¶1Temos livro. >> Ah, temos uma história. >> Uma história, >> uma sequência. Olha aqui. Vamos começar com este daqui, o Deus das Pequenas Coisas.
¶2E são aqui, tá em inglês. Isso é um livro que saiu há 500 anos, sabe? 500 anos sendo um exagero, evidentemente, mas em 1980, 1998. Ah, olha que coisa engraçada, né? Ele, eu guardo papéis dentro dos meus livros.
¶3Aí tem um programa da minha irmã e do Marcelo Fegerlândia tocando em algum lugar. E aí tem uma permanente da Bienal Internacional do Livro de 1980 aqui juntos dentro desse volume. Mas bem, o Deus das pequenas coisas, o Deus das pequenas coisas não é o 98 não, 98 tá tá aqui atrás, mas não é esse livro anterior a isso. Nos anos 80 ainda. Quer ver ele?
¶4Não é anos 90, porque ela ganhou o Booker Price com esse livro em 97. Quer dizer, não é tão antigo quanto >> de 96, 97. >> É, então é é é um livro suficientemente antigo. Quer ver? De pera aí 97.
¶5Então eu li esse livro assim que foi lançado, porque esse livro teve uma repercussão enorme, ganhou o Pker Price. Quando o livro ganha o Booker Price, eu leio, porque é um prêmio de uma consistência muito interessante, consegue manter o nível da premiação, >> que é o principal prêmio britânico, né? é o principal prêmio literário de língua inglesa, as publicações de língua inglesa e publicações traduzidas paraa língua inglesa. Isso é um espetáculo do livro. Eu li, fiquei apaixonada por esse livro, achei uma coisa extraordinária e foi uma revelação para todo mundo.
¶6Muito bem, esquece esse livro. E viajo eu pra Índia nos anos 2000 e muito, 2010, 11, sei lá, por aí. E desc vou para Nova, passo um tempo em Nova e descubro esse livro absolutamente sensacional que é o guia de campo das árvores de Nova Delia, escrito por um camarada chamado Pradip Crichen. Aqui também tem o Ah, que coisa interessante. Esse é o marcador da livraria que eu mais gostava em Nova Deli, que se chama Barisons Books.
¶7E aquele típico endereço que a Índia ainda tinha naquela época, opposite main gate market, quer dizer, em frente à entrada principal do Carket não tinha números, né? Você desvira a esquerda depois da árvore ou até >> bom. Então aqui você tem todas as árvores de É uma edição linda, parece aqueles guias de viagem da da DEC e da editora, porque o papel é muito bom. as imagens, a quantidade de ilustrações com as flores, com as frutas, com o tipo de árvore, te dando a localização da árvore mais importante ou de uma árvore dessa espécie para você ir procurar aqui, ó. >> E e você vai fazer uma conexão entre esses dois livros, >> calma, >> de autores diferentes.
¶8>> Calma. >> Aham. Eu, isso aqui são, >> percebi que são todos indianos, mas tudo bem. Só isso são só as folhas de pipau. Tá bom.
¶9>> Tá bom. Eu fiquei apaixonada por esse livro. Eu visitei várias árvores por conta desse livro e eu li este livro, acredite se quiser, de ponta a ponta, porque ele é tão bem escrito e é tão delicioso. E eu achava ele a demonstração máxima de como a Índia é um país sofisticado e desenvolvido, porque não é qualquer país que tem um livro desse. É preciso você ter uma civilização atenta, >> com certeza >> ter um mercado editorial maravilhoso.
¶10Aliás, eu falei DK tá aqui. A DK trabalhou. Esse livro foi lançado pela Penguin Books da Índia e pela DK. E tá venda apenas na Índia. Para venda na Índia.
¶11Tem um outro papel dentro ainda. Ah, da Nok, que é uma loja maravilhosa. É. Pronto. Também na Índia.
¶12Então, me apaixonei por esse livro. Esquece esse livro. Tá >> aí no começo desse ano eu li este livro aqui da Arundat Roy, aquela do primeiro livro. Isso aqui são as memórias dela. Eu li ele em inglês, chama M comes to M.
