¶1Me conta, você se importa? Você ainda se importa em fazer as coisas do jeito certo? Você se importa que os outros façam as coisas do jeito certo? Para que todo mundo faça tudo corretamente dentro das regras, como se deve ser? Pois é, essa é uma preocupação que a gente tem aqui no meio e é uma preocupação que a gente acaba levantando quando a gente vê que parece que corrupção não faz mais as pessoas perderem voto ou ganharem voto, não agita tanto mais assim a torcida.
¶2Tô certa, tô errada, Pedro? É mais ou menos por aí >> nessa eleição. Certamente. >> E parece que tem um certo pacto do silêncio que agora com essas investigações da Polícia Federal fica difícil de não ter que falar nada, de não se pronunciar. Mas fato é que parece que é melhor não ficar cutucando tanto o outro lado, porque o lado de cá tem telhado de vidro.
¶3É mais ou menos isso. >> É isso. >> A gente tem muita coisa para falar sobre isso, hein, Pedro? Bora lá. >> Vamos lá.
¶4>> Bebe uma água que você vai precisar. [risadas] >> [música] >> Pedro, eu vou começar com o comentário do Glory Seeker, é um pouquinho comprido, mas achei que valia a pena. Ele diz assim: "Pedro, eu tenho duas dúvidas. Você falou sobre a anulação das condenações da Lava-Jato pelo Supremo como se fosse o sistema se protegendo. Eu não vou aqui supor qual a intenção por trás dessa anulação e posso estar enganado, mas juridicamente falando, ela não decorreu de ilegalidades da própria condenação.
¶5Eu entendo que a gente deve se apoiar, né? Eu entendo, perdão, que a gente deve apoiar o estado de direito nessa situação. Não, >> vamos lá, porque a resposta, infelizmente, eu acho que é mais complicada do que do que essa. As duas coisas podem ser verdades ao mesmo tempo. >> Hum.
¶6>> Querendo dizer, anulação e não veja, anulação do do da condenação do presidente Lula é juridicamente correta. Não, todas, tá. Eh, o Supremo tá anulando decisões do da Lava-Jato até hoje, inclusive ordenando devolução de dinheiro para empresas que cujos os executivos confessaram ter corrompido e devolveram dinheiro. Eh, se você pega boa parte das devol das anulações que o ministro José [roncando] Antônio Diasófoli tem feito, muitas delas não se sustentam. juridicamente.
¶7Agora, a condenação do presidente Lula, ela tem um problema fundamental que [roncando] é um uma filigrana jurídica, eh, que, no entanto, representa um princípio essencial, que é o que eles, os juristas chamam de juiz natural, querendo dizer, eh, eh, um juiz não pode escolher julgar uma pessoa. E essencialmente foi isso que Sérgio Moro fez em relação ao presidente Lula. >> Sérgio Moro tava julgando o desvio de dinheiro da Petrobras numa série de contratos superfaturados. Eh, o presidente Lula era o presidente do Brasil nesse momento, portanto ele era responsável por tudo que estava acontecendo na Petrobras. Uma última medida, quem é o presidente da República?
¶8Quem que manda em tudo? Quem que escolhe quem tá presidindo a Petrobras, que é quem escolhe e eh quem são diretores da Petrobras e tudo mais? É o presidente Lula. Esse dinheiro foi usado eh para beneficiar o PT? Foi usado para beneficiar o PT.
¶9Mas a condenação do presidente Lula, ela depende de duas coisas. Eh, primeiro você tem que aceitar que é claro e provado que tanto o tríplex do Guarujá quanto o sítio de Atibaia foram presentes dados pelas emprenteiras pro presidente Lula. E e as provas não são contundentes do No caso do Tríplex do Guarujá, as provas são bastante escassas. Você não tem, você tem uma visita do presidente eh eh com dona Marisa Letícia e e e e uma parcela paga, um boleto de uma parcela que não sei se chegou a ser paga. Tipo, a coisa não fecha.
