¶1me fala o que é que a fuga dos candidatos à presidência nos debates tem a ver com o espancamento de um estudante numa universidade federal? Será que as engrenagens da polarização fizeram com que a gente perdesse a capacidade de persuadir, debater, conversar? Difícil, né, Pedro? >> É difícil, mas eu acho que é uma boa descrição do momento que a gente vive. >> Uhum.
¶2Vamos ver. Vamos encarar os comentários. >> Vamos lá. por caso você, né? >> É.
¶3[música] >> Eu vou começar aqui com um comentário do próprio Ver Ribeiro no seu vídeo de segunda-feira. Ele diz assim: "Olha só onde a gente se meteu. Antes os políticos eram obrigados a retornar algum nível de trabalho paraa sociedade e assim garantir votos paraa próxima eleição. Desde uma reforma de praça até o fome zero." Existiam debates sérios sobre o que desejávamos pro país, acalorados, mas não beligerantes. Mas agora a situação é distópica.
¶4Não há a menor necessidade de ter projeto e muito menos diálogo. Mostrar trabalho, para quê? Vai gritar no Instagram. Levantar fundos para quê? Usa o fundo eleitoral mesmo e o fundo partidário.
¶5Esquerda e direita se retroalimentam e precisam uma da outra. Não mais para que haja no meio consenso saudável paraa sociedade, mas para que ambos, cada vez mais distantes possam gritar que o outro é um monstro e assim deixe lá medo e revolta em suas bases, enquanto a classe política desidrata o país e a democracia como nunca antes. Você concorda? Eu assino onde? >> Esse texto na verdade é seu.
¶6Esse é um fake seu. [risadas] >> Não, mas eu concordo inteiramente com o comentário. >> Eu não queria nem ficar tanto tempo nessa questão dos debates porque, enfim, >> eu acho que a gente não deve e acho que a gente deve mergulhar no >> Sim. É, eu eu queria só fazer essa introdução porque eu achei curioso que o mesmo que falou quarta-feira, o V Ribeiro, que disse quarta-feira, vou esperar o vídeo de sexta com pipoca, >> eh na segunda trouxe esse comentário que parecia que ele sabia o tema de quarta, antes até do acontecimento. Enfim, eu vou seguir aqui com alguns comentários, vou fazer um popo rir.
¶7É o seguinte, ai é difícil esse tema, né? Eu vou começar com um comentário curtinho aqui do @urso noomundoanimal. Ele diz assim: "Eu discordo, Pedro, quem agiu como nazista foi o nazista. Espero ter ajudado. Meus parabéns aos meninos.
¶8E o @xistonico Gabriel diz assim: Pedro, na ânsia de reafirmar a sua própria ideologia doisladista, correu para fazer um juízo sobre o caso. Não parece que apurou. Ele não apanhou apenas o o rapaz não apanhou apenas por usar uma camisa com alusão ao nazismo. Os alunos quiseram chamar a polícia. Ele chamou um dos estudantes de macaco e iniciou as agressões.
¶9Lembrando, isso ainda vai ser investigado. Mas é o que tudo indica, a camisa não motivou a agressão. Na verdade motivou a tentativa de contê-lo até a chegada da polícia. É uma história diferente da que o Pedro tá contando. Mesmo assim, nada justifica a sessão coletiva de espancamento.
¶10Importante reiterar. Para fechar, deixa eu trazer só o do Vittor que ele diz assim: "Eu concordo com 95% de tudo que você falou, mas eu não posso deixar de perceber que houve uma leve passada de pano pro nazismo, óbvio, nessa situação, obviamente nada vai tirar o repúdio contra qualquer tipo de violência e linchamento." Mas do fundo do meu coração, a frase "Fogo nos nazistas ainda me parece estranhamente correta, embora errada na prática e sociedade." >> Vamos lá. Por onde que eu começo? Eu desafio qualquer um a encontrar um professor de sociologia no FRJ, um único, que perante o espancamento de um menino de favela que tenha cometido um crime, se vire e fale o espancamento é errado, mas foi ele que começou. >> Hum.
