¶1Tem de abrir tudo. Gente, a situação é a seguinte. A República apodreceu. Os indícios são fortes demais de que o ministro Alexandre de Moraes deu informação privilegiada a respeito de investigações da Polícia Federal ao banqueiro Daniel Vorcaro, de que o procurador geral da República, Paulo Gonê, pediu a Vorcaro que bancasse a ida de seu filho a uma experiência de whiskys muito caros no exterior. Sabemos disso porque o ministro André Mendonça tomou a decisão de tornar público o relatório da Polícia Federal com tudo o que envolve Alexandre no caso master.
¶2Agora, vazou-se também a suspeita de que o próprio Mendonça tenha ganhado um terno caríssimo de presente. É pura suspeita, tá? Tem umas trocas de zap, humilação, nada certo. Mas pode ser que e olha nessa república, muitas das coisas que podem ser que às vezes terminam comprovadas. O diabo é que nem todas terminam comprovadas.
¶3No meio da tempestade de novidades, talvez tenha uma coisa que tenha passado batida por você, mas ontem descobrimos também que Flávio Bolsonaro mentiu. Mentiu de novo. Ele havia dito a Globo News que a última parcela de pagamento de Daniel Vorcar havia ocorrido em maio do ano passado. Não é verdade? Ele recebeu pelo menos mais 1,6 milhão de dólares em outubro do ano passado.
¶4Ele recebeu por baixo 14 dos 25 milhões de dólares que o banqueiro havia lhe prometido. Isso dá mais de R milhões de reais fáceis dados ali nas mãos dos irmãos Bolsonaro. Eduardo foi pros Estados Unidos. Tudo indica cuidar disso. Ja Wagner, líder do governo no Congresso, ganhou presentes de aliados de Vorcaro.
¶5Davi Alcol Columbre, presidente do Senado, facilitou a vida do Ivorcaro, assim como facilitou também a sua vida Hugu Mota, presidente da Câmara dos Deputados, como era, aliás, irmão de toda a vida Ciro Nogueira, que [roncando] foi ministro da Casa Civil de Bolsonaro. O problema real é o seguinte. Daqui a um mês, no dia 4 de outubro, todos nós votaremos para presidente, governador, deputados federal, estadual, mas dois senadores. Não é certo termos a informação pela metade. Não tem de abrir só a investigação sobre Alexandre.
¶6O Supremo precisa abrir tudo. Queremos saber tudo que há sobre Flávio, sobre José Antônio Dioofle, sobre Cársio Nunes Marques. E já que estamos nessa, é fundamental sabermos tudo que a polícia já conseguiu levantar sobre Fábio Luiz Lula da Silva, sobre Roberta Luxinger, sobre Fernando Bitar, ex-sócio, talvez sócio atual do filho do presidente e ainda a relação de todos com careca do INSS, Antônio Carlos Camilo Antones. Nesse momento, há uma guerra aberta dentro do Supremo Tribunal Federal, uma guerra de vazamentos seletivos. Não estamos mais no tempo da Lava-Jato.
¶7E a essa altura o Brasil não tem mais nada de ingênuo, né? Alexandre não é herói, mas Mendonça, Mendonça tampouco. Não existem heróis. Existe uma disputa de poder no coração da República. Uma Polícia Federal quebrada, partir em facções.
¶8O STF irem como o Senado e a Câmara. É difícil que peçam a nós brasileiros que acreditemos na boa fé de quem tá nesse jogo. Quando o procurador geral da República pede ao Supremo que todas as provas sejam inutilizadas, por que deveríamos acreditar que não pede em causa própria citar citado. Quando Mendonça divulga o lado de Morais, mas não o de Flávio, como não acreditar que não tá beneficiando o filho do seu padrinho enquanto ataca quem considera inimigo? Só existe uma maneira de começar essa história em limpo.
¶9É abrir tudo que a polícia já levantou sobre todos os casos imediatamente. Não é hora de pedir a renúncia de ninguém. É evidente que gente demais não tem qualquer condição de seguir exercendo cargos os mais altos na República. Mas sobre isso podemos conversar a partir de novembro. Agora, importantes são as eleições.
¶10Importante é quem ocupará o Planalto, a Câmara em 2/3 do Senado. Os governos estaduais, afinal incontáveis governadores também estão envolvidos com o Vorcaro. O STF precisa abrir tudo e abrir já para que dê tempo de a imprensa e a população mergulhar em todos os documentos. Queremos saber o que Flávio e seus irmãos falaram com o banqueiro, o que pediram, se ofereceram algo em troca. Queremos igualmente saber o que ocorreu na antissala de Lula.
¶11Quais de seus ministros tiveram contato com quem? Se favores foram oferecidos. Queremos saber que senadores, que deputados federais, que presidentes de partidos devem alguma coisa corruptores desse nível de naip. Numa democracia, o momento de renovar o poder é o das eleições. Será absurdo se elegermos um presidente outubro para aprendermos em novembro ou dezembro que é corrupto, que deve favores, que usa o poder em benefício de quem lhe ofereceu dinheiro que garantisse o resto da vida.
¶12A essa altura, não abrir tudo é o que de pior pode acontecer. Excelentíssimo senhor presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Faquim, abre tudo. Queremos saber, precisamos saber. Não é certo ocultados 215 milhões de brasileiros aquilo que a Polícia Federal e o Ministério Público já sabem. Depois da eleição vai ser tarde.
¶13É um direito de cada eleitor votar informado. Não é hora de esconder mais nada. Eu sou Pedro Dóri, editor do meio. Esse é o jornalismo que eu em que nós do meio acreditamos. A gente a gente não fecha os olhos pro extremismo de esquerda, a gente não fecha os olhos pro golpismo bolsonarista.
