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A Odisseia e o fascínio da literatura grega, por especialista da USP

¶1As pessoas continuam investidas na jornada de Ulisses ou Odisseu, né, de volta para Íaca. Esperam que o final de Orfeu e O Euríd seja diferente e se encantam com o amor do Cupido e Psiquê. A literatura grega, passados milhares e milhares de anos, cede cativando leitores e espectadores. Por quê? Para responder a essa questão, convidamos a professora Juliana Raguza, eh, que ensina a literatura grega na USP, eh, foi premiada com o prêmio Jabuti, para explicar o que compete tanto nessa, o que compele tanto as pessoas a se interessarem por essas histórias e se é possível adaptá-las para tempos atuais, pros tempos atuais, bem como se é possível também dizer ou cravar se uma adaptação é boa ou não é.

¶2Juliana é doutora em Letras Clássicas também, a gente já passou um pouquinho por aqui, em poesia grega, antiga e autora de fragmentos de uma deusa, como eu mencionei, premiado com jabuti da tradução safo de lésbos e do guia de leituras da Elída e da Odisseia de Homero, que eu recomendo todos e a lerem, aproveitando esse embalo agora e da Odisseia. Juliana, bem-vindas. Vamos nessa. Vamos começar. Vamos, vamos nessa.

¶3Vai ser um prazer. [música] Bom, Juliana, novamente um prazer estar com você aqui. Eh, queria começar falando, tá todo mundo comentando, obviamente, né? você já falou, tem falado sobre a Odisseia, que tá fazendo um enorme sucesso, milhões de eh de espectadores pelo mundo. É, mas na verdade, se a gente for olhar, é, você tem também na Broley hoje em dia, aquela é uma um musical Heidenown baseado no mito de Orfeu, né, que por sua vez também eh foi uma peça e um filme, né, do Vinícius de Moraes no Brasil.

¶4Eh, na sua visão, por que que as histórias, a literatura grega, a mitologia grega, eh, numa cultura ainda 3.000 anos atrás tão diferente, como é como e por isso ressoa tão fortemente hoje em dia, ainda na nossa cultura, no nosso imaginário, a ponto de ser tão popular como é-se, continua sendo, a cada passam-se décadas e continua esse processo de renovação desse interesse? Ah, bom, obrigada pela oportunidade de estar hoje com vocês aqui. Eh, certamente a resposta não, digamos, não será uma resposta simples e nem eh apenas um fator será responsável por essa longevidade, acho que podemos dizer, né, eh dessas obras que se mantém eh tão vivas entre nós. Ah, mas nós poderíamos talvez elencar a entre os fatores eh o próprio fato de que eh sobretudo na essas obras mais presentes, elas são boas histórias, tá? Boas histórias muito bem contadas, né?

¶5Eh, e se nós pensarmos uma das das primeiras maneiras pelas quais nós nos relacionamos com o mundo ao redor é justamente eh contando uma história, tá? Quer dizer, eh portanto, eh esse eh essa poesia grega, né, que que permanece tão viva, ela é fundamentalmente a sobretudo a poesia épica, a mas mesmo a tragédia. Só eh essa poesia está contando uma história e uma história sobre experiências humanas, tá? O as personagens podem ser heróis, podem ser filhos dos deuses e, por isso podem parecer eh distantes de nós, mas elas são personagens absolutamente humanas, tá? Que vivem experiências que todos nós podemos viver.

¶6grandes êxitos, eh, eh, seguidos de ruínas eh avaçaladoras, hã, grandes perdas, grandes aventuras, eh, o enfrentamento da própria mortalidade na Arena da Guerra. Quer dizer, as experiências que elas contam, né, são experiências que ultrapassam a questão do tempo e do espaço, né? eh, atravessam o tempo e o espaço e podem, por isso, como você diz, serem eh eh serem eh repensadas, reconfiguradas, podem fazer parte do nosso, digamos, diálogo cultural, h imaginação, no fundo, com a imaginação humana, né, eh, que nunca está descolada da realidade, mas tá o tempo todo pensando a realidade, represent entando a realidade eh em tudo que ela pode ser. Ah, então então essa essa esse é um outro dado, né? São narrativas e são mesmo que hajam os deuses.

¶7Ah, no mundo grego, eu sempre brinco, eh no mundo grego não são eh os homens criados à imagem e semelhança dos deuses, mas os deuses criados à imagem e semelhança dos homens. Eles são muito humanos, né? Ah, portanto, quer dizer, a despeito de desses elementos que podem parecer que nos colocam a, digamos assim, distantes, eh, é é uma é uma a é uma poesia eh profundamente humana que tá pensando o homem, a natureza humana, o lugar do homem no cosmos e que faz isso de uma forma eh que eh digamos que nos arrebata, porque eh o O que o que é muito importante também para paraa permanência de uma obra é a capacidade de ela sempre ter algo a nos dizer, sempre falar conosco, não importa em que tempo e espaço estejamos. eh uma capacidade que é potencializada pelo modo como ela é feita, quer dizer, e pelo arrebatamento, pela experiência de beleza que ela nos proporciona. Então, acho que esses seriam alguns motivos, né, para a permanência.