¶10O sítio de Atibaia você tem provas mais contundentes de que, embora não tivesse nome dele, ele usava, tem os pedalinhos com o nome dos netos, tem eh eh porta-retratos eh dele com dona Marisa de família espalhados. A cozinha no sítio de Atibaia é a mesma cozinha com os mesmos móveis encomendados pro Triplex no Guarujá. Quer dizer, você tem provas mais contundentes e e olha, e e a mim parece, mas eu não sou advogado, tá? A mim parece que daria para você dizer, eh, forçando uma barra que aquele sítio era dele, era certamente usado muito por ele, eh, não tava em nome dele, não, não tava com muita frequência em casos de corrupção. Isso é verdade.
¶11Mas aí tem o seguin o segundo problema. Se por um acaso você acha que cabe julgar o presidente Lula por corrupção, com base nesses dois imóveis, que ele teria ganho de presente, o juiz natural é um juiz em Brasília, ele tem que ser processado em Brasília a partir da primeira instância. O juiz Sérgio Moura no Moura no Paraná não tinha absolutamente nada a ver com isso. >> Além do interesse por jogar esse caso. Mas isso não é uma escolha do Moro.
¶12>> Hum. >> Então o que que seria necessário provar para que esse caso fizesse parte do caso do petrolão? Aquilo que a operação Lava-Jato tava investigando? Eh, o que seria necessário é você provar com clareza que existe uma relação de causa e efeito, que o dinheiro ganho apreendido eh tirado da Petrobras, desviado da Petrobras, teria sido pago na forma de corrupção ao presidente Lula através desses imóveis. Tem zero evidência.
¶13Não é possível estabelecer causa e consequência. Não é possível estabelecer que aquilo que o presidente eh eh que qualquer responsabilidade do presidente Lula tenha sido paga com esses dois imóveis. Não tem. Simplesmente não tem. aquilo como pertencer ao julgamento da Lava-Jato, não tem nada zero.
¶14Então aí você vai aí nosso [roncando] nosso leitor, nosso espectador vai se verar e falar: "Tu pronto, eh a anulação tá juridicamente correta e de fato tá. O problema é o seguinte, isso era verdade um ano antes, 2 anos antes, 3 anos antes, 4 anos antes, desde o início da operação Lava-Jato, lá em 20003, 2014, eh, isso já era verdade, entendeu? Nunca houve essa prova e, no entanto, ela foi passando por todos os juízes, tal. Tem um momento no meio do governo Bolsonaro em que o Supremo olha e fala: "Olha, o que acabamos de descobrir foi literalmente a conveniência de um momento. Essa anulação já era para ter acontecido várias instâncias antes e o próprio Supremo já poderia ter feito essa anulação em muitos momentos antes.
¶15Nunca fez. nunca fez porque não era conveniente politicamente. No momento que passou a ser conveniente politicamente, fez. E e Yasmin, não é só isso. Eh, por exemplo, a ideia de prisão em segunda instância.
¶16Desde o início da nova república, o Supremo considera que prisão só pode acontecer com trânsito emjulgado. Ou seja, uma pessoa só vai paraa cadeia por conta de uma condenação quando acontece o último recurso dentro do Supremo Tribunal Federal. Enquanto não tiver considerada ação em trânsito de julgado, você não pode prender ninguém. Aí num determinado momento, por causa do presidente Lula, o Supremo chega à conclusão de que não estávamos sendo eh frouxos demais com o crime. A partir de agora existe prisão em segunda instância.
¶17E aí quando o presidente foi condenado em segunda instância, foi preso. Aí o Supremo reverteu a coisa. Não, não tem mais prisão em segunda instância. Sempre. Tipo, e esses casuísmos por parte do STF aconteceram durante o processo da Lava-Jato o tempo todo.
