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Diploma de jornalismo é coisa de ditadura | De Tédio a Gente Não Morre

¶1Eu sou jornalista formada em jornalismo e sou totalmente contra a obrigatoriedade do diploma. Isso não significa de jeito nenhum que eu acho que a nossa profissão deva ser exercida sem regras, sem método ou sem responsabilidade. Muito pelo contrário, tá? Essa discussão que voltou com tudo nos últimos dias, porque dois ministros do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino e Alexandre de Morais, defenderam rediscutir a decisão histórica que aconteceu em 2009, que derrubou a exigência do diploma no Brasil. O Dino disse que o sigilo de fonte não pode ser usado para desinformar e que não dá para estender as garantias da imprensa a qualquer blogueiro.

¶2O Moraes concordou, falou em evitar o cometimento de crimes e até sugeriu criar uma regra de transição para quem já atua na área sem o diploma. Só que essa conversa não caiu do céu por acaso. Ela acontece exatamente quando o Tribunal Supremo enfrenta críticas pesadas por ter autorizado a quebra do sigilo de um jornalista do Maranhão, o Luís Pablo. Ele publicou reportagem sobre o uso de carros oficiais do Tribunal de Justiça por familiares do ministro Dino. o sigilo do comunicador foi quebrado, entidades de imprensa protestaram e o próprio relatório da Polícia Federal concluiu que não havia crime nenhum e que ele estava resguardado pela liberdade de imprensa e pelo sigilo da fonte.

¶3Essa notícia de que a Polícia Federal concluiu em relatório que não é possível afirmar que o jornalista recebeu dinheiro, como ele tava sendo acusado, para fazer reportagens sobre o Flávio Dino, tá circulando desde quinta, dia 20 nos veículos tradicionais. Agora, vamos lá. Quando o debate do diploma reaparece colado a um caso desses, a pergunta que deveria estar na mesa não é sobre como melhorar o texto ou a checagem das notícias. A pergunta real, quem é que o estado finge que vai proteger? E essa pergunta nunca é inocente.

¶4O poder público só se preocupa em definir quem é jornalista, gente, quando precisa decidir quem ele é obrigado a respeitar e quem ele pode investigar, enquadar ou calar. A história mostra isso com clareza. A obrigatoriedade do diploma no Brasil não nasceu para qualificar o debate público. Ela foi criada em 1969 por um decreto da ditadura militar. O objetivo dos generais era muito simples, controlar quem entrava nas redações, ter uma lista com nome, endereço de cada um e decidir quem tinha licença oficial para trabalhar.

¶5Teu estado emitindo credencial para definir quem pode fiscalizar o próprio estado é um contassenso do começo ao fim. Vamos olhar paraa nossa formação com honestidade. 4 anos sentado numa faculdade de jornalismo não garantem que ninguém saiba fazer uma apuração complexa. O curso tradicional de jornalismo ensina técnicas básicas de redação, muita teoria acadêmica, mas o mundo real exige um nível de especialização que a graduação em comunicação não entrega. Quando eu cobria a área de saúde, talvez vocês não saibam, eu fui estudar dois anos de nutrição, encarei anatomia, fisiologia, fiz dezenas de curso por fora para realmente entender a fundo os assuntos sobre os quais eu escrevia.

¶6A política sempre esteve no centro do meu trabalho e eu fui estudar relações internacionais. Nada disso me foi ensinado um dos 4 anos que eu passei na faculdade de jornalismo. Hoje, a melhor cobertura de saúde é feita por quem entende de epidemiologia e ciências biológicas. A melhor cobertura de economia é feita por quem sabe ler balanço contábil, destrinchar contas públicas. Jornalismo investigativo de ponta depende de gente que sabe programar, cruzar bases de dados gigantescas, auditar planilhas do governo.

¶7Para e pensa nos países desenvolvidos, o caminho, o caminho é quase sempre o oposto do nosso. As pessoas fazem uma graduação sólida em direito, economia, ciência política, história, estatística, aprendem o ofício do jornalismo na prática ou numa especialização. Então, vamos falar uma coisa que deveria ser óbvia. Defender que o diploma não seja obrigatório não é defender menos qualificação, é defender que pessoas mais qualificadas em diferentes áreas possam oxigenar as redações e aprofundar a apuração. Eu aprendi o peso da responsabilidade jornalística no dia a dia, guiada pelos manuais de redação dos grandes veículos em que eu trabalhei.

¶8O manual de um jornal sério ensina o que a que faculdade nenhuma consegue incutir na marra ali no banco. a obrigação de ouvir todos os lados, rigor na checagem antes de publicar, a independência em relação às fontes, a obrigação de, em caso de erro, corrigir com transparência e ter sempre um compromisso ético com o leitor. Isso é método, processo editorial e autorregulação. Ninguém precisou de uma canetada de Brasília para que esses manuais fossem criados e cumpridos com rigor. Eu sei que no no meio dessa polarização, infelizmente, o que a gente vê é que as pessoas as pessoas não estão interessadas na verdade, elas querem a notícia que confirma as suas crenças, o que ela acredita, a sua ideologia.

¶9Nada que manche a reputação do lado que ela defende. Vocês podem não acreditar porque só acreditam no que querem, mas para um jornalista sério, comprometido com a profissão, errar uma informação é motivo de decepção, de tristeza, de autoflagelo. Eu passei pouquíssimas vezes por isso, mas todas as vezes eu assumi meus erros, comuniquei meus erros publicamente, como deve ser, e passei uns dias numa ressaca moral, me achando a pior das profissionais. Jornalista sério não quer errar. O primeiro compromisso do jornalista é com a verdade.

