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Debate sem Lula e Flávio: o que o eleitor pensa? | Central Meio

¶1Ah. Olá, boa tarde. Sejam muito bem-vindos, sejam muito bem-vindas ao Central Meio. Hoje é segunda-feira, dia 24 de agosto de 2026. Eu sou Pedro Dória e cá estão comigo o jornalista e diretor de streaming do meio, Ricardo Rangel, e o cientista político Jairo Nicolau, autor do recém-lançado O país dividido, duas décadas de eleições no Brasil.

¶2Tudo bem com vocês, pessoal? >> Tudo ótimo.Ária. >> Tudo bem. A gente vai sobrever essa eleição. Jairo deve saber.

¶3>> Vamos. Claro que vamos. Mais uma. É a décima. >> É a 10ª.

¶4A primeira república fez quanto? 11 eleições. Não foi? Eu tenho dúvida se são 10 ou 11. >> Eu acho que são 11.

¶511. Então, mas é isso que a gente diz. Diretas. 11 diretas. >> É 1894, a primeira, não é isso, Prudente Morais?

¶6E a última e a última a última conta, porque o Washington Luiz foi deposto antes de passar pro pro Prestes, como é que era o nome dele? >> Júlio Prestes, ex-governador de São Paulo, né? expresidente da província de São Paulo. >> Mas a eleição ocorreu, que não ocorreu foi apóstorreu. Tá certo.

¶7Tá certo. Gente, a Band começou ontem a temporada de debates com os presidenciáveis. O encontro foi marcado mesmo pela turma dos fujões, né? Lula e Flávio, líderes das pesquisas nem apareceram. Venda a debandada, o Zema achou por bem avisar que também ia faltar.

¶8Já na porta do estúdio, o escritor Augusto Curi do Avante deu meia volta e disse que também não iria. Falou isso numa live. Mas aí Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Band, foi lá, buscou ele, pescou, levou para dentro, acabou indo, desistiu da desistência. Então ficaram Augusto Curi, Ronaldo Caiado do PSD e Renan Santos do Missão. O que será que o eleitor pensa desse pouco caso completo com os debates?

¶9Puxa a sua cadeira, se acomoda, deixa o like, manda a sua pergunta no chat e aproveita, já se inscreve no canal. Canal Central Meio tá no ar. pra gente começar um detalhe de Gilberto Cassab dormiu no debate. Eh, pois é, né? A gente tá com esse debate empolgantissíssimo.

¶10Você também não viu, né, Ricardo? >> Eu não vi. Pelo cara, é aquela coisa. Não, >> esse debate foi tão marcante que com três profissionais de análise política, só um achou que precisava ver e eu que tava errado, tá? O o o que que foi o debate?

¶11Eu eu vou eu vou resumir rápido a as minhas impressões. Eh, tá todo mundo na imprensa e eu concordo meio que falando quem foi pior Renan. E por que que o Renan foi pior? Por algumas razões. Eh, primeiro, tem uma leitura que eu tô fazendo a respeito dessa eleição.

¶12E aí, Jairo, eu daqui a pouco vai ser minha primeira pergunta para você. Eu quero saber se você faz essa leitura ou se você vê isso que eu tô vendo ou não. Eu acho que essa eleição é uma eleição que é o contrário de uma eleição de outsider. Eu acho que é uma eleição que o eleitor tá eh tanto de saco cheio quanto por outro lado também não tá querendo chacoalhar a a coisa, não tá querendo não tá querendo bagunça, não tá querendo alguém fazendo uma coisa radicalmente diferente, que é uma eleição de certa forma mais conservadora nesse espírito. E aí o Renan chega lá com fralda, né?

¶13Fralda descartável com o nome do Flávio, frauda, Fralda descartável com o nome do do Lula. Ele tinha o número dele num botóton gigante que era um círculo assim, tipo, literalmente desse tamanho aqui, eh, eh, pendurado na lapela. Tinha uma tinha uma coisa ali meio de clown, né? Que que esse tipo de político, não, o Pablo Marçal também faz as coisas. é aquela eh eh aquela teatralidade eh eh paraa rede social e e e eu acho que fica meio ridículo.

¶14E aí, e tem um contraste que fica, porque por outro lado, o Caiado e o Curi para ambos meio que pareciam aquele avô eh velho, sábio, tudo mais, que que evidentemente, veja, tudo é teatro na política, tudo é é uma coisa assim, eh, nada é sem querer. É claro que a personalidade dos candidatos está ali, mas essa personalidade é usada num certo rito, numa certa tentativa de representar o que que você propõe pro pro país. E o Renan, muito agitado, baixinho, com dois sujeitos muito mais altos do que ele. Eh, e os dois fazendo um papel meio de sensato, pausado, tudo mais, enquanto que o o o Renan vinha a uma certa agressividade que o Pablo Marçal tem, que o Bolsonaro tinha, que o Milei tem, que faz parte um pouco desse desse pacote dessa dessa direita século XX. Eh, eu acho que o Renan ficou meio deslocado e e análise de sentimento de rede social, principais analistas estão meio que falando a mesma coisa.

¶15O Renan meio que saiu perdendo no debate. Agora, a coisa que mais me surpreende é a ausência do Zema, >> eh, porque eu entendo porque que o Flávio e o Lula não querem ir ao debate. O Lula não quer ir ao debate porque ele é o presidente da República, ele vai ficar apanhando de é o único de esquerda, né? todo o resto tá direito. Ele vai ficar apanhando de todo mundo o tempo todo.

¶16Aí ele não vai ao debate se isso é bom paraa democracia ou não, é outra discussão. Mas o Lula tem a opção de não ir ao debate, estrategicamente faz sentido. Se o Lula não vai, por que que o Flávio vai? O Flávio é o principal adversário de todos os outros sujeitos no palco. Por quê?

¶17Porque os outros sujeitos no palco para chegarem ao segundo turno precisam tirar o Flávio, não o Lula do segundo turno. Eles não vão conseguir votos de esquerda. A a possibilidade que eles têm são votos de direita. Então, eh o Flávio vira a vítima de todo mundo, vai ficar apanhando de todo mundo, aí não vai. Agora o Zema precisa aparecer nas pesquisas.

¶18O Zema, tá, o, o pessoal fala, eh, eu, eu meio que desconto as pesquisas com painel online, porque elas todas estão botando o Renan muito em cima e a gente já sabe que o pessoal do Missão recruta a a garotada para ficar pescando no Instagram, questionário das pesquisas que são feitas eh online. Então tem uma tem uma trapassa ali que a Turma do Missão faz que prejudica a contagem das pesquisas online. Agora, se você pega todas as outras pesquisas, tem uma coisa que é consistente. Por um lado, é empate no é é é empate na margem de erro, mas a toda hora você vê aquela coisa eh Caiado 5, Renan 4, Zema 3 ou Caiado 4, Renan 3, Zema 2. Isso em todas as pesquisas é é consistente, é coisa, é tanta consistência no ideia no Datafolha, no IPEC e eh na Quest e aí quando você começa a olhar essa mesma consistência o tempo todo, tá congelado para mim aqui.

¶19>> O áudio tá rolando. >> O áudio tá rolando. Tudo bem. Eh, quando você começa a ver essa consistência, a impressão que me dá, gente, é que deve ser essa ordem mesmo. Caiado, muito próximos, porém caiado na frente, Renan logo atrás encostando, Zema logo atrás encostando.

¶20O o Zema tem que aparecer, eu não entendo a estratégia. Ele tem que mostrar que pelo menos é melhor do que os outros dois, que o Renan e o o Caiado. >> Há muita coisa no Zema que é difícil de entender, né? Então >> você você tem alguma hipótese de o que que faz? É o que que ele acha?

¶21Não, eu como Lula e como Flávio não vou misturar nesse debate dos nenicos. É isso. O que que >> é? Não consigo compreender não. >> Porque você já esteve no partido novo, Ricardo Arangel.

¶22Veja, não é uma acusação porque eu votei em você. contar isso no partido era outro partido novo, né? Era >> eu sei que era outro partido novo. Era novo. >> Isso era antes do fundador ter sido expulso, né?

¶23>> Era novo naquela época. Já não é novo muito. >> Mas você você tem alguma ideia de o que que faça? Não, eu tenho dificuldade de entender o Zema de várias maneiras, mas isso aí para mim é uma coisa, um uma bola bola fora completa, não tem nenhum cabimento ele fazer isso. >> A gente tem, a gente tem um amigo aqui que acha que foi uma coisa deliberada para matar o debate, né?

¶24porque o Augusto Curi quase não foi. Eh, e até uma tese de que ele estaria fazendo isso para de alguma maneira botar a zeitona no na empadinha do do Flávio, mas não me parece não. Eu acho que foi o equívoco mesmo. >> O Augusto Curi em muitos momentos de debate, isso é uma outra curiosidade a respeito do debate, ele tava lá de escada pro Caiado. Ele chegou ao ponto de fazer perguntas assim: "Caiado, me fala mais sobre os números de educação em Goiás".

¶25pergunta assim do tipo, se um repórter que eu edito manda uma pergunta dessa para um candidato, eu demito na hora, entendeu? Que tipo de pergunta é essa? >> Então ele tinha ali, eu não sei qual é do Augusto Cur, mas ele parecia tá fazendo escada pro Caiado, né? Não é, não é possível. Eh, mas o debate foi isso.

¶26Não tem nada de extraordinário, pessoal. a gente sabe que o vídeo tá travado, o pessoal tá correndo aqui para tentar eh eh consertar, mas sabemos que vocês estão nos ouvindo. >> Mas tem uma coisa interessante sobre esse debate que no Brasil, em geral, o quem tá na frente não vai, né? E isso eu entendo que acontece porque é de graça, né? não tem um preço.

¶27Se olhar num lugar que tem um um um um um tradição de debate como os Estados Unidos, é inconcebível o cara que tá em primeiro, mesmo que não esteja em primeiro, não ir a um debate. Isso tem um custo eleitoral monstruoso, perde muito voto. No Brasil não perde. Queria perguntar pro Jairo como é que ele vê isso, por que que por que que não é caro para um candidato faltar o debate? >> Bom, eh, eu não não assisti o debate também.

¶28e fiquei surpreso com eh também com a ausência do Zema, mas se eu me lembro bem, esse é o pior início de um de um programa, não é, de, digamos assim, de de um debate, melhor dizendo, de de uma eleição presidencial das 10 que nós já eh assistimos aqui nesse ciclo democrático, né? Eu não lembro que pelo menos o segundo não fosse, porque o primeiro, como você chamou, às vezes eu tenho que não tem isso de corra, alguém deve ter levantado, mas eu lembro que o 89 foi todo mundo, Fernando Henrique, não lembro se foi o primeiro, mas ia aos debates, eu acho que se se faz ali uma conta. F Henrique só foi aos debates de segundo não, ele ele foi só nos debates da Globo. >> Eh, mas isso só para te interromper muito, isso é uma outra coisa que acontece no processo americano que é muito interessante. Todos os debates são p das emissoras, então você não tem nenhuma televisão que não esteja passando o debate e o debate acontece no horário mais nobre possível, né?