¶18Então ele tá correto em dizer: "Olha, de fato, eh, naquele caso, hum, juridicamente a decisão do Supremo de anular o, o a condenação do presidente Lula tá correta? Claro que ele tá certo e no entanto isso não quer dizer que também não houve um casuísmo do Supremo >> complexo. Eu vou seguir aqui vou já emendar duas, na verdade, porque o @gloryseeker que mandou essa essa primeira pergunta, ele fez uma outra, né, que ele disse que tinha duas dúvidas e eu já vou emendar essa essa segunda dúvida dele com uma outra que eu acho que foi uma das mais latentes assim ao longo de todos os comentários do seu vídeo do ponto de partida. Ele diz assim: "A minha outra dúvida é sobre não se importar muito com corrupção eu particularmente me importo, mas que opções estão sendo dadas para mim?" Falo aqui na eleição para o executivo. Eu gostaria de votar em um governo não corrupto e de ideologia similar à minha, mas a opção sequer chega na urna e acaba que a eleição majoritária realmente vira uma batalha de rejeição.
¶19Eu não tenho poder para escolher quem vai ser candidato. Não sozinho, pelo menos. Vale mencionar até o próprio Eduardo Leite, seria um bom candidato, mas por opção que não é nossa, sequer poderá ser votado. O que que a gente pode fazer para resolver isso? E aí eu vou seguir só para emendar porque é o mesma, vai na mesma vibe.
¶20O gente, vários nomes com arroas inglês. Pessoal tá no inglicismo aqui. @lightningraven que chique. Ele falou assim: >> "O corente, >> foi >> o corvo do raio." >> Infelizmente a corrupção é o menor dos problemas atualmente. A nossa eleição está entre um governo ruim e neoliberal do Lula, e um governo devastador, que vai entregar tudo para os Estados Unidos e fazer do Brasil uma colônia completa, oferecendo tudo que os Estados Unidos querem e obedecendo as suas ordens.
¶21entre um governante ruim, mas com quem se dá para conversar, e um governante traidor e fascista, que vai entregar tudo que pode para o governo dos Estados Unidos, eu já sei em quem eu vou votar no segundo turno, pelo menos. No primeiro turno a gente vota em quem quer. No segundo a gente vota contra quem não queremos. São dois pontos de vista diferentes, mas que envolvem esse tema da corrupção. Por isso que eu quis emendá-los assim.
¶22É, e eu eu veja, eu jamais classificaria o governo Lula como um governo neoliberal >> para começo de conversa >> para comércio de conversa, mas eu acho que essa não é a questão. Eh, eh, o por que ele acha o governo Lula ruim, porque que eu acho são razões distintas. Ele tem as dele, eu tenho as minhas. Mas o o que eu entendo é que o que os dois estão falando, na verdade, não é o o debate não é sobre o que faz um candidato ruim e o outro pior. O debate é a gente, o mundo político não nos apresentou muitas opções e de fato não apresentou.
¶23Eh, quando eu reafirmo o tempo todo, essa é a primeira eleição desde 1989, em que não tem um candidato liberal, isso é verdade. Eh, isso é uma uma das mostras de o quanto que a gente tem poucas opções. Parte das razões, eh, uma parte é isso é uma escolha dos partidos, né? Os partidos estão escolhendo não apresentar candidatos. Além disso, tem isso é uma coisa na qual eu martelo o tempo todo, sabe?
¶24Eh, as regras do jogo eleitoral determinam a a a natureza que o jogo vai tomar. >> Hum. Eh, a partir do momento que o incentivo pros partidos é eleger deputado federal, não eleger presidente da República, porque quanto mais deputado federal você tem, mais poder você tem dentro do Congresso. Poder dentro do Congresso é é poder direto sobre o orçamento, sem precisar passar pelo presidente da República. é é o tipo de verba que você vai ter, o nível de verba que você vai ter do fundo partidário e do fundo eleitoral.