¶11Aliás, eu desafio qualquer um dos comentaristas a fazerem exatamente isso, que perante qualquer, olha, o Brasil é um dos campeões mundiais em lixamentos. Eu convido todo mundo a a ler os estudos do professor José de Souza Martins. É um professor que eu entrevistei inúmeras vezes quando tava no no Estadão. Um professor da USP, eh, um grande sociólogo brasileiro. E e uma das coisas que ele mais estudou é a cultura do linchamento no Brasil.
¶12Existe, principalmente nos bairros mais pobres das grandes cidades e no interior uma percepção de que a impunidade é regra e que estupradores, assassinos, a gente cometeu crimes muito graves, tá? Eh, vão eh vão de alguma forma ser inocentados e liberados dos seus crimes pela polícia. E e esse tipo de percepção cria um sentimento de revolta popular que no Brasil com muita consistência termina em ninchamentos. >> Tá? E como é que se dá o linchamento?
¶13Eh, o o lixamento é um rito em que você primeiro domina a pessoa, ou você prende ela, prende os braços, prende as pernas, ou então seente joga ela no chão e a partir do momento que ela tá no chão, ela tá muito mais em defesa. Ela começa a perder a capacidade de se defender, ainda mais de uma multidão e todo mundo começa a bater e chutar. Eh, com muita frequência en linchamentos terminam em morte, mas nem sempre. Eh, a fronteira entre um espancamento coletivo e um lixamento é extremamente tênue. E, e, e como quando você começa não dá mais para calcular o erro, porque o que que o que que se passa na cabeça coletivamente de todo mundo que tá passando, participando de um linchamento, de um espancamento coletivo?
¶14Eh, nunca é o seu chute. >> Hum. O o seu chute é um chute. Não é você que é o responsável pelos ferimentos cada vez mais graves que aquela pessoa tá sofrendo, pelo ato de violência profundo que você tá impondo a a aquela pessoa. Então isso meio que inocenta coletivamente todo aquele grupo.
¶15Além do mais, você parte de uma convicção de que você tá ali eh promovendo justiça. >> Hum. Tá certo? Com muita frequência esse tipo de ação termina em morte. Em geral, quando você vê linchamentos, a gente tá falando principalmente de assassinos estupradores.
¶16De vez em quando a gente vê linchamentos ocorrendo contra assaltantes também, principalmente em bairros mais pobres. Eh, na semana passada em Copacabana teve aqui no Rio de Janeiro, eu sou criado em Copacabana, Yasmin. Eh, é um lugar cuja cultura eu conheço profundamente. Minha família mora em Copacabana. Eh, é, é, é, é o meu lugar no mundo, é o meu lugar de origem.
¶17Teve um menino com aparência de pobre, eh, eh, que tava com uma bicicleta bacana e um grupo de seguranças pegou esse menino, partindo do princípio de que ele tinha roubado a bicicleta, não tinha. Só que parece que é um menino que tinha algum tipo de dificuldade de comunicação. Ou talvez sequer tenha tido a oportunidade de explicar que a bicicleta era dele. E ele foi violenta e bárbaramente espancado com essa sensação de segurança, de justiça sendo feita. Eh, se você pega para se você pega qualquer professor de filosofia, de sociologia, eh, de antropologia, de história e pede para fazer uma análise do do linchamento, do espancamento coletivo, eu duvido que você vai encontrar um único que vá assinar, que esteja disposto a assinar um artigo no jornal.
¶18Ah, mas você tem que levar em consideração o fato de que era um assassino. Tipo, não era inocente, ele tinha razão para tá apanhando. >> Hum. >> Isso é compreensível. >> [suspirando] >> Eh, ninguém vai fazer isso.
¶19Ninguém vai fazer isso porque professores de sociologia, porque professores de filosofia eh entendem que um sistema de um sistema de justiça não pode ser baseado em justiçamento. Eh, de que entendem que a gente desce ao nível da barbárie quando a gente toma justiça pelas próprias mãos. Isso é uma ideia que devia ser claríssima para qualquer um nas ciências humanas. Isso não é uma ideia complexa. Então eu começo a ceder, se vocês me encontrarem, se qualquer um dos comentaristas encontrar um único professor de sociologia que defenda o justiçamento, espancamento, eh, de um de um pivete de morro, tá?