¶29Então, e >> e elas se alternam. Tem um debate que é são os jornalistas da ABC, tem outro debate que são os jornalistas da NBC ou da CBS ou da CNN. Eh, há uma alternância sim, mas é o p todo mundo transmite. É isso. >> É, é difícil comparar porque o nos Estados Unidos eles programam os debates, as datas com anos de antecedência, não é?

¶30É uma coisa impressionante. Os lugares onde vão ser, em geral são universidades e com a cobertura dos canais. E são dois candidatos, né? aqui não só são muitos, como você tem um critério de inclusão e de exclusão que varia de eleição para eleição, né? Então, eh, eu, Será que todos esses deviam estar mesmo?

¶31Quem tem dois, quem tem um, qual é o critério de inclusão? Dá para fazer debate com seis, com oito? critério foi o o critério que o que é um critério do TSE, não das emissoras, é você nessa eleição, você tem toda a razão, cada eleição muda. O critério do TCE nessa eleição é o seguinte: todos os partidos com representação na Câmara dos Deputados têm que estar presente. >> É, não tá bom.

¶32>> Por isso que o Augusto Curi tava e e aquela moça da UP não tava. Eh, é, é isso. Essencialmente >> é o que significa que na prática poderíamos ter 15 candidatos, por exemplo. Se os 15 partidos lançassem, inviabilizaria o debate. Mas tudo bem, a regra é essa.

¶33>> Vamos nós. Mas enfim, eu acho que o debate perdeu, tem perdido a eleição a cada eleição. A importância, eu acho, a relevância. O Brasil não criou a cultura americana de grandes debates, tivemos alguns importantes e, provavelmente, o único que os candidatos irão será o do segundo do do final da Rede Globo, não é? >> Mesmo assim, se bobear, alguém pode faltar, né?

¶34Mas eu acho que esse pela importância, centralidade, dificilmente os candidatos faltarão, mas até lá os outros canais vão organizar e provavelmente a gente vai ter um cenário parecido com esse, porque é terrível, né? A eleição já tá um pouco desanimada e isso não, você não tem notícias, você não tem eh debates entre os principais nomes. É terrível, né, >> Jair? A a uma das afirmações que eu fiz isso é a maneira como eu tô lendo eh principalmente a nossa pesquisa, que é meia ideia, porque quando você tem os microdados, você consegue fazer muito uma leitura, né? Eh, mas eu eu sinto que de vez em quando tem uma pergunta ou outra nas outras pesquisas, na Quest, na Datafolha, que são pesquisas das quais eu gosto muito também, eh essa Nexus é eh eh que é uma pesquisa nova, eu tenho gostado da pesquisa também, acho que ela tá extremamente organizada, tem umas perguntas que são muito bem eh eh muito bem sacadas.

¶35Eu sinto um clima de um clima, como eu tava dizendo, de um certo conservadorismo no leitorado. Não é um conservadorismo ideológico no sentido de ideias conservadoras e tudo mais. É um conservadorismo no sentido de eu não quero um presidente que chacalhe o barco. Eh, a coisa já tá bagunçada, a coisa já tá difícil, entra com calma, tudo mais. Quer dizer, eh, e num certo sentido, essa seria essa não seria uma eleição para um perfil Pablo Marçal, para um perfil Renan Santos, para um perfil Jair Bolsonaro de 2018.

¶36Uhum. >> Eh, isso faz sentido para você ou ou você tem uma leitura similar, você disa? Eu não tenho ainda uma opinião formada sobre assim, o que que o eleitorado tá sinalizando. O que aconteceu muito rapidamente, eu acho que ninguém imaginava isso na virada do ano, foi a, com a presença do Flávio, se armar de novo, uma espécie de terceiro turno de 2022, né? Quer dizer, não com pai, mas agora o mesmo nome, um Bolsonaro contra um um candidato do PT, né?

¶37a terceira eleição que a gente tá indo para um para um padrão eh parecido. Os os candidatos, os outros não estão conseguindo quebrar essa esse padrão que se estabeleceu, que eu acho que eu, pelo menos em novembro, foi quando eu entreguei meu livro lá, né, fiz muito tempo me dedicando a a organizar o que tinha eh acontecido para trás. Eh, eu não imaginava quando lá nas conclusões eu falo assim prospectivamente sobre o Brasil, eu não imaginava que seria um Bolsonaro candidato, o filho e sobretudo Flávio, nem que ele chegasse nesse patamar. a gente tá em agosto e ele tá com 30 pontos nas pesquisas, variando um pouco mais para cima, um pouco mais para baixo. Lembrando que em 18 o pai dele, o Jair Bolsonaro, chegou a 30 pontos a uma semana da eleição.

¶38Quer dizer, então assim, o desempenho dele >> é impressionante, não é? a eh os analistas agora com que o que o fato já aconteceu, as pessoas olham para trás, ah, era previsível que se essa polarização se desse mais uma vez, mas lá em novembro, quando ele foi lançado em dezembro, a bolsa caiu cinco pontos. Quer dizer, todo mundo imaginava que seria uma negociação para para eventualmente ele ser vice do Tarcis ou de um outro nome. >> Ele chegou a dizer isso, né, com todas as letras. Ele falou: "Me posso retirar, cara?" justamente.

¶39Mas a a quando sai a primeira queste que dá ele com 20 pontos, ele passa a ser, por inércia o candidato que teria chance, mais chance de do embate com o Lula, não é isso? Acho que esse fato que não tava previsto, eh, acabou levando a eleição, tá levando, não sei se isso vai continuar, né, por uma disputa eh de novo entre as duas forças. eh com um um aditivo que é acho que um tom a menos de entusiasmo, de engajamento, tanto do lado dos petistas, dos apoiadores, chamando assim os apoiadores do Lula, como também dos apoiadores da Flávio. Essa é a impressão que eu tenho com poucos dias de campanha oficial, ou seja, há há uma disputa que repete a última eleição para mim de repetindo isso, né, é uma surpresa. E e de novo, eh, quer dizer, com a diferencial que agora é uma eleição sem entusiasmo.

¶40Pode mudar, claro que pode, eh, nas redes sociais, nas ruas, mas eu não vejo muito espaço para isso. >> Eu não conheço ninguém que conheça, pelos números, pelo detalhe, tantas eleições presidenciais no Brasil quanto você. Eh, eh, eh, eh, você decidiu tirar sua vida para estudar mais ou menos >> isso, né? >> Tipo, >> mais ou menos. Eh, na nova república, você lembra de alguma eleição tão pouco, tão desmobilizada quanto essa?

¶41Não, não. Aí falo também com a minha memória de ter votado e assistido as nove eleições >> que se passaram e tá assistindo essa, eu não me lembro um agosto tão eh sem entusiasmo. Eu acho que eh a a atitude dos dois candidatos principais não irem ao debate reforça isso. Eh, eu eu percebo isso ainda de maneira anótica, né? Não tenho pesquisas nos círculos que eu circulo, né?

¶42tanto pessoas que apoiadores eh do Bolsonaro como também apoiadores do presidente Lula, >> do presidente Lula, as pessoas não tão e eu sempre pergunto por onde eu ando, como é que você tá vendo a campanha? Gente que faz qualitativa pelo Brasil, tá? me relatou isso. Os grupos de pesquisa qualitativa no Brasil inteiro >> tão revelando uma apatia, eh, um desinteresse pela política que é diferente do de 18. 18 havia uma apatia eh misturada com indignação.

¶43Queremos mudar isso. Agora é apatia sem >> a gente percebe isso nas ruas, né? Parece que não tem campanha eleitoral acontecendo. Você não, de vez em quando você vê alguém ali eh, dando os os panfletos e tal, mas muito menos do que outras eleições, né? >> Tem pouca bandeira na rua.

¶44>> Pouca bandeira na rua, pouco adesivo em automóvel. >> É, é. >> É engraçado, anos 90 você não tinha um carro que não tivesse um adesivo, né? >> Color, Lula, Briola. É, é, era, é, é bem aí é anos 80, mas é, é o, tipo, adesivo do covas, você ficava e contando, você entendia o pulso de cada bairro, de cada cidade, >> pelos pelo mar de adesivos, né?

¶45Tem menor entusiasmo eh com essa campanha? Se eu entendi bem o seu livro, me corrige se eu tô descrevendo errado o eleitorado brasileiro que você vê. Estamos falando de um eleitorado mais velho, mais feminino, eh mais protestante no sentido religioso do termo, não no sentido eh eh de protesto, né? no qual os jovens estão particularmente desinteressados quando comparados com jovens de gerações passadas. Isso é um resumo justo.

¶46>> É, tem tá faltando aí eh uma dimensão que é a mudança do perfil educacional nesses 20 anos. Estamos falando de um brasileiro muito mais educado do que jamais foi. >> É, eu tava olhando, tô fazendo um novo artigo sobre o perfil da da do eleitorado desse ano e me surpreendeu porque a gente já tá mais ou menos metade a metade. Metade do eleitorado tem ensino médio para cima, digamos assim, que pro padrão brasileiro é algo impressionante. >> Uhum.

¶47>> Não é? e metade tem eh fundamental completo para baixo. Então assim, é um Brasil que comparado com o Brasil de Lula, onde nós tínhamos 60% de eleitores com ensino fundamental, né, primeiro 2002, o Brasil mudou muito em termos escolares e em 4 anos de quando o último ponto lá do meu livro para pra eleição de 26 já houve um incremento. Então, tem essa mudança também. E com relação à juventude, curiosamente, eh, no livro o eu encontrei dados assim eh que merecem ser melhor explorados.

¶48O primeiro, eh, que a taxa de comparecimento dos jovens nas eleições que a gente tem dados, que são as últimas três, é menor do que nos outros segmentos. Então, eh, ao contrário da imagem que os jovens são mais engajados, envolvidos com a política, nas três eleições, eles votam menos do que todos os segmentos, excluindo só os que não precisam votar, que são os que têm mais de 70 anos. Segundo lugar, eh, há uma mudança de perfil entre jovens do sexo masculino e feminino. Eh, as jovens, as as meninas, vamos dizer assim, nas seis eleições, elas votaram no segundo turno em candidatos de esquerda, mesmo quando Jair Bolsonaro ganhou. E os meninos nas quatro primeiras votaram à esquerda, mas nas duas últimas foram paraa direita.

¶49Então, tanto em 18 quanto em 22, há uma divergência eh entre os jovens muito clara. Os meninos foram apoiaram maciçamente Jair Bolsonaro em 22 menos que em 18. E as meninas, vamos dizer assim, foram para a esquerda, né? Sempre tiveram à esquerda, mas em 22 com força votaram. Então, assim, o que eu percebo eh não tá no livro, mas isso tem a ver com outras pesquisas.