¶13M comes to me >> em inglês. >> Meu abrigo me atormenta. >> Meu abrigo, me tormenta. Isso são as memórias da Roy, as especialmente as memórias dela em relação à mãe dela. E você descobre que este livro aqui, o primeiro livro, não é uma ficção, ao contrário do que você imaginava, essas coisas aconteceram.
¶14É um livro que tem até realismo mágico, mas você descobre que tudo isso aqui foi verdade, que basicamente >> o que há de ficção aqui é muito pouco. E você descobre aqui que Arind Roy é uma pessoa muito extremista, eh, é uma pessoa radical, radical mesmo, eh, divisiva ao extremo na Índia por suas posições políticas. Ela em geral tem razão e em geral ela leva essa razão a um extremo tão tão distante que ela passa a não ter razão a ser aquele tipo de opinião que é um gol contra posições que na verdade seriam nobres e defensadas. Mas isso é tudo outra história, porque estou falando da escritura. E aqui você descobre o quê?
¶15que ela ganhou tanto dinheiro com o Deus das pequenas coisas que o marido dela, que se chama Pradip Crichen, conseguiu realizar o sonho da vida dele de fazer um guia das árvores de Deli. >> Que coisa espetacular. E você comprou um livro sem saber dessa conexão? >> E eu não nunca tive ideia. Esses dois livros moravam na minha estante, moram na minha estante há 500 anos.
¶16E eu tenho imensa admiração pelos dois, cada um à sua maneira. Isso eu achando que era uma obra de ficção, que no fundo não é. E isso aqui sendo melhor guia de árvores que eu já vi, porque eu sou uma pessoa que lê guias de árvores de pássaros, OK? Eu confesso, tá? Não precisa olhar com essa cara.
¶17[risadas] >> Olha aqui, eu tô numa cidade arborizada como Nova Adéia, com aqueles vegetais magníficos para todos os lados. Eu quero saber quem são e por não vai nota. Bom, e aí ela conta desse marido e de como esse sonho do marido foi possível de se realizar. Por que com aquele dinheirão todo que ela ganhou, o marido poôde largar o emprego, poôde atrás de todas as árvores e catalogar árvore por árvore, fazer as fotos, etc. Eles já não vivem juntos e tal.
¶18Porém, eu achei que ficava engraçadinho contar essa história. E agora vamos a esse livro, >> por favor. É uma vida esquisitíssima, muito violenta. A a mãe dela se casou, casamento arranjado na Índia com cara, com camarada que bebia, que era extremamente violento. E ela largou aquele marido, porque senão ia morrer.
¶19>> Uhum. Então eu ia morrer e foi se abrigar com os dois filhos, Arund, irmão dela, numa casa que a família tinha, que era uma casa de uma casa de férias de verani, como se fosse uma casa em Petrópolis ou Teresópolis, de onde a mãe e o irmão dela, dessa Mary, que é a mãe da Arundat a expulsaram, porque naquela época as filhas não tinham direito de herdar [roncando] coisas dos pais e eles acharam um absurdo que ela estivesse morando numa casa que a rigor seria herança do irmão. É uma legislação terrível. E Mary, a mãe de Arundá, teve que sair correndo literalmente paraas ruas da cidade em busca do advogado para não ser despejada. expulsa para sua própria mãe e seu próprio irmão.
¶20Não conseguiu, teve que voltar para a outra cidade, para a família daquele marido que ela tinha largado. E agora ela era duplamente uma autquest porque ela tinha largado o marido. E enfim, cara, essa mulher foi a justiça. A gente tá falando aqui, Arundat Roy é uma pessoa mais nova do que eu, mas a gente tá falando de uma pessoa de uma geração muito antiga. Mulheres não faziam isso na Índia.
¶21Era uma cristã síria, não tem nada a ver com país sírio. Cristão sírio é denominação religiosa. E as mulheres dessa denominação não podiam receber heranças paternas. Ela lutou na justiça, ganhou. Foi uma luta terrível.
¶22Ela ganhou essa parada e anos depois expulsou o irmão da casa que ele tinha dado. Todos nós nos sentimos vingados, ainda que amargurados. Mas enfim, essas são as circunstâncias em que ela cresceu. Essa mãe era uma pessoa horrível, uma pessoa absolutamente horrível. A avó dela >> não, a mãe.
¶23A avó nem fala. A avó é uma mejera. O pai era um bêbado. A essa mãe que lutou e conseguiu era uma pessoa horrível. >> Mãe, era uma pessoa horrível.