¶8Mas tem também um motivo histórico. Ah, a cultura grega foi a base eh sobre a qual se fez a cultura latina. Quer dizer, e o mundo latino, o mundo romano, ele em ele dá forma a uma série de instituições que historicamente estão ainda, organizando as nossas vidas. Portanto, ainda, né, o filtro, nós podemos dizer o filtro romano, o filtro latino, é a também algo que eh contribui para a a permanência dessas obras eh ao longo do tempo. Elas são retomadas depois, claro, por vários movimentos, mas é esse filtro é realmente muito importante, né?

¶9Então, é muito interessante falar isso, porque continuando um pouco essa pergunta, eh eh eu eu fico pensando e queria te perguntar sobre esse olhar, se a gente pensa muito, ah, mas é há 3000 anos atrás e ainda há interesse, mas se o que você tá trazendo também é que ao mesmo tempo há muito dessa estrutura no próprio audiovisual, na literatura, da forma como se contou e se construíram essas histórias, esses arquétipos. A gente pode ver na tragédia grega também, na psicanálise, em várias áreas do conhecimento humano que na verdade formam a maneira com que a gente vê e pensa as obras atuais também, né, em outras áreas. Então também há uma identificação que vai além de se interessar pela obra, né? Aquela obra também construiu como a gente faz filmes, como a gente faz livros, como a gente organiza nosso pensamento. >> Exato.

¶10A Odisseia, por exemplo, que é esse para falar desse poema que tá tão em evidência, não é? E e aliás, essa é uma grande contribuição do do filme, né, o interesse pelo pelo poema, né, só por isso, né, já vale. Eh, mas se pegarmos a Odisseia, que é essa grande obra de narrativa de aventura, tá? a quantidade e a variedade de técnicas eh narrativas, ou seja, de elementos, artifícios, técnicas que eu uso para poder contar uma história que é uma história que contém presente, passado, futuro. É uma história que tem que dar conta de muitos espaços.

¶11Não é uma história que acontece num espaço e e tem uma linearidade, né? segue sempre eh numa trajetória, não é? É uma são vários espaços, são vários tempos. Eh, ela ela é uma história que não é contadamente, né? E, eh, e além do mais, ela tem dois planos narrativos.

¶12aquela aquela coisa do enquanto isso, né, em Ítaka, enquanto isso no mar, quer dizer, o poeta tem que dar conta de muitos acontecimentos em dois planos narrativos diferentes. A gente usa essa plano narrativo, flashback, né? São o o são técnicas que permanecem, que estão aí, que nós usamos em todas as linguagens, né? eh, que constróem, digamos, a nossa a nossa narrativa, a nossa imaginação, né, eh, em narrativas postas em diferentes formatos. O >> o daria um bom roteirista, já tava preparado para vir para Hollywood.

¶13[risadas] >> Eh, mas professora, voltando um pouco para essa questão justamente da profundidade, né? Porque até pegando, uma das coisas que se fala, se discute sobre a Odsaia, por exemplo, a adaptação do Nola, é se ele conseguiu dar conta ou não conseguiu dar conta, na visão de muitos, da profundidade daqueles personagens, da, vamos dizer, menos da parte épica da história e mais da parte humana, filosófica, das dúvidas, das questões, eh, que estavam ali dentro. Mas eu acho que é uma pergunta que transcende a a própria Odisseia, né? Aí citaria, eh, você tem várias obras interessantíssimas sobre o tema, né? E uma das primeiras, a primeira, se eu não me engano, que foi premiada com jabuti, é sobre Afrodite, né, que é também um personagem extremamente presente na nossa cultura, mas é muito vista, talvez, ou em certa medida, como aquela ideia da deusa do amor também é uma uma um olhar para ela que absorve apenas uma parte daquilo.