¶25E no fim das contas, a sua sobrevivência como grupo político passa a depender fundamentalmente de quantos deputados federais você elege. Você tira dos partidos qualquer tipo de incentivo para disputar a presidência da República. É uma coisa que passa a não valer a pena. Eh, e a gente vê isso porque que um dos motivos pelo centrão não tá do lado da chapa do do Flávio Bolsonaro, por exemplo, é o fato de que eles não ganham nada em compartilhar dos custos eh para eleger um presidente da República. Eles não precisam eleger um presidente da República.
¶26Eles vão ter o poder que eles terão, independentemente de quem seja o presidente da República. O poder vai ser estabelecido pelo tamanho da bancada na Câmara de Deputados. Então, nessa circunstância, Yasmin, eh a gente tem um sistema que que não coopera, não ajuda o eleitor oferecendo muitas escolhas. Agora, por outro lado, [roncando] isto é também uma escolha coletiva da sociedade brasileira, entendeu? [roncando] O o presidente Lula tem 35% dos votos de base.
¶27A família Bolsonaro tem 25% dos votos de base. Porque isso é uma escolha do eleitor. Se o eleitor considera que a única maneira de tirar o poder, o eleitor antipetista considera que a única maneira de tirar o PT do poder é votando em alguém da família Bolsonaro. Se uma quantidade imensa de eleitores de esquerda eh consideram que Lula é é é algum tipo de Messias encarnado que precisa ser eleito tantas vezes quanto a legislação permite, sem ter nenhum tipo de variação de poder. Isso são escolhas também dos eleitores.
¶28Eu entendo quando as pessoas falam: "Eu não fiz essa escolha". Mas coletivamente a sociedade está fazendo essa escolha. Então, tem a ver com os partidos, tem a ver com o o os as regras do jogo, claro que tem, mas também tem a ver com uma posição que a sociedade, nas muitas conversas que vai eh eh vai tendo, eh, vai conduzindo os seus desejos. Eh, a a gente tá preso num num ciclo que é definido por aproximadamente metade do eleitorado. Eh, essa não, essas não são escolhas que a outra metade fez e, no entanto, paraa outra metade não há escolhas.
¶29Curioso que quando você diz isso, antes de eu ler o comentário do Vittor Rafael, eu fico pensando que esse esse sintoma do do desse fisiologismo do central, que não é de hoje, curiosamente, a sensação que eu tenho que parece que a gente tá mudando de regime ao longo, assim, saindo aí de um presidencialismo para uma espécie de parlamentarismo meio que numa inércia. Eh, eu eu entendo eu entendo o argumento e e tem pessoas que fazem esse argumento, mas eu eu não gosto desse argumento pelo seguinte, eh num regime parlamentarista, a sociedade cobra do parlamento quando o governo é ruim. Nesse troço pro qual a gente tá indo, no qual a gente já tá de certa forma desde o governo Bolsonaro, eh, desde a metade do governo Bolsonaro, a gente não tá no parlamentarismo, porque a sociedade continua achando que é o presidente da República que tem poder de mudar o, o jogo e hoje o poder tá muito mais concentrado no legislativo e no judiciário. Quer dizer, o Congresso Nacional e o Supremo hoje são atores políticos, de certa forma, mais relevantes do que o presidente da República. Eh, e no entanto, a cobrança continua sendo do presidente da República.
¶30>> Hum. a gente não mudou de regime. Eh, o o o que aconteceu é a gente tá vendo um regime presidencialista deteriorando, esvaziando o o o poder do presidente, eh, sem, no entanto, oferecer pros outros poderes, principalmente pro Congresso, o ônus da cobrança, porque o Supremo bem ou mal é cobrado pela direita. Pela esquerda não, mas pela direita é o Congresso. [roncando] Congresso no máximo você tem uma um pedacinho da militância de esquerda falando o Congresso inimigo do povo, que na verdade não quer dizer nada, né?