¶50Entre os jovens, você tem o maior contingente de de eh sem religião, não é? Também tem esse componente. Eles >> entre os jovens, >> os jovens é o maior contingente de pessoas sem religião. É muito, o número é muito maior do que a média. >> Mas é, é relevante.

¶51>> É, chega entre 15 a 20 pontos. é relevante. >> É 1/5 dos jovens, eh, não tem religião, quer dizer, não quer que não acredita em Deus, eles não tão envolvidos numa, não tem ligação com uma denominação específica, né? >> Alguns são ateus, mas não necessariamente. Você só não se identifica necessariamente como cristão, como >> o país é um país de pouca gente que se autodefine como ateia, né?

¶52As pessoas se autodefinem como não pertencendo a uma religião, elas >> acreditam em Deus, né? grande maioria acredita em Deus quando perguntados. Então, assim, tem alguns componentes da juventude que interessam muito. Eh, eu não sei como os dois candidatos dialogam com esse segmento, não é? a gente percebe claramente um um desengajamento, ou seja, menor interesse por política, menor envolvimento nas eleições e uma divisão entre os jovens do sexo masculino e feminino.

¶53Eu não sei como isso vai se traduzir eh nessa eleição. Lembrando que a cada eleição que passa o contingente, o total de jovens cai, não é? Isso é um é um outro dado que eu mostro no livro. Quer dizer, a eleição de 2002, a primeira do Lula, era um país de jovens em 20 anos. Hoje o contingente, pessoas com 60 ou mais já suplanta os que tm até 29.

¶54Então, assim, há uma mudança completa da demografia. A gente tá falando de um eleitorado juvenil que pesa cada vez menos no eleitorado, no agregado, né? Mas é interessante que eh os os em princípio normalmente, né, os mais velhos são mais conservadores e os mais jovens são mais tem mais pressa, por assim dizer. E tem uma, quer dizer, os os mais velhos continuam conservadores, mas mas os mais jovens parecem que não têm mais esse interesse. E tem uma questão ainda em relação aos jovens que você mencionou no livro, que as mulheres têm uma escolaridade maior, né?

¶55Isso >> é um um um dos fenômenos que eu não tinha noção assim, salvo eh impressionist quando eu comecei a mexer com os dados, é que a mudança do perfil educacional eh brasileiro, né, do do eleitorado brasileiro, tem a ver com a alto impacto da escolaridade feminina, ou seja, as mulheres estão completando o ensino médio numa taxa muito mais acentuada que os homens. tão completando o ensino superior numa taxa muito mais acentuada. Então, até nessa nessa primeira faixa ali da metade dos eleitores que têm escolaridade baixa, vamos dizer assim, até um ensino fundamental completo, esse eleitorado é metade de homens e metade de mulheres, digamos assim, tá igual. Mas quando a gente vai proitorado com com curso de ensino médio para cima, as mulheres estão mais ou menos 65 a 45. Então, boa parte desse desse eh do da mudança de perfil eh de gênero do eleitorado tem a ver com a autoescolaridade feminina que não é acompanhada.

¶56Os homens estão mais educados do que eram, mas não mesmo grau que as mulheres. Então, a gente tem que olhar para isso também. As mulheres são mais instruídas e para trazer um outro elemento aqui pra nossa conversa, elas vão mais às urnas que os homens em termos percentuais. E são mais de esquerda. >> É, deram vitória Lula em 22 e estão dando as pesquisas de novo.

¶57>> É, >> é. Então, interessante o o descompasso entre jovens, homens jovens e mulheres jovens politicamente, isso é uma coisa que a gente vê em outros países. Cot gal Gallow fala muito disso e tal. E essa esse divide que tá vendo, né, até problemático do ponto de vista social de homens e mulheres terem pontos de vista muito diferentes entre si, mais paraa esquerda e mais paraa direita. >> É, essa foi uma das, digamos, da das clivagens das divisões trazidas eh pela presença do Jair Bolsonaro em 18.

¶58Eu até, né, digo isso, eu não sa eh a minha dúvida se as clivagens, as divisões, foram muitas que Bolsonaro introduziu, vamos dizer assim, no sistema político que não existiam em 18, eh, gênero, escolaridade, raça, eh, essa juvenil, não é, eh, territorial, né, também se isso continuaria ou não. E o que a gente tá vendo pelas pesquisas é, eu tô muito impressionado com com os dados que eu vi do Datafolha que saiu nesse fim de semana. O perfil social do Jair do do Flávio Bolsonaro e do Lula praticamente repetem o que a gente viu no segundo turno de 2000 >> dos eleitores. >> 22 dos eleitores. É o perfil dos eleitores.

¶59>> Agora, deixa eu te fazer uma pergunta. Eh, o o eleitor eh boa parte do eleitor brasileiro não pensa esquerda, direita, como nós costumamos pensar. É, é a compreensão >> do que que essas do que que isso quer dizer ser de esquerda, ser de direita, >> eh ela é muito diluída. >> Uhum. Então, o que eu quero dizer, o ponto que eu tô tentando fazer é o votar no Lula, não é necessariamente dar um voto de esquerda.

¶60Eh, você pode estar votando, por exemplo, na percepção de que alguém vai oferecer serviços públicos de melhor qualidade, eh, que é uma preocupação, eh, feminina muito grande, né, quando aí, evidentemente, eu não tô falando de mulheres jovens, mas eu tô pensando naquelas mulheres de eh de meia da periferia urbana do Sudeste, que foram fundamentais para dar vitória pro Lula em 2022, que são pessoas de valores conservadoras em geral, evangélicas, eh, mas que tem filhos, tem horror a arma, porque entende perfeitamente que aquela arma e vai se voltar contra elas dentro de casa, contra os filhos na rua. Eh, eh, e tem uma preocupação imensa com qualidade da escola pública, com qualidade da saúde pública, com qualidade do transporte público, tudo mais, porque e é é a história que a gente conhece do envolvimento de homens e mulheres com seus filhos. É, principalmente na periferia urbana. Não é só na periferia, mas principalmente na periferia urbana. O homem vai embora, a mulher fica, é chefe daquela família e tá imensamente preocupada com com o futuro dos filhos.

¶61Eh, você sente que na juventude essa eh esse voto de esquerda é um voto em em em qualidade de serviço público ou você acha que esse voto de esquerda é também um voto em valores de esquerda? Olha, eu esse achado do livro, né, vamos dizer assim, eh, provavelmente outros pesquisadores chegaram a esse essa resultado também, mas para mim esse achado eu tenho debatido em muitos ambientes, né? Toda vez que eu vou num debate com jovens nas universidades, eu trago esse elemento e peço pros pros jovens que lá estão eh darem uma opinião, eh dizer se eles concordam. E curiosamente há uma percepção convergente entre os jovens e jovens que estão entrando na universidade, portanto, já sentem isso desde o ensino médio. Há uma divisão entre meninos e meninas eh com relação a valores mais gerais e a comportamento, segundo eles.

¶62Isso não tá no livro. Acho que a gente precisa de mais elementos, mas, por exemplo, o que já tá sido diagnosticado com eh como Derek Thompson no artigo dele chamou de eh monges no cassino, são os meninos que passam boa parte do dia nos Estados Unidos em casa jogando com uma baixa sociabilidade presencial, né, enquanto eh esse tipo de sociabilidade não acontece no meio feminino, né? Eu acho que aqui no Brasil a gente f 18 as meninas se mobilizarem com com ele não, com a campanha, não é, do Eleão nas redes sociais e e nas cidades. >> Acha que aquilo foi um fenômeno de classe média alta? >> Foi, foi, mas aquilo também tem uma uma decantação para para jovens eh para baixo, não é?

¶63e também eh os o vamos lembrar o bolsonarismo eh começa como um fenômeno basicamente masculino, não é? E depois também para ser justo com os dados, ele vence entre as mulheres em 2018, por pouca margem, mas vence, >> coisa que a gente não achava que ele poderia ser derrotado pelas dificuldades que ele tinha no eleitorado feminino, mas ele resolve isso ao longo da campanha, ou seja, ele vence por pouco, mas entre 18 e 22 a avaliação no público feminino despenca e tem a ver não só com as atitudes do Jair Bolsonaro, pessoa física, que a gente já conhecia, né? Machista, não é? Eh, misógeno, aquilo tudo, >> mas junta com a pandemia, >> junta com a pandemia. Acho que a pandemia, eu lembro, na época eu acompanhava mais detidamente as pesquisas da Quest e um dos temas era pandemia.

¶64Quer dizer, as mulheres eram em massa a favor da vacinação, muito mais do que os homens. Então, primeiro e segundo, quando ele foi contra a vacinação das crianças, aquilo ali deu um salto na avaliação negativa entre as mulheres. >> Mas é também essa preocupação de mãe, né? Na história do pai vai embora, a mãe fica e ela é responsável pelos filhos. >> Justamente ninguém tem tuve, né?

¶65que as mulheres são eh tem muitos estudos sobre isso. Eu não tô tentando reforçar nenhum estereótipo, não, mas isso é histórica, história consistente, mais acentuada nas periferias periferias brasileiras, mas tem uma coisa cultural que transborda as periferias, né? É, gente, sei se é cultural, só porque é uma coisa biológica eh eh de >> de de milênios. Eh, eh, >> não, não é só isso. Quer dizer, de de do instinto maternal mesmo.

¶66As as crianças que sobreviveram foram as crianças filhas de mães que foram cuidadosas, elas carregaram esse gênio. Uma questão evolucional. são, né, o Darvin, eu concordo, eu concordo com a perspectiva darinista aqui, mas além disso, eh, que acho que ninguém tem, por mais que alguns acham que isso é cultural e que são estereótipos, mas quem vivenciou, como nós aqui, a a pandemia sabe que a responsabilidade maior pelo cuidado, cuidado com as crianças, com as crianças que deixaram de escola, cuidado com os pais e eh a questão da saúde, da vacinação na média são mulheres, não é? Então, é por isso que a rejeição ao governo Bolsonaro foi se acentuando ao longo do tempo. Quer dizer, ele saiu muito mais rejeitado pelas mulheres que entrou, não é?

¶67E agora o filho eh herdou o sucesso, né, os 30 pontos do pai, mas herdou também a rejeição no eleitorado feminino. >> Uhum. Quer dizer, esse é um ponto eh que ele vai ter que carregar eh como superar a rejeição que ele herdou do pai no eleitorado feminino. Quer dizer, o eleitorado conhece pouco o Flávio, não é, digamos assim, a massa, porque ele não foi ao debate de ontem, ele não dá muitas entrevistas, ele não tem um uma carreira como senador assim, com com uma luz própria. Então, as pessoas sabem que ele é filho do Jair, mas conhecem pouco.

¶68Então, não haveria, digamos assim, nada para que ele herdasse esse essa rejeição do eleitorado feminino eh de antemão, mas já herdou. E ele para ser competitivo, ele tem que melhorar o desempenho entre as mulheres, senão vai ficar muito difícil. >> Deixa eu te fazer uma pergunta. Eh, você fala muito da questão dos valores dos evangélicos e o quanto que isso é uma é uma revolução. Eh, a classe C da periferia urbana das grandes cidades brasileiras dá aproximadamente 1/3 da sociedade.