¶14Então, particularmente sobre a Afrodite, fazer um pouco da sua visão, o que que ela tem para além disso e também em relação a essa visão mais ampla, como é possível e se é possível equilibrar quando a gente traz essas obras para um olhar mais popular, mais disseminado, equilibrar o que há de arquetípico, né, daquela imagem ou épico no caso da Odisseia, com essa profundidade também da discussão humana que estava tão presente como se trouxe nos deuses e e nos próprios, né, da relação dos deuses com as pessoas, mas que não é só o épico, mas como como é esse equilíbrio e se é possível fazer esse equilíbrio em em visões mais populares, mais disseminadas. Então, vamos lá. Bom, ah, só dizer que o épico é humano, né? Porque a epopeia, a poesia épica, ela nada mais é do que o canto dos grandes feitos dos grandes homens. A presença dos deuses, ela é indicativa de quão excepcionais esses humanos são, a ponto de os deuses eh se ocuparem deles e participarem ativamente das suas vidas eh e e das suas experiências, né?

¶15Então, eh é absolutamente humano. E esse esse imaginário não trabalha com arquétipos, exatamente, que é uma ideia eh já da recepção na psicanálise, né? mas trabalha com eh pessoas fundamentalmente. Os deuses gregos são, no fundo, pessoas, né? Eh, se nós pensarmos na em Afrodite, eh, Afrodite é uma deusa aqui, uma deusa grega, hã, a eh, que eu estudei em várias obras, né?

¶16Eh, a primeira delas, como você referiu, é a ela se volta à poesia de Safo, né? safro, poeta da ilha de Lesbos, né, que viveu entre 630 a 580 anes de. Cristo, né? Eh, eh, então, estudo na poesia que restou de Safo, essa deusa, que para nós, como você bem disse, ela sobrevive como a deusa do amor, né? Mas no mundo grego é uma personagem mais complexa.

¶17E, claro, a própria ideia de amor é uma ideia moderna, uma ideia nossa. Porque quando falamos em amor temos uma ideia eh romântica, tá? Eh, ah, como algo que aproxima as pessoas eh por uma de por, digamos assim, de uma maneira que envolve corpo e alma, se quisermos, né? Hã, eh, mas Afrodite é a deusa, eh, de Eros, que significa em grego desejo, falta de e desejo sexual, né? Então, quando falamos de da de Afrodite, nós estamos falando de uma deusa a que rege fundamentalmente o desejo sexual.

¶18é uma força que ela envia sobre eh deuses e sobre os mortais, sobre e contra, porque é uma força sempre projetada como avaçaladora, né? Ela é e como uma força, eh, digamos, ativada pela contemplação da beleza do corpo eh do outro, né? Ah, o a, portanto, eh, o EOS entra pelos olhos, né? O desejo, ele tem como porta de entrada os olhos, porque ele tá diretamente necessariamente eh ligado à beleza, né? ah, é inteiramente físico, portanto, ela é uma deusa da sedução.

¶19Ah, ela é uma deusa que tem participação no mundo do casamento, porque, afinal de contas, o casamento no mundo antigo, ele tem uma função, digamos, social, claro, eh, de estabelecer esta que é a célula básica da organização de uma comunidade, a casa, a família. Eh, mas ele ele também eh [limpando a garganta] é uma formação de alianças muitas vezes e ele tem uma função que é a procreação. Então, nesse sentido, Afrodite é uma deusa importante no casamento, porque o a procreação, claro, ela é obtida através do enlace dos noivos, do sexo entre os cônjuges. Ela também tem outras dimensões que para nós meio que se perderam. Ela é uma deusa que, como ela une, inclusive une os contrários, gerando vida e não gerando destruição, por exemplo, ela eh atua como deusa que acalma o mar, que protege os navegantes, né?

¶20ela pode acalmar os elementos, ela protege, ela é cultuada muitas vezes em enceadas, né, e portos, porque protege, né, quem navega. E ela, inclusive tem a a mais tarde ela será cultuada no domínio jurídico, porque é aquela que pode ajudar a trazer o consenso, tá? na medida em que eh é capaz de eh unir forma forças contrárias no sentido eh de gerar algo positivo, né? Ah, como eu disse antes, então é uma deusa que tem muitas facetas. É claro, a poesia, os poetas gregos, os prosadores vão às vezes enfatizar um lado, eh, mais um lado, mais outro.

¶21Eh, mas claro, quando nós vamos olhar eh na poesia e trazer, trazendo a arqueologia, trazendo a religião, trazendo os outros elementos, você tem, né, uma imagem eh que é multifacetada, que é carac, os deuses gregos, eles podem ter um território principal, mas eh isso não significa que eles sejam eh monolíticos, né, ou eh só ten uma faceta, né, em geral eles são mais complexos do que isso. Agora, para nós prevaleceu o que é fundamental em Afrodite, nós decodificamos agora, né? Eh, para nós, nós falamos em amor. Isso é, né, o o que fica como, ã, aquilo que é o o mais importante, o mais forte, enfim, o mais desejável. Mas, mas Afrodite, quer dizer, é uma é uma maneira modernizada de eh de pensar Afrodite, mas é importante, quer dizer, o modo como de alguma maneira ela continua eh significando algo para nós.

