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Ainda adianta votar? | Ponto de Partida

a tese

Pedro Doria argumenta que a eleição de 2026 esvaziou o debate público porque, com mais da metade do eleitorado já decidido e trancado em tribos, nenhum candidato precisa mais convencer ninguém. O debate, único espaço que o candidato não controla, virou dispensável, e a campanha se reduziu a mobilizar os próprios contra um inimigo.

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porque o vídeo é apurado (dados de pesquisa, apurações de Folha, Exame e Estadão, falas nominais) e diagnostica com precisão o fim da persuasão pública, tema que conversa direto com a leitura do Bruno sobre tribalização e exclusivismo, e serve de material para pensar teologicamente o dever de falar a quem discorda.

O que foi dito

  • Doria abre constatando que desde 1989 nunca houve eleição com tão pouca atenção pública, sem adesivo em carro nem discussão no dia seguinte ao debate, e localiza a prova no domingo 23 de agosto, quando cinco candidatos falaram ao país ao mesmo tempo, cada um só para os seus.
  • No primeiro debate presidencial da campanha, na Band, subiram ao palco apenas Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury (grafia incerta), somando pouco mais de 10 pontos nas pesquisas, enquanto os três púlpitos vazios de Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema representavam 75% do eleitorado.
  • As alternativas escolhidas pelos ausentes foram todas ambientes controlados: Lula deu entrevista exclusiva à Record com Mariana Godoy, gravada no Palácio da Alvorada, sem réplica nem adversário; Flávio publicou um vídeo no Instagram com três propostas e nenhuma pergunta; Zema avisou na manhã de domingo que não iria e, segundo o Estadão, foi se preparar para a sabatina do Jornal Nacional.
  • Nenhum dos três alegou agenda ou doença, e Doria mostra que disseram em voz alta a mesma razão: Valdemar Costa Neto afirmou que o debate de Flávio é com Lula e ponto, o próprio Flávio disse que os outros não são seus adversários, e o Novo alegou que a Band adiara o debate de 16 para 23 de agosto contando com Lula.
  • Doria insiste que a história não é sobre covardia dos ausentes contra coragem dos presentes, porque os três que foram entregaram monólogos ensaiados: a Folha apurou que a campanha de Renan Santos treinou em casa com uma réplica de púlpito para ele se posicionar entre os espaços vazios e ser fotografado ali.
  • O ápice foi Renan Santos, com 2 a 4% das intenções de voto, dividindo os cerca de 30% a 39% do eleitorado de Lula entre “canalhas” (os informados) e enganados (os do Bolsa Família), dizendo não querer o voto dessa gente, sem deixar uma terceira porta para quem simplesmente discorde dele.
  • Caiado passou a noite falando de Goiás e chegou a pedir que o telespectador discasse o código 62 para confirmar seus números, com o vice Gilberto Kassab flagrado cochilando; Cury fez uma live na calçada anunciando que ia embora em protesto, entrou no carro, mudou de ideia e subiu ao palco dez minutos antes; a Exame apurou que cada posição de câmera do estúdio tinha uma colinha com fotos 3x4 dos três presentes.
  • A explicação estrutural: campanha hoje se faz por rede social, grupo de WhatsApp e comício de público escolhido, com fundo eleitoral bilionário, produção barata e entrevistadores do próprio time, o que fez políticos dispensarem marqueteiros; sobra o debate como único espaço não controlado, e Fernando Schüler (grafia incerta) disse isso ao vivo na Band, enquanto Fernando Mitre, diretor de redação do canal, chamou a fuga do risco de atitude antipolítica.
  • Doria reconhece, citando Dora Kramer na Folha, que favorito faltar a debate não é novidade (Lula em 2006, Collor, Fernando Henrique; só Dilma Rousseff nunca faltou), mas sustenta que mudou o preço: Schüler citou no Canal Livre que 80% do eleitorado de Lula e 78% do de Flávio não mudam mais, o que dá 57% do Brasil já decidido pela última Datafolha, sobrando uns 14 pontos disputados entre nanicos e indecisos.
  • A conclusão é que o debate de domingo disputava o terceiro lugar, não a presidência, e que numa eleição em que ninguém convence ninguém o candidato não persuade, mobiliza, e para mobilizar basta ter inimigo, não interlocutor; Doria pergunta como se governa um país achando que metade dele é canalha e fecha lembrando o adesivo no carro como gesto de quem queria conversar com o vizinho discordante, dizendo que “os derrotados somos nós”.

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