¶1Eu tive aulas no Ifix no último meio século. Não deve ter um único estudante que cursou algo nas humanidades no FRJ que não tenha tido aula por lá. É o equivalente aqui no Rio a Fefeleste em São Paulo. Ontem, ontem um rapaz entrou no prédio com a camiseta de uma banda de pós panca Defen Jun. foi violentamente espancado pelos seus colegas, jogado no chão, chutado, sem dó, com violência naquela pulsão e ódio que toma conta das massas no processo de linchamento.
¶2Os agressores eram estudantes de esquerda. Defina como pós-punk, como nef, como gótica, a Deffin Jun usa ografia nazista. desse nome, Morte em Junho, ele é uma referência à noite das facas longas, quando Hitler ordenou ataque e morte de oficiais da Sué S. As aparências enganam, tá? O grupo vem da esquerda.
¶3Sua origem tá no antifascismo punk. E a banda cultiva desde princípios da década de 1980 uma ambiguidade política entre o flértico com iconografia nazista da SA e a sua versão. Esses debates políticos herméticos do movimento Punk estão entre as coisas mais desinteressantes do mundo e na verdade seriam irrelevantes não fosse um estudante de história entrar no Infix e seus colegas tomarem a decisão de espancá-lo porque não gostaram da sua roupa. A primeira nota que a universidade soltou é uma vergonha. Reiteramos desde já nosso absoluto repúdio a qualquer forma de violência, discriminação ou manifestação de caráter nazista, bem como nosso firme compromisso com a defesa dos direitos humanos, da democracia e da dignidade.
¶4Ou seja, ambos estão errados. No iniciozinho, antes de Hitler ser eleito, quando o movimento ainda estava crescendo, o que a SA nazista fazia era exatamente o que fizeram os espancadores de esquerda do FRJ. Encontravam gente com quem discordavam politicamente e espancavam com virolência. Vocês sabem como é que é junto um bando, bate na pessoa até que ela esteja no chão. Aí começa um chute.
¶5Quem apanha não tem para onde ir, não consegue se levantar. Aos poucos, os que estão na frente do círculo vão para trás e os que estão descansados atrás vem à frente e chutam. Em bando, em bando, ficamos burros, damos lugar à nossa ira. E sabe, a ideologia ajuda porque ela gera na nossa cabeça a justificativa perfeita. Não importa se você é um dominicano ensandecido na florença renascentista, um terrorista islâmico na Nova York de 2001 ou então um jovem estudante no Ifix em 2026.
¶6A convicção de estar moralmente certo, de que há um mal a ser extirpado do mundo, isso lhe basta. E quando todo mundo em volta tem a mesma convicção, esse sentimento de posse de todas as virtudes, ele aflora. E eles viram essencialmente aquilo que dizem condenar. Quem agiu como nazistas ontem no FRJ não foi o menino com uma camiseta que podia aludir a SA. Sabe o que que é pior?
¶7As primeiras notícias que vem da universidade são de que a intenção é de botar panos quentes. 20 anos atrás, aliás, nem isso, 10 anos atrás, um ato de tamanha brutalidade levaria expulsão sumária. Mas vejam, o menino vestia uma camiseta nazista. Vamos supor, apenas supor que o menino seja mesmo nazista, que cumprimente as pessoas com a saudação romana, que celebre o aniversário de Adolf Hitler e leia trechos do Minecampf em voz alta pelas esquinas do Rio de Janeiro. Um aluno de graduação, tem o quê?
¶819 anos, 20, talvez 21, 22, aluno de história. Como se espera que uma universidade trate um garoto assim como um garoto de 20 anos tentando aparecer. É exatamente o que se faz com 20 anos de idade. Provocar, discutir, pousar, testar identidade. Testar identidades, começar a descobrir quem se é.
¶9É um momento em que não somos mais adolescentes e estamos muito, muito longe de ter a maturidade de um adulto formado. É a idade de formar. E o que se espera de uma universidade? Que ensine. Um garoto desses é a oportunidade que qualquer bom professor espera.
¶10Esse é exatamente o caso em que esperaríamos que um bom professor de sociologia, de história, de filosofia pegasse pelo braço. E vem cá, o que te interessa no nazismo? O que você tá vendo aí, explorando aí, procurando aí? Até agora, 24 horas depois a universidade ainda não agiu. Bem, nós estamos aqui tendo uma aula sobre a mecânica do fascismo.
¶11Sabe por quê? Eu conheço professoras universitárias. Meu pai é um, quase todos os amigos do meu pai eram professores do UFRJ, aliás, cujos camping no Fundão na praia vermelha eu frequento desde menino. Ali tão alguns dos maiores acadêmicos do Rio de Janeiro, do Brasil, gente de suprema excelência, gente que eu tenho certeza entende perfeitamente o tamanho, a gravidade do que aconteceu. E no entanto, silêncio.
¶12O primeiro que falar sabe que vai ser chamado de apologista do nazismo. Será acusado de tolerar os intolerantes. Então o que fazem? Se calam. Permitem que a violência agressividade, a instituição de temas tabus seja imposta dentro do ambiente universitário.
¶13O silêncio vai aos poucos se instituindo a temas que simplesmente não se tocam, não se podem tocar. torna-se uma universidade em que as coisas não são ditas, exatamente como na Alemanha dos anos de 1930. Não é só na UFRJ, é na Federal da Bahia, na Federal Fluminense, em tantas universidades históricas do Brasil. Estamos criando aqui no Brasil universidades onde nas ciências humanas há ideias que não podem ser questionadas jamais. A gente vai, a gente vai continuar assistindo a isso até quando?
