¶1Ninguém tá prestando atenção nessa eleição. Tipo, ninguém. Desde 1989 nunca foi assim, tá? O país se envolvia, os carros, os carros tinham adesivo, lembra? No dia seguinte, a cara debate só se falava disso.
¶2Brasileiros discutiam apaixonadamente a respeito de em quem votar. Dessa vez zero. Domingo à noite, ficou claro por, né? Entre 8 e 9:30, cinco candidatos a presidente falaram ao país ao mesmo tempo em três lugares diferentes, cada um só pros seus. Não havia disputa nenhuma para assistir.
¶3O ápice foi Renan Santos no palco da Band, dividindo o eleitorado do adversário entre canálias enganados. É isso. Você nunca ouviu de candidato algum. Um político chamando algo perto de 1/3 do Brasil de canalhas. Tinha descrever à noite.
¶4Às 8:3 em ponto começou na Band o primeiro debate presidencial dessa campanha. No palco, três candidatos Ronaldo Caiado, Renan Santos Augusto Curi. Somados dão um tico mais do que 10 pontos nas pesquisas. Ao lado deles, três púlpitos vazios, iluminados guardados para quem não veio. Luís Inácio, Lula da Silva, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema.
¶5somados 75%. Representam juntos 3/4 dos brasileiros. Quando o debate já tinha uma meia hora rodando, aí a Record pôs no ar uma entrevista exclusiva com o presidente Lula gravada naquele mesmo domingo no Palácio da Alvorada com a jornalista Mariana Godói. Sem adversário, sem confronto pelos pares, sem réplica ou tréplica. Ele escolheu sua casa, território que domina, pôde controlar cada momento da sua imagem.
¶6Pouco depois das 9, com debate ainda no ar, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo no Instagram. Três propostas, sem perguntas, sem repórter, sem tempo cronometrado. E Romeu Zema tava em casa, avisou na manhã de domingo que não iria. Segundo o Estadão, preferiu se preparar paraa sabatina do Jornal Nacional, onde será o primeiro entrevistado. Cinco campanhas presidenciais no ar ao mesmo tempo.
¶7As três que escolheram se encontrar mal entraram em choque. No máximo, Renan tomou um pito de Augusto Curi. Teve de ouvir que era muito agressivo. Você veja só, Renan agressivo. Agora repara só, ninguém sumiu, tá?
¶8Ninguém tirou o domingo de folga. Os cinco falaram com o país naquela noite. O que os dois na frente fizeram foi escolher um espaço no qual não seriam expostos. E olha, eles disseram isso em voz alta, não precisa nem deduzir. A campanha de Lula valiou que no palco ele seria alvo dos outros cinco.
¶9É verdade. Seria mesmo. Valdemar Castaneto, presidente do PL, explicou que Flávio com todas as letras, né? O debate dele tem que ser com Lula e pronto. E o próprio Flávio, eu respeito todos eles, mas eles definitivamente não são meus adversários.
¶10É claro que são. Zema, na nota do novo disse que a Band havia adiado o debate 16 para 23 de agosto na expectativa de que Lula fosse e que sem Lula a mudança perdeu o seu propósito inicial. Desculpa, Nazema parece ter desistido. É claro que todo mundo ali ia botar Lula contra a parede. Na ausência de Lula, todos iam colocar Flávio contra a parede.
¶11Lula ia passar o debate falando sobre seu filho, sobre seu chefe de gabinete. Na entrevista falou uma vez a resposta ensaiada e pode mudar de assunto. Flávia até te falar sobre Vorcaro, sobre o filme Dark Horse que custa preço de super produção hollywoodiana, sobre rachadinhas, sobre golpe de estado. escolheu, ó, ficar no celular. Claro.
¶12E Zema, Zema parece que desistiu da própria candidatura. Nenhum dos três alegou agenda, nenhum alegou doença. Os três alegaram cada um do seu jeito a mesma coisa. Não tinha ali a plateia certa com quem eles queriam conversar. Não queriam responder pergunta difícil, repetidas vezes.
¶13Não queriam câmera no seu rosto enquanto ouviam acusações duras. É isso. É a primeira vez na redemocratização que os dois primeiros colocados fogem juntos de um debate. É, de certa forma, a conclusão daquele processo iniciado em 2018. É a descoberta que dá para fazer uma campanha presidencial inteira sem nunca cruzar com o adversário.
