¶1André Mendonça gritou Seis ladrão no truco com Alexandre de Morais. Amanhã desta terça-feira, dia 8 de setembro, foi de escalada na gravíssima crise institucional brasileira. A gente sabia que a semana seria decisiva para entender o tamanho do buraco em que o Supremo Tribunal Federal se enfiou, arrastando várias outras instituições junto. E o ministro Mendonça decidiu empunhar mais uma pá. André Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodriguez do cargo de diretor geral da Polícia Federal e também pediu o afastamento de Leandro Almada, diretor de inteligência da PF.
¶2O ministro diz que a medida era necessária para que os integrantes do STF, o advogado geral da União, Jorge Messias, e os servidores da Polícia Federal, abre aspas, exerçam suas atribuições sem constrangimentos ilegais. Fecha aspas. Bom, Messias, como Ageú, decidiu fazer o trabalho de defender os interesses da União e ir contra Mendonça, apesar da sabida amizade entre os dois, argumentando que a Polícia Federal está sob comando do executivo e o que Mendonça fez fere as prerrogativas do presidente da República. O ministro espertamente jogou logo no plenário da segunda turma, onde sabe contar com uma maioria, para referendar a sua decisão de intervir, de fato, ele obteve maioria rapidamente, mas se existe um tipo de minoria em Brasília que é capaz de a gross confusion é Gilmar Mendes. Gilmar Mendes com certeza representa e pra surpresa de ninguém, ele pediu vistas do processo, paralisando o afastamento de Andrei e de Almada.
¶3Só para desenhar aqui o cenário em que esse truco se deu, vamos recapitular. Semana passada vazou o relatório que a PF produziu a pedido de Mendonça sobre as mensagens trocadas entre Alexandre de Morais e Daniel Vorcaro do Banco Master. Os primeiros vazamentos tinham sido lá em março. O timing dessa nova rodada de vazamentos e investigação levantou suspeitas do oportunismo eleitoral da ação de Mendonça. Aí Xandão trucou primeiro porque se sente respaldado para isso e porque é o tipo de bicho que quando acuado ataca.
¶4Em vez de reagir ao que tá sendo apontado sobre as 52 mensagens que Vorcaro lhe enviou, ele enviou Mendonça no infindável inquérito das fake news e usou como base um relatório da inteligência da PF feito com IA para consumo interno. Deixou até as manias do Cloud e o design que a IA usa no relatório, evidenciando que tinha sido abastecido por sua facção da PF para contra-atacar. Vocês estão acompanhando, né? Mendonça usou a sua facção da PF para fazer um relatório contra Morais e Morais retrucou com a sua facção e um relatório informal da PF. E nessa guerra cada um usa a Polícia Federal como lhe convém.
¶5E isso já vem rolando faz tempo. Tanto que Gilmar Mendes, talvez não pelas razões nobres que se imagina, pediu para que delegados da Polícia Federal não mais atuem diretamente nos gabinetes dos ministros da Suprema Corte. Pode parecer uma coisa super etérea falar em crise institucional quando ela ainda tá sendo gestada, como quando um presidente da República decide indicar um procurador geral da República omisso, por exemplo. Mas embora uma uma crise dessas possa escalar rapidamente, ela vai sendo fabricada por muito mais tempo. Quando chega um caso da proporção de um máster turbinado pelos ventos eleitorais, ela explode.
¶6Porque olha só que curioso, até já acontecia antes, tá? Mas essa coisa de delegado particular de ministro do Supremo se intensificou nos anos Bolsonaro diante da inação de Augusto Aras, que era o PGR. Foi, aliás, essa desconfiança com relação a Aras que Dias Toffol e Morais usaram como justificativa para abrir o inquérito das fake news, ou seja, supostamente para proteger uma investigação sensível de um agente público suspeito, criou-se uma espécie de tramitação paralela. Agora, 9 anos depois, esse mecanismo é usado por outra turma. E cá estamos nós numa escalada ainda mais assombrosa da maior crise da história do STF em seus 135 anos.
¶7Então, presta bem atenção na encruzilhada em que se encontra o Brasil neste momento. Um procurador geral da República, Paulo Gonê, questionado por parte da Polícia Federal, que pede que ele se retire do caso master, já que aparece com uma inadequada intimidade com Vorcaro e seu advogado em algumas mensagens. um diretor da Polícia Federal, sendo objeto de um pedido de afastamento, também apontado como próximo do investigado, e, ao mesmo tempo, suspeito de auxiliar outro ministro com relatórios informais e pressionado pelo andamento de uma investigação que envolve o filho do presidente da República. Dois ministros do Supremo Tribunal Federal em guerra aberta e declarada, sem qualquer menção de conter os ânimos, cada um gritando 6, 9, 12, um em cima do outro. E aí, quem que vai cair?
¶8André Mendonça ou Alexandre de Moraes? Porque a essa altura parece bastante claro que nenhum dos dois entrou na briga para perder. Mendonça chegou a ventilar isso em círculos que lhe são favoráveis, que estaria disposto inclusive a se lançar o sacrifício. Só quem tá perdendo mesmo é o Supremo, né? E talvez o presidente Lula.
¶9Calma, vamos juntar o Lé com CR aqui. Fica aqui comigo mais um pouco. Eu sou a Flávia Tavares, editora do meio. Hoje a gente tá trabalhando nos números da nova pesquisa Meio Ideia, que vai ser divulgada para assinantes premium em primeira mão à meia-noite desta quarta-feira. É a reta final.