¶22Eh, e claro, a partir do momento em que nós reconhecemos eh que há ainda sentido nesta imagem, a Afrodite continua viva para nós, né? associada, acho que podemos dizer ao amor e também à beleza, né? Pensemos na Vênus de Milo, que é uma das peças mais eh mais vistas, mais procuradas, por exemplo, no famoso Museu do Luvo, né? É uma das obras mais visitadas ali, eh, como a um um a deusa da beleza, né? um modelo de eh de beleza.

¶23>> Ah, interessante. Pensando justamente essa questão da reapropriação, isso >> também, né? Eh, a gente tem além da da Odisseia, que tem também aí discussões sobre personagens femininos, sobre a perda de de espaço ou de profundidade, mas ao mesmo tempo a gente também tem outros tipos de olhares entre autoras muito populares, né, atualmente, como a Margaret Wood, por exemplo, que que trouxe esse olhar, né? E e há uma tendência também de dessa desse, eu não sei se poderia dizer, até faz parte da pergunta, se é uma releitura ou é apenas um olhar, mas esse olhar das mulheres, né, esse olhar da presença da da do olhar da da história, da presença feminina na literatura, eh, na mitologia, eh como é que você vê isso e se isso é uma reapropriação ou é na verdade apenas uma escolha eh de onde eu vou est vou tá olhando para aquela cultura, para aquela literatura? Olha, hoje há uma área dos E com isso eu eu respondo essa pergunta e também parte do que você perguntou antes, que eu acho que a resposta não foi tão completa, mas é uma área que neste momento está muito forte aqui no Brasil, eh, movendo muitos estudos, discussões, que é a chamada recepção dos clássicos.

¶24Eh, é um, nós inclusive na USP estabelecemos eh uma linha de pesquisa em recepção dos clássicos no nosso programa de pós-graduação em Letras Clássicas. O que que significa isso? Justamente olhar para como as obras são reapropriadas, eh, recriadas e e ressignificadas, né? Quer dizer, eh, é claro que eu vejo isso com bons olhos, porque é importante que as obras, que é é um dos movimentos pelos quais as obras continuam presentes, continuam vivas, elas não ficam, né, não caem no esquecimento. Eh, então eu sempre digo, quer dizer, como é que uma obra permanece viva?

¶25Eh, porque nós continuamos estudando, lendo, traduzindo, né? Mas também eh eh fazendo esse movimento de recri-las na língua do nosso tempo, né? É claro que nessa recreação, eh, as obras eh serão, digamos, atualizadas, né? eh modernizadas, eu poderia dizer, mas atualizadas talvez seja um termo menos carregado, né? Ah, e nessa atualização elas dirão coisas que por vezes estarão mais próximas de nós do que eh do que digamos dos das obras nos seus contextos, mas que elas tenham essa capacidade, né, de eh de serem ressignificadas, de serem trazidas para mais perto de nós.

¶26Isso é importante para a nossa relação com elas, que que não fiquem eh eh engessada e que também não fique, digamos assim, idealizada, né? Ah, agora, é claro, você falou, né? É claro que eh num processo de de apropriação e de recriação e ressignificação, hã eh há elementos que vão ser perdidos, eh, como há há elementos que podem ser ganhos, né? Quer dizer, o jogo a um equilíbrio depende de cada realização, né? Eh, eh, mas a h a há mudanças que podem ser eh mais profundas na obra, né?

¶27Eh, e elas podem parecer eh mais distantes até do que às vezes gostaríamos, eh, do que essas obras eh são naqueles contextos ou do que elas são tal como elas se apresentam para nós. Quer dizer, a atualização ela pode ser feita em graus variados, né? Eh, eh, mais intensos, menos intensos. Isso são escolhas. Agora, o que algo muito presente hoje é justamente uma valorização, isso não é só com os clássicos, né?

¶28é é um movimento geral, uma valorização justamente das personagens femininas, eh de, eh, eh, nomes femininos da poesia e da prosa antiga. Quer dizer, isso para nós hoje é algo importante, eh, e faz parte de um movimento muitas vezes de resgate. Embora no caso de certas figuras, como Saf, essa poeta que eu estudei no meu primeiro livro, ah, ou como as personagens da Odisseia, ah, elas elas estejam muito presentes também, acho que não precisam eh tanto serem resgatados, né? Ou uma heroína como Antígon eh é uma das festas mais >> representadas e eh renovadas, eh também ressignificadas, enfim. Então, eh, eh, eu acho que essa atenção, né, ao mundo feminino, ela é muito, ela fala muito de nós neste momento, né?