¶24>> Porque eu já tava torcendo por ela, né? >> Não, que em nenhum momento amou essa criança ou disse que amava ou acolheu. Então, ela cresce. >> A mulher que deixou o casamento porque o marido ia matar, era uma pessoa horrível. era uma pessoa horrível.
¶25A Arundat Roy no fim revela uma certa simpatia até pelo pai que é um bêbado inútil, uma pessoa fracassada em todos os aspectos. Agora, essa mãe dela era ao mesmo tempo uma pessoa formidável. formidável no sentido de tamanho, de dimensão, de >> larger than life. >> É isso. Uma pessoa de um relevo social, de uma >> evidentemente uma pessoa com uma personalidade muito dominante, né?
¶26>> Mas é mas uma família absolutamente disfuncional. >> Uhum. >> Uma família realmente cruel. Cruel. A palavra é essa.
¶27A crueldade permeia essa história de ponta a ponta. >> Uhum. >> E essa mulher consegue com esses elementos [roncando] escrever um livro extraordinário, inesquecível, que é o de Deus das pequenas coisas. Cara, eu fiquei tão tão mexida quando eu li. >> E aí ela ela que conta a história dela.
¶28E quando você se lembra, quando você começa a ler isso aqui, você já leu o Deus das Pequenas Coisas, todas essas histórias de crueldade, discursão que acontecem em Deus das pequenas coisas e que você acha que são uma invenção, você se toca que não que isso aconteceu com ela. >> Uhum. até abuso sexual, tudo que é desgraça que pode acontecer com uma criança, tá lá. Por isso que você não acredita que aquilo é real. E aí você vê que é real.
¶29E o negócio é que entre esse livro e esse, ela lançou um segundo livro, Ministério da Felicidade absoluta. Gente, eu vou eu vou ter que botar esse nome aqui porque eu me esqueci. do nome do livro, que é muito decepcionante, que não é um bom livro de jeito nenhum. Então, eu esperava um livro excelente vindo da Dartroy, me decepcionei com que grande espaço de tempo entre eles, 10 anos, 15 anos, fiquei muito desapontada. Quando eu li esse aqui, eu digo, cara, é a escritora que eu gosto, tá aqui ela.
¶30E tá aqui de uma forma chocante, porque você descobre tudo que aconteceu naquele primeiro livro, Deus das pequenas coisas. Esse livro do meio poderia ser muito bom, mas é vítima desse lado. H, desse [limpando a garganta] lado radical daad Roy. Ele é todo envieszado. Todo envieszado.
¶31Ah, todas as pessoas à margem da sociedade são ótimas. Todas as pessoas da sociedade são péssimos. Enfim, castra o livro, sabe? Esse tipo de visão. >> Uhum.
¶32>> Esse tipo de viés. Mas tremenda escritora. E eu, esse livro acabou de sair. Eu não li a tradução, eu li só o original, mas acredito que a tradução esteja muito boa, porque essa editora é muito boa. Editora Record.
¶33Vou dizer já para vocês quem traduziu. Ah, é ótima. Fernanda Abreu. Livrão, gente. Livrão.
¶34E para quem, se vocês não leram o Deus das Pequenas Coisas, pode ser muito interessante ler o Deus das Pequenas Coisas antes de ler esse livro aqui, para você não perder o impacto da ficção e depois você ter o impacto da leitura desse aqui. Já o guia de árvores de Nova Deli, eu não recomendo ler aqui no Brasil porque você não vai achar. Mas se você estiver indo à Índia e você for o louco dos guias e das árvores, eu super recomendo comprar. Tá aqui. >> Muito bom.
¶35Cora, né? >> Hoje, hoje Christian >> hoje extremamente inusitada a sua seleção, [risadas] >> mas sem punha, né? de fato. E e e obviamente tudo isso disse muito a você, porque você tinha os dois livros sem saber da ligação. >> É, pois é, isso foi foi uma surpresa.
¶36Quando ela falou que o marido fazia catalogava as árvores e tal, eu pensei imediatamente nesse livro e depois quando se confirma isso, eu digo: "Ah, mas é ele que coisa extraordinária". E aí trouxe imediatamente o livro para >> Muito bom. M.