¶20alguém que tenha de fato cometido um crime, às vezes um crime sério, você não vai encontrar, você não vai encontrar um único sociólogo que faça isso, que eh se vire e assine um artigo. É, ele não devia ser espancado, mas veja o que ele fez. Ninguém vai fazer isso. Ninguém vai fazer isso. Essa é a primeira parte do argumento.
¶21A segunda parte, qual o crime que ele cometeu? Eh, todos os vídeos de quarta-feira, todos os vídeos de quarta-feira, porque os alunos do IFIX publicaram alguns vídeos que estão nas redes sociais. Todos falam, ele era um nazista. Nenhum fala em injúria racial, nenhum. Só na quinta-feira ou no final da quarta-feira que foi aparecer um vídeo falando: "Me chamou de macaco".
¶22Eh, não é a justificativa que deram até aquele momento. O que que aconteceu entre os primeiros vídeos e o Me chamou de macaco. O que que aconteceu? O que aconteceu foi o seguinte. Alguém mostrou uma imagem antes do espancamento e o bottom do rapaz era de uma suástica cruzada numa placa de proibido.
¶23Não era um bottom com uma suástica, era um bóton com uma suástica cruzada. O que começa a complicar em muito dizer que o menino tava fazendo apologia do nazismo, tá? Aí, opa, temos um problema aqui. Ah, não me chamou de macaco. Vamos partir do princípio que palavras firam, de que palavras sejam agressões extremamente graves, tá certo?
¶24Vamos partir desse princípio. Eh, aí o que a gente tá dizendo, se a gente concorda que palavras são tão graves quanto violência física, se a gente concorda com isso, e não sei se a gente concorda, mas se a gente concorda, o que a gente tá dizendo é que todo espancamento pode ser legítimo se em resposta a algum tipo de crime, sim em resposta a algum tipo de agressão. Aí precisamos daquele professor de sociologia do FRJ que se vira e fala: "Ah, não, veja, é, mas vai acontecer, não vai acontecer. Vamos dizer que palavras são crimes, porque essencialmente o que a esquerda começou a fazer nos últimos 10 anos é equiparar ofensa com crime. Quem que vai fazer essa lista de quais são as palavras proibidas?
¶25>> Hum. >> Quem é que vai julgar quando que crimes são cometidos com palavras? Porque veja, não é só a injúria racial. As pessoas começam a se sentir ofendidas dentro de universidades, dentro dos cursos de humanas, porque alguém questiona a política de cotas, porque alguém começa a se fazer perguntas a respeito de sexualidade humana. Não, não me sinto mais seguro.
¶26Este se tornou um ambiente inóspo. Você tá essencialmente criando dentro da universidade um espaço em que a gente não pode fazer investigações duras a respeito da relação entre raça e identidade, a respeito da relação que nós temos com a nossa própria sexualidade, que é um troço bárbaramente complexo e que a gente não compreende de todo. Quais são todas as fronteiras? Se você não pode fazer perguntas difíceis, se você não pode encarar o que os dados te respondem, a partir desse momento, a gente começa a criar um espaço em que existem dogmas e não mais a busca da verdade dentro de universidades. E aí o problema, Yasmin, e esse, e esse é o ponto essencial que eu tô fazendo, é o seguinte, na cabeça dessa turma, porque olha, a gente tá vendo um extremismo de esquerda aparecendo.
¶27Isso que a gente viu é exatamente o que os nazistas faziam. Só não é nazista porque não é de extrema esquerda, não é de extrema direita, é de extrema esquerda. Mas igual, é exatamente a mesma coisa. justiçamento. São bárbaros esses estudantes.
¶28São bárbaros. É o tipo de comportamento que é absolutamente inaceitável dentro de um campus universitário. Absolutamente inaceitável. Isso é barbárie. Isso é o oposto do que acontece numa universidade.
¶29Isso não é a busca do conhecimento. Isso são animais fascistas, entendeu? resolvendo com as próprias mãos o que eles consideram justiça. Houve um tribunal, houve uma acusação, houve uma uma denúncia, houve eh houve essencialmente uma condenação sumária e a execução da pena. Tudo ao mesmo tempo em algum num conjunto de minutos, entendeu?
