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A esquerda consegue virar o placar? | De Tédio a Gente Não Morre

¶1Pessoal, vamos ser direto aqui. Flávio Bolsonaro é a pior coisa que pode acontecer com o Brasil. Ele é, eu não tenho a menor dúvida, a face mais polida, mais perigosa desse extremismo. Aquele que fala manso lá nos corredores do Senado, finge uma moderação, né, transita pelos salões ali de Brasília como se fosse apenas mais um político tradicional do centrão. Mas a gente não pode se enganar nenhum segundo.

¶2Ele é o herdeiro direto e o operador de um sistema político e familiar que se alimentou das rachadinhas, da compra desenfriada de dezenas de imóveis com dinheiro vivo. Tem ligações umbilicais com as engrenagens mais sombrias do Rio de Janeiro. Flávio é o verniz de normalidade espalhado sobre um projeto autoritário destrutivo. Se o bolsonarismo raiz assusta por causa daquela truculhência pelo grito, o bolsonarismo com a fala mansa do Flávio é infinitamente mais letal, porque ele é ele anestesia as instituições, ele dá uma apaziguada no no mercado, normaliza, né, a situação, mas o que que vai fazendo? vai levando a gente para um abismo.

¶3E é exatamente com o fantasma desse projeto de poder se consolidando nas urnas, que a gente vê agora nos acréscimos do segundo tempo, uma correria desenfriada em busca de voto. Todo mundo se perguntando, ainda dá tempo de virar o jogo? É possível furar bolha? Na política a gente sabe que tudo é possível, né? A gente tem histórias aí de viradas na última hora de surpresas, mas para ir atrás daquele eleitor que tá desiludido, daquela multidão silenciosa que compõe um número assustador de abstenções, né, para convencer a pessoa que pode mudar de ideia sair de casa no domingo, pegar uma fila no calor, votar contra esse desastre.

¶4É preciso primeiro entender quem é esse leitor. É preciso saber com quem você tá falando. E é aí que o castelo de cartas progressista desmorona. Porque parte da esquerda tá 4 anos atrasada nessa estratégia fundamental de reconquistar as pessoas. Só agora, diante do rolo compressor que a direita impôs nas urnas, bateu o desespero de escutar, né, o alerta de emergência, a sirene, tudo isso deveria ter suado lá atrás, no exato minuto em que seru o resultado da eleição presidencial em 2022, Lula venceu o Jair Bolsonaro com uma margem de apenas 2,1 milhões de votos.

¶5Pras proporções do Brasil, isso é uma margem de erro. E o mais dramático, gente, essa vitória milimétrica só aconteceu porque montaram uma frente ampla, inédita na nossa história democrática. Juntaram Geraldo Alkmin como vice Simone Tebet, Marina Silva, Henrique Meirelles, além de dezenas de economistas liberais, exucanos históricos, se a diferença foi tão assustadoramente pequena em 2022, necessitando de toda essa aliança heterogênea para conter o caos, o trabalho de formiguinha para entender o eleitor frustrado tinha que ter começado lá no dia da posse, em primeiro de janeiro de 2023. Mas o buraco é muito mais embaixo. A verdade é que parte da esquerda não tá apenas 4 anos atrasada, ela tá no mínimo uma década atrasada.

¶6E a prova monumental disso eu vou trazer aqui para vocês agora. Há exatos 10 anos, a Fundação Percel Abramo, que é o braço de formulação e estudos do próprio PT, fez uma pesquisa gigantesca para compreender a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo. O mapa da mina, o raio X completo do eleitor popular foi lá entregue de bandeja. Só que o partido ignorou isso e muito menos a militância mais escolarizada, a elite da esquerda e as bolhas das redes sociais. Eles olharam pro retrato da realidade do trabalhador e ignoraram tudo.

¶7Não quiser, muita gente não quis nem saber o que que essa pesquisa dizia lá atrás há uma década. Coisas que até hoje deu um curto circuito na cabeça de muito intelectual. Primeiro, quem mora na periferia odeia ser tratado como os pobres. Eles repudiam esse rótulo de massa amorfa e coitadinha que precisa ser salva pelo estado. Eles organizam a sua vida todos os dias com a motivação clara e declarada de serem alguém.

¶8Eles querem ter a sua singularidade, seus valores reconhecidos dentro da competividade capitalista. Pois é, capitalista, né? querem mostrar pra sociedade que também são extremamente capazes. Enquanto a esquerda congela no tempo, continua prometendo a salvação exclusiva via concurso público, CLT, a pesquisa já avisava de uma forma muito clara que quem mora na periferia não quer ser funcionário público, quer empreender. E olha, gente, isso é algo que tá em total consonância com a última pesquisa do Data Favela, que identificou que 38% dos entrevistados hoje sonham com o negócio próprio.