¶69Classe C chega quase 49, né? Chega quase 50% em geral. Mas quando você faz o corte periferia urbana, eh, de grande cidade, muito concentrado no Sudeste, mas Porto Alegre, Recife, Salvador, dá aproximadamente 1/3 da sociedade. Eh, nesse mundo desse 1/3, 30% tem eh um pouquinho mais de 30% tem diploma superior. O que é acima da média nacional, que dá uns 22, 23%, né?

¶70Eh, agora é um diploma superior que não virou renda. né? Eh, e e isso isso é um problema. É pior do que isso. Eu vou eu vou explicar porque que eu acho que é pior, porque esse é de é desigual a distribuição de como que esse diploma superior virou renda entre homens e mulheres na classe C da periferia urbana.

¶71Porque as mulheres conseguiram transformar essa essa esse aumento de educação em renda com muito mais facilidade, com muito mais frequência do que os homens conseguiram. Eh, em geral fizeram melhores faculdades e e cresceram mais economicamente. Eu não tô querendo de forma alguma entrar no debate Bolsonaro é fascista, não é fascista, o Marcelo é fascista, não é fascista. Mas tem uma característica desses movimentos de est. Quando você vai pro pros anos 30, o que que acontece ali na Itália?

¶72O que que acontece ali na Alemanha? Você tem entre, enfim, Primeira Guerra Mundial, depois uma baita de uma crise econômica, você pega, principalmente na Itália e e na Alemanha, são países de revolução industrial muito tardia. Então, muitos daqueles jovens homens eram a primeira geração vivendo em cidades e trabalhando na fábrica. Porque seus pais tinham trabalhado no campo como avóz bisavóz, trvóz desde a idade média. E aí vão para aqueles curtiços, tudo mais.

¶73E numa cultura em que o papel da mulher é cuidar dos filhos e o papel do homem é sustentar a família, você essencialmente é um sujeito fracassado se você não consegue sustentar sua família. E o que o que o os fascismos exploram essencialmente é pega um sujeito que tá extremamente ressentido, que tá extremamente frustrado e que tá se sentindo menos homem. Por que que o que te dá valor como homem é você capaz de sustentar a família? Se você não consegue sustentar sua família, se sua mulher tá o tempo todo reclamando que não tem dinheiro para remédio de criança, que criança tá com febre, se você tá morando num cortiço, o o horroroso, eh, em Milão ou ou na Bavária, eh se o trabalho tá escasso, se não tem comida para comida para alimentar os filhos três vezes por dia, eh, você é um fracasso. Você a definição do fracasso.

¶74Aí chega um sujeito gritando alto, batendo no peito, estufando o peito, fazendo discurso, gritando, dizendo: "Você é um descendente de Roma. É, eh, você é um viking, você é um alemão, você é da raça superior, você é o melhor do melhor do melhor do melhor. Bota um uniforme e vamos cair na porrada com as pessoas na rua". Eh, esse é o truque. Por favor, discorde do do do que eu tô falando.

¶75Você acha eh eh de certa forma, será que parte do apelo dessa direita com esse corte autoritário e populista que tem esse discurso da arma, da força do do uniforme, camisa da seleção brasileira e e boné make America Great again, isso é vamos nos sentir iguais na rua. vamos nos identificar rapidamente eh quem somos nós e quem são os outros. E esse discurso do o homem está sendo maltratado, isso e aquilo, eh, tem um caldo de cultura na nossa sociedade e não só na nossa sociedade que favorece este tipo de discurso político. E é natural que este tipo de discurso político vai fazer ter um apelo masculino e não feminino. Não >> é um ponto.

¶76É um ponto. e eh tirando a comparação, nem precisa ir tão longe, né, com fascismo italiano e o nazismo. Eu não tô chamando de fascismo, mas eu tô dizendo que no fim das contas o o jogo mesmo, >> esse esse fenômeno eh toda base social, todos os países da Europa em que há um partido e hoje eles estão em todos os lugares, um partido de outra direita, >> uma FD alemã, né, uma coisa. todos os países a base social do voto é dominantemente masculina na militância e do voto. A mesma coisa acontece também no Estados Unidos com Trump, não é?

¶77Então o algo de apelo na nova direita, da ultradireita, que fala mais aos jovens do sexo masculino, aos homens em geral e aos jovens em particular. Bom, agora você trouxe um um um elemento excelente pra gente eh conversar, porque eu acho que aí é uma falta da sociologia e da ciência política brasileira e também, quem sabe da antropologia, é nos ajudar a entender melhor o que que tá acontecendo eh nas grandes cidades brasileiras, particularmente nos últimos 10, 15 anos, né? O Brasil tá mudando de uma maneira muito rápida, muito acelerada. o que eu falo no livro aí em termos de eh da demografia e do sistema educacional é pouco paraas mudanças. tem mudanças eh no campo religioso, tem mudança nos valores com essa cultura do empreendedorismo, a desvalorização do ensino superior, que é um outro desafio agora nas universid, na nas periferias, quer dizer, ir paraa universidade já é não é mais uma opção sonhada por um boa parte dos jovens, como era há 10, 15 anos atrás.

¶78Tem essa divisão entre os meninos e as meninas, tem a cultura das redes sociais que tem impacto diferente, a chegada do da economia gig, né, com entregadores, motoristas de aplicativo. Isso eh agora com as bets é uma nova cultura urbana que não fala somente pros jovens e que nós entendemos muito pouco. Tem trabalhos recentes aí do Felipe Nunes e do Mereles, né, da locomotiva, Renato Merelles, que são tentativas de captar um pouco esse esse mundo, mas eu acho que ainda falta mais a gente fechar as pontas e dar uma explicação mais global como que essa nova cultura dialoga seja com a direita que parece que tá conseguindo conversar melhor com esse mundo. Vamos lembrar, o bolsonarismo é um fenômeno metropolitano. Tô falando, chamando de bolsonarismo, a votação que ele teve em quatro turnos que ele disputou a eleição e, provavelmente, pelo que os dados estão indicando, de novo, a eleição do Flávio será uma votação, melhor dizendo, sobretudo metropolitana.

¶79Então, tem esse componente que a gente não pode deixar de enfrentar. E eu acho que a gente não tem, digamos assim, a nossa capacidade de explicar, fechar essas pontas tão difícil. Do outro lado, tem uma esquerda que tem enorme, a a esquerda brasileira, particularmente o PT, nasceu como uma força política que fala pro mundo organizado, um mundo eh seja pessoas de classe média, o mundo industrial, o mundo dos movimentos sociais. Esse mundo acabou, não é? E o o o a nova forma de sociabilidade que superou essa é mal comparando, são as redes sociais atualmente.

¶80E a gente observa a o déficit, né, dos dos políticos de esquerda comparativamente aos de direita nas redes sociais. Isso também é no mundo inteiro. Não é só no Brasil que a que as forças de socialistas e social-democratas têm dificuldade de usar as redes sociais aqui também, porque talvez elas tenham sido formatadas por um mundo que acabou do ponto de vista da sua base. Não que elas não tenham mais relevância, é que a forma de comunicação eh é para um mundo que se transformou muito rapidamente. Então, acho que boa parte dos desafios da esquerda brasileira tão postos aí por essa mudança sociológica que nós não entendemos na sua consigo, por mais que eu tenha mexido com esses dados, eu não consigo ter uma explicação eh por que os as pessoas de ensino médio no Brasil, majoritariamente em duas eleições, votaram na direita.

¶81Não é por que os centros metropolitanos foram pra direita? Por que que a direita domina as redes sociais? Não é só Bolsonaro e sua família, são várias lideranças, enfim, vários pontos pra gente pensar e estudar daqui pra frente, né? Ricardo, eu não quero dominar não, cara. >> Não, tá, mas eu ia te perguntar, quer dizer, é uma coisa curiosa, porque eh por que que o ensino médio foi foi pra direita quando e até a universidade também, mas eh o que que aconteceu em relação a isso?

¶82Eh, eu queria te perguntar qual é o papel. A esquerda teve uma certa agada. da esquerda sempre teve como pauta principal a igualdade e a emancipação das dos pobres, enfim, das das classes menos favorecidas. E de 10 ou 20 anos para cá apareceu essa coisa eh identitária muito forte e esse se virou a a pauta básica da esquerda, né, dos movimentos minoritários de negros, mulheres, eh LGBT, etc. Eh, você acha que houve uma perda de de E a gente até vê hoje dentro da esquerda uma briga entre essas duas essas duas componentes.

¶83A gente viu o Quaquá brigando com Aniele, umas coisas assim, né? Essas parece que a esquerda perdeu um pouco, tava um pouco encabulada de ficar contra essas pautas e agora já nem tanto. Mas até que ponto houve um certo abandono das grandes bandeiras sociais e da preocupação com os pobres e o e começou a ver uma pauta que é evidentemente de classe média universitária, com muitas bandeiras inclusive importadas e da IV League dos Estados Unidos, tá? É, o tema o tema da da questão identitária veio com força nos últimos 10 anos no Brasil. Acho que boa parte eh quem vocalizou melhor isso foram os políticos do PSOL, não é?

¶84Eh, eu lembro que na eleição de 82 aqui no Rio de Janeiro já havia candidatos pelo PT, né? Eh, Lix Vieira, que se elegeu aqui como deputado estadual, pauta dele eram pautas, não é, ambiental, gays, a a o feminismo também tinha uma força no PT, mas o PT nunca, o PT do Rio era até, digamos, >> candidato do PT era o Lisanas Marcial, que era um pastor protestante. >> É, justamente. Então, era uma era um candidato, mas o o PT, por ter sido um partido eh com a forte presença católica e forte presença eh operária, em geral mais são mais conservadores nesses temas, o PT nunca trouxe esse tema eh digamos da esquerda e libertária europeia com tanta força como, digamos, 30 anos depois o pessool eh trouxe. um pouco as ideias da do debate universitário americano com uma é uma outra é uma outro é um outro feminismo, é um outro movimento gay, é uma nova discussão de identidade que não existia nos anos 80.

¶85Então, eh isso transbordou um pouco para outros segmentos da esquerda, sobretudo do PT. Eu acho que tem uma ala petista que que traz esses esses temas também à pauta, mas eu acho que é sobretudo um tema, como a gente dizia no passado, de eleições proporcionais, não é? E eu não vejo como como eh assim a gente possa eh eh quantificar o tamanho, mas se a gente olhar paraa bancada do PSOL e mais políticos do PT, mais digamos do campo identitário, sei lá, a gente tem 5% da Câmara, no máximo 3%. >> Não, pois é, não tem não tem respaldo eleitoral, mas >> não tem respaldo, mas no debate público, sem dúvida, sem dúvida. E e tem uma questão aí talvez um pouco inversa, porque como você teve um aumento da população evangélica monstruosa, né, que que monstruoso que que tem uma preocupação, é um eleitor que tem uma preocupação com a questão de costumes muito fortes e o cara, o que o cara vê nas redes sociais é essa discussão, né?