¶30Isto é a maneira como, esta é a maneira como nazistas agiam. Esta é a maneira como esses estudantes airam. A gente tá num país conservador. No momento que a gente cede isso, eu sou progressista, eu posso não ser socialista, mas eu sou progressista. Eu sou um liberal progressista.
¶31No momento que a gente cede a ideia de que ideias ofendem, de que ofensas são o mesmo que agressões, o que essa garotada, o que essa molecada não tá percebendo é o seguinte. Este é um país de maioria conservadora. Se ele Flávio Bolsonaro, se ele Renan Santos, quem vai ganhar essa briga de quem que dita? Quais são as palavras que são ofensivas e viram um crime? É a direita, não é a esquerda.
¶32A esquerda abre esse flanco, é a direita que vai ganhar essa guerra. A gente tá h a h por baixo 10 anos [roncando] alertando para um surgimento de uma extrema direita no Brasil. [roncando] O que a gente viu na UFRJ é o seu espelho. Isso ali na UFRJ é o bolsonarismo de esquerda. Isso ali é a extrema esquerda começando a mostrar suas garras.
¶33Ou a esquerda essa turma ou é ela que vai entrar pelo rabo. É ela que vai se ferrar. >> Quando você diz isso, eu acho curioso porque antes de saber qual seria o o vídeo do ponto de partida de quarta, eu tinha separado outros comentários a mais sobre o de segunda, né? E aí, olha que curioso. Eh, eu vou eu vou a gente vai continuar nesse tema, mas conversando muito com isso que você acabou de responder, o @ falando de pararapente falou que ninguém mais põe adesivo em carro sobre torcida para algum político, porque a extrema direita é violenta e ninguém é inocente de achar que eles não são capazes de alguma agressão.
¶34Marina Silva, que o diga. Bom, se a gente tem extrema direita no país, talvez a gente tenha também agora uma extrema esquerda. E deixa eu seguir com esse comentário do do Mauro. Ele diz assim: "Pedro, eu admiro muito o seu trabalho. Eu sou assinante, embora more fora do Brasil.
¶35E frequentemente eu fico acordado até tarde esperando os seus vídeos e as lives do meio. Mas aqui, com todo o respeito que eu devo a alguém indiscutivelmente mais brilhante do que eu, a controvérsias, eu traço uma linha de profunda divergência contigo. tratar um possível neonazista simplesmente como um garoto no Brasil e no mundo de hoje, enquanto jovens da mesma idade, da mesma realidade e da mesma universidade são reduzidos a trogloditas de esquerda por reagirem a ele sem que eu jamais considere a violência legítima ou aceitável, estabelece entre eles uma distinção que não me parece defensável. Se a juventude serve para contextualizar a conduta de um, também precisa servir para compreender a dos outros. Eu concordo contigo num ponto.
¶36A universidade não deveria funcionar como um júri de virtudes. Houve agressão dentro do campus que se aplique a punição prevista nas suas normas com o devido processo e na medida da responsabilidade de cada envolvido. Mas eu vivo na Europa e acompanho isso de frente. Franquistas e neonazistas já se apresentam como fascistas, sem qualquer vergonha de dizê-lo. em um continente no qual a extrema direita volta a flertar abertamente com símbolos, discursos e ideias que conhecemos muito bem, esperar desses jovens, porque jovens também eram os que reagiram.
¶37A mesma parcimônia de uma intelectualidade que parece ter esquecido as consequências históricas da inércia é algo que definitivamente eu não consigo concordar. Eh, olha, eu fui criado dentro do FRJ. Meu pai, meu pai é professor, emérito do FRJ, aposentado. Eu, desde pequeno, eu frequento o campus do do FRJ. Eh, quando quando meu pai chegava em casa todo dia do trabalho, a a as conversas sobre o que que aconteceu no dia de trabalho dele era o que que tinha acontecido na universidade.