¶9Apenas 16% desejam passar no concurso. E a Fundação Perceu Abramo descobriu mais. Tem uma imensa solidariedade da periferia com os empresários. Muitos assumem exatamente o mesmo discurso propagado pela elite e pelas classes médias, apontando a burocracia excessiva, os altos impostos como os grandes empecílios pro empreendedorismo e pra prosperidade. Existe na periferia um liberalismo particular das classes populares.

¶10trabalhador de lá trata o mercado como uma instituição muito mais crível e funcional que o estado e vê a esfera privada como muito mais relevante do que a vida pública. Você vai conversar com essas pessoas e encontra uma defesa ferrenha do mérito. No imaginário da esmagadora maioria dessa população, não existe luta de classes estrutural. O inimigo deles não é o patrão rico. O inimigo é, em grande medida, o próprio estado, que é visto como ineficaz, incompetente e corrupto.

¶11Isso abre um espaço natural para esse liberalismo popular, com uma demanda gritante, por menos estado, atrapalhando a vida de quem quer trabalhar. E a visão sobre os serviços públicos pros moradores, tudo que é público tá imediatamente associado ao que é gratuito e de péssima qualidade. Por isso a pesquisa cravou. Eles entendem a escola particular como fundamentalmente melhor. A grande maioria quer colocar os filhos na escola particular, o que demonstra mais uma vez uma discrença absoluta e histórica na chamada coisa pública.

¶12No campo dos valores morais, o estudo foi igualmente cirúrgico. Para essas pessoas, a família é o grande alicerce e a única solução real pros problemas individuais e coletivos. Eles têm uma visão liberal no comportamento, acreditando que a crise ética da sociedade é uma questão de ordem individual que vai se resolver pela educação no âmbito privado e familiar e não por grandes campanhas de conscientização do governo. E aí a gente chega na raiz do nosso distanciamento mais brutal, o desprezo institucionalizado e o preconceito contra os evangélicos. A pesquisa do PT mostrou que a igreja fornece o principal espaço de sociabilidade na periferia.

¶13ela que dá sentido de comunidade, de pertencimento, de acolhimento. A igreja dá orientação moral, da estabilidade, oferece uma conduta de vida racional, disciplinada e afastada da criminalidade. Grande parte da esquerda não entende como a engrenagem da desse apoio funciona. É o pastor que faz papel de psicólogo, é a igreja que funciona como rede de empregos e de assistência social quando falta tudo. E o mais importante, que pegou de surpresa, os próprios pesquisadores só lá há 10 anos, os religiosos na periferia, diferente do que supõe o senso comum, não são intolerantes, eles não são imbecis, eles não nasceram para ser enganados por pastores trambiqueiros.

¶14As pessoas têm pensamento crítico afiado. Tratar a fé deles como chacota, como uma parte da esquerda temem fazer, é um erro estratégico fatal. Agora, como é que eles enxergam a política no meio disso tudo? Como um espaço em processo de descrédito irreversível, chegando em alguns casos a ser até criminalizada. Os políticos são vistos como simples usurpadores que aparecem na eleição e não cumprem com seus deveres.

¶15Mas justamente por dependerem amargamente do acesso a serviços públicos, quem vive na periferia sabe muito bem que os governos, as decisões políticas e as políticas públicas influenciam de forma direta as suas vidas. A tragédia é que a política é suja e falar sobre ela gira revolta e desconforto. Por fim, a conclusão mais fascinante daquele levantamento na periferia. A figura monumental do Lula é admirada muito menos pelas suas políticas sociais que o governo dele implantou e muito mais porque ele próprio é um exemplo vivo e tátil de ascensão social. Ele é a cara do povo que venceu o sistema.

¶16Quero fazer um parênteses aqui, que essas informações que eu tô trazendo são informações que a pesquisa encontrou como desejos nessas comunidades. Não é o que eu defendo, que eu acredito e nem tô dizendo que tá certo. Quem sou eu para dizer o que tá certo? O que essas pessoas devem fazer para melhorar de vida e para chegar onde elas querem? Eh, eu inclusive acredito que existe uma precarização enorme no mercado de trabalho.

¶17As pessoas estão pensando muito num curto prazo, sem olhar lá na frente, sem entender, por exemplo, que precisam pensar lá na sua aposentadoria. Essas pessoas estão pagando INSS, tão fazendo um plano de previdência privada. Nada disso provavelmente tá sendo templado, né? Eh, tô defendendo que as pessoas devem viver sem 13º, sem férias. sem seguro saúde, nada disso tô falando.

¶18Eu tô trazendo o que essa pesquisa capturou como desejo dessas pessoas. Mas vamos lá. Agora, tendo todas essas informações documentadas há uma década, o que que uma parte da esquerda decidiu fazer? continua palestrando de olhos fechados. Gente, quando o trabalhador precarizado de hoje mostrou que quer autonomia, parte da militância universitária, intelectual, foi pra internet inventar apelidos, passando a chamar esse sujeito de um jeito pejorativo de se me Vamos lá de novo.

