a tese
O espancamento de um estudante de história na UFRJ por causa de uma camiseta da banda Death in June mostra que a esquerda universitária brasileira adotou a mecânica de linchamento que diz combater, e o silêncio de professores e da instituição está criando universidades onde certas ideias não podem ser questionadas.
aprofundar
talvez
é editorial político bem construído sobre tolerância, dogma e liberdade de pensamento, útil ao Bruno pelo paralelo com fechamento ideológico em comunidades de convicção, mas não traz dado novo nem conteúdo teológico e o último terço vira propaganda do documentário.
O que foi dito
- Pedro Doria abre contando que estudou no IFCS da UFRJ (o equivalente carioca da FFLCH da USP) e que no dia anterior um rapaz entrou no prédio com camiseta da banda Death in June e foi jogado no chão e chutado por colegas estudantes de esquerda.
- Ele explica que a banda é pós-punk/neofolk de origem antifascista punk, que o nome remete à Noite das Facas Longas (quando Hitler mandou matar oficiais da SA) e que desde o início dos anos 1980 o grupo cultiva ambiguidade política com iconografia nazista, debate hermético que só virou relevante por causa da agressão.
- Chama de vergonha a primeira nota da universidade, que repudiou genericamente “qualquer forma de violência, discriminação ou manifestação de caráter nazista”, equiparando agressores e agredido.
- Descreve a mecânica do linchamento em bando (quem está na frente do círculo recua e os descansados de trás vêm chutar) e diz que a ideologia fornece a justificativa perfeita, seja para um dominicano na Florença renascentista, um terrorista islâmico em Nova York em 2001 ou um estudante na UFRJ em 2026.
- Argumenta que, mesmo supondo que o rapaz fosse nazista convicto, trata-se de um aluno de graduação de 19 a 22 anos testando identidade, exatamente o caso em que um bom professor de história, sociologia ou filosofia deveria puxá-lo pelo braço e perguntar o que ele busca ali, e que 24 horas depois a universidade ainda não agiu e a intenção parece ser botar panos quentes (dez ou vinte anos atrás a punição seria expulsão sumária).
- Diz conhecer o meio acadêmico do Rio de perto (o pai e os amigos do pai foram professores da UFRJ) e que o silêncio dos grandes acadêmicos vem do medo de ser chamado de apologista do nazismo, o que institui temas tabu e produz uma universidade em que as coisas não são ditas, como na Alemanha dos anos 1930.
- Estende o diagnóstico à UFBA, à UFF e a outras universidades históricas, e pergunta como estudar a eficácia das cotas, a relação entre identidade e raça num país mestiço ou a sexualidade humana se as conclusões já estão proibidas de antemão.
- Distribui a crítica dos dois lados: a direita não condenou a tentativa de golpe (ignora inclusive o livro do ex-comandante da Aeronáutica afirmando que Jair Bolsonaro forçou os militares), e a esquerda segue achando que se impede golpe censurando humorista conservador, influenciador de direita e aluno fora do script.
- Invoca Karl Popper para dizer que a base da democracia é a tolerância e que o paradoxo da tolerância é exceção, não regra sacada duas ou três vezes por dia, e observa que os agressores são minoria num Brasil cada vez mais conservador: a única tentativa revolucionária da esquerda (1935) fracassou e todos os golpes e ditaduras vieram pela direita, de modo que, esticada a corda, quem roda são professores de humanas, estudantes de esquerda e jornalistas liberais.
- Encerra emendando a divulgação do documentário do Meio, “Eleições 2026: A Escolha” (1h30, cinco principais candidatos, disponível no streaming para assinante premium), lembrando que o horário eleitoral gratuito começa na sexta e que a partir daí cada candidato só mostra a versão que escreveu de si mesmo.