¶31Eh, além de ser um berro antidemocrático, eh, situação na boa. Não, >> Pedro, para fechar, eu vou trazer aqui a pergunta do e o desabafo também do Víor Rafael. Ele diz assim: "Eu aceito que existam charlatões e bandidos na política. A minha dificuldade é entender por a maioria das pessoas abraça esses charlatões. Na empresa que eu trabalho fazem piadinhas de Lula ser ladrão, mas eles vão votar no Flávio.
¶32Se você é de esquerda, por que diabos votou no Lula ao invés de votar, por exemplo, no Ciro, que tem um projeto de país? Até hoje não entendo porque em 2018 o segundo turno foi entre o Amoedo e o Ciro. Não tô entrando no mérito ideológico de nenhum candidato. Cada um tem a sua linha ideológica e aceito que existam extremistas de ambos os espectros. O que eu acho difícil de engolir é abraçar os pilantras.
¶33O sujeito que vota no pilantra nem favorecido é pelo bandido. Alguém consegue me explicar isso, por favor? É, [suspirando] eh, bem, primeiro, antes de tudo, e ele tem, evidentemente uma leitura específica de cada um dos candidatos, que não é a leitura compartilhada por boa parte dos brasileiros. Eh, se boa parte dos brasileiros considerassem o jogo similar, eh, sim, teríamos Ciro e Almoedo no segundo turno. Só que boa parte dos brasileiros em 2018 preferiram levar Hadad e Bolsonaro.
¶34>> É, aí a gente volta para aquilo que você falou, não foi uma escolha minha, mas é foi a escolha de uma grande maioria. E e e o jogo da democracia é esse, é o que a maioria escolhe, não é o que eu escolho. E e aí numa democracia ele tá falando, por exemplo, da empresa dele. Ah, fazem piadinha de Lula esse ladrão, mas votam no Flávio. Eh, veja, ele tá lá na empresa dele, o trabalho dele é convencer as pessoas.
¶35Se ele acha que isso é relevante, ele precisa convencer as pessoas da empresa dele de que o Flávio é corrupto. Eh, porque no jogo da democracia, o jogo é um jogo de convencimento. O que que eu tô fazendo aqui eh toda semana? O que que é o ponto de partida? O ponto de partida é a minha participação no debate público, querendo dizer, eu tento fazer no ponto de partida eh toda semana um argumento, um argumento cujo objetivo é persuadir, é convencer as pessoas de que de que eu tô certo, de que eu tô fazendo uma determinada leitura.
¶36Eh, e e se você concorda com a leitura que eu tô fazendo, não existe nenhuma conclusão a tomar que não a minha conclusão. Quem que eu tô convencendo? Muito pouca gente. Não, ué. É, eh, quando, quando eu brinco que nós liberais cabemos numa Kombi, >> eu adoro essa.
¶37>> Não, mas é porque nós liberais cabemos numa Kombi. A gente tem tido no Brasil uma capacidade muito baixa de persuasão e e o jogo da democracia é esse. Quem convence leva o voto, quem não convence fica sem voto. Eh, o que a gente precisa de mais pessoas participando do debate. Agora veja, na teoria funciona assim.
¶38Você tem um bom argumento, você persuade ou não persuade? Agora a gente tem complicadores nesse jogo. Um dos complicadores é boa parte da nossa conversa acontece nas redes sociais. E e pro meu argumento jogado nas redes sociais, eh, ter efeito, ele precisa chegar a muitas pessoas. E os algoritmos que definem o que que vai para muitas pessoas e o que não vai para quase ninguém.
¶39Esses algoritmos gostam de jogar paraas pessoas argumentos muito mais radicais e argumentos moderados são escondidos. E isso é um problema paraa regulação estatal. Não pode um número pequeno de empresas privadas tomar a decisão de que vozes serão ouvidas e que vozes não serão ouvidas. Em grande escala desse jeito. Eh, precisamos de um parlamento.