¶10Mas vamos lá, como é fora do Brasil, né, internacionalmente, a exigência do diploma é uma anomalia. Para vocês terem uma ideia, em 1985, a Corte Interamericana de Direitos Humanos julgou um caso clássico da Costa Rica e decidiu que exigir diploma ou registro obrigatório para exercer o jornalismo viola diretamente a Convenção Americana sobre Direitos Humanos. E o Brasil assinou esse tratado. Nos Estados Unidos não existe uma carteira profissional nem autorização do governo. As leis de proteção ao sigilo de fonte funcionam por um critério estritamente funcional.

¶11é avaliado o que a pessoa tava fazendo. Tinha apuração, tinha interesse público legítimo, teve método editorial. Se sim, a atividade tá protegida. Pouco importa se a pessoa estudou jornalismo, história ou engenharia. Na França, em Portugal, a carteira existe para garantir direitos trabalhistas e acesso a prédios públicos, mas quem e eh essas autorizações são comissões profissionais com base no exercício comprovado da atividade na renda gerada por ela, não no diploma universitário.

¶12E tem outro aspecto decisivo. O diploma funciona como um filtro social. perverso. Exigir 4 anos de ensino superior exclui do debate o comunicador comunitário da favela, o jovem que cobra a realidade da sua aldeia indígena, os coletivos de periferia e o sujeito do interior, que é o único a fiscalizar os gastos da Câmara de Vereadores lá da cidade dele. A grande imprensa não consegue ter repórteres em todos os lugares.

¶13Criar uma barreira de entrada significa significa silenciar justamente quem cobra as realidades que as grandes cidades, grandes redações não alcançam. Eu sei qual é o ponto que incomoda muita gente e esse problema existe de verdade. Há pessoas que usam o rótulo de jornalista ou criam blogs para chantajar políticos, espalhar difamações ou cometer crimes. Isso é real e não dá para varrer para debaixo do tapete. Só que diploma nunca foi atestado de caráter.

¶14A história da imprensa tá repleta de fraudes, reportagens plantadas, escândalos cometidos por profissionais diplomados. Chantagem, calúnia e extorção não se combatem com o carimbo do Ministério da Educação. Até rimou. Se combatem com o Código Penal e com a justiça. Gente, quem comete crime responde nos tribunais com ou sem diploma.

¶15O que separa a reportagem séria do panfleto criminoso é o método, a existência de pauta, apuração, checagem, processo de edição e responsabilidade diante do público. A proteção da lei deve acompanhar o ato de fazer jornalismo e não a carteirinha que a pessoa carrega no bolso. Eu compreendo, tá? Eu entendo a angústia dos sindicatos quando tentam ressuscitar essa essa exigência. As redações encolheram, os salários caíram, o trabalho precarizou e a profissão vive uma crise profunda de modelo econômico.

¶16Mas veja só, tentar salvar o mercado criando uma reserva cartorial é uma ilusão. Cartório não cria postos de trabalho, apenas fecha as portas para novos talentos, empobrece a nossa cobertura. O jornalismo livre não precisa de tutela do Estado para decidir quem tem o direito de fazer perguntas. Ele precisa de independência, proteção as suas fontes e muito rigor na apuração. Se você hoje tá aplaudindo ver jornalista ser caçado, silenciado, pode ter certeza que amanhã será gente que você admira e defende que tenha liberdade para trabalhar.

¶17É nesse ambiente que você acha que um estado democrático se sustenta? Pensa bem. E para quem gosta de ver como essas engrenagens de apuração, ética e sigilo de fonte funcionou na prática, separei três filmes excelentes aqui sobre jornalismo investigativo que valem valem muito a sessão. Vamos lá. Esse é nem é tem 10 anos Sportlight mostra a equipe de investigação do do jornal The Boston Globe apurando os casos de abuso sexual encobertos pela Igreja Católica.

¶18É uma aula indispensável sobre método, paciência e checagem de dados. Eh, outro filme é The Post, A Guerra Secreta, de 2017, que retrata a decisão histórica dos jornalistas e dos donos do The Washington Post de publicar os documentos secretos do Pentágono sobre a guerra do Vietnã. Eles enfrentaram pressões diretas do governo americano e mesmo assim foram adiante. Outro filme Nada Além da Verdade 2008, que foi inspirado no caso real da jornalista Judit Miller. O filme conta a história de uma repórter que prefere ser presa a quebrar o sigilo da fonte e revelar a identidade, né, dessa fonte pro governo.

¶19Eu quero saber o que que vocês pensam sobre essa discussão de diploma. Se vocês já assistiram algum desses filmes, deixem aqui as opiniões de vocês nos comentários pra gente continuar essa conversa, porque ela é uma conversa necessária. E ó, eu tenho mais dica. Estriou hoje o documentário Eleições 2026, a escolha. O filme reúne jornalistas, cientistas políticos e outras vozes para analisar não só os candidatos à presidência, mas o Brasil que vai decidir essa eleição.

¶20Eu te garanto que esse dooc vai te ajudar a tomar sua decisão com mais consciência e clareza. Fica essa dica, mais essa dica pro final de semana. Se você ainda não é assinante do meio premium, o link vai tá aqui na descrição do vídeo. Bora assinar e assistir mais essa produção exclusiva do streaming do meio. A gente se vê na semana que vem.

¶21>> Essa campanha tem que começar a verdade derrotando a mentira. O filho mais velho do capitão segue aqui de pé, firme e forte ao lado do povo brasileiro. Os dois estão jogando o mesmo jogo, cada um preocupado com a sua eleição. Ninguém tá preocupado com o Brasil. >> Tudo que dá certo nesse país parece que o Pedena não gosta.

¶22Nós não precisamos ser refém de um debate político construído entre um mongoloide como Flávio Bolsonaro e um cachaceiro semil como Lula.