¶1Flávio Dino trouxe de volta o escândalo do Dark Horse pra eleição. Não que o outro Flávio, o Bolsonaro, não tenha ajudado, mas vamos lá. O ministro Flávio Dino do Supremo Tribunal Federal autorizou a Polícia Federal a usar dados obtidos pela investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre Karina Gama e a GoaP Entretenimento no inquérito que apura a ligação de Daniel Vorcaro com a família Bolsonaro. Deixa eu tentar desenhar aqui a ordem das coisas. Aqueles áudios de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro para Daniel Vorcaro, chamando de meu irmãozão e tal, que parece que faz 10 anos que vieram à tona, mas que são de maio, foram vazados a partir da investigação sobre Banco Master, certo?
¶2Daí, a partir de uma notícia crime do Lindberg Farias, deputado do PT, o ministro André Mendonça, relator do caso master, perguntou pra procuradoriaageral da República se devia abrir um inquérito sobre esse pedaço das descobertas, um inquérito específico. A PGR se manifestou que sim, Mendonça mandou abrir o inquérito no mesmo dia, dia 23 de julho, um mês atrás, e seguiu como relator dele por prevenção, que é um conceito que define que esse caso tem conexão direta com o máster, não foi sorteio, portanto, bom, de lá para cá não se sabe o que já foi produzido pela Polícia Federal nesse inquérito que corre sobil O que se sabe é que nada mais vazou. E se nada vazou é porque nenhum dos entes envolvidos quis que vazasse. Corta para Flávio Dino que nada tem a ver com essa investigação do master, mas que é relator do inquérito que apura os desvios de emendas parlamentares e desvios de variados tipos de emenda parlamentar. Uma das frentes dessa apuração detectou que parlamentares bolsonaristas mandaram recursos paraa produtora de Karina Gama em São Paulo, onde sua empresa também é responsável por contratos de instalação de pontos de Wi-Fi gratuito.
¶3Só que a GoP, a produtora da Karina, é também responsável pela produção do filme Dark Horse. Então o Dino autorizou a troca dessas informações, nada mais. Acontece que isso devolveu o caso Dark Horse ao noticiário no mesmo momento em que ele estava dominado por outro caso, o de Lulinha e Marcola, suspeitos de tráfico de influência no governo Lula. E aí, mais um corte, mais uma cronologia. Há três inquéritos que investigam Lulinha.
¶4Dois deles sob relatoria de André Mendonça e um sob a relatoria de Flávio Dino. Nos três, os ministros foram sorteados, ou seja, aqui o acaso colocou os mesmos dois ministros nos holofotes dos casos que vem pautando a corrida presidencial. Então, chegamos ao fim de agosto de 2026 com o Supremo Tribunal Federal novamente no centro do debate eleitoral. Em 2022 já tinha sido assim, mas de uma maneira diferente, né? Ali era Alexandre de Moraes enfrentando Jair Bolsonaro no Supremo e no Tribunal Superior Eleitoral numa guerra direta entre dois poderes.
¶5Guerra declarada por Jair Bolsonaro. É bom lembrar. O dejavu desta eleição é com 2018, não com 2022. Naquele ano, a Lava-Jato dominou o debate presidencial de ponta a ponta. Um candidato preso, investigações e vazamentos correndo em paralelo à campanha.
¶6e o resultado das urnas lido por muitos como um resultado indireto do que a justiça tinha feito nos meses anteriores. O ministro André Mendonça relata hoje um conjunto de processos que atinge politicamente os dois protagonistas desta eleição, os dois inquéritos contra Lulinha e o inquérito do INSS, do qual eles derivam, e as duas investigações que envolvem o entorno de Flávio Bolsonaro, o Banco Master e o financiamento do Dark Horse pelo banqueiro Daniel Vorcaro. único gabinete concentra o destino jurídico de processos que miram os dois principais projetos de poder do Brasil. Flávio Dino, por sua vez, está à frente do inquérito das emendas parlamentares com alto potencial explosivo também, mas de maneira mais indireta. E cada um desses magistrados representa uma ala do Supremo Tribunal Federal, mais ou menos alinhada com Lula ou com Flávio Bolsonaro.
¶7Dino tá na ala de Alexandre de Morais, Cristiano Zaninho e Gilmar Mendes, que conta com a adesão eventual de Carmen Lúcia e Edson Faquim. Mendonça é respaldado por Luiz Fuxs e Cásio Nunes Marques. E Dias Toffol navega convenientemente entre elas. Os estágios das investigações que eu mencionei são diferentes. Master, INSS, as investigações mãe dos escândalos de Flávio Bolsonaro e Lulinha são mais antigas.
¶8Agora, o que tá sendo percebido pela opinião pública e usado eleitoralmente é que pela intensidade de vazamentos sobre Lulinha e pela ausência de novos fatos sobre Dark Horse, a apuração sobre o filho de Lula tá mais ágil e intensa. É possível que isso seja verdade, sim. Como disse Carlos Andreasa no seu podcast no Estadão, se a investigação anda, ela costuma vazar. É muita gente envolvida para imaginar que seja possível blindar as informações. Muito mais fácil é desacelerar a investigação em si.