¶40Aí agora, a segunda, a segunda complicação é que o voto também não é uma um voto não nasce de um impulso apenas racional. Ele também parte de um impulso que é emocional. E quando a gente fala de emoção, não é só eu tô triste, eu tô feliz, eh eh eu tô no modo deprê, eu tô animadíssimo. É um pouco mais profundo do que isso. O o o Francês Fokuyama, que é um dos meus eh cientistas políticos favoritos, ele ele usa um termo que o Platão usa, que o Aristóteles usa, um termo grego chamado timos.
¶41Eh, o timos é um pedaço da alma pros gregos. Mas o Fukuama usa esse conceito para falar da ideia de pertencimento. Nós todos eh eh nós como espécie, o ser humano, a gente é simultaneamente um bicho individualista, no sentido de que somos muito centrados em nós mesmos. A gente quer o que a gente quer, não o que os outros querem. a gente age egoístamente, por assim dizer.
¶42Agora, simultaneamente a a esse individualismo, nós necessitamos imensamente de comunidade. A gente precisa pertencer a um grupo. E o Timos fala justamente desse lado emocional que é aquilo, que é essa ânsia que nós temos de nos sentirmos parte de um determinado grupo. Quando a gente se sente parte de um grupo, o timos tá estabelecido, tá satisfeito. Quando a gente sente que estamos ignorados por um grupo ou que somos humilhados por um grupo ou que somos rejeitados por um grupo do qual a gente gostaria de participar, a gente se sente muito mal.
¶43É, é, é uma das essa sensação de rejeição pelo grupo é é um dos maiores pesadelos para qualquer ser humano. E isso é o que faz, no fim das contas, a gente ter uma tendência enquanto espécie, a nos tribalizarmos. Nós pertencemos a uma tribo e nós lutamos contra as outras tribos. O que é muito aproveitado em campanhas no gerais, né? Essa coisa do nós contra eles.
¶44>> Sim, >> de várias maneiras. >> Mas tem um truque na democracia que a democracia serve, entre outras coisas, para tentar dirimir ou diminuir o impacto dessa tendência, que é uma tendência natural da nossa espécie. Por quê? Porque racionalmente a gente sabe que se a gente consegue fazer um governo que seja bom paraa maior quantidade possível de pessoas, isso é melhor para todo mundo. Agora, para você conseguir estabelecer um um governo que seja o melhor paraa maior quantidade possível de pessoas, você precisa eh você precisa não se dividir entre católicos e protestantes, homens e mulheres, eh pretos e brancos, eh tricolores e rubronegros, palmeirenses e corintianos, gremistas e e e e colorados.
¶45Você precisa conseguir Vitória é Bahia, a gente vai [risadas] >> eh a gente precisa conseguir nos vermos antes de tudo como brasileiros. >> Hum. >> Entendeu? Eh, então essa esse esse clamor tribal, essa vontade de pertencer um grupo que antagoniza outro grupo, essa coisa Monteéquios e Capuletos, né, para citar Romeo Julieta, que é a grande peça sobre guerra civil do Shakespeare, pra gente conseguir resistir. Você sabe que Romeu e Julieta tem uma peça sobre guerra civil, né?
¶46Uma par das pessoas acham que é uma história de amor entre dois adolescentes e não. >> O legal é que ela consegue mascarar isso. Muito bem. É essencialmente uma história sobre como que o ódio entre dois grupos dentro de uma mesma cidade é capaz de gerar tanto sofrimento e morte >> e autoengano, né? e auto engano por causa desse drive ligado ao pertencimento.
¶47Eu sou Monteéquio, você é uma Capuleto, precisamos nos odiar. Eh, eh, e, e, e o exercício de, de odiar o outro na frente de todo mundo é o que gera a sua sensação de pertencimento ao seu grupo. >> E aí vem aquela tal de timos que você estava falando, >> timos, que é essa necessidade que nós temos de pertencer a um grupo. E quando você vai para essa sociedade mais primitiva, que é dividida em tribos, as guerras religiosas europeias, entre protestantes e católicos, essencial no século X e X, essencialmente, eh, muita gente morreu na França, muita gente morreu na Inglaterra, eh muita gente morreu nos Países Baixos, muita gente morreu na Espanha. Eh, essa essa divisão é é a coisa que democracias nasceram para resolver.