¶29Eh, e já por si esse movimento por si já é um movimento eh atual na nossa relação, né, com as obras. Então, então essa eh eu enxergo como muito positivo, né, esse esse movimento. Se isso resulta numa obra eh que eh será bem apreciado ou não, eh se haverá equilíbrio ou não, aí é uma decisão um pouco eh depende de quem olha paraas obras, depende de quem vê, depende de quem, quer dizer, aí é são as reações eh pontuais, né? como é que como é que elas vão ser avaliadas, seja pela crítica, seja por quem vai ao cinema, que tem o direito de gostar ou de não gostar do que vê. Quer dizer, é simples assim, né?

¶30Achar que achar que o diretor resolveu bem ou achar que o diretor não resolveu bem. Mas isso eh, digamos é, né, eh diz respeito a como está realizada aquela aquela obra. Eu queria até voltar isso depois, eh, mas a gente tiver indo pro final até voltar a esse assunto, porque eu sei que você tem também um guia de, eh, de leitura da Odiceia, né? Eh, que eu acho que é muito interessante também a gente voltar para isso de como é que essa popularização também pode servir para levar esse olhar, para buscar esse interesse aí sim eh de um aprofundamento a gente ter mecanismos também, né? eh literatura, mecanismo que a gente possa fazer, se aprofundar a partir desse interesse, não tem necessariamente que ser um especialista para poder entrar ali, ter um olhar para aquilo.

¶31Mas vou fazer essa pergunta em seguida, já cruzando, eu queria pegar uma questão sobre esse essa questão da mulher, do feminino na literatura, na cultura, na mitologia grega. Eh, posso estar cometando aqui, cometendo aqui várias propriedades. Não peço que [limpando a garganta] você me corrija se eu cometê-las, mas a gente tem um olhar de que a mulher tem um papel muito forte, né? Você tem grandes ícones da literatura, da literatura ocidental baseados na na mitologia, na literatura grega. Você mencionou antigo, né?

¶32A gente tem Afrodite, nós falamos agora, tem Atenas, que também é muito forte no filme. Tem todos esses personagens da Odisseia, né, Circe, que inclusive ali, apesar de uma participação pequena, é muito forte. né, no próprio filme, né, e ao mesmo tempo, em termos sociais ou políticos, tem-se a percepção de que a mulher eh exercia um papel muito limitado, né, pela ordem masculina na democracia grega, na estrutura social grega. Isso é verdade? Como é que é?

¶33É ou se é eh como é que é essa dualidade, como é que é essa relação entre personagens eh eh tão fortes no imaginário, na concepção da da humanidade, na verdade, e esse papel da mulher socialmente naquela naquela sociedade? Eh, de fato, né, nós temos deusas poderosíssimas, nós temos heroínas eh marcantes, hã, e temos eh nomes importantes da eh poesia, da prosa, que são, né, [limpando a garganta] mulheres, hã, que tem o seu lugar, né, eh, digamos, na história. Ah, agora quando nós pensamos as mulheres no mundo grego ah antigo, o que fica muito presente até na sua fala é um retrato que que é um recorte, né? Eh, o retrato das mulheres na Atenas da democracia. E quando você fala da Atenas, da democracia, nós estamos falando de uma cidade no século V antes de Cristo.

¶34Quer dizer, eh, a Grécia histórica, né? Eh, se nós ficarmos nem formos [limpando a garganta] aos antepassados, a Grécia histórica, ela começa em 800 antes de Crist, mais ou menos, né? Eh, então o período, o século Vto é um é um recorte e a cidade de Atenas é uma de todas aquelas cidades gregas que talvez, né, eh, se lembrem aqueles que estudaram um pouquinho, né, de antiguidade, são as famosas cidades estados, né, a a polis, né? O que que significa polis? Significa que as cidades viviam segundo as suas próprias tradições, segundo elas tinham autonomia para viver como se elas fossem h digamos independentes das outras cidades que estão por aqui.

¶35A Grécia nunca foi na antiguidade uma federação, uma unidade, né? Não havia algo organizando tudo, não. Havia um uma quantidade grande de cidades, as póleis, né? cidades estado em regiões variadas que tinham as suas próprias as suas próprias tradições dialetais, dialetos diferentes, que tinham as suas tradições cultuais. O culto Afrodite, por exemplo, numa cidade e noutra podia ser muito diferente, muito diferente.

