¶1Essa última semana eu tive uma aula sobre como o processo de desinformação online ocorre, de assassinato de reputação. Olha, eu juro para vocês, me pegou de surpresa. É um assunto sobre o qual leio desde 2016. Entrevistei 300 especialistas, são 10 anos, mas nunca havia visto a coisa sendo construída no detalhe, passo a passo e de perto. Vejam, esse não será um ponto de partida popular.
¶2Eu sei que não, porque a máquina de desinformação aqui é de esquerda e a maioria das pessoas à esquerda tem profunda dificuldade de lidar com a sua responsabilidade nesse jogo quando ela aparece. Olha, é claro que é verdade que a extrema direita é especialista em desinformação online, é, sabemos disso, mas é hora de o Brasil ser apresentado ao seu espelho, à extrema esquerda. Esse ovo tá sendo chocado faz alguns anos, tá? Na terça-feira passada eclodiu. Vocês acham que eu tô sendo hiperbólico ao chamar de extrema esquerda?
¶3Não, não tô não, tá? E até o final do vídeo eu vou definir isso. Só que não é por aí que eu quero começar. Eu quero começar lendo trechos de um manifesto que começou a circular agora no sábado. Abre aspas.
¶4Nós, professores e técnicos da UFRJ, a partir do entendimento de que uma universidade democrática deve constituir-se como espaço de pluralidade, inclusão, respeito, reconhecimento das diferenças, livre de práticas e manifestações que promovam o ódio, a discriminação ou a violência contra grupos historicamente vulnerabilizados. Posicionamos-nos publicamente em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista e um campus do FRJ e em repúdio aos atos por ele praticados, entre eles agredir verbal e fisicamente um estudante negro com insultos racistas. Fecha aspas. Assinam esse texto 254 pessoas. No total, 231 são do FRJ e 23 de outras instituições.
¶5Desses da Federal do Rio, 15 são professores aposentados, 14 ocupam posições administrativas, 23 lecionam no colégio de aplicação. Ao todo, 185 professores da ativa da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alguns são nomes bastante conhecidos, mas veja que curioso, só 18 deles do IFIX, que nos seus quadros tem 83 professores. Por que a vasta maioria dos professores próximos não assinaram o texto? Bem, vamos decantar esse texto.
¶6Ele trata, evidentemente, do espancamento de Diego Costa Araújo, 27 anos, na terça-feira à noite, dentro do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, no Largo de São Francisco, no centro do Rio. Claro, a maneira como o texto se refere ao Diego é como neonazista. No manifesto com a assinatura de 254 educadores, o vilão é o sujeito que apanhou. imputam a ele três crimes. O primeiro, apologia ao nazismo.
¶7O segundo, lesão corporal. E o terceiro, injúria racial. Vamos deixar muito claro. Essas pessoas abaixo assinadas estão acusando formalmente um estudante da UFRJ de ter cometido três crimes. Se não tiverem como provar, são cada uma delas culpadas de outro crime do qual as pessoas gostam muito de lembrar.
¶8O crime de calúnia é um artigo inteiro do Código Penal 138. É crime caluniar alguém imputando-lhe falsamente fato definido como crime. Pena de detenção de 6 meses a 2 anos mais multa. Quando as pessoas dizem que apologia ao nazismo é crim, elas se referem ao artigo 20, parágrafo 1eº da Lei 7716 de 1989. O texto é curtinho.
¶9Diz que é crime fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada para fins de divulgação do nazismo. Essa lei tem uma jurisprudência muito bem estabelecida no Brasil. Quer dizer, uma maneira como habitualmente os juízes a leem. Mas o essencial é o seguinte, é preciso comprovar a intenção de fazer propaganda do nazismo. Não basta estar com símbolo.
¶10É preciso provar que a pessoa tinha o objetivo de fazer propaganda. Sabe como é? Divido o processo legal, advogado constituído, provas, testemunhos. E se quando você pergunta pro rapaz: "Você é nazista por causa dessa camiseta?" Ele diz que não, que a camiseta é satírica e mostra um bottom com uma suástica cruzada para uma faixa de proibido. Aí fica um pouco mais difícil argumentar legalmente que ele tem a intenção de fazer propaganda hora nazista.
¶11Tipo, ele está negando. Sabe essa expressão estado democrático de direito, cada uma dessas palavras tem um significado. Juntas as três determinam o regime em que estamos. Esse último pedaço, essa última palavra direito, ela quer dizer algumas coisas. Uma, que somos todos iguais perante uma mesma lei.
¶12Duas, que ninguém será punido sem o devido processo legal. Três, que todos temos direito à representação legal, que provas precisam ser apresentadas contra cada crime do qual nos acusam. Foram divulgados seis vídeos do espancamento de Diego. Eu vou anexar os seis ao fim desse episódio. Sem cortes, com som que vieram, sem qualquer manipulação, inteiros.