¶86Todo homem é machista, misógeno, não tem um tipo de ataque a isso. E e a toda essa pauta pró aborto, eh, e compreensiva em relação ao LGBT, que para um evangélico é uma coisa que incomoda bastante. A gente viu, né, nas entrevistas que a gente fez, o Antônio de Paula, por exemplo, um deputado e pastor evangélico aqui, a gente apoiou o Bolsonaro porque ele era a única força contra esse movimento w identitário e tal, que ia radicalmente contra os nossos valores, né? É, mas na na na ponta do lápis assim, eh, a política identitária tem menos eh força eleitoral do que parece para nós que vivemos na universidade, nas redes sociais, ela parece, tá, ter uma força, um apelo muito maior que ela efetivamente tem. Então, o problema é o seguinte, e a esquerda tradicional, o que pode ter acontecido é que a pauta, isso tá acontecendo com a socialdemocracia europeia também, porque a grande, a força que mais perdeu com a ascensão da outra direita na Europa não foram os conservadores, a socialdemia >> foi a socialdemocracia.

¶87>> Claro. >> E no Brasil não aconteceu isso. Quer dizer, no Brasil a gente tem ascensão da ultradireita contra a socialdemocracia. Quem perdeu, digamos, eh, no jogo político foram os liberais, um liberalismo social que era expresso ali pelo pelo PSDB e uma aliança com um certo conservadorismo mais tradicional da política brasileira. Esses foram os grandes derrotados, né?

¶88Tanto que a gente hoje ninguém mais fala em centro na política. a gente inventou o centrão, mas o velho centro, centro liberal, MDB, né, o PSDB, segmentos do PFL desapareceram. Então, no Brasil o debate eh se colocou diferente da Europa e a questão da da da esquerda não identitária, vamos chamar assim, é talvez, né, a agenda, não que tenha se esgotado a a pauta de redistribuição, a pauta de redução da pobreza, de redução da desigualdade no Brasil, é que pelo menos se a gente observar o governo Lula em relação a sua cesta de políticas sociais, a praticamente uma política nova que é o pé de meia até onde é o alcance. >> Quer dizer, o que nem era originalmente uma política do governo Lula, né? Veio da Tábata.

¶89>> É justamente. Então essa é uma política. >> A gente teve aqui no Rio, né? Teve essa discussão aqui no Rio. >> O tema da desigualdade ainda é o grande tema da esquerda, mas e a redução da pobreza, mas com essas transformações do Brasil, será que a população não quer ouvir outros temas?

¶90e deixa eu, deixa eu botar uma tese aqui na mesa. O, qual é a diferença da Europa pro Brasil nesse sentido? Eh, socialdemocracia, evidentemente, é aquele mecanismo, você tem fábrica, manufatura, indústria de manufatura, eh, eh, contrata pessoas aos milhões, tá todo mundo no mesmo chão de fábrica, todo mundo entrando às 7, saindo às 5 ou entrando às 9, saindo às 5, com a mesma pausa de almoço, todo mundo tá na mesma faixa salarial ou nas mesmas três faixas salariais para você organizar esse exército politicamente em sindicato. É muito simples, tá todo mundo junto. Todo a a luta pelo aumento de salário para um é a luta de aumento de salário para todo mundo.

¶91>> A gente tem algum interesse. >> É, é isso. É isso. Eh, e era assim na Europa, era assim nos Estados Unidos, era assim no Canadá, era assim, era assim no ABC de paulista. Uhum.

¶92>> Eh, agora quando de repente o trabalho começa a ir para Geig Economy, aí um é adversário do outro e você não consegue mais organizar politicamente porque a característica da plataforma, e isso é do mundo digital, não acho que seja uma coisa de um vilão, tudo mais, é só uma estrutura econômica diferente. A característica da plataforma é justamente de descentralizar ou ou ou e desintermediarizar. Quando você tem a a falta dessa intermediação, acabou a liga que formava um partido socialdemocrata, porque acabou o sindicato. Agora, no Brasil tem uma característica, porque a gente nunca se industrializou plenamente e e o Lula em particular tem uma peculiaridade que é uma coisa única e muito particular, que é o Lula tem apelo desde a eleição de 2006, é a tese do lulismo do André Singer, do André Singer. Eh, ele tem apelo para um eleitor conservador extremamente pobre, principalmente no Nordeste, mas também norte do país, eh, que depende de repasses do estado para viver para ter três refeições por dia e e um teto em cima da cabeça.

¶93é e que além de ter essa essa coisa da da política pública, né, do Bolsa Família e outras políticas públicas que são muito importantes para ele, ele ainda por cima tem uma identificação pessoal com o Lula. O Lula é o retirante nordestino que deu certo. Se se você quer olhar para alguém e falar: "Você pode ser alguém na vida, é meu filho", o Lula é o exemplo que você tem. Então, o que faz com que o Brasil seja diferente da Europa, me parece, é esse eleitorado. O mecanismo da social-democracia quebrou aqui como quebrou lá, mas o Lula ganhou a partir de 2006 um eleitorado que ele não tinha e que Partido Social-Democrata Europeu não tem como ter.

¶94Agora, Jairo, em 2030, partindo-se do princípio de que o Lula vai ser reeleito, em 2030 acaba. A esquerda não tem esse voto. O Lula tem esse voto. É, mudou. Mudou muito.

¶95E e há uma singularidade. Eu acho que você fez uma ótima eh explicação do das diferenças entre a social-democracia europeia e talvez com, digamos assim, a era socialdemocrata do PT tenha sido até meados da década de 90. >> Uhum. >> Antes do processo de desindustrialização acelerada que o Brasil viveu, né? que ocidente viveu o >> É, mas assim, então o PT da dos anos 80, ele era um partido que, embora não se chamasse como tal, ele tinha um, digamos, uma grande inspiração no na socialdemocracia >> europeia.

¶96O aditivo foi justamente a grande mudança tem a ver com a presença do Lula e dos seus governos e os governos da Dilma também, né, de eh privilegiarem uma franja da sociedade, ou seja, eleitores de mais baixa renda, escolaridade com políticas de transferência de renda, que não são as políticas tradicionais da socialdemocracia, que em geral são políticas universalistas de educação, saúde. Quer dizer, eh, PT inventou uma série de ou adaptou uma série de políticas públicas que, eh, foram responsáveis em série pela vitória, não é, do do das duas vitórias da da Dilma, do Lula em 2010, do próprio Lula em 2022 e provavelmente será se eh Lula vencer esse ano, ou seja, a o eleitorado das pequenas cidades do Nordeste. Quer dizer, o a diferença em termos de votos que o Lula, eu digo das pequenas cidades, porque o Lula sai dessas cidades com 6, 7 milhões de votos a mais do que o candidato, né, o Lula e o os candidatos do PT, inclusive Had, para tirar essa diferença no Sudeste, só o Bolsonaro conseguiu e 18, os outros não conseguem. Só essa diferença. >> Mas aí você pega um eleitorado masculino jovem radicalizado.

¶97>> Justamente o que a a diferença é que não há eu até onde eu alcance uma socialdemocracia que viva das pequenas cidades, viva dos municípios com menor th, viva dos rincões do país. Essa >> turismo não é socialdemocrata. >> É, não é, não é. Eu digo, tô chamando de esquerda socialdemocrata nesse sentido. >> Claro, claro, claro.

¶98>> Acho tem razão. >> Tem uma componente interessante agora vindo paraa periferia. Eh, você ter um jovem que antes tava eventualmente na indústria e tal e era receptivo ao discurso do do PT e tal, do sindicato. Mas agora com a Geek Economy e tal, você tem o cara que é motorista de aplicativo e que não é operário, não tá no sindicato e ele quer ganhar dinheiro e e subir e ficar rico. E o que o PT diz para esse jovem é você é um otário, você é o pobre de direita, você não vai chegar a lugar nenhum, isso aí tudo é uma conversa fiada.

¶99você vai continuar quebrado. Mas então, qual é a alternativa? Não, a alternativa é você ser CLT, trabalhar na indústria e você vai ser explorado pelo capitalista por causa da luta de classe. Você nunca vai ser o capitalista porque ganhar dinheiro não é uma bandeira razoável para essa esquerda tradicional. E aí o que você oferece pro cara, fal assim: "Olha, ou você é otário de ser motorista, eu vou ser otário de ser CLT".

¶100O que que a esquerda tá oferecendo para esse pop da periferia, né? Não surpreende que esse cara vá para outro lugar. É, por enquanto o que a esquerda oferece é o que o governo de esquerda tem oferecido, não é? Quando ela tiver fora do poder, ela vai ter que olhar para esse mundo e tentar eh ajustar o programa, ajustar processos de de incorporação desses jovens na própria no próprio partido. Por enquanto, ela pode se dar o luxo de abrir mão desse eleitorado ou claro que não vou dizer que ele abre mão, ela não consegue falar de uma maneira tão eficiente quanto a direita tá fazendo.

¶101>> Mas é uma repulsa ao empreendedorismo, né? muito forte dentro do PT, né? Porque o empreendedorismo é o capitalismo de alguma maneira, né? >> É o pessoal também. >> Pois é, também.

¶102>> É, >> então, deixa eu pegar o gancho aqui da pergunta do Ricardo e e te fazer uma última pergunta. A gente já tá eh chegando aqui ao fim. Você fala muito do surgimento dos evangélicos e você fala do surgimento dos evangélicos pelo lado dos valores. É que tem uma de fato uma profunda mudança. Essa turma e esse conjunto de brasileiros que a gente sempre considerou pobres, hoje estão num universo em que o problema deles passa a ser pagar boleto, deixa de ser se alimentar três vezes por dia e ter um teto.

¶103Então a gente tá falando essencialmente de uma classe média. Quem média é baixa. >> Não tô dizendo que a vida não seja dura, porque a vida é, não é toa que eles chamam de ocorre, né? a a vida ocorre mais, é uma vida de classe média e aumenta a renda, aumenta o nível educacional e religiosamente se organizam de um jeito que jamais vimos pessoas se organizarem religiosamente no Brasil, que é igrejas protestantes. a gente era um país católico que tinha aquela franja de religiões afro, eh eh que aliás conviviam muito bem, aprenderam a conviver em lugares como o Rio, como a Bahia, tudo mais, né?

¶104Um um sincretismo. Eh, mas de repente a gente tem esse mundo crescente, um quarto indo para um terço do Brasil eh eh evangélico. Vem cá, o Weber tava certo? Existe uma ética protestante do trabalho que reorganiza politicamente a cabeça dessas pessoas? E será que tem um componente eh eh a partir do momento que deixam de ser católicos e passam a ser protestantes?