¶36Eh, a essas cidades tinham as suas tradições poéticas, métrico mususicais e tradições míticas, porque os mitos às vezes na nossa recepção, nossa na nossa cabeça, eles ah, esse mito é assim, não existe o mito, na verdade, né? H eh o que existem são tradições míticas e dessas tradições todas que t variações, algumas ficam mais dominantes, ficam mais famosas, inclusive porque nós as conhecemos, temos as fontes e, portanto, podemos conhecê-las melhor numa certa versão e não em outras. Eh, então, eh, não é difícil para nós conhecermos, né, como era a vida da mulher. eh em toda em todo esse universo que é muito múltiplo. Eh, e quanto mais para trás nós vamos, mais difícil por causa da das fontes, da sobrevivência de fontes.

¶37Mas você podia, por exemplo, as mulheres em Esparta, elas tinham muito mais eh digamos assim agência sobre inclusive as suas decisões que afetavam, né, o seu futuro do que em Atenas na mesma época. elas tinham uma vida externa eh pública muito mais eh muito maior do que as mulheres em Atenas. Quer dizer, então mesmo na mesma época você pega outra cidade famosa, Esparta, eh eh era muito diferente a vida das mulheres. Agora, o que que eu posso te dizer? Qual é o elemento comum?

¶38O elemento comum é que a vida feminina, ela no mundo antigo, o universo feminino, o universo masculino, eles correm paralelos. A gente diz, eles se tocam em dois pontos, ã, no casamento e na morte. Tudo eh, é definido, segundo, né, no universo masculino e no universo feminino, pelos papéis sociais que são esperados de homens adultos e de mulheres adultas. Para as mulheres, fundamentalmente, o papel social, ele tá ligado a uma vida que não é a vida pública na arena pública, mas uma vida eh na arena interna da casa. Então, a casa é o espaço feminino por excelência e os papéis sociais que inserem a a mulher nas comunidades eh são os papéis de esposa e mãe.

¶39Isso para nós, na nossa sensibilidade, ainda mais nossos tempos, ah, e é claro que é motivo de muito estranhamento, mas a gente tem que pensar que o mundo não foi sempre eh o século XX e o ano de 2026, né? Eh, e essa vida dentro de casa, ela tem a ver com várias questões e inclusive uma questão importante que é de proteção, né, num mundo em que a mulher está especialmente vulnerável, né? Ah, então é uma vida mais em mais eh dentro de casa, mas isso também não quer dizer que seja uma vida necessariamente oprimida, porque para nós a decodificação vai nesse sentido, né? eh as mulheres, havia cultos de deuses que tê que ser feitos necessariamente por mulheres. Então elas elas realizarão esse culto que é um culto público na arena pública.

¶40Então a assim a a participação social da mulher ela ela existe e ela ela ela tem uma dimensão pública, né? Mas ao contrário, mas de um modo geral, ao contrário da vida masculina que é voltada para fora da casa, da qual o homem será o provedor e o protetor, a vida feminina é uma vida eh sobretudo voltada mais para dentro da casa. Agora, eh isso não tira a mulher, digamos, da praça pública, né? eh há haverá eh haverá eh digamos eh segundo adequação, haverá eh momentos, haverá circunstâncias, haverá contextos em que eh a participação pública das mulheres na vida social será necessária e será e e se realizará, tá? Tá excelente.

¶41Agora para encerrar, puxando também esse fio da meada de discussões que vem justamente porque a gente tá tá olhando, né, com mais atenção nesse momento e buscando essa troca. Então aí voltar para aquela pergunta anterior, e como você vê essa possibilidade que se abre quando você tem um filme que se transforma num blockbuster? como se fosse um filme de ação ou de um superherói, uma coisa dessas desses grandes filmes de Hollywood, mas tá baseado numa obra com a força, com a história, né, que tem a Odisseia, perguntando se ele vai agora fazer a Ilia da Uma continuação ao contrário. É, mas que tem a odisseia, quais são os riscos por um lado, mas também é o benefício, as possibilidades que isso e abre para para essa popularização, pr as pessoas se voltarem mais para isso. E aproveitando isso, aproveitando esse gancho também, eh, para você falar um pouco desse guia sobre a a Odisseia, que é um um time perfeito, eh falar um pouco da obra, porque que pode ser interessante também agora muitas pessoas que podem ter interesse, mas que não estavam olhando, irem ler, irem se aprofundar.

¶42Eh, e também outras obras que você recomendaria para quem tá já era interessado ou agora tá com esse interesse maior pela literatura, pela cultura grega? H, bom, eu acho que o grande benefício de um blockbuster, né, como este, eh, este filme Odisseia, né, eh, e feito com, enfim, um conjunto de atores, né, que também já, por si só, já movimentam, né, eh, muito o as pessoas, porque são são grandes atores escolhidos ali. Ah, eh, o grande benefício é justamente eh, digamos, para quem conhece o poema, eh, é material para reflexão, né? Pensar justamente eh, as relações do poema com o filme, a o modo como o filme, né, eh, ressignifica, reelabora o poema. Então, é claro que eh é um é um estimulador, né, um estimulante para a reflexão.