¶14Eu sou Pedro Dória, editor do meio. Você acabou de ouvir sobre gente que decidiu tudo que precisava decidir sobre quem discorda dela. E é com esse país aqui que a gente vai escolher um presidente. O documentário do meio sobre essa eleição já tá no ar. Eleições 2026 a escolha.
¶15A gente foi atrás de quem conhece os candidatos de perto para contar quem eles são. Não há versão que cada lado construiu do adversário, nem a versão que eles mesmos vendem de si. e foi atrás de gente que entende o momento do Brasil para explicar o que tá de fato em jogo nessa eleição e os desafios que o próximo presidente vai herdar que a gente foi atrás. 1 hora e meia de filme e olha, olha o calendário. Depois de amanhã começa o horário eleitoral gratuito.
¶16A partir de sexta o que você vai ver de cada candidato é a versão que ele escreveu de si mesmo. Melhor assistir antes. Tá lá no ar para todo assinante. Assina meio premium. Cara, é tão baratinho esse aqui.
¶17Esse é o ponto de partida. Se questionar cotas não é mais permitido em qualquer universidade, como é que estudamos a eficácia da política pública? Se investigar a relação entre identidade e raça não é permitido em qualquer universidade, como estudamos o que é ser brasileiro num país tão profundamente mexiço? Se mergulhar no território tão difícil e misterioso que é o da sexualidade humana, com a liberdade para concluir aquilo que os dados apresentarem. Se isso não é permitido, como que a gente avança o conhecimento humano?
¶18Nós estamos vivendo uma crise profunda da democracia. Compreender comportamento humano jamais foi tão importante. No entanto, aqueles que se dizem democratas estão distribuindo estacas com dogmas fincados indiscutíveis. Intelectuais estão sendo banidos da vida pública brasileira. Alunos estão sendo expulsos por ousarem pensar fora do que é permitido pensar.
¶19Sabe o que acontece quando a gente joga fora a aposta no livre Pensar do Iluminismo? A gente volta pro mundo que havia antes. Voltamos aos católicos contra o Guenos. Nos dividimos em facções que só conseguem ver no outro mal encarnado. Monteéquios e Capuletos em Verona, com sede de sangue, de justiçamento, prontos a banir o mal em nome do bem.
¶20A nossa sociedade está obviamente sendo testada. A direita brasileira não condenou a tentativa de golpe militar. A cena com anxia passa a mão. A maioria sequer conhece que Jair Bolsonaro forçou o quanto pôde os comandantes militares a fazerem um movimento de golpe. Não importa sequer que o ex-comandante da Aeronáutica tenha escrito um livro afirmando com todas as palavras que Bolsonaro forçou o golpe.
¶21Negam-se a reconhecer o que aconteceu, o tamanho da gravidade do que houve. A esquerda. Até quando a esquerda vai achar, vai seguir achando que o jeito de impedir golpes é proibindo ideias, é censurando, é perseguindo em cada palco de humorista conservador, em cada influenciador de direita, em cada professor ou aluno que saia do script oficial e devidamente aprovado. Por quê? Porque veja, como calar todo mundo é impossível.
¶22O passo seguinte é o que assistimos ontem. E se isso passa sem a punição grave necessária, vai acontecer novamente. Acontecerão outros espancamentos, porque o ódio, ele tá borbulhando. A base da democracia é a tolerância. Carl Popper liberal.
¶23O paradoxo da tolerância é exceção. É, é daquelas coisas que a gente saca uma vez na vida, no máximo duas, não três vezes por dia. E o pior dessa loucura é o seguinte. Esses vacíares de ontem no FRJ tomados pelo afaninchador são minoria no meio de um Brasil cada vez mais conservador. Existe uma razão paraa única tentativa de revolução da esquerda, a de 1935, ter dado errado e todos os golpes e ditaduras terem vindo pela direita.
¶24O país é conservador. A esquerda não tem força aqui para implementar uma ditadura. Quem tem é a esquerda. Se um estica a corda de um lado e o outro estica a corda do outro, quem vai rodar são os professores de humanas, quem vai ser preso são os estudantes de esquerda e claro, jornalistas liberais. É sempre assim.
¶25A diferença, possivelmente é que a gente aqui do centro vê a locomotiva vindo na nossa direção. A gente entende que liberdade de expressão, de pensamento, é o que sustenta uma democracia, é o que mantém esse instituto vivo. Quando coletivamente abandonamos tudo isso, é na ponta da minoria que a corda estoura, gente. Ninguém aqui vai dizer em quem você deve votar. Na verdade, aqui centro, esquerda e direita, todos têm espaço, mas nas próximas semanas muita gente vai tentar dizer em quem você deve votar.
¶26Então, como não se perder em meio a tanta notícia, promessas vazias e fragmentação de conteúdos? Ele 2026. A escolha pode ser o seu material de apoio para escolher quem vai assumir a presidência do país. O documentário parte dos cinco principais candidatos, quem são? o que fizeram até aqui.
¶27Mas eleição não se explica só por candidato. O filme também olha pro país que o próximo presidente vai encontrar. Já tá no streaming do meio com outras produções originais que trazem base para votar sabendo exatamente os motivos. Assina o meio premium. Assiste agora.