¶14Mas ao menos três deles foram, não é? É, mas os três que foram fizeram exatamente a mesma coisa. É por isso que essa história não é sobre a covardia de uns e as coragem dos outros. Você vê, Renan Santos entrou no palco com a coreografia pronta. A a Folha apurou que a campanha ensaiou em casa com uma réplica de púlpito para ele saber se posicionar entre os dois espaços vazios e ser fotografado ali.
¶15Ou seja, o único espaço da campanha que não tem roteiro tava roteirizado. E aí Renan mandou aquela, né? Tirando quem tá no Bolsa Família acredita nas palavras dele de maneira errônea, que Lula é a única fonte de comida. O resto do eleitorado do presidente está sendo canálha. Canálha.
¶16Ele repetiu e completou. Eu não quero o voto dessa gente. Um candidato com algo entre 2 e 4% das intenções de voto em rede nacional pegou os 30%, 39% do adversário e dividiu em duas categorias, os canalhas e os enganados. Os informados são desonestos, os pobres são otários. Pobre é otário, claro.
¶17Não sobrou uma terceira porta. Não existe ali a possibilidade de um brasileiro que simplesmente discorde dele. Ronaldo Caiado, que é o único com carreira política naquele palco, passou a noite falando de Goiás, segurança de Goiás, educação de Goiás, inteligência artificial em Goiás. chegou a pedir que o telespectador pegasse o telefone e discasse em 62 o código de área do estado e ligasse para qualquer pessoa para confirmar. O vice dele, Gilberto Cassabe, foi flagrado cochilando enquanto o Caiado falava.
¶18E Augusto Curi quase não entrou esse portento da política. Fez uma live na calçada da band anunciando que ia embora em protesto contra as ausências. Perguntou aos repórteres: "Vocês não percebem a minha mágoa?" Entrou no carro, ficou lá dentro cerca de um minuto na fita dele, aí saiu, mudou de ideia e subiu ao palco faltando 10 minutos pro programa começar. Três monólogos dentro do único lugar que existe justamente para não ter monólogo. Pois é, a exame apurou que em cada posição de câmera do estúdio da Band havia uma colinha de papel com fotos 3x4 dos três candidatos presentes.
¶19Nem a equipe que tava fazendo o debate sabia quem eles eram de vista. Agora, se você acha que o problema é que esses candidatos são ruins, eu tenho uma notícia para te dar, tá? Vem comigo. Eu sou Pedro Dória, editor do Meio. Você acabou de ouvir que nessa campanha é provável que você não veja os candidatos frente à frente obrigados a responder um ao outro e vai ter de decidir mesmo assim, né?
¶20O documentário do meio sobre essa eleição já tá no ar. Eleições 2026, a escolha. A gente foi atrás de quem conhece os candidatos de perto para contar quem eles são, porque tá faltando isso. E foi atrás, mais do que isso, de gente que entende o momento do Brasil para explicar o que tá de fato em jogo nessa eleição e os desafios que o próximo presidente vai herdar. 1 hora e meia.
¶21É isso, filme. É a comparação lado a lado que o debate de domingo não te deu. E olha o calendário. Sexta-feira começa o horário eleitoral gratuito. A partir dali, o que você vai ver sobre cada candidato é exatamente a versão que ele escreveu de si mesmo.
¶22Melhor assistir antes. Tá lá no ar para assinante. Assina o meio prêmio. Esse aqui, esse é o ponto de partida. Pensa como se faz uma campanha presidencial hoje.
¶23Hoje em dia, comício antigamente era uma mega operação de divulgação, convocação pela TV, pelo partido local, pela imprensa local. Hoje, hoje é pelas redes sociais, pelos grupos de WhatsApp do partido ali direto no nicho. Ou seja, comício com público escolhido. Levantar dinheiro era ir atrás de empresários que doem. Tinha cheiro de corrupção.
¶24Convencer era dificílimo. Tinha risco para todo mundo. Hoje, fundo eleitoral bilionário ali na mão de graça. Horário de rádio e televisão era caríssimo de produzir. Hoje é super barato.