¶38Rap pai, foi do Conselho Universitário, eh, amigo, pessoal de de praticamente todos os reitores que a universidade teve, eh, todos os decanos, primeiro no no departamento de física, onde ele trabalhou, depois eh no no CFCH, que é o Centro de Filosofia de Ciências Humanas, eh onde ele passou a trabalhar quando ele foi para pra escola de comunicação. Meu pai é um dos fundadores da escola de comunicação do FRJ, onde eu >> ele começou bem nas atas, aí >> foi pras Ciências Humanas. Que >> mas é é é é que teoria da comunicação tem muito de matemática, né? né? Meu pai é matemático.
¶39Eh, e meu pai foi inclusive meu professor na faculdade e e olha, em 51 anos de vida, eh, acompanhando durante muito mais do que metade disso, eh, por dentro o que acontecia no FRJ, eu porque é uma universidade que eu realmente conheço muito bem, muito Muito bem. Eh, eh, embora não tenha, eu não tenho interesse para uma carreira acadêmica, eu sou um jornalista muito feliz de ser jornalista. Não, não, não tenho esse barato. Talvez inclusive por ser filho de professor, não ten esse barato de dar aula, tal. [roncando] Eh, não, enfim, carreira acadêmica não é nunca foi o que me motivou, nunca foi algo que me interessasse, mas ao mesmo tempo com profundo respeito pela universidade e e tenho muitos amigos que são professores universitários, eh, [roncando] pelo menos metade dos meus amigos são professores universitários hoje.
¶40E Y E Yasmin, eu só lembro de um caso de espancamento no FRJ até esse só lembro de um caso. E foi uma situação no alojamento eh lá na Ilha do Fundão, nos anos 90 e e o rapaz, que era um aluno da universidade que foi espancado, foi espancado por traficantes de drogas por dívida com tráfico. foi uma situação muito particular, eh, que minha vaga memória, eh, na minha vaga memória, eh, foi uma situação tratada pela universidade como de extremíssima gravidade. Eu eu não me recordo de um único episódio em que estudantes tenham achado que existia razão para se virar contra outro estudante espancá-lo. Eh, eu entendo que se eu tivesse na Itália ou na Alemanha, eu me preocuparia bastante com surgimento, com ressurgimento do fascismo ou do nazismo, porque tem AFD, porque tem uma turma com com a qual a Melone lá na Itália é flerta, que é extremamente perigosa, mas a gente não tem um movimento nelazista no Brasil.
¶41Brasil, nós temos o bolsonarismo, nós temos o Missão, a gente tem a nossa eh eh direita radical, nós temos a nossa extrema direita, a gente tem eh eh grupos políticos defendendo eh coisas que são muito difíceis à direita, mas a gente não tem um movimento neonazista surgindo no Brasil. Agora, dentro de um campus universitário, o que você faz com um aluno, ainda mais no curso de história, que esse garoto era aluno de história, o que você faz com um aluno que começa a demonstrar interesse por ideias nazistas é dar aula para ele, é ensinar para ele. Esse cara precisa de professor, esse cara tá pedindo professor. É assim que você resolve dentro de um curso universitário. É assim que você resolve com informação, com ensino.
¶42Isso devia ser tão óbvio. E de novo, o botton era de uma suách cruzada. >> Pedro, eu vou seguir com o comentário da Raquel Dávila. Ela diz assim: "Ei, Pedro, bom te ouvir. Eu vou só fazer uma pensata, porque não sou estudiosa do tema.
¶43Se olharmos a história da humanidade, sabemos que a violência é uma constante. As guerras sangrentas estão desde o início, sem contar que culturalmente até o entretenimento envolvia violência com os jogos da Idade Média ou até antes. Tudo que vemos em filmes ou novelas tem violência porque faz parte do cotidiano. A violência é um personagem na nossa história, até no privado. Eu, que sou da geração X, vivi dentro de casa essa tradição.
¶44O que eu quero dizer é que tem muito pouco tempo que estamos tentando reverter ou diminuir a violência como modos operante da convivência social, tanto pública quanto privada. Daqui poderia fazer muitas outras digressões. Enfim, a minha pergunta é: caso é apenas um sintoma ou é o que somos realmente? >> Eu acho que essa pergunta é excelente. Eh, Raquel, somos da geração X.
