A eleição de 2026 repete o duelo de 2022 (um Bolsonaro contra Lula) sem o entusiasmo de então, e a apatia do eleitor, somada às ausências de Lula e Flávio no primeiro debate, expõe um país cuja transformação demográfica, educacional e religiosa a ciência política ainda não consegue explicar. Pedro Doria e Ricardo Rangel discutem isso com o cientista político Jairo Nicolau, autor de "O país dividido".
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sobretudo o trecho final, porque Bruno encontra ali a discussão weberiana aplicada ao protestantismo brasileiro, o dado de que o voto evangélico era de esquerda até 2014, e a objeção séria de que a fragmentação denominacional impede falar de uma ética evangélica única, tema que toca de perto a relação entre igreja, costumes e política que ele acompanha.
O que foi dito
- Pedro Doria abre com o debate da Band de domingo, marcado pelas ausências de Lula e Flávio Bolsonaro, pela desistência de Romeu Zema e pelo quase abandono de Augusto Cury (Avante), que foi buscado na porta do estúdio por Fernando Mitre e acabou participando ao lado de Ronaldo Caiado e Renan Santos, com Gilberto Kassab dormindo na plateia.
- Doria avalia que Renan Santos saiu pior por levar fralda descartável com o nome de Lula e um botão gigante na lapela, teatralidade de rede social que destoa de uma eleição que ele lê como o oposto de uma eleição de outsider, com eleitor cansado mas sem vontade de chacoalhar o barco.
- Ele justifica as ausências pela lógica do jogo (Lula apanharia sozinho como único de esquerda, e Flávio é o alvo de todos porque os demais precisam tirá-lo do segundo turno, não Lula), mas não entende a de Zema, que precisaria aparecer, e desconta as pesquisas de painel online porque o pessoal do Missão recruta respondentes pelo Instagram, inflando Renan.
- Jairo Nicolau responde que este é o pior começo de campanha presidencial das dez do ciclo democrático, com apatia sem a indignação que existia em 2018, poucas bandeiras nas ruas e poucos adesivos, e registra sua surpresa com Flávio em 30 pontos já em agosto, patamar que o pai só alcançou a uma semana da eleição de 2018, repetindo o perfil social do segundo turno de 2022 segundo o Datafolha.
- Sobre o eleitorado, Nicolau descreve um Brasil mais velho, mais feminino e muito mais escolarizado (hoje metade tem ensino médio para cima, contra 60% com apenas fundamental em 2002), com a escolarização feminina puxando a mudança, mulheres somando 8 milhões a mais de eleitoras, comparecendo em proporção maior e votando mais à esquerda.
- Nos dados sobre juventude, ele aponta que os jovens comparecem menos que todos os outros segmentos, que meninos migraram para a direita em 2018 e 2022 enquanto meninas permaneceram à esquerda, e que entre eles está o maior contingente de pessoas sem religião (15 a 20 pontos acima da média nacional), quase nenhuma delas ateia, apenas sem vínculo denominacional.
- Doria propõe que o apelo masculino da direita autoritária tem raiz na humilhação do homem que não consegue sustentar a família, como nos fascismos italiano e alemão dos anos 30, e Nicolau aceita o diagnóstico da base social masculina (AfD, Trump, ultradireita europeia) sem assinar o rótulo, acrescentando que faltam à sociologia brasileira ferramentas para entender a periferia metropolitana das bets, dos aplicativos e da cultura do empreendedorismo.
- A esquerda, segundo ambos, perdeu o mundo sindical que a formatou e não fala com o motorista de aplicativo que quer enriquecer, sobrevivendo pela exceção do lulismo descrito por André Singer (o eleitor pobre e conservador do Nordeste que se identifica pessoalmente com Lula), voto que morre com Lula em 2030. A pauta identitária vocalizada pelo PSOL tem no máximo 3 a 5% da Câmara, mas domina o debate público e atrita frontalmente com o eleitor evangélico.
- No bloco mais denso, Doria pergunta se Weber estava certo, ou seja, se há uma ética protestante do trabalho reorganizando politicamente a classe C evangélica, e Nicolau trata a hipótese como plausível mas suspende o juízo por falta de dados (cita a pesquisa do ISER com 15 mil brasileiros sobre religião e valores), e objeta que o campo evangélico brasileiro é fragmentado demais para ter teologia ou ética comum, com oito templos por quarteirão na Baixada e dissidências de pastor formando igrejas novas.
- Ele sustenta com dados do capítulo 4 do livro que os evangélicos votavam majoritariamente à esquerda até 2014 e que a inflexão veio menos de ideologia econômica e mais da politização dos costumes por Jair Bolsonaro e Damares na legislatura de 2011 a 2014, contra a agenda do PSOL de então, com Flávio hoje em 68% dos votos evangélicos no Datafolha. Ao fim, Ricardo Rangel apresenta o documentário “A Escolha”, com perfis dos cinco candidatos e 18 entrevistados, entre eles Juliano Spyer sobre o fenômeno evangélico, o deputado e pastor Antônio de Paula (que rompeu com o bolsonarismo) e Maurício Moura, para quem a eleição se decide por 3% dos votos.