¶43E para quem não conhece o poema, talvez o filme eh suscite curiosidade eh e mova, ã, eh, os a audiência para a leitura de Homero. Nós já nós já sabemos que aumentou muito a venda de traduções da Odisseia. Isso já é uma maravilha, né? Já já é para nos deixar muito felizes. Por quê?

¶44Porque é claro que qualquer peça, qualquer filme, eh, o que quer que seja, né, que que tem que que se elabore em cima da odisseia, vai ter que fazer recortes, vai ter que eh digamos assim, deixar uma série de coisas de fora, porque convenhamos que paraa literatura não tem limite temporal, né? Você pode ter um livro pequeno, grande, em vários volumes, quer dizer, outro, né? Você não tem esse limite. Agora, um filme, >> um filme tem um um limite. Olha que esse filme é longo, massa.

¶45>> É, já são 3 horas. >> São quase 3 horas. Exatamente. Uma peça tem limite. Então, sempre que um livro e um livro, né, como esse é levado a para essa outra linguagem, haverá ganhos e perdas.

¶46E uma das perdas é que é é o problema da da extensão, tá? Quer dizer, você tem um limite ali que tá posto que não tá posto pro poeta. Então, quem for paraa Odisseia vai descobrir um mundo ali eh muito maior, né, ainda com muito mais elementos do que aquele que o cinema recortou. ele recortou a eh fez um recorte muito suscinto, inclusive muito conciso, né, resumido do que é, por exemplo, do que são as viagens de Odisseu, né? Então esse é um grande benefício.

¶47>> Ah, e aí falar mais um pouquinho pra gente não esquecer da sua obra do guia e de outras suas de preferência que você recomende, que você acha que pode ser interessante, não apenas para se introduzir nesse mundo, mas para quem já tá introduzido para ler, para se aprofundar, para olhar para outros aspectos que a gente discutiu aqui hoje. Então, o o filme está, né, divulgando um clássico e hã e eu creio eh já venho trabalhando nisso há alguns anos, eu creio que hã o público aprecia, deseja divulgação feita eh com qualidade, né? eh, que não é necessariamente uma simplificação ou uma banalização, eh, mas é, eh, digamos, uma eh a um, o tipo de obra que ajuda o leitor a aproveitar melhor aquela leitura, porque contextualiza, porque dá ao leitor, talvez, ferramentas, eh, informações e elementos que eh auxiliem, né, na, ah, compreensão daquela obra. e até eh digamos enriqueçam, né, eh, o olhar, né, de quem as lê. Então, nesse sentido, os guias, né, eu tenho um guia de, eh, eu posso até mostrar aqui, né, tem, por favor, [risadas] >> são eu tenho eh são dois guias, né?

¶48Esse é o guia eh da Odisseia, né, de leitura da Odisseia, que foi eh que veio, né, já como o segundo guia, o primeiro, não é, que caiu aqui, mas vou me abaixar. Ã, o primeiro é esse aqui, que é o guia de leitura da Iliana, né? Eh, eu depois desde que eu dou aulas, né, na na Universidade de São Paulo, são já eh 22 anos, eu escrevo as minhas aulas. Eh, e o que são as aulas? As aulas são o meu esforço para que, tanto na universidade quanto fora dela, eu dei muitas aulas fora da universidade para públicos amplos, heterogêneos, né, de várias formações.

¶49Ah, é um esforço para que as obras façam sentido, né, para que as obras sejam compreendidas. E para isso é importante entender a lógica do mundo dos poemas. Se eu não entendo quais são os valores, eh, o que que é importante, como é que as pessoas se relacionam nesse mundo, né? Como é que, quais são os regramentos, porque toda a comunidade os tem, como é que eu vou entender o que acontece ali, né? Se eu não entendo, digamos, uma cultura, como é que eu vou entender eh o que essa cultura me traz, né?

¶50Então, é um pouco, vamos entender a lógica desse mundo, porque aí entenderemos melhor as pessoas desse mundo e o que elas fazem e como elas reagem àquilo que é feito. Essa é a esse é o objetivo. Então, nesse sentido, os guias de leitura são obras de divulgação, mas que procuram fazer isso sem eh digamos assim, de uma maneira qualificada, tá? Elas apresentam a nos dois há uma introdução que apresenta brevemente elementos importantes. O que que é o mito no mundo grego?

¶51Que é muito diferente do que vai significar ao longo dos tempos. O que que é um herói pros gregos? E depois eu vou comentando canto a canto, eh, passo a passo, eh, o poema, eh, como que ir pegando o leitor pela mão, né? Vamos passear pela Elíada, vamos viajar eh pela Odisseia. Eh, e dessa maneira, eh, claro, eh, pelo que eu tenho recebido, né, de de retorno, eh, o, digamos que o passeio fica, eh, mais produtivo e é o que eu mais quero que aconteça.