¶45Eh, a a violência é uma constante e e a divisão das sociedades em facções que se odeiam é a constante da história humana. Agora, existe um marco histórico muito claro no ocidente, onde essa divisão por facções para de ser o modos operante da política. que é o Iluminismo, o que que a Europa era e nós somos ocidentais, nós somos de cultura ocidental. O que que a Europa era antes do Iluminismo, né, ali até os 1600 e meados dos 1700, séculos 17 e 18, a Europa era dividida naquilo que nós chamamos de guerras religiosas. antes de serem as guerras religiosas que começam ali na renascença, você tinha a a os conflitos feudais, você tinha as cruzadas, você sempre teve a a divisão dos grupos humanos eh em em clãs ou em grupos reunidos por qualquer tipo de identidade.
¶46A a porque de onde vem quando a gente fala de guerra religiosa? Do que que a gente tá falando? a gente tá falando essencialmente de protestantes eh contra católicos, né? Eh, alguns países como Espanha e Portugal ficaram mais uniformemente católicos. alguns países como como Inglaterra, França, eh se dividiram profundamente entre católicos e protestantes.
¶47Eh, na Inglaterra e particularmente na França, a violência foi muito intensa, muito intensa. Você pega, você pega, por exemplo, a noite de São Bartolomeu, que é se qualquer um que tenha assistido, aliás, eu recomendo para conhecer a realidade europeia nessa época, um filme chamado Rainha Margô, que é a Rainha Margô, é é era uma princesa que era filha da Catarina de Médices católica, que num determinado momento tentando promover a paz, eh, tentam fazer o casamento dela com o um um príncipe de Navarra, que era um príncipe protestante, eh o Almeirante de Colini, que é o cara que depois foi e eh foi o patrocinador da expedição de Vileganhon aqui no Rio de Janeiro paraa fundação da França Antártica, ele promove esse o omirante Colini eh era o o protestante eh eram todos e eh eh calvinistas, né? ele ele ele promove esse casamento tentando promover eh eh organizar um entendimento entre católicos e e protestantes, né? Ele de um lado, o cardeal de Lorena do outro. E a maneira como os católicos lidam com esse processo é promovendo aquilo que a gente chama dia noite de São Bartolomeu.
¶48É uma chacina. Juntou-se toda elite protestante em Paris pro casamento. Saíram matando todo mundo na noite, no dia seguinte ao casamento. Foi assassina assim de um eh um um um troço absolutamente horroroso. A a Europa era assim, isso era a Europa.
¶49Eh, são essas guerras de clãs e tudo mais. Aí quando o Iluminismo, o que que é o pacto? que o Iluminismo promove a a partir do século XVI. Eh, o que que esses filósofos eh franceses, ingleses, escoceses, alemães, o que que eles chegam e e propõem? Tem uma hora que a gente tem que parar de tratar ideias como agressões, mesmo as ideias que nos causem mal repulsa.
¶50A gente tem que fazer um acordo eh em que ideias vão ser contrapostas por ideias. que a gente vai começar a separar eh o que que é ação de um lado, o que que é debate do outro. E sim, algumas pessoas vão trazer ideias que nos são a a nós somam como absolutamente horrorosas. Mas se a gente faz um pacto e a gente combate ideias com ideias, a gente vai conseguir organizar uma sociedade que consegue conviver. Porque essencialmente eh porque essencialmente Yasmin, a a gente não vai conseguir criar uma sociedade em que as pessoas não tenham identidades diferentes, em que não existam protestantes e católicos, em que não existam Monteéquios e Capuletos.
¶51A a peça Romeo e Julieta, que as pessoas acham que é uma é uma peça sobre um amor adolescente, não é uma peça sobre amor adolescente, é uma peça sobre guerra civil. É uma guer uma peça sobre uma típica cidade renascentista, no caso o Shakespeare joga paraa Verona, em que as pessoas de um lado e do outro da cidade se odeiam a ponto de justificar o assassinato umas das outras. Isso é Romeu Julieta, ela pensa sobre o ódio faccional. E é isso que a gente tá permitindo que aconteça na nossa sociedade, inclusive puxado pela esquerda. Quando você começa a criminalizar ideias, mesmo as ideias mais aberrantes, quando você toma a decisão de tentar calar as ideias mais aberrantes, o que você essencialmente tá fazendo é o seguinte, você tá primeiro criando a ilusão de que você vai impedir que essas ideias circulem, quando na verdade o que você tá fazendo é reforçando essas ideias, jogando ela pros lugares mais escuros da sociedade, onde essas ideias são reforçadas e grupo radicalizados à direita começa a se organizar.