¶13Não é a versão pixelizada que uma turma tá divulgando como se os vídeos não tivessem qualidade. Todos têm celulares hoje em dia são ótimos. Não é tampouco a versão sem som. Todos têm o som com o qual foram gravados. Ele tá sendo acusado de apologia ao nazismo.
¶14No primeiro vídeo mostra uma placa de proibido com a suástica presa na jaqueta. Ninguém encontrou até agora nenhuma conta dele e nenhuma rede social com qualquer discurso de direita. Pelo contrário, o traço de publicações dele estão num site marxista leninista. Em nenhum vídeo ele aparece chamando ninguém de macaco. Em todos os vídeos ele aparece de forma crescente, mais intimidado, mais cercado por gente gritando contra ele, mais acuado.
¶15Talvez numa circunstância assim pudesse até fazer um gesto violento. É só que não tem, não tem puxão de cabelo, não tem cotuvelada. O momento de maior atenção que é quando um grupo começa a empurrá-lo escada baixo, aparece no vídeo quatro. Eu vou pedir algo a vocês. Esqueçam tudo o que leram a respeito desse caso que ouviram.
¶16Ponham-se no lugar dele e assistam a este vídeo quatro. Há um corredor estreito com dezenas de pessoas seguindo você. Gritam: "Fascista! Recua, fascista". Quem tá na frente da fila o empurra.
¶17Segundo Diego, chutavam também. Isso não dá pra gente ver, mas os empurrões estão todos lá. Desde o vídeo três, você foi arrancado da sua sala de aula. A professora não defendeu, não apareceu nenhum segurança da universidade, nenhum diretor, nenhum decano, nenhum faxineiro. Você tá sozinho.
¶18Aí chega a beira da escada, uma escada que, acreditem, a escorregadia faz 30 anos. Eu sei, eu tava lá há 30 anos atrás. E continuam te empurrando. O que o Diego faz? Se agarra com quem tava empurrando para não despencar.
¶19Vocês não precisam acreditar na minha palavra. Só façam o exercício de observar. Observem com atenção. É vídeo digital, gente. Daí pra frente e para trás quantas vezes quiserem.
¶20A acusação de injúria racial demorou 24 horas para aparecer. No início, ele era só um nazista. O primeiro vídeo que o líder dos espancadores soltou não falava injúria racial. Dizia que ele tinha um boto nazista que aí se provou que era mentira. Conforme os vídeos viralizaram, teve gente começando a chamar atenção.
¶21Esse bóton é antinazista. Então o líder é fácil identificá-lo. Ele tem um penteado afro grande. Veio com essa. Ah, mas ele me chamou de macaco.
¶22Tem prova? Nenhuma. Disse que Diego bateu primeiro. Isso aparece em algum vídeo? Não.
¶23O que aparece é o rapaz sendo acuado primeiro, empurrado depois, espancado na sequência. Os 12 que aparecem no vídeo batendo duro, se o juiz considerar que tenham batido, podem ser considerados culpados de lesão corporal grave. Se o juiz considerar que houve risco à vida de Diego em algum momento e um instante à beira da escada pode levar essa conclusão, aí piora muito para esses estudantes. Assista os vídeos, só assista pondo-se no lugar dele. Use as informações que existem de fato, concretamente.
¶24Pense como um repórter, como um advogado. A quem interessa atacar a reputação de um rapaz que foi espancado? Será que ainda somos uma sociedade que primeiro analisa as provas factuais e então ouve os testemunhos? Olha, aqui tem uma linha demarcada, tá? Eu falo sério.
¶25Quem defende o Estado democrático de direito não tem dúvidas do que pensa sobre justiçamentos. Não tem dúvidas de reconhecer um justiçamento. E perante um justiçamento não tem dúvidas de onde se colocar. A linha tem o lado de cá e tem o lado de lá. A diferença entre justiça e a justiça da horda não é misteriosa, ainda mais para professores das humanidades, tá?
¶26Alguma coisa, alguma coisa aconteceu porque perderam a bússola moral, abraçaram o tribunal da turba. O que aconteceu ali foi o seguinte: fez-se uma acusação, ignorou-se a defesa do réu, deu-se o veredito em menos de 10 minutos. A execução da pena espancamento ocorreu 5 minutos depois. Isso tem nome, julgamento sumário. E 254 educadores assinaram o manifesto em apoio a essa gente.
¶27Não precisaram tampouco analisar as provas que existem e com fartura na internet. Não lhes ocorreu a dúvida. Nada foi necessário. Um rapaz acusou de racismo. Basta.
¶28Onde assinam? Eu sou Pedro Dória, editor do meio. Esse é o jornalismo em que eu, em que nós do meio acreditamos. A gente não feche os olhos pro extremismo de esquerda. A gente não fecha os olhos pro golpismo bolsonarista.