¶52E eu e e tendo sido feitas ah como foram essas duas a ah tendo sido feitos, né, esses dois guias, eles eh têm algo a dizer tanto para o leitor totalmente eh sem familiaridade, né, sem nenhuma familiaridade com essas obras, mas também são produtivos a quem conhece essas obras. Então atende a ambos os públicos, né? Eh, e nesse sentido também, eh, eu tenho feito antologias de tradução comentada eh de poesia grega antiga eh nos seus nos seus gêneros diferentes. Então, eu tenho uma antologia eh de eh tradução da poesia de Safo, né, que saiu publicada pela primeira vez em 2011 e agora em breve sairá em terceira edição. tem a segunda edição de 2021 pela editora.

¶53Eh, e agora sai em terceira edição. O que eu procuro fazer sempre é a tradução, comento aquilo que é importante para o mais importante para entender aquele texto e sempre uma introdução em que eu apresento quem é esse poeta, o que é esse gênero poético, em que mundo esse poeta vive e como a poesia funcionava nesse mundo. Porque também quando nós falamos de Homero, de Safo, de todos esses da tragédia, nós estamos falando de um mundo eh eh em que a poesia existia numa cultura da canção. Eh, existia apenas de verdade quando ela estava diante de uma audiência, apresentada diante de uma de uma audiência e a poesia era a canção, né? Eh, então tenho essa tradução de Safo, tem uma antologia chamada lira grega.

¶54em que eu faço a mesma coisa eh com os demais poetas da lírica, a gênero poético praticado por Safo. em parceria com o Rafael Brunhara, que é um meu colega atualmente na Universidade de São Paulo, ah, mas está era professor da Federal do Rio Grande do Sul, quando nós fizemos essa obra a uma antologia de elegia grega arcaica, elegia, né, poesia lírica, elegia são gêneros que permanecem entre nós. Então, fizemos dos poetas elegíacos, né, pela editora Minema e Atelier. É uma parceria em que há uma série de poetas, né, uma recolha de poemas deles, eh, apresentados dessa maneira, sempre contextualizada, comentada, com também a apresentação dos próprios poetas e do seu do seu mundo, tá? Então, eh, então essas são são obras que eu tenho feito que veja, eh, de uma maneira e para, digamos, o leitor interessado e o leitor especializado.

¶55Quer dizer, sempre buscando contemplar eh ambos os públicos, tá, >> professor? Perfeito. Fica esse convite aqui, então, para esse aprofundamento eh de quem viu o filme, de quem não viu, de quem tá vendo aqui eh a nossa entrevista. Muito obrigado pelo seu tempo, por tudo que eh que você trouxe. Acho que a gente tá justamente cumprindo esse papel, ainda que com tempo restrito também, de aprofundar, de trazer a discussão para outros caminhos e também pensar um pouco a cultura, nossa cultura de hoje, mas também pensar todas essas questões que a gente pode discutir, que o filme eh com críticas e com elogios está motivando aqui.

¶56Então, foi ótima conversa. Convido todo mundo também para ler a revista Inteligência, né, que aqui é a origem desse nosso programa, né, assistir ao canal meio na inteligência a gente tem também várias discussões sobre a cultura grega, sobre a literatura grega, sobre a mitologia grega. Então também todo mundo vai gostar muito de de olhar lá, se aprofundar. E novamente muito obrigado e acho que foi foi um prazer para mim pessoalmente também. já aprendi muito aqui nessa nossa conversa, professor.

¶57Até uma próxima vez. >> Se me permite, eu quero agradecer muito o convite, a oportunidade. Ah, o filme realmente eu já fiz vários podcasts e entrevistas, então é muito bom que a imprensa e todos os canais, né, eh estejam eh se abrindo para essa conversa sobre os clássicos, né? Então, eh, um prazer estar aqui e, claro, fico muito agradecida pela oportunidade. >> Tá ótimo.

¶58Muito obrigado novamente. [música] >> Essa campanha tem que começar a verdade, derrotando a mentira. O filho mais velho do capitão segue aqui de pé, firme e forte ao lado do povo brasileiro. [música] Os dois estão jogando o mesmo jogo, [música] cada um preocupado com a sua eleição. Ninguém tá preocupado com o Brasil.

¶59[música] Tudo que dá certo nesse país parece que o Pedro não gosta. [música] Nós não precisamos ser refém de um debate político construído entre um mongoloide como Flávio Bolsonaro e um cachaceiro senil como Lula. >> [música] [música]