¶1As campanhas eleitorais começaram oficialmente no domingo, mas tem muita gente com uma sensação de que, na real, a eleição presidencial já acabou. Eu vou fazer alguns recortes nessa ideia anterior. Primeiro, a eleição começou faz tempo, né, gente? Esse calendário oficial é que espreme as campanhas em 45 dias, de uma forma um tanto hipócrita, mas ainda assim vale lembrar que para muita gente, mas muita mesmo, a eleição só ganha relevância nos dias que antecedem a votação. Para alguns, no caminho para a urna.
¶2Segundo, é claro que eu não estou falando das respectivas militâncias. Tanto os engajados voluntariamente, porque são verdadeiramente entusiasmados com seus candidatos, quanto os militantes profissionais, por assim dizer, aqueles que são filiados aos partidos, estão animados para partir para o corpo a corpo e para batalha digital e tudo mais. Eu estou falando de um sentimento de desânimo que bate em gente que não está convictamente associada a algum dos candidatos e não é naturalmente engajada em política. De gente que olha para as opções e não se entusiasma, se sente sem muita perspectiva ou confiança. Esse sentimento já é captado em variados tipos de pesquisa, quantitativas e qualitativas, e permeia diferentes grupos etários e de renda.
¶3E esse sentimento vem de percepções distintas, mas complementares. Uma parte dele é fruto da divisão do país. Dois candidatos, Lula e Flávio Bolsonaro, se consolidaram muito cedo como favoritos aí para o segundo turno. Com uma distância abismal para o segundo pelotão e, mesmo diante de de e atrapalhadas, as oscilações de ambos são pequenas. Oscilam um pouco e logo voltam ao estado anterior, numa espécie de refluxo, sem que os demais candidatos alterem as suas intenções de voto.
¶4Aí, aquele pedaço do eleitorado que não é aderente a nenhum dos dois ou não odeia intensamente algum para escolher votar no outro, olha para essa situação e desanima, porque acha que vai desperdiçar o voto se escolher um terceiro. Existem também aqueles que olham para os terceiros e sentem mais desânimo ainda, não se identificam com ninguém mesmo que se apresentou como candidato. E existem ainda os eleitores que rejeitam a política como um todo, já tem algum tempo, que acham político tudo igual, que entendem que suas vidas mudam muito pouco, a despeito de suas escolhas eleitorais. Nesse grupo, o desânimo pode vir dessa incompreensão do tanto que a política interfere sim, diretamente em suas vidas rotineiramente. Ou de uma compreensão bastante precisa de que os políticos fazem promessas que depois não realizam.
¶5A incompreensão neste caso pode ser sobre os mecanismos políticos que levam a essa desconexão entre promessa e prática. Em boa medida, a desconexão está entre congresso e executivo, por exemplo. Mas os eleitores nem sempre fazem essa ligação. O sentimento de desânimo pode vir ainda da noção de que todo político é corrupto e, portanto, não presta, não merece sua atenção e cumprir a obrigação de votar se torna algo aborrecido, desagradável e custoso. É um cenário triste esse do desalento.
¶6Para quem já escolheu seu candidato, pode não fazer muito sentido, pode parecer É que fulano é melhor que sicrano. Como é que esse desalentado não percebe, não entende? Pois bem, é assim que um pedaço expressivo do Brasil real lida com política. Os candidatos sabem disso. Suas campanhas encomendam pesquisas de todo tipo.
¶7Alguns de seus discursos são ajustados para manter a militância altamente engajada, justamente para que eles saiam a campo para convencer os desalentados. Mas eles sabem que quem está em disputa, realmente, é esse pessoal desanimado. Para falarmos somente das pesquisas que são públicas, não as internas, eu vou pegar números da Meio Ideia e da Quest para ilustrar o que eu tô chamando aqui de desânimo. Não parece existir hoje um enorme contingente incapaz de escolher entre os candidatos quando recebe a lista na pergunta estimulada. Ele vai de 4% na Meio Ideia a 10% na Quest.
¶8Mas existe um grupo muito maior que ainda não está emocionalmente ou politicamente engajado. 34% ainda admitem mudar de ideia sobre o voto, isso na Meio Ideia. 27,7% não citam espontaneamente candidato algum. E 63% dizem para Quest estar pouco ou nada interessados na eleição. 63%, gente.