¶105Porque seus pais e avós eram católicos, né? Vieram católicos no Nordeste, emigraram na no êxodo rural para São Paulo, pro Rio, para Belo Horizonte, para Brasília. Eh, não encontraram uma igreja católica, mas tinha um bando de pastor ali abrindo uma portinha. O o o dos anos 60 para cá, de forma cada vez mais acelerada, a gente viu tem uma mudança de compreensão do mundo e o crescer economicamente por conta do trabalho passa a ser um valor. Você acha que tem um componente disso?

¶106E que porque se for isso, se for, se a tese feberiana tiver certa aqui e ela se aplicar ao Brasil, isso é uma mudança e eh eh sociológica radical, que não tem nada a ver com valores, com aborto, com banheiro, trans, tal, tem a ver com que você pensa trabalho, como você pensa renda, como você organiza economicamente o país, né? >> A tua hipótese é boa, eu vou chamar assim de hipótese porque a gente não tem dados, tá? >> Para ou refutá-la ou acolhê-la, né? Eh, até o Isera agora realizou uma grande pesquisa nacional com 15.000 brasileiros sobre religião e uma série de atitudes. Talvez seja a maior pesquisa que a gente já teve no Brasil sobre religião e valores.

¶107E provavelmente a gente vai poder eh com essa pesquisa comparar melhor, né? até eu não não vi o questionário, mas ética do trabalho, eh visões de mundo, questão das armas, do aborto, tá? Entrou tudo na pesquisa, né? Mas por enquanto eu suspendo o meu o meu juízo, né? sem os dados.

¶108Mas há um elemento eh interessante aqui no Brasil que é o seguinte, o um movimento evangélico chamado assim mais por nós estudiosos do que pelos próprios necessariamente a pessoa mais evangélica que eu conheço, mais radical, eu pedi para ela se autodefinir para mim, ela falou que era cristã, ela não se via como evangélica. Então, a o que diferencia a Deixa eu te interromper só para um comentário que isso é uma coisa que eu aprendi recentemente numa conversa, eh, e depois comecei a testar e descobri que é a verdade. A diferença entre pentecostal e neopentecostal no mundo evangélico é zero. Eh, a pessoa deixa uma igreja e adota outra igreja porque gosta do pastor, gosta da comunidade. se a igreja é batista ou universal, na cabeça dela, ela segue sendo a mesma pessoa cristã.

¶109Mas então, voltando aqui à diferença fundamental, talvez pro pro pra hipótese do Weber, que também para ser justo, muitos historiadores modernos disseram que o Weber tava errado, não é? Que a a hipótese dele não se confirma com os dados modernos, mas vamos lá. A hipótese do Weber era uma relação entre crescimento da das denominações na época, sobretudo eh luteranos e calvinistas na Europa e como isso tinha >> dado uma criado um ambiente, uma cultura eh favorável eh por por associação religiosa e e de valores para a ascensão do capitalismo, a ética do trabalho, da acumulação, da dedicação. Há uma diferença fundamental com o Brasil que é a o nosso mundo evangélico é muito fragmentado. Eu acho que a gente tem eh dificuldade até de criar uma, digamos assim, um uma lista de tópicos em comum em tantas denominações.

¶110É o que você falou, pastor da igreja, se você vai na Baixada aqui no Rio, coisa que eu já fiz, às vezes num quarteirão você encontra oito templos diferentes. E alguns desses templos tem o assembleia de Deus do bairro tal, ou seja, o pastor dissidente que criou e levou com ele 50, 60 pessoas. >> Exemplo o Antônio de Paulo, que o deputado estadual aqui evangélico, ele é pastor evangélico da Assembleia de Deus de Madureira. >> De Madureira. E tem outro, >> tem uma e aí tem um que é muito mais à direita, o outro é mais, >> é difícil até falar de uma teologia em comum, sabe?

¶111Então, o que a gente precisa entender melhor é se existe de fato um um algo em comum nessas todas essas denominações desse campo que a gente tá chamando de campo evangélico e como isso se traduz na política. O que eu consegui levantar pro livro é primeiro os evangélicos até 2014 votavam majoritariamente na esquerda. se houve uma inflexão em 18, a minha hipótese explorada foi que isso se deve a uma a um alinhamento eh digamos com os valores mais gerais. E de fato eu mostro aí no capítulo 4 do livro para ser preciso, né? Quando eu classifico a população brasileira em conservadores liberais e moderados, né, a partir de um exercício muito simples que eu fiz, eh, os evangélicos, primeiro é o grupo com maior com maior eh percentual de conservadores, nesses tópicos mais de costumes, e há um alinhamento muito claro entre ser conservador e a probabilidade de votar na direita.

¶112Então, de certa maneira, Bolsonaro conseguiu alinhar o movimento eh evangélico, grande parte dele, ou 70% dos eh evangélicos à direita, repetiu isso em 2022. E o Flávio tá repetindo mais ou menos no mesmo patamar. No primeiro turno, o Flávio tem, segundo o Datafolha de ontem, 68% dos votos dos evangélicos hoje. Então é algo impressionante. >> Deixa fazer uma pergunta.

¶113Você falou que até 2014, não é isso? Os evangélicos votavam na esquerda e a partir daí não. Qual a importância da Lava-Jato nessa migração pra direita? Eu acho que a Lava-Jato, ela criou um ambiente eh antipolítica em geral. Eh, foi um elemento a mais num numa década em que o tema da da cultura da direita se impôs.

¶114A gente eh bestseller de direita, eu levei, sei lá, 40 anos para ver numa livraria, uma banca de livros de autores de direita e nas listas dos mais vendidos. Isso não existia. Quer dizer, é um é um uma cultura de direita que convergiu ali naquele momento com a Lava-Jato, com a ascensão do bolsonarismo, de outros movimentos culturais, eh, que eu não diria que foi só Lava-Jato, mas no caso específico dos evangélicos, a minha hipótese é que isso não tem a ver necessariamente com o ambiente político mais geral, mas tem a ver com o governo Dilma. E como ali naquela legislatura eh Damares, Bolsonaro e várias lideranças de direita politizaram a questão dos costumes em confronto aí sim com a agenda basicamente ali do PSOL. naquele momento era o Jean Willes, o grande, e a Manuela, que eram os grandes adversários naquela legislatura de 11 a 14, que começa virada em termos de valores, ou seja, o lado de lá tem uma visão de família, eh, de identidade, de cuidado com os filhos, de casamento gay, que nós não temos.

¶115E se você é cristão, você fica com a direita. Isso falando assim parece uma caricatura, mas eh os dados mostram que de fato o tema que levou o os evangélicos paraa direita foi menos um alinhamento ideológico mais global sobre economia política e mais como o tema dos costumes foi politizado com muita sabedoria pelo Jair Bolsonaro. >> Tá em linha com o que o Antônio de Paula dizia. A gente apoiou o Bolsonaro porque ele era o cara que tinha a pauta de costumes que combinavam com os nossos >> e ficaram e ficaram >> e pelo parece que vão ficar mais dois turnos com a direita. >> Mais dois turnos, primeiro e segundo turno de vocês.

¶116>> Agora é provavelmente. >> Jáô, que que vai acontecer agora em outubro? outubro. Eu não, eu não, eu não sei, eu não sei. Você político, >> eu acho, eu acho assim, eu eu vejo as pesquisas com muita prudência, porque eu acho que essa é uma eleição muito diferente das que eu vi.

¶117Eu sei que os institutos erraram três vezes, pelo menos, subestimando o Jair Bolsonaro. Então eu vejo as pesquisas com muito cuidado. Também tô um pouco ressabiado com esse clima de desinteresse que pode ser traduzido aí num aumento de votos brancos, nulos e abstenção. A gente não sabe quem se beneficia disso. Então, acho que é uma eleição difícil de prever.

¶118Eh, uma eleição difícil. Não vejo assim uma, eu sei que alguns analistas estão apostando numa grande vantagem do Lula aí de seis, oito pontos, mas eu sou mais prudente. Eu acho que a gente tá embicando para haver uma eleição tão difícil quanto foi, digo, em termos de de prognóstico, né, como foi o segundo turno de 2022. Mas não sei, né? >> Então, então deixa eu, pra gente terminar, deixa eu tentar me aprofundar.

¶119eh eh um pouquinho nesse prognóstico que você tá fazendo. Eh, repórter de política aqui. O o meu costume, quando a gente fala de abstenção é ah, é aquele eleitor eh com um nível educacional mais baixo, mais pobre, mais concentrado no Nordeste, que abstém. Ou seja, quanto maior abstenção, pior pro Lula. Isso habitualmente é isso.

¶120Não tô dizendo que é isso que vai acontecer. Eh, é um país mais feminino do que masculino. Ah, mais mulher votando, menos homem votando. Se a abstenção é maior entre homens, menor entre mulheres, aí eu tô olhando para uma vantagem pro Lula. Deve ter mais voto que o Flávio vai perder.

¶121Partindo-se do princípio de que quem vai pro segundo turno e havendo um segundo turno, eh, eh, é o Flávio. Eh, o, o cálculo é assim mesmo. >> É, eu acho que o olhando para as últimas três eleições que a gente tem dados de abstenção por grupo social, é por aí. Eh, quanto maior a escolaridade, maior o comparecimento, menor a abstenção, né? Se eu vou num segmento de analfabetos que não são obrigados a votar, metade não vai.

¶122As pessoas com ensino fundamental incompleto, 70 eh vai e 30 fica em casa. Então, >> lá nas pessoas que tm superior completo, 90% comparece, 10 fica em casa. Então, a o o comparecimento no Brasil tem uma dimensão educacional clara. Agora, por outro, isso favorece a direita. >> Uhum.

¶123não é que tem maior votação nos segmentos que tendem a comparecer mais educados. >> É, que por outro lado, o comparecimento é maior entre as mulheres numa faixa, digamos, se eh entre os dois pontos percentuais de diferença, a a proporção de mulheres, isso favorece o Lula. Então, o Lula é favorecido primeiro porque ele tem uma taxa de de preferência maior entre as mulheres e também porque elas comparecem em maior número. Não porque são maior, são a maioria, mas porque a proporção de mulheres inscritas vai mais do que a proporção de homens inscritos. Então, digamos, hoje esses fatores se anulam >> e você tá falando, se eu te compreendi bem, que jovens estão se abstendo mais do que costumavam se abster e esse voto jovem tende a ser mais bolsonarista do que o voto mais velho >> dos meninos, das meninas mais petistas.

¶124>> Meninos, tá bom? Mas quem se abstém entre os jovens são os homens, não são as mulheres, né? >> É. Então, eh, esse mosaico, digamos, social pode ajudar a explicar uma eleição muito apertada, não é? Muita gente imaginava que isso fosse acontecer.