¶14A gente não busca opiniões populares. Estado democrático de direito é isso que a gente defende, o regime. Um regime em que a esquerda e a direita convivem, conversam, avançam. às vezes um, às vezes outro, faz tudo parte do jogo. Assim no meio.
¶15Os algoritmos, sabe, eles não gostam de quem não joga o jogo da violência e do ódio político. Então a gente precisa da assinatura de quem tá junto. Esse aqui, esse é o ponto de partida. [música] Deixa eu contar uma coisa para vocês. O Brasil tem seu ritmo.
¶16Todos os países têm. A primeira república começa em 1889 com uma ditadura curtinha, termina em 1930 com golpe militar, 39 anos. A ditadura Vargas vai até 1945, termina com golpe militar, 15 anos. A segunda república vai de 1945 a 64, 19 anos. Aí golpe militar vem a ditadura.
¶17A Nova República começa em 1985. Estamos em 2026, 41 anos. Pois é. E 4 anos atrás, que surpresa, alguém tentou dar um golpe militar. Em média, os regimes brasileiros duram mais ou menos 30 anos.
¶18O nosso é o mais longevo de todos, mas tá em crise desde 2015, quando fez hora 30 anos. Tá apodrecendo por dentro. Chegou um ponto que é insustentável. A gente precisa de um novo reset. O problema é o seguinte.
¶19Todas as vezes que fizemos isso no passado, foi com uma ditadura no meio. Golpe ditadura aí reseta. E ditadura é sempre um atraso de vida, uma violência. E francamente basta, né? A gente tende ir pra frente.
¶20Então, se a Constituição não prevê a dissolução do regime, como resolvemos democraticamente o fato de que a República apodreceu por dentro? Eu tenho uma sugestão. Em janeiro do ano que vem, o novo presidente convoca um conselho de brasileiros notáveis, juristas, cientistas políticos, economistas, sociólogos, gente que conhece o Brasil, os brasileiros, sua história, seu regime, suas máquinas. Ao longo de um ano, terão uma missão, entregar um relatório que tem diagnóstico e sugestões. Esse relatório será levado ao Congresso Nacional, que terá a missão de aprová-lo ou não.
¶21O que precisa mudar no Supremo Tribunal Federal, na Procuradoria Geral da República, no poder legislativo, no poder executivo, fim do voto monocrático para ministro do Supremo, mandato para ministro do Supremo, redesenho das relações executivo e legislativo, tudo entra. Podemos e devemos botar mais coisa, como regras partidárias, sistema eleitoral para escolha de parlamentares, talvez repensar a distribuição do orçamento. Claro que cláusulas pétrias não devem ser mexidas. Afinal não estamos mudando de constituição. Tecnicamente sequer estamos mudando de regime.
¶22Os franceses dão nomes às suas repúblicas. Estivemos a primeira ditadura que acabou com o Floriana e veio a primeira república, a segunda ditadura e a segunda república interrompida pelo golpe de 64. A terceira ditadura a terceira república, nossa nova república. Fecha o capítulo. As regras do jogo não permitem mais um sistema estável, pois corrompeu-se por dentro.
¶23O próximo presidente vai nos guiar por uma transição em 2030, ainda sob a Constituição de 1988. só que bastante modificada, terá início à quarta república. O fundamental é o seguinte, reconhecermos que chegou a um momento tal que o sistema não é mais reformável aos picadinhos, aos poucos ou por acordos. Dentro dele tem gente demais, com poder demais, querendo escapar da cadeia, querendo manter-se no comando do jogo e tentando derrubar a outros. Quem não ganha nesse cenário é a sociedade brasileira que tá desconectada nessa eleição como não tava muito.
¶24Essa desconexão, esse ódio tem razão de ser. O regime acabou porque permitiu se corromper. Não se trata mais de um governo corrupto que pode ser substituído. É tudo. São todos ainda que em níveis diferentes.
¶25O senso de preservação de quem tá dentro vai impedir o quanto dê quaisquer reformas. E o que nossa história diz é que essa decadência sempre desaga em golpes, em ditaduras. O jeito de impedir um só, reformar, reformar pesadamente e reformar, criando um ritual dentro da democracia. Um grande conselho de notáveis, de mulheres e homens que assumirão o compromisso de não disputar cargos eletivos, que não terão interesse no resultado do jogo, que submeterão ao Congresso Nacional sua grande proposta. Aí, aí caberá a próxima legislatura aprová-lo ou não, prestando contas ao país da sua decisão.
¶26Você tá cansado, né, dessa disputa que parece ficar só entre dois lados, mas e se eu te contasse que o Brasil que chega às urnas é muito mais complexo do que isso? Bom, o meio existe para quem quer fugir da polarização, do extremismo e formar a própria opinião. Aqui a gente apura, ouve [música] diferentes perspectivas, faz as perguntas que precisam ser feitas e coloca os fatos em [música] contexto, sem transformar discordância em guerra. É esse olhar que atravessa tudo que fazemos, das notícias do dia, as entrevistas, das análises profundas [música] às pesquisas e as nossas produções originais no streaming. Porque nosso trabalho não é simplificar o Brasil para caber em lados, é dar você mais elementos para enxergá-lo por inteiro e formar o seu próprio juízo de valor.
¶27Com a assinatura premium, você acessa a edição de sábado, meio político, [música] a pesquisa, meio ideia e o streaming completo. Se esse é o tipo de jornalismo que você procura, assina o meio premium. [música] Ah. >> [música]