¶48E a gente regrediu nos últimos 10, 15 anos no Ocidente a um período pré-iluminista em que a maneira como nós nos sentimos estarmos organizados passou, voltou a ser essencialmente um sentimento de tribalismo. Veja, eh, vamos separar petistas lulistas de um lado, bolsonaristas do outro. Eh, é claro que o grupo do Bolsonaro tentou dar um golpe de estado, que é o crime número um, o o pecado maior que você pode cometer contra uma democracia. Eh, e como é que você lida com isso? Você encara isso, lida com isso e pronto.
¶49É simplesmente o pecado capital contra uma democracia. Isso aqui é intolerável. Isso aqui não é permitido. Eh, o Biden ele tá preso, mas ele pode ser candidato porque é uma democracia. Todos somos iguais perante a lei.
¶50Você não é responsável pelos crimes dos seus pais. Mas ele segue pertencendo a um crime, a um grupo político que que acredita na na saída eh na ruptura democrática. Então, descontado o fato de que um grupo tentou um golpe de estado e o outro grupo não tentou um golpe de estado, quando você vai falar com as pessoas, as pessoas comuns que são bolsonaristas, que são petistas, o o que você ouve fundamentalmente, veja, não tô falando de políticos, eu não tô falando de pessoas que roubaram, que foram corruptas do lado da esquerda. Eu não tô falando de pessoas que foram corruptas do lado da direita. Eu não tô falando de pessoas que tentaram golpe de estado do lado da direita.
¶51Eu tô falando de pessoas que essencialmente encarnaram uma visão da outra, que é aquele adversário que precisa ser eliminado, aquele adversário que cuja presença em [limpando a garganta] sociedade é intolerável. Quando nós brasileiros começamos a nos dividir, olhar para outros brasileiros dessa forma, não, mas ele vota no Bolsonaro, não, mas ele vota no Lula. Eh, a gente tá essencialmente voltando a um tipo de sociedade tribal em que o Timos assumiu as rédias. E quando você tá nesse jogo, não existe racionalidade, não existe. O que existe fundamentalmente é essa necessidade de pertencer ao grupo ao qual eu pertenço.
¶52E a marca de pertencer ao grupo ao qual eu pertenço é querer que desapareça da sociedade aquele outro grupo. E o problema que a gente tem é o problema que todas as sociedades têm. Quando quando esse tipo de de situação se dá, e esse problema é a única solução é guerra civil, porque o outro grupo não vai desaparecer. 1 [limpando a garganta] quarto dos brasileiros, 25% dos brasileiros são bolsonaristas, eles não vão embora. [roncando] Eles não vão embora.
¶5335, 36% dos brasileiros votam no PT de cara. Na pesquisa espontânea, já falo Lula, eles não vão embora. Eles fazem parte do Brasil, eles são brasileiros. Quando você tem um pouco mais de 1/3 dos brasileiros aqui, 1/4 dos brasileiros ali, e e eles consideram que a única maneira de resolver o problema político é o desaparecimento do outro grupo. É a, ou não é o desaparecimento no sentido de morte, mas pensa na na coisa das guerras religiosas, católicos e protestantes.
¶54A única solução para um católico francês era a conversão de todos os protestantes ao catolicismo. Vocês voltem paraa Roma. A única solução pros proses, pros protestantes franceses era a conversão dos católicos. Vocês venham pro mundo de Calvino, eh, de Jan Calvan, não, não vai acontecer. Protestantes não se tornarão católicos.
¶55Os católicos não se tornarão protestantes. Bolsonaristas são pessoas conservadoras, não se tornarão petistas. Petistas não se tornarão pessoas de direita. Eh, e e ninguém percebe de um lado e de outro que a solução que na verdade desejam é uma solução que não tá à disposição. Então você tem esse ódio mútuo que é que é o afeto que tá dominando o nosso jogo político.