¶125Eu até brinco aí no livro que aquela operação bisonha da Polícia Federal achando que ia afetar os resultados, >> eles tentaram >> de uma eleição, mas parando que fossem 10.000 ônibus numa eleição de milhões de eleitores, não é? Eh, era uma premissa que a abstenção faz diferença, né? Eh, é isso sempre foi presente na na nas eleições brasileiras, mas com uma eleição difícil como essa e sobretudo com esse desinteresse que tá pairando no ar, que pode mudar, não é, mas que também pode se traduzir numa numa numa avalanche de abstenção brancos e nulos, aí a gente não sabe para que lado isso vai, né? Agora, Rogério, olhando pro futuro, quer dizer, que você tá vendo, você tá dizendo que tem um processo que dá mais voto paraa direita e menos pra esquerda. Quer dizer, esse processo continuando vai ficar cada vez mais difícil pra esquerda.

¶126>> É, do ponto de vista demográfico, as mulheres mais ou menos bateram no tento. A gente hoje tem 53 a 47, né? 53 imensa, né? >> É, são 8 milhões de mulheres a mais no eleitorado brasileiro. É muito mais mulher.

¶127Mas isso não vai eh muito longe. As mulheres não vão chegar a 60% da população, né? Isso é é remota essa hipótese. Então, mas a o processo de escolarização não para. >> E hoje eu tava vendo, >> população tá ficando mais velha também, >> mexendo nos dados, o eleitorado de baixa escolaridade tá concentrado dos mais velhos.

¶128Então, a cada ano morrem ou não comparecem mais porque não são obrigados a partir de 70 os eleitores mais velhos, eles saem do sistema e entram os netos e filhos que já chegam com ensino médio. É uma outra realidade. >> Estão mais à direita. >> E estão na média mais à direita. >> Sim.

¶129>> Jairo, Nicolau, qual o nome do livro? É o onde que a gente encontra? >> O Brasil dividido. Eh, encontra em todas as livrarias, eu acho. Livrarias.

¶130casas do ramo, >> as melhores casas do ramo, mas eu acho que dá para encontrar aí. E e e se eu posso falar eh eh se você quer entender a sociedade brasileira, pega o livro sobre a classe C do Renato Meireres, pega o o livro do Felipe Nunes, eh eh Brasil no Espelho, pega o país dividido do Jairo Nicolau, você entende ou você tem ali tanta informação quanto os maiores especialistas têm a respeito de como funciona a a como funciona hoje a sociedade brasileira e o impacto que isso tem na política. Muito obrigado. >> Eu que agradeço a conversa aí ótima com vocês. Com grande prazer.

¶131>> Tá lá. Obrigado. >> Valeu, cara. >> Eh, Ricardo Rangel estreou no sábado o seu novo filme, né? >> Deixa eu ver para cá.

¶132>> Estreou. Pois é, estreou. Eu eu tira tira ali a cadeira porque senão a gente vai virar a bancada aqui. Eh, estriou seu novo filme. As pessoas já estão comentando.

¶133>> Ouvi alguns comentários no no na rede do meio. Eh, acho que tá indo bem. Todo mundo que tá que viu tá gostando. É, é um, você obviamente conhece o projeto desde sempre, mas é uma tentativa de mostrar pro espectador quem são esses candidatos e como é que esse tabuleiro se organiza, né? >> Qual o nome do filme?

¶134>> O nome é é A Escolha, na verdade, é Eleições Presidenciais 2026, a escolha. já tá no streaming do meio. Eh, eh, vocês podem, todo assinante premium nesse momento pode entrar e e assistir. E essencialmente esse filme que o Ricardo dirigiu, ele tenta olhar quem são os candidatos, olhar que Brasil é esse e e a partir desse, o que é esse Brasil, o que que são esses candidatos, ele tenta municiar todos eh com informação suficiente para fazer a escolha que precisa ser feita. Eh, você mergulhou na história dos cinco principais candidatos.

¶135Eh, se você tivesse que explicar o que que cada um deles traz paraa mesa de diferente, como é que como é que você explicaria, como é que você perfilaria eh esses cinco caras? >> Eu acho, bom, começando pelo incumbente, né, pelo Eu acho que a história do Lula todo mundo mais ou menos conhece, né? A história de um retiamo, história meio heróica assim, né? Épica. Certo.

¶136>> Eh, mas é um um retirante que que enfim que veio do nome Pau de Arara, né? Um cara que teve dificuldade, viveu enchente, passou fome e veio para cá, virou sindicato, começou a trabalhar com 14 anos de idade, eh, e com uma sensibilidade social muito forte, né? Com, enfim, todas as circunstâncias que a gente conhece, mas é um cara cuja bandeira sempre foi essa, entendeu? >> Obviamente um sujeito brilhante, né? Porque o que ele faz com que a vida entregou ele é é bem >> ah com certeza, né?

¶137Você pode gostar ou não gostar, como você pode gostar ou não gostar do Giscan. Agora que esses caras, esses grandes líderes têm um um tipo de estrela eh e uma competência particular, né? Sei lá, o Getúlio, né? Esses grandes líderes que é indiscutível. O cara conseguiu chegar a isso e e com uma história que parece mesmo, não é parece época no sentido canônico, né?

¶138é um cara que veio, cresceu, chegou ao auge, depois caiu, caiu em desgraça, chegou a ser preso, voltou e conseguiu se eleger de novo, né? É uma é uma trajetória muito impressionante. Mas eu diria que a questão eh fundamental do Lula, né, eh sempre foi essa da bandeira social de emancipação dos pobres, etc e tal. eh, teve, conseguiu fazer muita coisa, como Bolsa Família, vários programas sociais, não fez a coisa mais importante de todas, que é fazer um sistema de educação de qualidade, né? E tem todos os problemas de corrupção que a gente conhece, que houve em todos os governos, né?

¶139Teve mensalão, teve petrolão, estamos vendo esse negócio do Lulinho agora aí no INSS, que não é exatamente o governo fazendo, mas que tem um grau de eh de contágio ali muito alto. Então, acho que o Lula, mais ou menos, todo mundo sabe quem é o Flávio. Ele tem muito pouca personalidade própria, né? Ele é o recall do Bolsonaro. Ele representa o que o Flávio Bolsonaro representa.

¶140E o que ele representa é basicamente uma coisa de direita muito forte, especialmente ligada à segurança pública, eh com um olhar de que a repressão violenta eh a ao crime terá resultados. A história demonstra que não tem, né? Nós estamos tentando fazer isso há quê? Quatro décadas e a violência só aumentou. Mas na questão do Flávio tem uma coisa um pouco preocupante, porque essa ele tem uma ligação direta com a criminalidade que em tese ele está combatendo, né?

¶141A, enfim, a gente que é do Rio, quem tá prestando atenção conhece a história do Flávio e dos Bolsonaros em geral aqui, mas quem tá fora não conhece tanto. A gente fala muito disso no quando mostra quem é o Flávio, a ligação com a milícia em particular, né? e com um assassino de aluguel que era amigo, era próximo da família, tinha mãe e mulher eh lotadas no gabinete do Flávio. Então você tem uma coisa ali que é um pouco eh dúbia em relação >> Adriano da Nóbrega, né? é o Adriano Magalhães da Nóbrega, que era o chefe do escritório do crime aqui, que é um dos principais matadores de aluguel, eh, que chegou a ser chegou a ser suspeito do assassinato da Marielle, eh, numa certa época, antes de descobrir que foi o o Ronilessa mesmo, né?

¶142Eh, enfim, o Ronaldo Caiado é um político antigo, sempre representante do setor eh agrário, né, do do agronegócio eh desde os anos 80, né? foi candidato em 89, representó chamado UDR, que é a União Democrática Ruralista, e fez muito, enfim, foi um um deputado depois um senador muito aguerrido, né, muito atuante, sempre defendendo os interesses eh setoriais do do negócio do agronegócio. eh, fez um bom governo, tá muito bem avaliado. Eh, mas tem as dificuldades que ele tem de sair de Goiás e e ele não até literalmente não tem saído de Goiás, né? Eh, tá fazendo pouca campanha e tal, mas é um cara e eh respeitado, teve uma uma atitude, apesar de bolsonarista, né?

¶143né? Quer dizer, como tem uma coisa engraçada que o J tava falando aqui, quer dizer que o com o o bolsonarismo, o o centro e o e o liberalismo social, né, essa gente perde que nós, né, perdeu completamente o seu lugar. Mas o que é engraçado é que a direita também, porque o Brasil desde a ditadura ninguém tinha coragem de se dizer de direita, né? Tanto é que o centrão, que obviamente uma coisa que defende oligarquia, se se chama centrão. Ninguém se dizia de direita.

¶144Eh, e agora tem um monte de gente que se di direita e quase todo mundo é bolsonarista, quer dizer que é uma direita muito pesada, né? Então, a direita conservadora eh clássica, tradicional continua não existindo, né? Ninguém se >> O Caiado representaria, né? >> O Caiado representaria, mas como esse eleitorado foi todo pro Bolsonaro, o Caiado é um cara que ficou ali junto com o Bolsonaro, era aliado do Bolsonaro e tal, se afastou um pouco durante a pandemia porque ele é um médico, né? Então, teve uma atitude a favor do isolamento, da vacinação e tal, e depois teve conflitos com Bolsonaro eh na política local de Goiás em relação a candidata a prefeita e tal.

¶145Eh, e hoje ele tá aí, ele tem essa dificuldade. Quer dizer, se ele ficar muito contra o Bolsonaro, perde voto. Se ele não ficar contra o Bolsonaro, ele não vai para lugar nenhum. E ele tá aí vivendo, lidando mal com essa, com esse dilema, por assim dizer. O Zema é é um cara que inclusive tem o mesmo dilema, né?

¶146Ainda ele tá mais próximo do Bolsonaro, mas também é o cara que brigou mais com o Flávio, mas depois também voltou atrás. O Zema é um empresário, né? Não é um selfmade man, não é um cara que ele ele ele herdou o negócio dele, que que é uma empresa grande, ganha muito ganha muito dinheiro. Ele foi os candidatos a governador o mais rico, né, naquela época na na eleição quando declarou a a e é um cara que tem horror ao PT. e muito violentamente durante PT é um cara a favor do dos empresários, né?

¶147Ele não é um liberal, né? Se diz um liberal, mas não é, ele não tem os valores liberais clássicos. Ele é a favor do do negócio, do da livre iniciativa. >> É a favor dos empresários e não do mercado, né? >> É que que a esquerda costuma achar que é a mesma coisa, mas não é, né, gente?

¶148Não, bem bem diferente. >> É que você a favor do mercado, quer dizer que você quer competição, competição. >> Você não quer empresa grande, você quer várias empresas médias brigando por espaço. >> É, dia a gente tava conversando que, é uma coisa um pouco contrainttuitiva, que o o capitalismo e os capitalistas não são não andam juntos, eles não são amigos, né? Porque o capitalista, no sentido do capitão da indústria, né, do grande empresário, ele tem um horror de capitalismo.

¶149O que ele quer é monopólio, né? o que ele quer, moleza do governo, pouco imposto e monopólio. O capitalismo é o o oposto disso, né? O capitalismo é pouco imposto e todo mundo competindo. Mas enfim.