¶19É evidente que eu não tô aqui dizendo que o trabalho precarizado é o caminho luminoso pro futuro ou que trabalhar 12 horas no aplicativo sem férias é o ideal. Mas se uma parcela gigantesca e dinâmica da população quer desesperadamente ter essa autonomia, o governo tinha obrigação de descer do palanque, conversar com essas pessoas, elaborar um plano inovador de proteção social. O que que o governo pode fazer para proteger esse trabalhador que não quer ser empregado de ninguém? Em vez de pensar numa rede de segurança pro século XX, uma parte da esquerda preferiu o deboche contra o pobre de direita. E a extrema direita viu nisso um espaço, sentou, capturou esse desejo de prosperidade para ela mesma.

¶20Em vez de dialogar, o que a militância mais ruidosa da esquerda fez nesses últimos 4 anos foi erguer muros enormes e operar uma máquina de cancelamento. Virar uma fábrica de chamar absolutamente todo mundo de fascista. Eu já tenho, ó, já pedi música pro Fantástico 398 vezes de tanto que já fui chamada de fascista. Eu que levanto todas as bandeiras progressistas. Pois é, né?

¶21Isso não é um erro de agora, isso é um erro histórico. Nos anos 1990, nos anos 2000, políticos democratas, progressistas como Fernando Henrique Cardoso e José Serra eram chamados de fascistas, entreguistas, exterminadores do futuro de todos eh os os necessitados. A esquerda banalizou o termo de um jeito tão vulgar que a palavra perdeu totalmente sentido. E quando o autoritarismo de verdade ameaçou engoli o país, a palavra já tava esvaziada. O povo, ó, deu de ombros.

¶22Você acha que alguém hoje liga de ser chamado de fascista? Vocês acham que isso realmente faz eh causa algum estranhamento nessas pessoas, inclusive naqueles que são de fato fascistas? Porque é sério, até hoje qualquer pessoa que de Virja minimamente entra no imediato rol dos fascistas imperdoáveis. Fazem isso inclusive com uma crodade ímpar, né, com os próprios aliados. Se um parceiro de trincheira levanta a mão e aponta um exagero nas pautas, ó, guilhotina na praça pública das redes sociais.

¶23Foram anos de um distanciamento confortável, falando muito, escutando quase nada, enquanto a vida real corria, ó, em outra velocidade, do lado de fora da bolha. Mas se essa sacudida das urnas servir para alguma coisa boa que seja para abrir espaço pro diálogo de verdade, porque a boa notícia é que o eleitor, esse eleitor que ainda pode virar o voto, não é um inimigo inacansável. Esse eleitor é o mesmo trabalhador que batalha todo dia, que quer ver o filho crescer com oportunidades, que valoriza a própria fé, que quer autonomia para prosperar. Quando o campo progressista finalmente se dispuser a ouvir sem julgar, a desarmar os rótulos, a construir pontes em vez de ficar apontando o dedo, a conversa pode voltar a fluir, pode dar tempo de recalcular a rota. Sim.

¶24Política se faz com empatia, com respeito ao tempo das pessoas e com propostas reais paraa vida concreta. A porta não tá fechada, ela tá ali, ó, só esperando alguém ter a grandeza e a humildade de bater e escutar com atenção. >> Se você é de esquerda e acompanhou boa parte do noticiário nos últimos 4 anos por veículos de esquerda, você teve mal informado, acreditou que havia um problema em pobres de direito, em evangélicos manipulados? que devia criticar a aspiração dos CEO de May. Essas pessoas também passaram os últimos 4 anos ouvindo a mesma coisa e entenderam o que havia para entender.

¶25Esse não é o grupo que não gosta da esquerda. E se você é de direita e se você se informou por veículos de direita, ouviu que tentativa de golpe era a conversa de petista. Não foi essa cobertura que nós fizemos aqui no meio, não nesse período, pelo contrário, aqui a gente olha pros números como eles são. Aqui a gente ouve o que a classe se aspira e trata com respeito. E aqui a gente não trata golpismo com a displicência da imprensa de direita.

¶26Pra gente, pra gente igual que é o crime mais sério contra a democracia. [música] O meio fez 10 anos. Jornalismo 100% digital, 100% comprometido com a democracia e que [música] não te diz aquilo que vai aquecer o seu coração. Mas olha, se preocupe em compreender o Brasil como ele de fato é. E eu posso dizer uma coisa, o ano tá difícil.

¶27Os próximos 4 anos [música] serão difíceis e a gente vai est do lado da democracia liberal por cada um dos próximos segundos. Precisamos da sua assinatura. Assine o meio prêmium. Ah. [música]