¶56[suspirando] Então aí, Yasmin, não se trata mais de qual é o argumento, não se trata mais de qual é a eh o algoritmo. Não se trata mais. Se trata de uma doença que a sociedade tá vivendo e que não vai se resolver tão cedo. Para quem tá de fora desse jogo, eu acho profundamente angustiante, mas isso é uma conversa que a gente vai passar tendo nos próximos anos ainda. >> Quando você diz isso, a alegoria que me veio, digamos assim, é de quando você tem e você é pai de três filhos.
¶57não com necessariamente idades tão próximas assim, mas que quando normalmente irmãos ou primos se desentendem e aí algum adulto na sala eh coloca essas crianças para pedirem desculpa uma paraa outra e meio que deixa elas ali brincando juntas e nessa conversa elas vão se acertando. Tô entendendo que de alguma forma a sua sugestão, não sei se ela é viável, mas talvez o seu conselho a partir aqui da da pergunta do do desabafo do Víor Rafael nessa situação que ele vive na empresa, onde ele trabalha e tal, é que haja uma manifestação, haja conversa. É mais ou menos por aí. >> [roncando] >> É a única solução. Conversa é a única solução.
¶58Quando você tem disposição, [suspirando] se você é petista, senta para conversar com os bolsonaristas que existem na sua vida. Não é para perguntar por que você vota no Jair Bolsonaro. Pergunta quais são os valores dessa pessoa. Eh, você vai à igreja? Que igreja você vai?
¶59Por que que você vai à igreja? O que que você que que te emociona na igreja? Eh, que que você acha sobre violência? Que que você acha sobre educação? Que que você acha sobre eh sobre emprego sobre escala 6 para um?
¶60Que que você acha? Tipo, e tira os nomes dos políticos e os nomes dos partidos e começa a conversar. E veja, se você é bolsonarista, faz o mesmo exercício com o seu amigo petista. O que você vai descobrir é que tem uma quantidade imensa de temas sobre os quais vocês concordam. Veja, haverá também temas pelos quais vocês discordam, mas você vai ter surpresas.
¶61Talvez um vai querer medidas mais duras a respeito de segurança e o outro não. Eu aposto que você vai chegar em temas como aborto, como casamento homoafetivo, como que você vai descobrir que pessoas de direita são muito mais tolerantes do que parecem ser, do que às vezes inclusive na richa os discursos são porque aí você adota. Mas quando você começa ali no É, não, eu acho, eu tenho um primo que é casado com outro cara. Eu adoro esse primo. Eh, eu você começa a descobrir essas coisas.
¶62Veja, Eduardo Leite foi eleito governador de um dos estados mais conservadores da União. A a as pessoas não são monstros, as pessoas são razoáveis. A a maior parte das pessoas são razoáveis. Eh, >> acho que tá aí o convite, Vittor. Se você ainda não chegou para conversar com ninguém da sua empresa, quem sabe, não é esse o momento.
¶63Bom, Pedro, vou te liberar. >> Sim, senhora. >> Tá certo. >> Você está? >> Vamos, pô.
¶64Por favor, [suspirando] >> semana, semana não, não deu trégor >> não. >> Vamos nessa, então. Ali. Obrigada. Muito obrigado.
¶65>> Essa campanha tem que começar a verdade, derrotando a mentira. O filho mais velho do capitão segue aqui de pé, firme e forte ao lado do povo brasileiro. [música] Os dois estão jogando o mesmo jogo, cada um preocupado [música] com a sua eleição. Ninguém tá preocupado com o Brasil. [música] >> Tudo que dá certo nesse país parece que o Pedena não gosta.
¶66[música] Nós não precisamos ser refém de um debate político construído entre um mongoloide como Flávio Bolsonaro e um cachaceiro senil como Lula. >> [música]