¶150E tem o Renan, que é essa figura nova, né, que tem mais popularidade com os jovens, não tanto quanto algumas pesquisas dão a impressão, né, a gente sabe que você tava falando aqui com o Jairo, então tem uma certa manipulação do do do espaço nas redes, mas é um cara com, enfim, com ideias eh estranhas, né, quer dizer, barbaridades. a gente prometer um banho de sangue no debate, né? E e tem uma coisa muito violenta e muito agressiva. Eh, e é o e é o mais desconhecido, né? O cara do MBL, mas sempre o governo, o o Zema e o Caiado são relativamente desconhecidos, mas são governadores, tem trajetória, né?

¶151O o Caiado então foi senador, né? Eh, o Renan é o mais desconhecido. Então, é é interessante ali como é que é. Eh, não tem muita gente para falar sobre o Renan, né? A gente encontrou um cara chamado Thiago Pavinato, que é um advogado, tá aí nas redes, é um comentarista político, mas era um cara que foi colega de de faculdade do Renan e >> São Francisco, né?

¶152>> É, na São Francisco. E e teve no EBL bem próximo, depois se afastou e ele fala coisas muito interessantes assim que inclusive como que o que o MBL é uma espécie de culto ao redor do do Renan. É uma coisa ali, vale a pena ver, mas é muito interessante o depoimento dele nesse sentido. E e você entrevistou pessoas que conhecem os candidatos, né, que que falam um pouco de de quem eles são. >> É, esse filme eh teve muito mais entrevistados do que a gente normalmente faz, né?

¶153A gente em geral tem uns 12 entrevistados assim, que já é bastante para um documentário de uma hora e um pouco, mas esse a gente entrevistou 18 pessoas justamente por isso, porque são cinco candidatos. você precisa encontrar gente que saiba o que dizia sobre esses cinco candidatos. Não é não é tão fácil assim. Então, a gente a gente conversou com muita gente, a gente conversou eh com analistas políticos, né, como Maria Hermína Tavares eh o Pablo Hortelado, Thomas Trauma, pessoas assim. e conversou e o Alberto Bombiga, que é um jornalista que conhece o Caiado bastante e tal, conversou com gente que conhece esses candidatos, né, como esse Thago conhece o o Renan.

¶154A gente conversou com um ex-vice-governador de Minas, que foi vice-governador do Zema, que é o Paulo Branco, inclusive é irmão do Fernando Branco, compositor. Eh, então a gente >> são parecidos, inclusive, né? >> Pois é, são parecidos. conversou com a Juliana Dalpiva, que é a pessoa que mais entende de Bolsonaro, da família Bolsonaro no Brasil, de longe, assim, é a pessoa que num dado momento da vida se dedicou a a >> e nossa colega jornalista >> e nossa colega jornalista já teve aqui, eh, e conversamos com gente que entende, conversamos com com Maurício Moura, que é um cara que entende profundamente o eleitorado e quais são as tendências e que acha isso, que a deleição vai ser decidida por 3% dos votos que são aqueles caras que aceitam, cogitam votar tanto no Bolsonaro como no Lula, porque tem muita gente que vota no vota só no Lula, tem gente que vota em alguém, mas não vota no Bolsonaro, tem outro que vota no Bolsonaro, mas não vota no Lula. muito pouca gente, assim, foi muito boa a entrevista com o com o Maurício.

¶155A gente conversou com o Juliano Espier, que é o cara que mais entende, uma das pessoas que mais entende o fenômeno evangélico e é impossível você entender o fenômeno evangélico, o o a eleição no Brasil sem estudar o fenômeno evangélico. Então, a gente conversou com com muita gente mesmo, a gente conversou com deputados, a gente conversou com o deputado Antônio de Paula, que é um pastor evangélico também, que foi bolsonarista e depois rompeu com o bolsonarismo. Então tem opiniões muito interessantes de quem alguém viveu lá dentro e depois eh brigou e etc. A gente conversou com o Luís Paulo Correa da Rocha e Gilberto Palmares, que são dois deputados que conviveram com o Flávio na Alerge na Assembleia Legislativa do Rio naquela época. Então não tem o olhar de como é que era o Flávio 20 anos atrás.

¶156Eh, então conversamos com com muita gente, foi e a e a maior parte quase todas as entrevistas foram muito boas. Eh, e a gente vai botar no ar gradualmente todas essas entrevistas na íntegra, porque, enfim, obviamente, e esse o pior problema, a coisa mais difícil de você fazer um filme desse é como é que você corta, porque tem que caber em 1 hora e meia. Então, eh eh você tem que cortar muita a coisa que interessa muito. A gente fez uma intervas que a gente vai botar no ar com uma pesquisadora que é Rosmarie Santini, que é profunda estudiosa do fenômeno das redes na eleição. Como é que como é que as forças eleitorais se movimentam para conseguir voto dentro da rede?

¶157Ela é especialista em particular em relação à desinformação, a manipulação do voto, fake news, todas essas coisas. Ela foi muito bacana a entrevista dela. >> Professora da minha escola da Eco da UFRJ. É. >> E e me diz uma coisa, alguma coisa?

¶158Você é um cara que conhece muito política e que conversa sobre política em alto nível a a por baixo de uma década, né? E eh >> alguma coisa te surpreendeu? Alguma coisa que você tem aprendido fazendo esse documentário? Opa, eu não tinha visto por esse lado. Tem o O que que você acha que te faz sair de ter feito esse filme diferente do que você entrou?

¶159Eu acho que me deu um um um panorama melhor. Eu eu não diria que eu descobri coisas assim. É claro que quando você conversa em profundidade com o cara que foi vice-governador do Zema, você entende muito melhor o processo de como é que foi o como é que foram esses esses 8 anos de governo Zema, né? Eh, mas não tem nada que fala assim: "Puxa, eu achava que era o contrário, não tinha uma coisa realmente nova. Eh, eu acho que não, mas mas um panorama muito mais amplo, conversando com gente que conhece essas pessoas muito de perto, né?

¶160Então, e eu acho que isso é é um privilégio para quem assistir assistir o programa, porque você não ouve muito. Claro, o Lula todo mundo conhece, tá na primeira página dos jornais e o Flávio também, se você quiser saber quem é, é mais fácil. Mas para você conhecer os outros três é bem mais difícil, né? tem pouca informação. Esse é um dos problemas da da polarização, porque ela cria um círculo vicioso, né?

¶161Você tem esses dois, só se fala desses dois. Como se fala desses dois, ninguém conhece os outros. E, portanto, todo mundo continua votando nesses dois e esses dois continuam eh na primeira página. Mas então, eu acho que o o programa tem esse mérito de jogar uma luz um pouco mais forte em relação a esses outros candidatos, né? Ah, outra que eu não que eu não mencionei, a gente entrevistou o Armínio também, porque havia uma preocupação, evidentemente, mas economia é sempre um assunto, não tem um bloco inteiro dentro do filme eh sobre a questão da economia, que é sempre um assunto.

¶162A gente no Brasil não discute educação, não discute saúde, não discute, né? Isso é uma outra coisa que que a gente sente muito quando vai fazer um, a gente já sabe, mas é sempre um pouco doloroso, porque você vê que os candidatos não têm eh propostas reais sobre o sobre os as grandes temas que deveriam estar no debate nacional, né? Quando você tem uma polarização afetiva para usar a expressão, Pablo Hortelado gosta dessa expressão que tá tá no no programa também. Eh, você vota nesse candidato porque você odeia aquele candidato e não é porque você não gosta do que ele vai fazer, você acha que a política de segurança tá errada, é porque ele é o mal, né? E aí você não discute nada no país, você só discute que ele é o mal, então aquele outro é o mal e você continua na mesma.

¶163Então, a gente tem uma educação de péssima qualidade há muito tempo. Eh, melhorou um pouco, melhorou um pouco, mas dizer, não é aceitável que o Brasil em 137 anos de república não tenha feito um sistema educacional decente de ensino básico. Nenhum governo fez e a gente não fala disso, né? >> Já tá no ar. E eu realmente recomendo a todo mundo assistir.

¶164Fundamentalmente, gente, por causa por causa disso. É bom esse exercício, entendeu, de você parar. Isso é uma preocupação imensa que a gente tem aqui no meio, esse exercício de fazer com que você pare 10 minutos, 20 minutos. durante o mês e meio anterior à eleição, todo dia, para se informar a respeito de quem são os candidatos, de quais são os debates, de qual o quadro do país para fazer uma escolha. eh eh tentar.

¶165Veja, eu não tenho eu não vejo eh eh eu não vejo pessoalmente nenhum problema em você trazer emoção pro voto. Nós somos um um tipo de bicho que simultaneamente quer ser um ser independente, que age por conta própria e e somos socialmente gregários. Nós somos esse bicho que eh tá o tempo todo tentando restabelecer e estabelecer uma identidade perante o grupo e ao mesmo tempo sendo emocionais e ao mesmo tempo com uma imensa capacidade de racionalidade, a gente precisa tentar exercer esse componente racional. E o o componente racional vem do voto, vem com informação. Eh, o que a gente tentou preparar eh eh nesse filme que tá realmente uma beleza, a gente a gente produz um material tão bacana no filme do meio, eh, a aquele filme que concentra informação e ao mesmo tempo é muito agradável de ver e é exatamente o tipo de informação que ajuda a a definir voto.

¶166Não é um filme que vai te dizer: "Vota no Flávio, vota no Lula, vota no Caiado, vota no Renan, vota no Não, não, não". É um filme que te vai te dar informação e vai te ajudar a a pensar. E o objetivo é só esse. Assina o meio, assiste na sua televisão, assiste no seu tablet, no seu celular, no seu computador. Eh, o streaming tá à disposição nas principais plataformas e e a gente vai mostrar umas cenas nas nossas redes sociais.

¶167A gente tá mostrando alguns cortes do do filme. Diretora, tem trailer do filme depois da Tem trailer do filme aqui terminando o central meio e e o Ricardo Rangel não sabe, mas ele passou a a vida inteira eh fazendo uma coisa muito distinta do que ele devia ter feito, que é ele devia ter passado o a vida dirigido o cinema. E eh começou a fazer isso agora. Então, aproveitem. Aproveitem mesmo.

¶168E o central meio de hoje fica por aqui. Obrigado pela sua audiência. Hoje tem ponto de partida mais tarde aqui no canal. Não percam. Até lá.

¶169>> Essa campanha tem que começar a verdade derrotando a mentira. O filho mais velho do capitão segue aqui de pé, firme e forte ao lado do povo brasileiro. Os dois estão jogando o mesmo jogo, cada um preocupado com a sua eleição. Ninguém tá preocupado com o Brasil. Tudo que dá certo nesse país parece que o Pedro não gosta.

¶170Nós não precisamos ser refém de um debate político construído entre um mongoloide como Flávio Bolsonaro e um cachaceiro semil como o Lula.