¶10E nesse derretimento da República, estamos todos de olho nos retratos das pesquisas para entender o sentimento do eleitor, seus anseios e suas resistências. Se você quer ser parte dessa conversa como referência de informação de qualidade nos seus grupos de WhatsApp e nas rodas de amigos, assine o meil agora mesmo e receba a pesquisa antes de todo mundo. São só R$ 15 por mês. [música] Vamos lá. Tá na hora da gente lidar de frente com algumas verdades incômodas e simultâneas.
¶11Primeira rodada sobre os fatos em si. É verdade que o timing e a forma como o ministro André Mendonça conduziu a investigação do colega Alexandre de Moraes levantam questionamentos bastante razoáveis sobre se ele tá buscando favorecer seu grupo político, o da família Bolsonaro. Também é verdade que isso não faz desaparecer as 218 páginas que confirmam a relação no mínimo inapropriada. e no máximo criminosa entre Morais e Daniel Vorcaro. Qualquer um que já jogou truco na vida sabe que o segredo de trucar não é necessariamente estar com Zap, a carta que mata o jogo.
¶12É passar embaixo da mesa, bradar de forma convincente o suficiente para intimidar o adversário. Foi o que Morais fez ao inverter a situação e botar Mendonça como algo alvo de investigação. Faz seis dias que a gente fala mais da guerra no STF do que das mensagens de Morais e Vorcaro, certo? Faquim tá tentando segurar essa mesa, impedir que ela vire de vez, mas ele não tem força para fazer isso sozinho. Segunda rodada.
¶13É verdade que INSS, Lulinha são casos gravíssimos que merecem atenção e investigação. Também é verdade que o envolvimento de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro é muitíssimo mais direto e vultoso, fora de todo o seu entorno político. E não seria certo que o único prejudicado eleitoralmente fosse o presidente Lula. Se Morais precisa prestar contas de sua relação com Vorcaro, Mendonça precisa suspender urgentemente o sigilo de todo o caso master. A pressão da sociedade sobre o STF não se reduz àquela vista entre bonecos infláveis de Donald Trump no 7 de setembro.
¶14Não vamos nos enganar. Nisso, esse 7 de setembro foi bem diferente dos anteriores, em que a insatisfação com Morais estava mais concentrada no bolsonarismo. Os demais insatisfeitos não tão indo às ruas de verde amarelo, mas tampouco estão indiferentes. A maneira mais palpável pela qual eles podem se expressar no curto prazo é votando para presidente da República e mais precisamente votando contra o presidente Lula, visto simultaneamente como fiador do Supremo e fiado por ele. Só existe uma maneira dessa crise do Supremo não prejudicar Lula eleitoralmente.
¶15se Mendonça suspendeu sigilo ou se não se Morais para retaliar Mendonça e sua suposta ajuda à família Bolsonaro iniciar uma operação de contravazamentos que atinjam Flávio em cheio. acontece que é o que tudo indica, essa operação pode estar vindo acompanhada de um movimento para anular toda a investigação do má, aliás, movimento copatrocinado pelo presidente do Senado, Daviol Columbri, e pelo procurador geral da República, Paulo Gonê, ambos diretamente envolvidos no caso. Esse movimento todo a um mês da eleição é prejudicial à sua reeleição e Lula sabe disso. Tanto que falou na TV sobre reforma do judiciário e investigações nos moldes doa a quem doer. Mas são poucos dias daqui até o primeiro turno, um pouco mais até o segundo.
¶16Crises institucionais somadas a escândalos de corrupção tanto faz os envolvidos e com a economia também dando soluços. Esse é um pacote muito perigoso para um incumbente. A percepção de tá tudo errado prejudica quem tá no poder sempre, quer ele seja culpado ou não. Com o teto de vidro de Flávio Bolsonaro, muito frágil também, abre esse espaço para figuras do naipe de de Augusto Curi, escritor de autoajuda, que é pura casca, zero conteúdo. Agora, vocês já imaginaram se o Brasil atravessa a eleição mergulhado nessa crise e um aventureiro se elege?
¶17Ou se Flávio Bolsonaro com sua plataforma de entreguismo a Donald Trump ganha e aprofunda essa crise ainda mais? Ou mesmo se um Lula enfraquecido por ganhar por pequena margem tem seus primeiros meses de governo no STF em decomposição, tá na hora de os ministros do Supremo e a cúpula dos poderes em Brasília pararem de trucar e retrucar. Ou talvez as instituições brasileiras não sobrevivam. Você tá cansado, né, dessa disputa que parece ficar só entre dois lados, mas e se eu te contasse que o Brasil que chega as urnas é muito mais complexo do que isso? Bom, o meio existe para quem quer fugir da polarização, do extremismo e formar a própria opinião.
¶18Aqui [música] a gente apura, ouve diferentes perspectivas, faz as perguntas que precisam ser feitas e coloca os fatos [música] em contexto, sem transformar discordância em guerra. É esse olhar que atravessa tudo que fazemos, das notícias do dia, às entrevistas, [música] das análises profundas às pesquisas e as nossas produções originais no streaming. Porque nosso trabalho não é simplificar o Brasil para caber em lados, [música] é dar você mais elementos para enxergá-lo por inteiro e formar o seu próprio juízo de valor. Com a assinatura premium, você acessa [música] a edição de sábado, meio político, a pesquisa, meio ideia e o streaming completo. Se esse é o tipo de jornalismo que você procura, [música] assina o meio premium.
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