¶52Aí sim, em vez de permitir que a organização seja em público, que os argumentos radicais do outro lado sejam compreendidos e possam ser rebatidos em público na praça pública, de forma a serem derrotados. Se você permite que as ideias radicais sejam tratadas à luz do dia na frente de todo mundo, é muito mais fácil você identificar quem está se radicalizando. E é muito mais fácil você construir argumentos que convençam as pessoas a não se radicalizar. Nessas sociedades em que esse negócio é jogado publicamente, o número de radicais é sempre muito pequeno. É quando você começa a igualar ideias com o próprio ato de violência, que você começa a criar o faccionismo, que você começa a dividir.
¶53Então, no fim das contas, ela tem razão, a Raquel, quando ela se vira e fala: "Olha, e eh a história do da sociedade é violenta." Sim, a história da sociedade é violenta, mas existe um momento em que ideias param de gerar morte. Esse momento é a história das democracias. É a história das democracias liberais. A lógica de uma democracia liberal é justamente tentar criar uma sociedade que seja muito menos violenta do que qualquer outra. E democracias tendem a ser muito menos violentas do que quaisquer outros regimes.
¶54Agora, a gente tá nas duas pontas, nas duas pontas. E eu quero sublinhar muito isso. Esses meninos são de extrema esquerda. Eles são o espelho do bolsonarismo. Eles são o espelho da radicalização de direita.
¶55Eles são o pior do que pior do pior da coisa mais antidemocrática. Eles acham que eles estão combatendo nazistas, eles estão agindo como nazistas agiam. E é isso que a gente tem que ter muita clareza de que precisa ser combatido. Porque veja, ao surgimento de uma extrema direita no Brasil, a gente tá começando a assistir o surgimento de uma extrema esquerda dentro da universidade. É muito importante que as universidades comecem a combater esse faccionismo que tá surgindo.
¶56Ideias não são agressões. Ideias precisam ser combatidas com ideias. conhecimento precisa ser eh eh trazido paraa discussão. O o método científico é a solução pra gente derrubar ideias ruins, mas a gente precisa permitir que seja o debate, os fatos, os dados [limpando a garganta] que façam esse combate. não a violência, não a expulsão, não a aniquilização, não a construção de ambiente de ideias puras dentro dos departamentos de humanidade.
¶57E é isso que tá começando a surgir, principalmente nas universidades públicas do Brasil. >> Então, trazendo aqui para fechar essa pergunta da Raquel novamente, será que a gente tá de alguma maneira proporcionando a nós mesmos um rompimento desse pacto iluminista? >> Eu acho que estamos >> por aí. Eu acho que estamos. >> Pedro, vou te liberar pro final de semana.
¶58>> Desculpa. Hoje, hoje eu tô particularmente preocupado com essa situação. >> Eloquente, eu diria. >> É, eu eu tô eu tô muito preocupado, cara. >> Espero que semana que vem a gente volte a debater mais ideias e menos violência.
¶59>> É, >> até semana que vem. >> Até. Ninguém aqui vai dizer em quem você deve votar. Na verdade, aqui centro, esquerda e direita todos têm espaço, mas nas próximas semanas muita gente vai [música] tentar dizer em quem você deve votar. Então como não se perder em meio a tanta notícia, promessas vazias [música] e fragmentação de conteúdos.
¶60Ele 2026. A escolha pode ser o seu material de apoio para escolher quem vai assumir a presidência do país. O documentário parte dos cinco principais candidatos, quem são o que fizeram até aqui. Mas [música] eleição não se explica só por candidato. O filme também olha pro país que o próximo presidente vai encontrar.
¶61Já tá no stwing do meio com outras produções originais que trazem base para votar sabendo exatamente os motivos. Assina o meio premium. Assiste agora. เฮ [música] [música]