¶9Mas, novamente, como os casos estão em sigilo, não dá para saber. André Mendonça acusa a Polícia Federal de ter demorado 7 meses para entregar dados sobre Lulinha na investigação do INSS. E aí vale dizer aqui que quanto antes o o governo tivesse lidado com isso, menor teriam sido as chances de esse caso contaminar a eleição. Bom, a PF acusa Mendonça de interferir em seus processos e trâmites internos e dá-lhe vazamento. Mas lembra que eu falei que Flávio Bolsonaro ajudou a trazer o caso de volta pro noticiário?
¶10Nós ainda vamos falar disso. Fica aqui comigo. Eu sou a Flávia Tavares, editora do meio. Gente, a gente estreou no sábado o docções 2026, a escolha no nosso streaming. Eu apresento junto com o Pedro Dória e a gente conta a trajetória dos cinco principais candidatos à presidência, ouvindo fontes próximas e que sabem tudo para te ajudar a formar a sua opinião ou até reforçar que você já tem, mas com argumentos melhores.
¶11Então, assine o meil agora mesmo. São só R$ 15 por mês e você fica com acesso a todo o nosso conteúdo premium. Faz coisa de 100 dias que o vazamento dos áudios de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro rolou? Sim, gente, também foi vazamento, né? Dia 19 de maio, Flávio Bolsonaro prometeu divulgar em 30 dias a prestação de contas do filme Dark Horse para provar como os 61 milhões de Daniel Vorcaro teriam sido gastos na produção.
¶12Até ontem nada. Sua campanha disse ao Caio Junqueira, meu querido amigo da CNN Brasil, que a prestação de contas é responsabilidade da Karina Gama e da GOAP. E questionado diretamente, Flávio Bolsonaro falou que ele até já prestou, que ela quer dizer até já prestou essas contas e perguntou se a imprensa vai parar no tempo com essas perguntas sobre um escândalo de tanto tempo atrás. Maio. Bom, Karina Gama anexou ao processo em São Paulo uma perícia pela qual ela mesma pagou, em que não consta uma míera nota fiscal ou um singelo recibo, nada.
¶13Então sim, o caso Dark Horse ressuscitou por três movimentos, ou melhor, dois, pela decisão de Flávio Dino e pelo recu de Flávio Bolsonaro. O terceiro é um não movimento, é o fato de que o gabinete de André Mendonça e a Polícia Federal não tem deixado vazar nada sobre o que acontece nesse inquérito, inclusive se nada acontece. Os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro estão, por sua vez, tentando tratar mais de economia de 6 por um em inflação para se conectar aos eleitores, em parte por seus respectivos tetos de vidro, em parte porque o próprio eleitor parece estar anestesiado para escândalos de corrupção. Essa dessensibilização vem de um período de hipersensibilização, o de 2018, vem do fato que a gente de que a gente passou um ciclo eleitoral e os 8 anos seguintes lendo e acompanhando a política pelos olhos da justiça, da Polícia Federal e uma vasa jato, uma pandemia e uma tentativa de golpe depois. O eleitor tá cansado, desanimado, querendo virar o disco.
¶14Mas Lula e Flávio vão ser chamados a dar explicações nas sabatinas do Jornal Nacional. Podem ser surpreendidos também com novos vazamentos de lado a lado e isso ainda pode afetar a corrida eleitoral em si. Seria bom pro Brasil que isso fosse diferente ou até impedido? Nos Estados Unidos, uma regra informal do Departamento de Justiça, conhecida como regra dos 60 dias, funciona como acordo tácito para que investigações em andamento sobre candidatos a cargos eletivos não produzam medidas ostensivas, como mandados de busca e apreensão ou denúncias no período de 2 meses antes da eleição. Mas a lei americana também protege fortemente os vazadores de informação, ou seja, o mecanismo meio que se contrabalanceia.
¶15A gente tá longe de conseguir fazer esse debate por aqui. O Supremo e todas as investigações sobre políticos que lá chegarem vão seguir sendo centrais por essa e por mais algumas eleições, reproduzindo a divisão entre grupos políticos de fora da corte. Como me disse o sociólogo e cientista político Sérgio Abranches na edição de sábado, conforme o Supremo Tribunal Federal foi abrindo mão da sua colegialidade, com o aumento de decisões monocráticas, com a redução do peso do plenário e uma personalização das ações do tribunal, e também conforme os casos criminais invadiram a corte e ela deixou de operar como corte constitucional, os ministros passaram a ser identificados pública amente por facções, tipo os antialexandristas ou os próalexandristas e por aí vai. A proposta que ele defende é retirar do Supremo a competência para julgar matéria criminal, transferindo essa atribuição ao Superior Tribunal de Justiça. Nada garante que ali as coisas não vazariam ou não seriam politizadas, mas ali são magistrados de carreira, gente que não passou por governos.
¶16Só que numa democracia o que não tá funcionando pode e deve ser revisto, desde que respeitando a Constituição. E talvez seja a hora da gente experimentar algo novo. Essa campanha tem que começar a verdade derrotando a mentira. O filho mais velho do capitão segue aqui de pé. Firme e forte ao lado do povo brasileiro.
¶17Os dois estão jogando o mesmo jogo, cada um preocupado com a sua eleição. Ninguém tá preocupado com o Brasil. >> Tudo que dá certo nesse país parece que o PDA não gosta. Nós não precisamos ser refém de um debate político construído entre um mongoloide como Flávio Bolsonaro e um cachaceiro senil como o Lula.