¶25E veja, não é à toa que os políticos estão quase todos dispensando os seus marqueteiros. Eles sentem ter um contato direto com seus públicos como jamais tiveram. Aí tem as lives, todas as conversas direto com a tribo, podcast amigo, quase todas as entrevistas são negociadas. Mesmo que não tenha pauta combinada, não precisa. Tem um mundo de entrevistadores inexperientes ou que já são do próprio time, né?
¶26Em cada um desses lugares, o candidato controla o que sai. Sobra um canto. Um só lugar em que o candidato vai estar no desconforto é o debate. É onde ele tem de responder a pergunta que não queria sobre o assunto que não escolheu com a câmera ali no rosto enquadrando enquanto o adversário fala. O o Fernando Schüler disse isso, exatamente isso, ao vivo na Band, minutos depois do debate terminar.
¶27É o único espaço que não é controlado. E o Fernando Mitri, o diretor de redação da Band, que produz esses debates, ó, sei lá, desde 1989, completou. Fugir do risco, ele disse, é uma atitude antipolítica. Política envolve risco. Todos estão escolhendo eu fazer uma política sem riscos.
¶28O que sobra, o que sobra é a seleição na qual o eleitor tá ausente, desinteressado. Virou um campeonato em que cada time joga sozinho no próprio estágio sem adversário e no domingo à noite comparam os placares. Ninguém assiste um jogo assim. É por isso que campanha, a campanha virou uma sucessão de pesquisas, né? A pesquisa virou o conteúdo porque nessa eleição não tem confronto.
¶29Não vemos candidatos em momentos de tensão, não tem. Agora, fugir de debate não é novidade, né? Lula não foi o primeiro debate em 2006 e se reelegeu. Cola fugiu, Fernanda Henrique fugiu e eles ganharam também. Dora Kmer, ela lembrou isso hoje na Folha e e tá certa.
¶30Favorito que some não é invenção de 2026. Dilma Russef, aliás, é a única que nunca faltou a nenhum debate. Então o que que mudou? mudou o preço. Com pouco mais de metade do Brasil polarizado, dividido em tribos que não vem defeitos em seus candidatos, ninguém cobra a ausência do seu de um debate.
¶31O candidato que não aparecia antes perdia a chance de convencer alguém. Hoje ele calcula que não perde nada porque quase ninguém resta para ser convencido. Sabe qual é o pior? Eles estão certos. O Schirer citou o número no canal Livre.
¶3280% do eleitorado do Lula não muda mais. do Flávio 78%. Faz a conta com a última data folha e dá 57% do Brasil. 57% já votou. Falta só clicar na urna.
¶33Então o que exatamente tava em disputa naquele palco no domingo? Sobram uns 14 pontos espalhados entre quatro candidatos nanicos mais os indecisos. Foi por isso que Lula e Flávio não precisaram ir. o debate de domingo não disputava a presidência, disputava o terceiro lugar. E é por isso que o Renan pode desdenhar de metade do eleitorado, né?
¶34Nesse Brasil horroroso em que passamos a nos odiar, você chamar de canal otário, metade do eleitorado, perigotos. Numa eleição em que ninguém convence ninguém, você não persuade, você mobiliza. E para mobilizar não é preciso ter interlocutor, é preciso ter inimigo. Agora cá entre nós, como se preside um país quando você governante pensa isso de metade de nós que somos canálihas ou? Era a necessidade de convencer que empurrava o candidato pro palco.
¶35Acabou a necessidade. Alguns de vocês lembram dos adesivos nos carros. Pensa no que era aquilo. Você colava e o vizinho via, o colega de trabalho via. Não dava para esconder de quem discordava de você.
¶36E você não queria esconder mesmo. Tudo era estratégia de chamar para conversa, de ter oportunidade de convencer ou de ser convencido. Você achava que dava para convencer o seu cunhado. Ninguém mais acha isso. Os derrotados somos nós.
¶37[música] Essa campanha tem que começar a verdade derrotando a mentira. O filho mais velho do capitão segue aqui de pé, firme e forte ao lado do povo brasileiro. [música] >> Os dois estão jogando o mesmo jogo, cada um preocupado [música] com a sua eleição. Ninguém tá preocupado com o Brasil. [música] >> Tudo que dá certo nesse país parece que o Pedro não gosta.
¶38>> [música] >> Nós não precisamos ser refém de um debate político construído entre um mongoloide como Flávio Bolsonaro e um cachaceiro senil como Lula. [música]