¶9Esse pessoal desanimado tá assim por várias razões, claro. Tem gente sem perspectiva econômica, tem quem tem alguém precisando de uma cirurgia sem conseguir, há um empresário inseguro com o futuro diante de um cenário externo absolutamente instável e de um mercado interno achatado pelos juros. Tem gente que tá animada com o próprio futuro, mas não com o do país. O que me parece estar em cheque em todos os casos é precisamente isso, o futuro. E é disso que me parece também que os candidatos estão falando pouco ou quase nada.
¶10Vamos conversar um pouco mais sobre esse desânimo e sobre futuro? Então, fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do Meio. Se você não viu ainda, fica até o fim do Cai Entre Nós para assistir ao trailer do nosso novo documentário. Ele se chama Eleições 2026, A Escolha.
¶11Estreia neste sábado, dia 22. Eu e Pedro Dória apresentamos esse especial que mostra a trajetória de cada um dos cinco principais candidatos e a cabeça do eleitor que vai às urnas. Tudo para ajudar você a formular sua própria opinião. O doc é exclusivo e original do streaming do Meio. Então, assine agora mesmo.
¶12Os planos de governo protocolados no TSE arriscam uma coisa ou outra nesse sentido de futuro, mas parecem emular muito mais soluções pontuais do que visão de país. A gente pode até achar que candidato X ou Y tem uma visão clara de do Brasil que desejam. Eu consigo deduzir o Brasil que Lula vislumbra e o Brasil que Flávio Bolsonaro imagine como ideal, sim. Aliás, são bem diferentes. Acontece que eu sou uma analista política e jornalista.
¶13É meu dever entender isso. O cidadão médio, não engajado, desanimado, precisa ser alcançado por essas visões. Mas ainda precisa ser inspirado por elas. Precisa entender como se chega ali, muito muito além de promessas de campanha que depois não se efetivam. Já faz algum tempo que lideranças políticas mais antenadas e menos negacionistas vem apontando isso.
¶14Da esquerda essa autocrítica partiu de Fernando Haddad em 2024 numa entrevista para o jornal Folha de São Paulo. Ele disse que a esquerda abre aspas não está dialogando com um projeto de futuro e carece de um horizonte utópico. A atual campanha de Lula ainda vem focando mais no seu passado e no seu legado do que num projeto de futuro. Mesmo Haddad subiu ao palco domingo em São Bernardo do Campo para falar do que Lula já fez e de como isso já justificaria a escolha sobre Flávio. Do outro lado Flávio Bolsonaro fez um jingle evocando a esperança, o futuro e o direito de sonhar sem apresentar qualquer caminho para isso.
¶15Como se para que esse futuro magicamente se construa seja preciso unicamente tirar Lula do poder. Isso dois anos depois de seu pai Jair Bolsonaro dizer que utopia mesmo é uma direita sem ele. É possível que parte dessa turma desanimada não vá nem votar. O custo de se abster é baixo no Brasil. Normalmente a abstenção média ali na casa dos 20% costuma punir o candidato da esquerda porque quem deixa de votar é justamente a população mais pobre que já teria mais dificuldades de chegar a locais de votação por exemplo.
¶16O eleitor de maior renda por sua vez precisa estar com as suas votações em dia para tirar passaporte e prestar concurso público. Então resiste mais a se abster. Mas neste ano o desânimo pode contaminar mais gente e afetar públicos variados. Quem está com o voto definido, pode olhar com desdém pro desânimo alheio. Pode achar a pessoa menos engajada, ignorante, menos cidadã, isentona, sei lá, algo pejorativo assim.
¶17Isso não é só equivocado, é contraproducente. Não importa o julgamento moral que se faça deles, os eleitores desanimados existem, estão aí e podem definir a eleição. Falar com eles sem demagogia pode ser a receita numa corrida em que escândalos de Marcola e Lulinha a Master não mexem os ponteiros. >> Essa campanha tem que começar a verdade derrotando a mentira. >> O filho mais velho do capitão segue aqui de pé, firme e forte ao lado do povo brasileiro.
¶18>> Os dois tão jogando o mesmo jogo, cada um preocupado com a sua eleição, ninguém tá preocupado com o Brasil. >> Tudo que dá certo nesse país parece que o PT não gosta. >> Nós não precisamos ser refém de um debate político construído entre um mongoloide como Flávio Bolsonaro e um cachaceiro sem nenhum como Lula. >> Ai.