduz o discurso de burocracia e carga tributária como entraves.
- Ela chama isso de liberalismo popular: mercado visto como instituição mais crível que o Estado, defesa do mérito, ausência de luta de classes estrutural no imaginário (o inimigo é o Estado ineficaz e corrupto, não o patrão), e tudo que é público associado a gratuito e de péssima qualidade, com preferência declarada por escola particular para os filhos.
- No campo moral, a pesquisa registrava a família como alicerce e única solução real para problemas individuais e coletivos, e uma visão de que a crise ética se resolve por educação privada e familiar, não por campanha de conscientização do governo.
- O trecho que mais interessa a quem trabalha com igreja: a pesquisa do próprio PT mostrou a igreja como principal espaço de sociabilidade da periferia, fonte de pertencimento, orientação moral, conduta disciplinada e afastamento da criminalidade, com o pastor fazendo papel de psicólogo e a igreja operando como rede de empregos e assistência; e os pesquisadores se surpreenderam ao encontrar pessoas de pensamento crítico afiado, não intolerantes nem enganadas por pastores oportunistas. Tratar a fé delas como chacota, diz ela, é erro estratégico fatal.
- Outro achado: Lula é admirado na periferia menos pelas políticas sociais e mais por ser exemplo tátil de ascensão social, o povo que venceu o sistema. Ela faz um parêntese longo para separar descrição de prescrição, dizendo que não endossa a precarização, que essas pessoas pensam no curto prazo sem INSS nem previdência, e que não está defendendo trabalho sem 13º nem férias.
- A parte final é acusatória: diante de um trabalhador que pede autonomia, parte da militância universitária respondeu com apelido pejorativo e deboche contra o “pobre de direita”, enquanto a extrema direita capturou o desejo de prosperidade. Ela acrescenta uma crítica histórica à banalização da palavra fascista (Fernando Henrique Cardoso e José Serra já eram chamados assim nos anos 1990 e 2000), de modo que o termo estava esvaziado quando o autoritarismo real apareceu, e inclui a máquina de cancelamento contra os próprios aliados.
- Fecha com a tese de que o eleitor virável não é inimigo, é o mesmo trabalhador que quer oportunidade para os filhos, valoriza a própria fé e quer autonomia para prosperar, e que a porta do diálogo segue aberta. O vídeo encerra com a peça institucional dos 10 anos do Meio.