¶29A gente não busca opiniões populares. Estado democrático de direito. É isso que a gente defende, o regime. Um regime em que a esquerda e a direita convivem, conversam, avançam. Às vezes um no poder, às vezes outro.
¶30Assim no meio, os algoritmos não gostam de quem não joga o jogo da violência e do ad político. Então a gente precisa da assinatura de quem tá junto. Esse aqui, esse é o ponto de partida. Eu descrevi agora não quero descrever, eu quero interpretar o que aconteceu ali. Essa é a minha opinião.
¶31É uma leitura. Nesse momento eu tenho no meu computador e num penrive uma pasta com 53 capturas de tela de celular das conversas do grupo de zap do centro acadêmico Manuel Maurício de Albuquerque. Era amigo do meu pai, o Manuel Maurício. Tudo que sempre ouvi dele é que era uma figura adorável, gentilíssima. Ele próprio foi vítima de um julgamento sumário e depois tortura.
¶32As mensagens, as mensagens dão ância de vômitos quando você lê na sequência. Mas eu quero ler algumas delas, só algumas delas para vocês. Eu tô curada que amassaram esse [ __ ] O tempo de Deus é perfeito. Só faltou a guilhotina. Eu tava tentando botar ele para dormir, mas a ele me mordeu.
¶33Ferveu o corpo para não sobrar nem as unhas desse filho da [ __ ] A mais chocante é a seguinte: mandava ele morder o meio fio e depois pisava na cabeça para quebrar todos os dentes. Essa é a cena inicial de a outra história americana, na qual o ator Edward Norton faz um neonazista com uma suástica gigantesca tatuada no peito, que faz exatamente isso com o homem negro, manda ele abrir a boca com os dentes mordendo o meio fio. E aí, aí o que acontece é uma das coisas mais violentas que eu já vi numa tela de cinema. Esse rapaz que escreveu isso minutos após participar do espancamento de um colega ainda ali no calor, na adrenalina daquilo, a fantasia que ele tava vivendo na cabeça dele era de emular um nazista de cinema. A palavra perversidade existe na psicologia, na psicanálise.
¶34Para isso, ele queria viver a fantasia de ser um nazista, mas precisou criar uma proteção retórica. Tava sendo em verdade para si mesmo. Essa história que ele conta para si é um antinazista. Só que aí tem horas que o inconsciente entrega e ele escreveu no Zap a fantasia. Há 10 anos, inúmeros campas universidades de humanas aqui no Brasil, alunos estão incessando-se uns aos outros contra os fascistas.
¶35Na última terça-feira, na UFRJ, coletivamente decidiram agir e escolheram para ação o ritual dos camisas negros italianos, dos camisas pardas alemães. Escolhe um, acusa, intimida, assusta, acua, empurra. Aí bate sem dó, com fúria. No dia seguinte se fazem de vítimas. Foi ele quem atacou.
¶36Ele era o mal. É exatamente assim o rito fascista. Estado democrático de direito. Quando você tá fora das soluções que lhe oferece, nós usamos uma palavra: você é um extremista. Essa é a extrema esquerda brasileira.
¶37Sabe, um dos signatários do tal manifesto é ex-reitor do FRJ. Não é só o Manuel Maurício que faz falta nessas horas. Eu lembro de outro ex-reitor, Pedro Calmão, professor de direito, conservador. Em 1968, quando a PM queria entregar para pegar estudantes de esquerda, o Dr. Calmão se virou para um pro policial na porta da faculdade, falou: "Meu filho, aqui só entra por vestibular ou por concurso público".
¶38A autoridade que ele tinha, que ele empunha era tanta que os PMs não entraram. Aquela UFRJ parece que não existe mais. BR também que a gente tem um monte de artistas que faz esse tipo de coisa tipo boa. >> Não, tudo bem. >> Eu deixei minha bolsa e vem.
¶39>> Olha lá. Ele vai nem é daquela sala. >> Ih, rapaz. [ __ ] >> E lá já tá >> mete a porta, >> gente. Não, a polícia, não sei se a polícia, se é o vigilante.
¶40ele mostrando a camisa. Ele é um palhaço, mano. Bist recuar Bista Bista. Ninguém aqui vai dizer em quem você deve votar. Na verdade, aqui centro, esquerda e direita, todos têm espaço.
¶41Mas nas próximas semanas muita gente vai tentar dizer em quem você deve votar. Então, como não se perder em meio a tanta notícia, promessas vazias e fragmentação de conteúdos? Ele 2026. A escolha pode ser o seu material de apoio para escolher quem vai assumir a presidência do país. O documentário parte dos cinco principais candidatos, quem são o que fizeram até aqui.
¶42Mas eleição não se explica só por candidato. O filme também olha pro país que o próximo presidente vai encontrar. Já tá no streaming do meio com outras produções originais que trazem base para votar sabendo exatamente os motivos. Assina o meio premium. Assiste agora.
¶43เ